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reviews online ISSN 2175-6694

Edifício Esther
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CONDURU, Roberto. Esther e São Paulo – construções culturais entre o edifício e a cidade. Resenhas Online, São Paulo, ano 03, n. 031.02, Vitruvius, jul. 2004 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/03.031/3184>.


Esther, a formosa e astuta rainha bíblica, protetora dos judeus, nunca deve ter imaginado que o seu nome chegaria a terras e tempos tão distantes, batizando a filha de um empreendedor de São Paulo da segunda metade do século XIX e algumas realizações de sua família: uma usina de açúcar, um edifício na capital e uma rua de uma cidade no interior do estado.

Mas não só a onipresença de um nome feminino torna a pessoalidade tão presente nesse livro. A obra em foco é analisada segundo o paradigma biológico que influencia a história da arte desde a Antigüidade. De certo modo, essa é a biografia de uma individualidade, no caso, de um edifício. Como um biógrafo, que acompanha o nascimento, crescimento, maturação, envelhecimento e morte de uma pessoa, Fernando Atique acompanha a vida do Edifício Esther, sua idealização, projeto, construção, descaracterização e preservação.

O trabalho se insere em uma tradição de estudos monográficos sobre edificações singulares (2). Contudo, cabe destacar o foco ampliado do livro, que a leitura do sumário logo faz perceber. Não interessa apenas a coisa em si – o prédio – mas também seus promotores, autores, habitantes, usuários, historiadores e agentes de preservação. E, mais do que os indivíduos, interessam os processos sociais de que são partícipes. Embora foque em um edifício, fica claro desde o início que o interesse de seu estudo é a relação intrínseca, indissociável mesmo, entre edifício e cidade, apostando no caminho dos “estudos sobre prédios emblemáticos que desempenharam papel capital nas transformações das cidades”. Assim, o Edifício Esther é analisado no processo de criação, consolidação, decadência e revitalização do Centro Novo de São Paulo, outro “indivíduo” importante nessa biografia.

O primeiro capítulo foca nos promotores da edificação – a Família Nogueira – e acompanha os empreendimentos com os quais não só o enriqueceram, mas também construíram para si uma identidade social vinculada à elite paulista tradicional. Egressos do interior, nesse processo faltava aos Nogueira “um pronunciamento efetivo sobre o tecido urbano” da capital, “um símbolo que pudesse render-lhes admiração”, o qual, “à maneira de um cartão de visitas do grupo, fosse capaz de marcar solidamente a presença dos Nogueira na economia estadual”. O Edifício Esther é exatamente esse pronunciamento, esse símbolo: o “fruto de um Projeto Modernizador cunhado por seus promotores capaz de expressar, de forma definitiva, a contribuição da Família Nogueira ao progresso de seu Estado.”

Nesse sentido, o autor sublinha “o peso da iniciativa privada sobre a dinâmica econômica e urbana do estado de São Paulo” e como a arquitetura moderna no Brasil não foi patrocinada exclusivamente pelo Estado, como pode sugerir boa parte da bibliografia existente. E aponta como “os arquitetos que mantiveram uma relação estreita com os investidores privados são vistos, tradicionalmente, como alienados da militância renovadora da sociedade que, supostamente, seria alcançada com a Arquitetura Moderna implantada pelo Estado”, citando Álvaro Vital Brazil, Oswaldo Bratke e Rino Levi como vítimas desse entendimento.

O segundo capítulo é centrado na idealização, no projeto e na construção do edifício. Visando rentabilidade simbólica e financeira, os promotores conceberam um programa de edifício que, além dos escritórios da Usina Ester, deveria conter lojas comerciais, escritórios, consultórios e residências de variados tipos – espaços de aluguel para gerar renda e garantir a auto-sustentabilidade do investimento. Assim, a localização e a escala do empreendimento, assim como os fatores econômicos, importavam mais do que as opções artísticas, as filiações estéticas. O que não impediu a concordância entre os interesses dos promotores com os ideais dos arquitetos-autores do anteprojeto vencedor do concurso privado – Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho. Ao explorar as diferenças entre a idéia original e a versão definitiva, indicando as sucessivas alterações que o projeto sofreu durante a construção do edifício, Fernando Atique torna evidente como os interesses da Família Nogueira causaram conflitos mas também funcionaram como estímulos para os arquitetos.

O terceiro capítulo relata como o edifício foi ocupado, tornando-se efetivamente um símbolo dos negócios da Família Nogueira, um lugar de trabalho e moradia, bem como um ponto vital da cultura paulistana, abrigando debates intelectuais, artísticos e políticos, mas também lazer noturno e até encontros amorosos excusos. Processo que fez do Edifício Esther um endereço da modernidade em São Paulo dos anos 1930 aos 1960. O autor também recupera a fortuna crítica do Esther, a qual, de conexões culturais mais amplas, vai se restringindo ao campo arquitetônico, à medida em que o Edifício perde sua posição de destaque na vida da cidade.

Relatos de ocupação, imagens e textos nos quais se pode perceber como o Edifício Esther foi e continua sendo um tanto polêmico. Durante a construção, seus promotores foram questionados sobre a confiabilidade e decência do prédio, sobre a sua moralidade enfim, devido à extensão e dominância dos seus vãos, que tornariam o Edifício um verdadeiro mostruário da intimidade de seus habitantes. Pronto, não deixou de gerar reações inusitadas. O sóbrio contraste cromático das fachadas – o preto do vitrolite sobre o creme-palha do marmorite – fez com que ganhasse um apelido: “Penhorado, agradece” – expressão típica dos cartões de pêsames da época, que tinham cores semelhantes às do edifício – agregando ironia ao “cartão de visitas” da Família Nogueira. O Esther também é controverso na história da arquitetura no Brasil, estando fora de alguns destacados manuais sobre o movimento moderno no país (3).

A certa altura do texto, citando Lilian Fessler Vaz a respeito do processo de transformações do edifício de habitação coletiva vertical, diz que também na obra em questão “pode-se identificar, a cada passo, algo de novo, mas também algo de antigo”. Com efeito, no Edifício Esther convivem a marca da Família Nogueira, a figura predominantemente estática de uma engrenagem que remete à usina de açúcar, e as linhas abstratas, fluidas e livremente sinuosas do guarda-corpo das escadas laterais, que podem remeter aos fluxos dinâmicos e erráticos, mas algo elegantes, das massas anônimas na metrópole. Um entre os muitos exemplos de tradicionalismo e inovação presentes no Esther, resultantes que são da soma e do choque de diferentes visões da modernidade: o conservadorismo modernizante de uma família de “paulistas de origem”, os ideais renovadores de dois jovens arquitetos engajados no movimento moderno de arquitetura, a atração pelo moderno de parte dos usuários do edifício, a admiração, o espanto e a desconfiança daqueles que dele usufruem apenas como elemento da paisagem ou como fato cultural.

Aos poucos, o texto vai tornando claro como o Edifício Esther resulta da confluência dos interesses da Família Nogueira, da dinâmica histórica de São Paulo, dos ideais do movimento moderno de arquitetura e das práticas culturais dos habitantes da cidade. Analisando a sua situação urbana original, o autor mostra como o Edifício Esther era, ao mesmo tempo, uma fronteira entre os edifícios dominantemente comerciais das ruas Barão de Itapetininga, 24 de maio, Marconi e Xavier de Toledo e os edifícios preferencialmente residenciais da rua São Luiz, mas também um condensador desses tipos, uma vez que congrega espaços de trabalho e habitação. Também o estudo de Fernando Atique é um ponto de confluência, um condensador. Como o edifício, para cuja realização e sobrevivência convergem muitos agentes e interesses, também o livro conjuga enfoques variados e se vale de diferentes fontes: documentos, livros, revistas, jornais, depoimentos, iconografia antiga, nova e especialmente produzida para o livro pelo autor, indicando a possibilidade, ou, melhor, a necessidade de se ver a história do Edifício Esther a partir dessa visada múltipla. Não há, assim, grande distância entre a arquitetura e o urbanismo, nem entre as histórias da arquitetura, do urbanismo e da cidade, disciplinas que, muitas vezes, têm se tornado estanques no meio acadêmico brasileiro. Mas a qualidade do livro não deriva apenas dessas opções ou das muitas informações novas que apresenta sobre a obra, pois é evidente o tom crítico com que o autor procura nortear a sua análise.

Algumas vezes, parece até que há intenção de minimizar o caráter inovador do Edifício. Além de mostrar como o projeto depende de variados interesses e outras condicionantes, são apontados seus precedentes técnico-artísticos. Contudo, quando indica como algumas “novidades” do Esther já estavam presentes em realizações e processos anteriores, o que interessa ao autor é precisar as reais contribuições de seus agentes, fazendo com que sobressaia a densidade histórica da obra. Devido a essa capacidade de o Edifício permitir alcançar outras realizações e processos, em um determinado momento Fernando Atique chega a qualificá-lo como um “termômetro social”. Assim, fica evidente que não toma o Edifício como uma obra-prima inconteste da história da arte, fazendo com que seja percebido, ao final, como um fato histórico de grande relevância por conta de suas qualidades estéticas e outros fatores sócio-culturais.

No quarto capítulo, o autor aborda o processo de multiplicação e esvaziamento da centralidade de São Paulo, o afastamento da Família Nogueira da gerência do Esther, os processos de tombamento do prédio pelo município e pelo estado, a paulatina descaracterização do edifício e o movimento de reabilitação do mesmo com projetos de restauração.

Assim, o livro não deixa de estar conectado aos projetos de recuperação dos espaços construídos em São Paulo, enfrentando o risco do engajamento utilitário. Em determinado momento, Fernando Atique aponta outro risco que corre nesse trabalho: institucionalizar a memória do Edifício Esther. Contudo, é importante observar que a sua análise é histórica, priorizando não as experiências e os interesses pessoais, mas o confronto crítico de variadas fontes, contribuindo com a necessária reavaliação dos agentes envolvidos na construção de São Paulo. Assim como a recuperação do Edifício Esther participa no processo de revitalização em curso do Centro de São Paulo, o livro de Fernando Atique colabora para a revisão da história da arquitetura e da cultura no Brasil.

notas1

Este texto é o prefácio do livro Memória Moderna – a trajetória do Edifício Esther, ATIQUE, Fernando. Editora Rima, São Carlos, 2003

2Por exemplo: espaços públicos como o Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro – LISSOVSKY, Maurício; SÁ, Paulo Sérgio Moraes de (org). Colunas da educação: a construção do Ministério da Educação e Saúde (1933-1945). Rio de Janeiro, MINC/IPHAN, Fundação Getúlio Vargas/CPDOC, 1996; realizações privadas como o Palácio Martinelli, em São Paulo – HOMEM, Maria Cecília Naclério. O prédio Martinelli: a ascenção do imigrante e a verticalização de São Paulo. São Paulo, Projeto, 1984; e casas como a Vila Penteado, na mesma cidade – HOMEM, Maria Cecília Naclério (org.). Vila Penteado. São Paulo, FAU/USP, 1976.

3São eles: BRUAND, Yves. Arquitetura Moderna no Brasil. São Paulo, Perspectiva, 1981; CAVALCANTI, Lauro. Quando o Brasil era moderno. Guia de arquitetura 1928-1960. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2001.

sobre o autorRoberto Conduru é graduado em Arquitetura pela UFRJ, doutor em História pela UFF, professor de História da Arte no Instituto de Artes da UERJ e no Curso de espacialização em História da Arte e Arquitetura no Brasil na PUC-Rio.

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