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ANDRADE, Carlos Roberto Monteiro de. Um passeio pela Atenas do século V a.C. Resenhas Online, São Paulo, ano 03, n. 035.02, Vitruvius, nov. 2004 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/03.035/3172>.


Em “Da Forma Urbana. O Casario de Atenas”, o arquiteto, pesquisador e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Jonas Tadeu Silva Malaco, nos leva à Atenas do século V a.C. Por ele somos conduzidos aos edifícios atenienses daquela época remota, por suas ruas e caminhos. Desvelando as formas de sociabilidade inscritas em um plano urbanístico aparentemente ausente, esclarecendo o modo de distribuição das casas, Jonas nos revela alguns mistérios da cidade-mãe da tradição urbana do Ocidente.

Malaco pergunta: por trás da irregularidade do desenho urbano de Atenas não residiria – ao menos para nós – uma ordem complexa ? No traçado que se mostra casual, sem plano, parecendo ser fruto de uma ideologia individualista que permitiria ao proprietário privado o abuso do espaço público, o autor desse belo e pequeno livro aponta uma clara intenção de ordenar a cidade segundo princípios de respeito ao outro e ao todo, ainda que com uma geometria muito distante da que Descartes proporá dois mil anos depois.

Com uma narrativa sucinta e muito bem construída, Malaco mostra como, no aparente acaso e irregularidade das vias e casario, inscreve-se uma ordem funcional e sutil. Indagando-se sobre as especificidades do desenho urbano da Atenas do período clássico, revela pouco a pouco o que se esconde na trama urbanística da qual apenas os cidadãos conhecem suas regras, para nós quase secretas. De tal modo que para um ateniense o direito de cidadania estava no conhecimento que tinha de sua cidade, de suas portas, de suas casas e becos.

O que Jonas nos expõe é uma Atenas onde o interesse particular não se sobrepõe aos interesses dos demais, tampouco aos interesses de todos e do todo na contínua construção da cidade. Ao contrário do que seu desenho sugere, a Atenas clássica inscreve no território uma forma urbana estriada, heterogênea, mas forjada por um pensamento racional e ordenador. Funcional em sua aparente disfuncionalidade e desordem de traçado de vias, de disposição das casas e de suas arquitetura sem qualquer uniformidade, eis a Atenas que Jonas descreve pormenorizadamente, como um guia que nos levasse por um percurso pelos anos 400 a.C., por meio de um raciocínio calcado na formulação de hipóteses e suas demolições, por sendas e frestas de onde avistamos uma antiguidade que teima em nos incomodar.

Na Atenas do século V a.C. nos vemos em um espelho às avessas, miramos nossas metrópoles, nossas cidades médias ou pequenos núcleos urbanos em que os espaços públicos desaparecem progressivamente, contrapondo-os a uma cidade que nos ensina como respeitar a dimensão pública da vida, isto é, o outro e suas diferenças.

O livro de Jonas é como um exercício de deambulação histórica, em que passeamos pelas ruas de Atenas nos dando conta de seus segredos citadinos, dos modos de vida gregos daquela época perdida. Ao longo do passeio ficamos sabendo a respeito da intimidade das casas atenienses, da compreensibilidade da cidade, de suas partes e de seu conjunto, das ordens e regras de seus espaços relacionais, da identidade dos lugares e de sua preservação. Conhecendo aquela Atenas que Jonas nos desvenda, talvez possamos melhor conceber a cidade que desejamos habitar, ou então nos resignarmos com a perda de uma vida urbana que não voltará jamais, como Camillo Sitte já anunciava há mais de um século atrás.

sobre o autorCarlos Roberto Monteiro de Andrade, arquiteto, professor, atual chefe de Departamento de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP

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