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SCHLEE, Mônica Bahia. O Passeio Público do Rio de Janeiro. Resenhas Online, São Paulo, ano 05, n. 052.01, Vitruvius, abr. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/05.052/3141>.


A revista Leituras Paisagísticas: Teoria e Práxis, lançada em abril de 2006 pelo Grupo de Pesquisa em História do Paisagismo da Escola de Belas Artes da Universidade do Rio de Janeiro, traz propostas instigantes a todos que se interessam pelos estudos da paisagem: estimular discussões teóricas e metodológicas sobre as diferentes formas de atuação na paisagem e difundir estudos sobre a transformação, salvaguarda e recuperação dos espaços livres públicos. E, dessa maneira, se propõe a colaborar na construção de um conteúdo crítico sobre a produção paisagística brasileira.

O primeiro volume da revista dedica-se a registrar e discutir questões relevantes que emergiram das apresentações do Seminário (Re)construindo a paisagem do Passeio Público: historiografia e práticas projetuais e dos debates que a elas se seguiram. Este seminário, também promovido pelo Grupo de Pesquisa em História do Paisagismo EBA/UFRJ, foi realizado em 2004 na sede carioca do Instituto dos Arquitetos do Brasil e teve como objetivo discutir conceitos, metodologias e resultados de uma abrangente intervenção no Passeio Público do Rio de Janeiro, realizada pela Prefeitura da Cidade entre 2001 e 2004, através da Fundação Parques e Jardins, que recuperou o traçado, parte da vegetação e dos monumentos do jardim, alterados por diversas reformas ao longo do século XX.

Primeiro espaço livre público intencionalmente concebido para inserir-se urbanisticamente na cidade, o Passeio Público foi projetado por Mestre Valentim em 1783. Até então a cidade, que ainda mantinha como funções principais o controle do território e o comércio mercantil extrativista, voltava-se para dentro, tendo o porto como única porta de acesso. A construção de um “jardim-mirante” configurou-se como uma grande inovação na época, ao ressaltar os atributos paisagísticos da Baía da Guanabara e deles tirar partido para a formação de uma “identidade urbana” carioca. Em 1862, a composição paisagística do jardim, estruturada a partir de um sistema de alamedas retilíneas, foi profundamente modificada por Auguste Marie François Glaziou.

Devido à importância do Passeio Público do Rio de Janeiro como obra paisagística e urbanística emblemática em mais de um momento da evolução urbana carioca, o seminário foi estruturado em duas sessões: historiografia e práticas projetuais. A mesma organização foi adotada neste primeiro volume da revista.

A primeira delas, intitulada Historiografia e apresentada pela professora Virgínia Vasconcellos, reuniu três estudos sobre a evolução histórica do Passeio Público: o jardim no século XVIII, sob o olhar de Cláudio Taulois; o Passeio Público de Glaziou, de autoria de Carlos Terra; e o Passeio Público no século XX, a cargo de Jane Santucci.

Cláudio Taulois, ao analisar as estratégias de composição do Passeio Público proposto por Mestre Valentim no século XVIII, revelou que este não foi apenas um projeto paisagístico para um novo espaço livre público, mas constituiu-se em um plano urbanístico que incluiu o redesenho das articulações entre este e a malha existente, com o objetivo de valorizar uma das áreas para onde a cidade oitocentista se expandia (não por acaso, em direção à zona sul). Esta intervenção refletiu, no espaço urbano, os anseios da sociedade emergente por uma política de “modernização” que traduzisse a nova ordem social e econômica pela qual aspirava a colônia.

O jardim público inseriu-se no sítio como uma “seqüência lógica de definições de traçado a partir da cidade e da paisagem existente”, segundo este autor. É bom lembrar também que este projeto expressava a ideologia iluminista, que chegava à colônia através de sua aristocracia administrativa, na esteira da expansão cultural européia. Em relação à conjuntura local, esta operação urbana, que compreendeu o aterro da já então completamente poluída Lagoa do Boqueirão, foi estratégica para higienizar e prover infra-estrutura (principalmente o acesso à água, distribuída nos chafarizes e fontes projetados) para a área urbana que se pretendia consolidar. E talvez tenha sido mesmo decisiva para sedimentar este vetor de expansão em direção à zona sul. Os fundos de terrenos, anteriormente voltados para a lagoa, foram convertidos em valorizadas fachadas descortinadas para um espaço público destinado à contemplação da paisagem da Baía da Guanabara, como observou Taulois.

O professor Carlos Terra investigou a concepção paisagística elaborada por Glaziou, destacando a intensa transformação que este promoveu na organização formal e no ponto de vista único que caracterizavam o jardim de Mestre Valentim, substituídos pela possibilidade de planos de visada diversos, articulados entre si através de caminhos sinuosos que induzem a uma leitura gradual da paisagem, e mesmo possibilitam o vivenciar de composições interdependentes que podem ser apreciadas isoladamente.

No entanto, como lembrou a arquiteta Jeanne Trindade em seu artigo, citando estudo de Naylor Villas Boas (1), o projeto de Glaziou respeitou a articulação básica do espaço proposta por Mestre Valentim ao manter a continuidade entre os principais elementos de composição anteriores – portão-jardim-fonte-terraço-mar – que conduzem o observador até a paisagem da baía.

É oportuno lembrar também que, mesmo tendo incorporado a estrutura e o uso de elementos do jardim pictórico inglês, adotados na época pelos países europeus, como assinalou Terra, Glaziou se apropria e valoriza a imagem da floresta dentro da cidade, ainda que idealizada e traduzida pelo uso preponderante de espécies exóticas. O elemento vegetal, anteriormente organizado de modo uniforme ao longo das alamedas retilíneas, passa a ser protagonista na composição da paisagem do jardim.

Esta concepção foi encampada pela aristocracia local que incentivou a reprodução desta linha compositiva em outros espaços livres construídos ou reformados entre as décadas de 1860 e 1880, com a intenção de construir uma nova identidade para a capital do império, expressar novamente no espaço público seu anseio de contemporaneidade e estimular a noção de civilidade na sociedade carioca, utilizando como símbolo o elemento natural. Embora admirada e empregada como modelo estético para os desenhos paisagísticos implantados nesta época na cidade, a representação da floresta, que era aspirada dentro dos limites urbanos, não provinha da natureza tropical local, antes derivava-se de uma visão romântica de natureza, baseada em uma estética de inspiração inglesa (2).

Carlos Terra e Jane Santucci levantaram algumas questões que vale a pena examinar mais detidamente. Segundo estes pesquisadores, períodos de uso e abandono constituíram uma dinâmica que perpassou toda a existência do Passeio Público do Rio de Janeiro. No entanto, os autores também nos mostram que este jardim público, desde sua inauguração no século XVIII, sempre esteve associado a um lugar de lazer e recreio, ao menos para alguns estratos da sociedade, como também mencionou Taulois.

Ao fim do século XIX, o uso destinado à recreação se intensifica com a instalação em seu interior de cafés (que já faziam parte da composição de Glaziou) e bares, como o Chopp Berrante do Passeio, um aquário marinho e, até mesmo, sessões de cinema ao ar livre, “à sombra do arvoredo, ... em localização privilegiada pelo panorama e pela brisa marinha”, como observou Santucci. Ao reconstituir a localização e a ambiência da época de funcionamento de alguns equipamentos instalados no Passeio entre 1900 a 1937 (os já citados Chopp Berrante, o aquário marinho, e também o Teatro-Cassino e o Cassino BeiraMar), a autora indica que estes funcionavam como atrativos para a população carioca, aumentando a freqüência ao local.

Santucci mostra, com apoio de interessante material iconográfico e da pesquisa arqueológica, como as modificações radicais ao longo do século XX no suporte físico ambiental no qual se insere o Passeio Público – os três aterros que o distanciaram gradativamente da orla da baía (1903, 1920-1922 e 1952-1960) e os desmontes dos morros que os possibilitaram – alteraram sua função principal de um parque público voltado à contemplação da paisagem deslumbrante da Baía da Guanabara. Esta nova situação, associada à retirada dos equipamentos no interior do jardim e à mudança nos hábitos de lazer do carioca, que elegeu a praia como sua principal área de recreação e descanso, acabou por afastar a população e propiciar um gradual processo de degradação do local.

Além de chamar atenção para a importância do uso na manutenção da vitalidade de um espaço livre público, estes três pesquisadores demonstraram como os diversos momentos do passado e o presente se fundiram neste espaço, imprimindo marcas que resultaram em uma paisagem-palimpsesto, como salientou Santucci (3). Estes são aspectos importantes que devem ser levados em consideração para orientar futuras obras de restauração e revitalização de espaços livres públicos.

Rubens de Andrade, paisagista e pesquisador que atuou como debatedor na primeira sessão do seminário e que também assina artigo neste volume, instaurou o debate ao interrogar o leitor sobre o processo de interação entre a sociedade e a paisagem e seu rebatimento nas ações e políticas de restauração dos jardins históricos e sítios paisagísticos no Brasil praticadas até o presente.

O processo de restauração do Passeio Público do Rio de Janeiro tem o mérito de iniciativa pioneira, devido aos procedimentos metodológicos que adotou, e é um passo importante para a preservação dos jardins históricos brasileiros. Sua descrição encontra-se bem documentada na segunda seção da revista, intitulada Práticas Projetuais, aberta pela arquiteta-paisagista Flávia Braga, onde são apresentadas as abordagens metodológicas que embasaram todo o processo, entre 2001 (data do início do projeto) a 2004 (término das obras), pela equipe de profissionais e pesquisadores Nelson Porto Ribeiro, Jackeline Macedo, Vera Dias de Oliveira e Jeanne Trindade. Também aqui, foram levantados alguns pontos que instigam a reflexão.

Logo de início, Nelson Porto Ribeiro informa que a orientação que norteou o projeto de restauro, definida por um grupo transdisciplinar que incluiu arquitetos, paisagistas e historiadores integrantes das equipes da Fundação Parques e Jardins, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Ópera Prima Arquitetura e Restauro, empresa contratada para desenvolver o projeto e executar as obras, foi a de privilegiar, como referência, o projeto de Glaziou, uma vez que a quase totalidade da composição paisagística proposta por Mestre Valentim havia se perdido, e mesmo alguns elementos introduzidos posteriormente e destruídos pelas reformas implantadas ao longo do século XX não deveriam ser reproduzidos, sob pena de constituir-se como “falso histórico”.

É digna de nota a reconstituição de vestígios e fragmentos importantes dos diversos momentos de transformação do Passeio Público carioca, postos à luz pela pesquisa arqueológica, elaborada em atendimento aos decretos municipais nº 22.872 e 22.873, de 07 de maio de 2003. O processo de elaboração desta pesquisa, embasado pelas diretrizes e procedimentos indicados nas cartas patrimoniais e na teoria de restauro de jardins históricos (4) e bem documentado pela arqueóloga Jackeline Macedo em seu artigo, evidenciou a superposição de dois projetos de jardim (um de autoria de Mestre Valentim, o outro de Glaziou) e a localização exata das intervenções posteriores que, em alguns casos, chegaram mesmo a perturbar a integridade de ambos os projetos.  As descobertas, no entanto, não foram descortinadas ao público na sua totalidade.

A seguir, Vera Dias de Oliveira descreveu os procedimentos metodológicos e técnicos utilizados nas fases de diagnóstico e restauro dos monumentos, esculturas, pontes, guarda-corpos e parte da infra-estrutura do Passeio Público, com o apoio de imagens que mostraram diversas etapas deste processo.

Jeanne Trindade apresentou a metodologia adotada na restauração dos elementos vegetais do Passeio Público e os critérios que orientaram sua reconstituição. Segundo a arquiteta e pesquisadora, o plano de manejo para a vegetação teve como diretrizes a definição dos elementos essenciais e o resgate formal do conceito paisagístico empregado no projeto desenvolvido por Glaziou, buscando valorizar a imagem simbólica que este espaço transmite à sociedade através dos contrastes de formas, volumes, texturas e tons, da alternância entre cheios e vazios, e entre luz e sombra, que propiciam a surpresa, o movimento, a expectativa e o mistério dos projetos paisagísticos com influência romântica.

Trindade apresentou as várias fases deste processo de reconstituição, que incluiu inventário florístico, visita a outros espaços livres desenhados por Glaziou, resgate de documentos históricos primários e mapeamento da situação atual de insolação e sombreamento, esclarecendo também que o plantio especificado ainda não foi finalizado devido à insuficiência de recursos destinados a esta etapa da obra.

As questões citadas pelos paisagistas e pesquisadores que atuaram como moderadores e debatedores no seminário e que assinam artigos neste volume convidam ao aprofundamento das discussões nas próximas edições da revista.

Flávia Braga mencionou um ponto-chave na discussão sobre o processo de restauração de patrimônios históricos culturais, quer sejam edificados ou livres de edficação: a questão da temporalidade. Qual o momento a ser restaurado? Quais as implicações e cuidados ao se definir um recorte temporal?

Outra questão importante, também apontada por Eduardo Barra, debatedor na segunda sessão do seminário, é a da adequação e escala da sinalização, iluminação e mobiliários contemporâneos propostos, sua inserção e interferência nos jardins históricos.

Barra, em seu artigo, fez outra consideração sobre a qual seriam bem-vindas informações adicionais: os efeitos ambientais das obras executadas no subsolo da área de entorno do Passeio ao longo das últimas décadas e suas implicações nas condições do solo, lençol freático e, conseqüentemente, na drenagem e nas condições da vegetação dentro dos limites do parque. Ao final, Leonardo Ladeira Mota oferece um breve relato do processo de restauração do Passeio Público e sumariza as palestras que deram origem aos artigos que compõem este volume.

As informações teóricas e técnicas apresentadas, o detalhamento das análises dos planos urbanísticos e paisagísticos e das intervenções arquitetônicas que se realizaram em momentos históricos diversos, o registro iconográfico do processo de recuperação dos elementos essenciais, dos vestígios encontrados e o registro fotográfico do momento seguinte à reconstrução já valem a leitura deste primeiro número da revista Leituras paisagísticas: Teoria e práxis.

O panorama de abordagens referentes ao tema da restauração de jardins históricos divulgados nesta edição oferece embasamento teórico e técnico para futuros estudos neste campo disciplinar e extrapola mesmo esta temática, ao desvendar detalhes sobre as transformações paisagísticas decorrentes dos planos urbanísticos operadas pelo poder público nesta área da cidade.

Amparados pelas contribuições de Santucci, Terra e Taulois, os leitores poderão também refletir sobre as formas de incentivar o uso de espaços livres públicos com caráter histórico com vistas a estancar seu processo de abandono e manter sua vitalidade no espaço urbano contemporâneo, tornando-os algo mais que museus-sítios arqueológico a céu aberto. E, por fim, instigados por Eduardo Barra, opinar sobre o papel do arquiteto-paisagista no processo de restauro de espaços livres públicos com caráter histórico e da integração efetiva de campos disciplinares diversos nesta forma de atuar e reabilitar paisagens.

notas

1
VILLAS BOAS, Naylor Barbosa. O Passeio Público do Rio de Janeiro: análise histórica através da percepção do espaço. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: PRO-ARQ/FAU. 2000.

2
Ver também CRANDELL, Gina. Nature pictorialized: the view in landscape history. Baltimore: The Johns Hopkins University Press. 1993; SEGAWA, Hugo. Ao amor do público: jardins no Brasil. São Paulo: Nobel. 1996 e SCHLEE, Mônica Bahia. Cultural Perceptions of Nature and Urban Landscape Changes: The Case Study of Rio de Janeiro, Brazil. Presented in the CELA CONFERENCE/ COUNCIL OF EDUCATION OF LANDSCAPE ARCHITECTURE. Guelph, Ontario: University of Guelph. 2000.

3
HARVEY, David. 1990. "Between Space and Time: Reflections on the Geographical Imagination." Annals of the Association of American Geographers 80: 418-34 e SCHLEE, Mônica Bahia. Cenografia Urbana e Qualidade Ambiental na Cidade do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado. São Paulo: FAU/USP. 1999.

4
NAJJAR, Rosana (org). Manual de Arqueologia Histórica do IPHAN. Brasília: IPHAN/ 6ª Superintendência Regional. 2002.

sobre o autor

Mônica Bahia Schlee é paisagista e urbanista da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e professora do Departamento de Urbanismo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense.

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