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GUTIÉRREZ VIÑUALES, Rodrigo. Outras histórias da história. Identidades dinâmicas e leituras heterogêneas para descongelar relatos. Resenhas Online, São Paulo, ano 05, n. 058.02, Vitruvius, out. 2006 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/05.058/3127>.


Os alvores do século XXI estão trazendo consigo, para os historiadores da arte latino-americana, um afã revisionista tendente a sintetizar e sistematizar sob fios condutores a produção artística do continente. Não é uma tarefa fácil e, ainda que se tenha avançado bastante neste sentido, ainda são várias as questões por resolver. No entanto, há várias pautas sobre as que se veio trabalhando e aprofundando nos últimos anos, apresentando-se interessantes debates nos quais tomaram parte artistas, historiadores, críticos, marchands e outros integrantes do mundinho da arte.

Um dos grandes temas de discussão ao longo do século na arte ibero-americana pautou-se na identidade, nacional e americana. As controvérsias a respeito atingiram momentos culminantes, em muitos casos acompanhando as crises políticas e sociais daqueles países, que não foram poucas. O exemplo dos anos setenta, com ditaduras militares instaladas em quase todo o continente, é palpável; nessa época se julgou com paixão a identidade cultural e a autenticidade (entendida como expressão do americano) das manifestações artísticas.

O historiador de arte – em geral – assumiu como tarefa própria o papel de revisionista e encontrou nesse amplo corpus teórico, produzido ao longo das décadas, valiosas fontes que hoje permitem marcar diretrizes certas. O processo de consolidação da historiografia da arte latino-americana, em cuja afirmação foi essencial o devir pesquisador da última década, manifestou uma dupla vertente que se evidencia com claridade nas publicações: por um lado, a existência de “histórias” de recorte localista, de consumo reduzido, que aportam conteúdos que dificilmente alcancem uma difusão além dos próprios países nos que se concretizam. Por outro, há uma historiografia cuja intenção manifesta é a divulgação do conhecimento fora das próprias fronteiras, tendente a mostrar a obra e os períodos mais relevantes da arte do continente.

A historiografia da arte latino-americana está mesmo assim marcada pelo “boom” do mercado nova-iorquino e as diretrizes determinadas pelas grandes casas de leilões Christie’s e Sotheby’s que, desde princípios dos anos oitenta e sobre tudo nos noventa, incidiram através de seus periódicos arremates exaltando e fortalecendo numerosos artistas, alguns, até esse momento, quase desconhecidos fora de seus países e inclusive nestes. A edição de catálogos ilustrados supôs uma divulgação massiva de imagens que permitiu aos venezuelanos conhecer as produções dos uruguaios, ou a este a dos caribenhos, e assim sucessivamente.

Mas o caráter de meridiano para a arte latino-americana exercido pelos Estados Unidos trouxe também consigo a afirmação de alguns estigmas historiográficos como o chamado fridakahlismo, baseado na exploração incessante, repetitiva e fatigante de uma mesma figura (neste caso a mexicana Frida Kahlo) até ser convertida em paradigma quase irrenunciável daquele e em figura principal, mais por sua tragédia pessoal que pela indubitável qualidade de suas obras. Com bom critério, Mari Carmen Ramírez, comissária da exposição Inverted Utopias: Avant-Garde Art in Latin America, levada a cabo durante 2004 no Museum of Fine Arts de Houston, decidiu apresentar uma ampla retrospectiva da arte contemporânea sem incorporar obra alguma de Kahlo, com o fim de que os visitantes possam centrar-se em advertir a obra de outros criadores e demonstrar que são possíveis outros discursos.

Tornou-se necessário então estabelecer “outras histórias” da arte latino-americana, apartadas dos rígidos cânones que a estandardização dos discursos impõe, congelando em numerosas ocasiões a ação de jovens historiadores que se movem seguindo os ditames dos “centros” (muitas vezes movidos por uma forte operação marketeira). Mesmo que também é verdade que vemos com freqüência claudicar a críticos e historiadores que, por este ou aquele interesse, decidem cair no servilismo, maniatando o bom transcorrer de suas trajetórias para responder às pautas marcadas pelo mercado.

Seguindo em parte estas características, encontramos inestimável apoio em Imprensas Universitárias de Zaragoza, mediando o entusiasta e contínuo apoio que presta a projetos “americanistas” há anos nossa amiga e colega Ascensión Hernández Martínez, para levar a cabo um livro coletivo sobre Arte Latino-americana do século XX sob o rótulo de “Outras histórias da História”. A idéia que o ampara é a de mostrar traços artísticos e temas de análise que no geral vieram se mantendo nas margens da consideração das “Historias da Arte” e em especial das que foram difundidas nos “grandes centros” como Estados Unidos e Europa. Aspiramos mostrar singularidades que, concatenadas, formem uma pluralidade diferente ao habitualmente divulgado.

A história escrita está rodeada de incontáveis realidades paralelas, e numa alta porcentagem estas ficaram deslocadas das “histórias oficiais” que, por distintos motivos (também pela lógica necessidade de sintetizar), vieram se estandardizando na arte ocidental. Nos países americanos, a tais “histórias”, ainda podemos tratá-las como se fossem um material flexível, permeável a introduzir em seus eixos vertebrais os novos avances da pesquisa, tanto a nível continental como nos próprios âmbitos nacionais.

Muitas realidades que existiram e que existem são, então, “histórias” não escritas. Referem-se a temáticas, a movimentos e a artistas. Entre estes, são enormes em número aqueles cujas trajetórias devem se entender à margem do inovador ou da sucessão de primícias que no geral se impõe como discurso estrutural, apartando aquilo que não responde aos padrões predeterminados. Se o artista se encaixa nas idéias prévias, perfeito, se não, fica fora. Assim como sucede com a música, prima em muitas ocasiões o êxito pontual, esses “quinze minutos de glória” que resgata a historia e que joga mantos de sombra sobre os itinerários vitais. Por conseguinte, a confecção da história escrita costuma converter a esta, com freqüência, em uma máquina de descartar, muitas vezes de forma cruel, o que não se adequa a seus padrões, exaltando-se somente aquilo que passa pela intencionada e fechada peneira que impõem o mercado, o crítico ou o historiador. No presente livro não se faz uma nova “história da arte latino-americana do século XX”. É evidente que não se persegue um caráter sintético e abrangente. Trata-se de contar pequenas histórias, diversas, muitas vezes à margem da História da Arte.

Para a realização desta edição convidamos a participar diferentes especialistas, espanhóis e latino-americanos, com a idéia de que expusessem, sob algumas idéias comuns, renovadas propostas de pesquisa. Um aspecto importante a ressaltar, e que significou um ponto de atenção especial na hora de formar o índice, foi o de contar com a participação majoritária de jovens pesquisadores, sem no entanto, como se comprovará, deixar de recorrer a profissionais de trajetória e experiência reconhecida nacional e internacionalmente. Esta atitude responde, por um lado ao desejo de abrir canais de expressão aos que levam, proporcionalmente, pouco tempo material de produção, e por outro a mostrar que tal caráter não é impedimento para alcançar sérias e inovadoras conclusões, e introduzir novos olhares ao devir historiográfico.

O livro se divide em quatro grandes blocos, compostos por sua vez por quatro capítulos. No primeiro dos blocos, que trata sobre “Expressão e gosto popular”, pretendemos mostrar a sobrevivência de modelos culturais e artísticos ancestrais em alguns países americanos, e seus testemunhos contemporâneos, que, em parte, e em certas regiões, estão marcados pela contaminação dos meios de massas. Somos da crença que em boa medida, em seus costumes e expressões, a América segue sendo barroca, caráter no que o indígena se manteve como um componente iniludível. Estas marcas ficam claras na arquitetura e nos rituais que formam o espectro dos cultos religiosos, as crenças populares, a arte dos cemitérios e, mesmo assim, e neste caso mais vinculado ao gosto burguês, a consolidação de gostos extravagantes quando não decididamente kitsch como testemunho do orgulho de “proprietários” mais (ou menos) ricos no continente. Em relação ao mencionado tema das expressões funerárias, cabe apontar sua conversão em tema de pesquisa de notória atualidade, a partir do resgate e da revalorização que fizeram nos últimos anos organizações como a Rede Latino-americana de Cemitérios Patrimoniais que, até hoje, tem organizadas cinco edições de seus “Encontros de Valorização e Gestão dos Cemitérios Patrimoniais”.

No segundo bloco, titulado “Os materiais, meios para fazer vanguarda”, integram-se quatro visões diferentes englobadas sob a idéia de resgatar em parte a variedade de componentes utilizados por artistas plásticos e arquitetos contemporâneos na América Latina. O caráter redutor e seletivo do presente projeto nos levou a ter que, obrigatoriamente, atender a alguns aspectos e não a todos os que tínhamos desejado, o qual, logicamente, teria sido impossível. Esta característica, de qualquer maneira, é comum aos quatro blocos temáticos. Os pigmentos naturais utilizados por Reverón na Venezuela, a talha em pedra dos escultores do Chile, a arquitetura de madeira no sul desse país e o trabalho em barro de Jaime Suárez em Porto Rico aportam um corpus básico, plausível de ser incrementado com estudos posteriores.

O terceiro bloco centra sua atenção em temas da arte latino-americana nos que o fator externo é o eixo fundamental, tanto se se trata da expansão da cultura do continente para fora, como da recepção de modelos culturais e artistas chegados da Europa, e em especial da Espanha. Denomina-se “A arte de e para o exterior”, e neste caso optamos por temas que vão desde a influência da Europa de vanguardas no redescobrimento do barroco mineiro no Brasil, à arte dos exilados no México, o trabalho do arquiteto espanhol José Luis Sert na Colômbia, ou a presença da arte latino-americana na Espanha ao longo do século XX, através de exposições, catálogos, trabalhos institucionais, etc.

Finalmente, e fechando o ciclo, um olhar para dentro. O devir artístico dos países americanos tem estado profundamente marcado pelos acontecimentos das grandes capitais, quedando as cidades e povoados do interior marginados na consideração. Queremos portanto advertir disso neste projeto e abrir os olhos, próprios e estranhos, a respeito da necessidade de reverter análises condicionadas, produzidas por pesquisadores das capitais incapazes de ver mais além de seus domínios, indiscutivelmente centrais, e de sua conexão com as grandes usinas da arte contemporânea como Paris ou Nova York. Esta atitude, metade complexo de superioridade, metade preguiça intelectual, evita que aqueles outros testemunhos se dêem a conhecer o suficiente. Elegemos aqui os trabalhos à frente de seus tempos que quatro colegas realizam em suas respectivas províncias, plausíveis de entender-se dentro destes contextos, incorporando a região do Chaco argentino-paraguaio, as províncias de Santa Fé e Salta na Argentina e a cidade de Maracaibo, no interior da Venezuela, propondo temas tão diversos como a fotografia, a arquitetura, as artes plásticas e o teatro.

Com esta seleção de temas pretendemos, sobre tudo com respeito aos não versados na matéria, a aqueles que não têm à arte latino-americana como centro de seus estudos ou cujo acesso à mesma tenha sido epidérmico, possam advertir a existência, como em qualquer âmbito, de um amplo mosaico de expressões, absolutamente inesgotável: neste livro se apresentam algumas gotas desse oceano. Este caráter próprio permite uma leitura segmentada, como se se tratasse de um livros de relatos, não necessitando uma leitura estrita do principio ao fim. São histórias sobre as quais se poderá voltar uma e outra vez segundo os gostos e interesses. Se bem que a assinalada fragmentação é palpável, há laços de união entre estes textos, sobre tudo a inovação nos enfoques, a marginalidade temática de alguns e as novas perspectivas que apresentam outros cujo ponto de atenção possam ter gozado mais ou menos de riqueza historiográfica. Se propusemos a divisão em quatro blocos foi com a intenção de criar laços de união que permitissem, ao mesmo tempo que a leitura natural singularizada, o propiciar interconexões.

Relendo o índice, descobrimos que o livro começa com um capítulo dedicado a cemitérios, à expressão da morte, e finaliza com outro dedicado às festas e carnavais, testemunho evidente da vitalidade do continente. Entre ambos parâmetros, a morte e a vida, a vida e a morte, se desenvolvem incontáveis manifestações, peculiares e variadíssimas manifestações culturais e artísticas. Isto também nos perfila algumas das linhas de pesquisa interdisciplinar que, nos princípios do século XXI, se estão vendo cada vez mais fortalecidas, como o feliz encontro entre arte e antropologia ao abordar certas temáticas, sobre tudo as vinculadas às artes e expressões populares. E isto da mesma forma que o contexto das artes plásticas do século XIX se beneficia de maneira paulatina do imprescindível encontro com áreas científicas como a história, algo iniludível em temáticas como a reconstrução documental e iconográfica do passado. Cada vez com maior alcance e cultores, este tema está permitindo que historiadores e historiadores da arte se apóiem entre si para dar mais amplitude e abrir novos rumos a suas respectivas linhas de pesquisa.

Outro parâmetro que podemos apontar como fator cada vez mais necessário para uma pesquisa profunda em campos da arte do continente como as que aqui se apresentam, é a realização direta de trabalhos de mapeio, de análise no terreno e de experimentações pessoais plausíveis de serem transferidas ao papel. A viagem, em todo seu alcance, adquire novas dimensões, não somente na superação das barreiras “nacionais” que vão vislumbrando um aumento na associação de temas de um país com pesquisadores de outro, mas também com as perspectivas espirituais que nem sempre o documento de arquivo consegue transmitir.

Está claro que a observação pessoal, somada à perícia no manejo de arquivos, o descobrimento de obras e artistas desconhecidos, a penetração em outras disciplinas e a destreza na interpretação, está chamada a aportar ingredientes fundamentais para melhorar as receitas que compõem atualmente a historia da arte latino-americana. Se a arte, tal como reza a definição do dicionário da Real Academia Espanhola, é uma “manifestação da atividade humana mediante a qual se expressa uma visão pessoal e desinteressada”, bem está em analisá-lo desde atalaias pessoais para enriquecer nossa ótica sobre a mesma. Definitivamente, apontar à concreção de uma pluralidade nos “Modos de Ver”, tal como marca a presente linha editorial, desde a intencionada criação dos artistas, até a pessoal receptividade do leitor, passando pelo filtro condicionador do historiador. [o presente texto é a introdução do livro]

sobre o autor

Rodrigo Gutiérrez Viñuales é historiador da arte e professor da Universidade de Granada

 

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