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reviews online ISSN 2175-6694

Retrato de John Ruskin [Wikipedia.org]

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OLIVEIRA, Rogério Pinto Dias de. O pensamento de John Ruskin. Resenhas Online, São Paulo, ano 07, n. 074.03, Vitruvius, fev. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/07.074/3087>.


Na Inglaterra de meados do século XIX, os movimentos intelectuais (1) em prol da conservação dos monumentos históricos ganharam força a partir do protagonismo de John Ruskin (1819-1900). Seu importante papel como um dos precursores na preservação das obras do passado enriqueceu o conceito de patrimônio histórico, sendo possível afirmar que suas idéias já faziam referências ao que hoje classificamos como patrimônio material e imaterial.

Ruskin foi escritor, crítico de arte, sociólogo, e um apaixonado pelo desenho e pela música. Suas idéias adquiriram maior repercussão no ano de 1849 através do livro The Seven Lamps of Architecture (2) – lançado cinco anos antes do primeiro tomo do Dictionnaire de Viollet-le-Duc (3) –, e no ano de 1853 com The Stones of Venice (4), onde descreveu sua apologia ao “ruinísmo” como um devoto às construções do passado, pregando o total e absoluto respeito à matéria original das edificações.

Viveu em uma época de dicotomia entre os antigos costumes sociais e os emergentes decorrentes da Revolução Industrial, que devido ao seu acelerado desenvolvimento substituía de forma gradativa o sistema de produção das manufaturas. Sua luta contra os efeitos nocivos da industrialização revelou sua forte ligação com a cultura tradicional.

Podemos compreender a luta de Ruskin contra as modificações desses valores através do seguinte trecho: “no lo sería ahora cuando las inquietudes y los descontentos del presente usurpan en nuestros espíritus su lugar al pasado y al porvenir. La calma misma de la naturaleza nos es gradualmente arrancada” (5).

Ruskin acreditava que a conservação da arquitetura do passado, como expressão de arte e cultura, nos permitiria entender a relação existente entre os estilos arquitetônicos e as técnicas construtivas como a resultante do fruto do trabalho de determinada cultura, utilizando-se da história dessas construções como o veículo de comunicação dos processos de desenvolvimento cultural.

Manter vivo o testemunho cultural do passado no cotidiano da cidade, possibilita com que os indivíduos identifiquem nos espaços urbanos, e, nos monumentos históricos, marcos referenciais de identidade e memória. Nos termos de Ruskin (6), “Es preciso poseer, no sólo lo que los hombres han pensado y sentido, sino lo que sus manos han manejado, lo que su fuerza ha ejecutado, lo que sus ojos han contemplado todos los días de su vida”.

Defendia a idéia de que as edificações pertenciam ao seu “primeiro construtor” (7), ou seja, a população de determinada localidade que se tornava herdeira desses bens culturais, estabelecendo uma relação de compromisso social, entre a presente e as futuras gerações, para a preservação das edificações históricas em sua concepção original, evitando assim, atos de negligência e descaso.

De acordo com Ruskin, a integridade das edificações, como um conjunto formal e técnico-construtivo, se tornava o bem de maior valor que se poderia legar às novas gerações. Essa “herança” seria o mecanismo responsável por transferir ao espaço construído, os sentimentos de pertencimento e apropriação de seus valores memoriais.

Para Ruskin, os arquitetos deveriam construir as edificações como se fossem obras de valor histórico em potencial. Desta forma, as construções deveriam causar tamanha admiração em seus “herdeiros” a ponto de virar referência cultural, independentemente de sua excepcionalidade como obra arquitetônica, como mostram as idéias do autor (8),

“Dios nos ha prestado esta tierra durante nuestra vida; no es más que un bien sujeto á restitución. Pertenece á los que vendrán después de nosotros [...] no tenemos el derecho, por actos ó por negligencias, de conducirles á penalidades inútiles, o á privarles de beneficios que estaría en nuestra mano legarles [...] Cuando construyamos diremos, pues, que construimos para siempre [...] Que sea un trabajo por el cual nos estén agradecidos nuestros descendientes; pensemos, colocando piedra sobre piedra, que llegará un tiempo en el cual estas piedras serán conceptuadas sagradas porque nuestras manos las tocaron y que los hombres dirán considerando la labor y la materia trabajada: !Mirad. He aquí lo que nuestros padres hicieron para nosotros! La mayor gloria de un edificio no depende, en efecto, ni de su piedra, ni de su oro. Su gloria toda está en su edad [...]”.

Entendia a Arquitetura como uma expressão forte e duradoura capaz de se eternizar carregando em si uma enorme carga de valor histórico e cultural. Ruskin defendia a idéia de que as edificações deveriam atravessar os séculos de maneira intocada envelhecendo segundo seu destino, lhe admitindo a morte se fosse o caso. Com algumas exceções permitia pequenos trabalhos de intervenção (9) que evitassem a queda prematura das edificações.

Do mesmo modo, recomendava a execução de reforços estruturais em elementos de madeira e metal quando estes estavam em risco de se perder, assim como reparos pontuais de fixação ou colagem de esculturas em risco de ruir, mas de maneira nenhuma admitia imitações, cópias e acréscimos.

Para Ruskin o edifício só ganhava vida, tornando-se reconhecido como algo de valor, após ter servido de testemunho da morte de várias gerações, ter sido abençoado com a pátina do tempo e assistido a evolução da cidade resistindo mais que todos os seres vivos. Sua visão romântica sobre os processo de conservação, nos remetem à idéia de que somente salvaríamos nossa arquitetura patrimonial se os métodos de preservação permitissem o “congelamento” das cidades, centros e sítios urbanos.

O conceito de pitoresco (10) é utilizado por Ruskin como uma forma de qualificar uma obra arquitetônica de reconhecido valor histórico e cultural. A beleza acrescentada pelo tempo confere às edificações um perfil peculiar e “estilo” característico. Seus elementos únicos captam a atenção do espectador como se fossem, por exemplo, as linhas puras do Clássico ou o efeito de luz e sombra do Gótico.

Desta forma, a idade é compreendida como o principal atributo da edificação onde à medida que permanece íntegra ao longo do tempo adquire beleza ao sofrer os efeitos da pátina de passados 400 ou 500 anos, tornando essas qualidades temporais e acidentais incompatíveis com os processos de restauração. As ruínas se tornam sublimes a partir dos estragos, das rachaduras, da vegetação crescente e das cores que o processo de envelhecimento confere aos materiais da construção. A ruína é o testemunho da idade, do envelhecimento e da memória, podendo nela estar expressa a essência do monumento.

O culto às ruínas se exprime em todo o seu romantismo quando Ruskin propõe uma reflexão sobre o valor dos trabalhos de restauração sobre o antigo estado da edificação, pois acreditava que aqueles remanescentes possuíam o encanto do mistério do que teriam sido e a dúvida do que teria se perdido.

Neste contexto, vale ressaltar suas críticas contra as restaurações que estavam sendo executados, contemporaneamente, na Europa e principalmente na França, tendo com figura central Eugène Emmanuel Viollet-le-Duc.

Para Ruskin a restauração era a mais completa e bárbara destruição que poderia estar sujeito um edifício. Considerava impossível restituir o que foi belo e grandioso arquitetonicamente, pois a alma dada ao prédio por seu “primeiro construtor” jamais poderia ser devolvida. É veemente afirmando que outra época daria ao monumento outra alma, outro enfoque, outra cara, transformando o objeto em uma nova edificação.

O processo de restauração se resumiria a uma imitação da arquitetura passada se transformando em uma falsa descrição do que teria sido aquela obra, criando assim uma réplica e um falso histórico, pois o novo estado pertenceria a uma nova época. Segundo Ruskin, o processo causava a perda de grande parte do significado documental das edificações históricas afetando sua autenticidade, seus valores evocativos e poéticos.

Acreditando que a degradação fazia parte da história da edificação e entendendo os processos de restauração como um tipo de agressão às mesmas, Ruskin sugeriu a manutenção periódica dos prédios históricos como forma de evitar os danos causados por intervenções de maior amplitude preservando a ação do tempo e o testemunho histórico.

Sua contribuição para a salvaguarda do patrimônio cultural foi de ordem teórica, defendendo a conservação como método de preservação. Seus pensamentos conformaram uma abordagem ideológica onde o dueto romântico nostálgico coexiste de maneira profundamente melancólica, servil e adoradora, como podemos observar em seus livros dedicados à apologia da passividade e da não-intervenção em arquiteturas patrimoniais.

[este texto foi originalmente publicado em DIAS DE OLIVEIRA, Rogério Pinto. Conservação, restauração e intervenção em arquiteturas patrimoniais. Monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Arquitetura e Patrimônio Arquitetônico no Brasil. Porto Alegre, Pontifícia Universidade Católica RS, 2007, p.11-16.]

notas

1
Destaca-se entre esses o movimento Arts and Crafts, que teve como seu principal articulador o político e crítico de arte Willian Morris (1834-1896), e tinha como objetivo principal conservar as características das atividades artesanais e da arquitetura tradicional, com base na importância dos trabalhos manuais, opondo-se à produção em série da industrialização.   

2
RUSKIN, John. The Seven Lamps of Architecture. London: Smith, Elder, 1849. 205p.

3
VIOLLET-LE-DUC, Eugène Emmanuel. Dictionnaire Raisonné de l’Architecture Française du XI au XVI Siècle. Paris: A.Morel, 1866-1868. 10V.

4
RUSKIN, John. The Stones of Venice. London: Smith, Elder, 1874.

5
RUSKIN, John. Las Siete Lámparas de la Arquitectura. Espanha, Valencia: F. Sempere, 1910. p.236.

6
RUSKIN, John. Las Siete Lámparas de la Arquitectura. Espanha, Valencia: F. Sempere, 1910. p.212.

7
O termo “primeiro construtor”, é uma ligação metafórica que Ruskin estabeleceu para referenciar os grupos sociais como os responsáveis pela manutenção e conservação dos bens de valor histórico e cultural, entendendo essa tarefa como um dever à preservação da memória.

8
RUSKIN, John. Las Siete Lámparas de la Arquitectura. Espanha, Valencia: F. Sempere, 1910. p.222-223.

9
Ruskin admitia intervenções de pequeno porte, em nível de estabilização, a fim de consolidar a estrutura da edificação, partindo do princípio de que essa ação não resultasse em elementos visíveis.

10
Deve-se entender a expressão “pitoresco” como uma designação empregada nas Belas Artes, a partir da segunda metade do século XVIII, referente aos efeitos de luz e sombra, cor, manchas e contornos menos precisos aplicados na Pintura e na Escultura, em oposição aos detalhes preciosistas da Arte Clássica. Para Ruskin, a ação do tempo acrescentava às edificações, a “mancha”, a nuance e as indefinições das formas originais.

sobre o autor Rogério Pinto Dias de Oliveira é graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pelotas (2001) e especialização em Arquitetura e Patrimônio Arquitetônico no Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2006). Atualmente trabalha como arquiteto na Secretaria do Patrimônio Histórico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando principalmente nos seguintes temas: conservação, restauração e intervenção em arquiteturas patrimoniais dos períodos da arquitetura historicista e moderna.

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