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reviews online ISSN 2175-6694

Motto '13831', elevação, Karl Johan Kvartalet

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SOUSA, Pablo Gleydson de. O estudo dos concursos. Resenhas Online, São Paulo, ano 07, n. 074.01, Vitruvius, fev. 2008 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/07.074/3089>.


O estudo dos concursos, tendo em vista a relevância institucional deste instrumento para a profissão do arquiteto bem como para a sociedade em geral, oferece uma oportunidade singular para avaliar os valores da arquitetura hegemônica de um período. É o que nos confirma Elisabete Tostrup, em seu livro Architecture and rhetoric. Text and design in architectural competitions (“Arquitetura e retórica, Texto e projeto em concursos de arquitetura), publicado pela Andreas Papadakis Publisher, onde a autora, através da análise da retórica verbal e visual, analisa 36 projetos vencedores de concursos de arquitetura para edifícios públicos em Oslo, entre 1931 e 1990.

Sua análise considera tanto o material escrito quanto o gráfico, como peças retóricas essenciais nos concursos, já que ambos envolvem discursos argumentativos potentes e persuasivos nos quais, o orador, o autor do projeto, pretende deliberadamente atrair adeptos a sua causa, convencer com argumento visual e verbal, com desenhos e palavras.

Justificando o seu material analítico, diz-nos a autora que a representação em concursos deve conter as qualidades essenciais do projeto e deve ser inteligível ao mesmo tempo ao júri e à audiência pública, permitindo uma comparação entre o programa e o local. Porém, destaca, apesar dos códigos gerais do desenho, cada profissional é um mediador entre o edifício e sua representação. A autora sabe que a função dos textos que acompanham os projetos é vista de forma diferente, pelos diversos autores. Cita Constantin Spiridionis, para quem os textos dos arquitetos podem ser discursos de legitimação auxiliares aos projetos, ou meios de prover-lhes melhor compreensão, complementar-lhes referências ou atribuir-lhes um significado. Para a sua análise, Tostrup não considera o texto em si mas “a medida em que eles provêm uma idéia do tipo de texto de que se valem os profissionais”.

Começando com um breve histórico dos concursos, Tostrup nos diz que eles pouco mudaram da renascença a atualidade, tendo sido após a revolução francesa e a revolução industrial adaptados aos moldes de uma instituição democrática, como extensão de uma economia de mercado. Na Inglaterra do século XIX, onde a prática era comum até para a clientela de classe-média, o “Royal Institute of British Architects” (RIBA) teve de reformar o sistema das competições para combater a eleição de projetos por júris inexperientes, que se deixavam surpreender pela representação sem questionar características técnicas de projeto.

Tendo em vista o caráter publico das edificações analisadas, Tostrup destacou nos principais capítulos da obra três aspectos chaves para apreender seus valores dominantes: a inserção do novo frente ao antigo; o espaço e suas concepções de uso; e as fachadas e suas interfaces.

Sobre o primeiro tema, conclui que, de 1939 a 1990,houve uma dramática mudança de atitudes em relação ao precedente arquitetônico. Nos primeiros 30 anos era comum a total erradicação do antigo, condenado nos textos dos novos projetos e nas atas dos júris com termos como sujo, velho, feio e obsoleto; devendo, portanto ser substituindo por formas simples e marcadamente modernistas. Nos últimos 20 anos, passou-se à adaptação ao existente como forma de refinar e enriquecer o ambiente. A retórica visual também mudou. No primeiro período, o novo era exibido como objeto distinto e auto-suficiente, cuja independência do ambiente era sublinhada. Posteriormente, representa-se o novo como uma peça correlacionada ao ambiente, integrante de um todo maior e coerente. O progresso não é mais identificado pela remoção do velho, mas pela criação de uma totalidade mais humana e atrativa, conforme cita Christian Norberg-Schulz: “os edifícios são belos quando se ajustam ao lugar”, retomando o conceito de genius loci.

Na década de 1970, as apresentações apelam para discursos multidisciplinares que abordam temas como política, cibernética, consumo de massa, fisiologia animal, crises existenciais etc. Recorrendo a Elfensen, define seis diferentes tendências na agenda arquitetônica de Oslo na década 1980: uma nova expressão oficial que incorpora os métodos pós-modernos em uma arquitetura pragmática; uma arquitetura de alta tecnologia que incorpora a estética do vidro; uma busca de aprofundamento de conteúdo e simplificação dos efeitos da estética modernista; um interesse por uma arquitetura regional e orgânica conectada a tradição; uma quebra consciente que inclui o pós-modernismo como um estilo que deseja unir arquitetura de elite e um gosto comum; e finalmente, a arquitetura e as idéias arquitetônicas cotidianas.

Para o segundo tema, a estrutura espacial – que Tostrup considera como a única característica verdadeiramente arquitetural, não analisável por nenhuma outra disciplina auxiliar – as principais fontes são plantas, cortes, perspectivas, fotografias e maquetes.

No concurso para o novo Edifício do Governo de 1939 o conceito dominante – repetidamente afirmado também noutros concursos da primeira metade do estudo – é a criação de ambientes de trabalho com iluminação solar otimizada. Fixação que segundo a autora, ilustra um modo estático de ver a vida, a usabilidade e o futuro: não se cogitava a possibilidade de mudanças no decorrer da vida do edifício. Neste concurso, a representação gráfica sublinha o abstracionismo das propriedades espaciais e o importante não era o espaço em si, mas o fato de haverem salas suficientes com luz ideal.

Prevaleceu nas décadas de 1940 e 1950 o principio de edifícios esbeltos com plantas as mais simples possíveis, e amplos espaços exteriores. Nos anos de 1960, o foco foi a criação de ambientes que atraíssem atividades e usuários diversos, como exemplifica o concurso do Karl Johan Kvartelet, de 1962, no qual, para o júri, a verdadeira competição foi travada quanto a solução interna do bloco. Venceu aquele que conseguiu criar a ambiência mais humana, vivida e economicamente viável possível. O júri sublinhou ainda a permeabilidade do complexo aos transeuntes, assim como a homogeneidade como os espaços são tratados em planta, que fortalece ao senso de grandiosidade e unidade interna.

Nos anos 1970, no concurso para o Banco da Noruega, o júri focou a estrutura interna, resolvida pelo primeiro colocado num sistema xadrez de grande versatilidade, que permite uma livre disposição dos ambientes. Dadas as regras da organização em malha, o interior é opcional, em espaços que são dominados por uma hierarquia abstrata ortogonal e regular.

Na década de 1980 os espaços são marcados pela diversidade tectônica, e a diferenciação espacial e a sofisticação tecnológica típicas são vistas como resposta a uma crescente requisição por pluralidade, na mesma linha do desenvolvimento arquitetônico que confirma a importância do problema espacial como o foco e direção essencial em arquitetura.

A análise textual dos espaços afirma o papel da metáfora em fortalecer a mensagem do locutor: expressões como “nenhum escritório voltado para o norte”, “solução liberatória”, “ótima configuração espacial”, etc. são expressões que expandem a percepção criando associações com referências que o leitor aplica ao contexto do projeto.

O último tópico concerne às fachadas e interfaces arquitetônicas. Conclui que ao longo dos 51 anos de projetos analisados as fachadas parecem notavelmente similares, compondo um cenário dominado por paredes leves com grelhas modulares retangulares de numerosos componentes idênticos agrupados numa textura retangular. De 1950 a 1970, a fachada como uma “pele” torna-se mais leve e esbelta, a distinção entre sólido e leve, fechado e aberto é apagada, e as fachadas parecem cada vez mais homogêneas. O desenho é marcado por um alto grau de ambigüidade visual em relação à transparência da membrana, e as linhas da grelha indicam somente ritmos modulares para subdivisões. O design hegemônico é caracterizado pela uniformidade modular, na qual há uma latente tendência a favor das fachadas suaves, finas e ambíguas. Homogeneidade que Tostrup encara como representativa da igualdade e do anonimato que espelham a moderna sociedade democrática onde a malha repetitiva expressa o anonimato do setor privado e da burocracia pública. Apesar da emergência de um design figurativo na década de 1980, a única mudança no período diz respeito à proporção e às particularidades desta configuração retangular.

Esta homogeneidade é questionada por Tostrup: diante das paredes espelhadas, nossos olhos podem vagar sem descanso em espaços intermináveis, nossas mentes podem flutuar entre os reflexos, que juntamente com as nuvens, o sol e os fragmentos ópticos dissolvidos das construções, criam uma ilusão do paraíso se aproximando. As fachadas respondem a nossos sonhos de levitação com uma retórica que pretende ser modesta, quase inexistente no contexto terreno, impossível de se confrontar. Elas não nos encontram, não podem ser tocadas, e suas imagens se desintegram num perpétuo ato de desaparecer. Uma expressão adequada de uma cultura narcisista, como se a criação tecnológica fosse uma projeção humana de si mesma, perpetuamente reproduzida.

 A retórica visual utilizada no desenho das fachadas enfatiza diferentes qualidades e a inicial tendência de representação que sublinhava a novidade, independência e auto-assertividade das novas fachadas, é substituída nas décadas mais recentes pela de subjugar o impacto do novo exagerando na suavidade e transparência.

Tostrup conclui que há uma clara continuidade e homogeneidade nos concursos estudados. As propostas vencedoras exibem bons projetos, muitos dos quais executados com elegância e consistência, reforçam a noção dos concursos como palco dos valores centrais prevalecentes na profissão. A retórica dos concursos relaciona a arquitetura e sociedade. Tanto verbal como visualmente a retórica apresenta o novo estado de bem-estar e a alienação da arquitetura antiga no primeiro período, enquanto mais tarde, a adaptação do novo ao antigo é enfatizada.

Fica-nos a inquietação de que, apesar de publicado em 1999 o livro de Tostrup segue praticamente desconhecido no Brasil, aonde a temática dos concursos vem suscitando cada vez mais interesse dos profissionais e dos pesquisadores de arquitetura. Tanto mais que sua abordagem oferece um suporte teórico potencial, e um método de pesquisa bastante claro, àqueles interessados no estudo da arquitetura mediante o estudo da retórica gráfica e textual que compõem o projeto de arquitetura.

sobre o autor Pablo Gleydson de Sousa é Arquiteto e Urbanista pela UFRN (2005) e desenvolve mestrado acadêmico no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo PPGAU/UFRN(2007) pesquisando na área de Teoria da Arquitetura, especificamente na Teoria do Projeto com estudo de caso em Projeto e Representação Gráfica.

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