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Ilustração da cidade de Pirra, feita pelo autor da resenha a partir da descrição do Cidades invisíveis

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MONTEIRO, Evandro Ziggiatti. Cidades invisíveis visitadas. Uma leitura de Ítalo Calvino para compreender a paisagem urbana. Resenhas Online, São Paulo, ano 08, n. 085.02, Vitruvius, jan. 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/08.085/3050>.


O Cidades invisíveis tem sido utilizado, mundo afora, não apenas como uma obra literária profunda e inspiradora, mas também como substrato para reflexões e pesquisas do fenômeno urbano, e, ainda, como ponto de partida didático para ensinar os alunos de arquitetura a olhar e a pensar sobre a cidade. Seduzidos pelo texto, amadurece neles a compreensão de que, diante dela, estão diante de algo muito mais complexo do que o projeto de um edifício, e de que o universo urbano se estende muito além até mesmo do que o “urbanismo” possa abarcar. A primeira lição é, portanto, sem dúvida, a de que o urbano é feito de uma matéria não manipulável, rebelde, caprichosa, mas nem por isso menos fascinante. A segunda lição, descoberta à medida que Marco Pólo segue descrevendo as cidades do império mongol, é de que cada cidade é única na sua paisagem e na construção do seu espaço pelos seus habitantes, e que o número de possíveis cidades é infinito. Salta-lhes tanto aos olhos a riqueza de cidades da qual se compõe a narrativa que quase escapa a terceira lição, de que Eudóxia, Zirma, Leônia e tantas outras são na verdade arquétipos: Dimensões ou imagens que servem a todas e a uma única cidade ao mesmo tempo, sem que por isso não deixem de servir como elementos diferenciadores que tornam, paradoxalmente, cada cidade, única.

Embora as cinqüenta e cinco cidades do livro gerem uma incontável multiplicidade de imagens e simbolismos, nesse ponto é o próprio Calvino que nos revela a chave para entendê-las e até, classificá-las. Mesmo tendo sido apresentadas “embaralhadas” na narrativa, cada uma pertence a um dos onze grupos de cinco cidades que recebem uma adjetivação comum do tipo: “as cidades e a memória”, “as cidades ocultas”, etc. E como a maior parte das mensagens no texto, a ligação entre as cinco cidades de cada grupo é tênue, quase que apenas sussurrada em algumas características comuns. Mesmo assim, para cada um dos onze grupos de cidades espalhadas pelo livro há uma questão central que liga e permeia a descrição das cidades de cada grupo, e há, ao mesmo tempo, uma senda individual para cada cidade, que é a forma como ela lida com aquela questão.

Os onze “tipos” de Cidades invisíveis

1. “As cidades e o nome” – identidade e sentido de lugar

“As Cidades e o Nome” remete à clássica afirmação de Aldo Rossi (1) de que o sentido do lugar emana do acontecimento e do signo que o fixou. “Por longo tempo, Pirra foi para mim uma cidade encastelada nas encostas de um golfo, com amplas janelas e torres, fechada como uma taça, com uma praça em seu centro profunda como um poço e com um poço em seu centro” (p.87). Em Aglaura, essa identidade é definida pelo “estilo de vida” ou “estado de espírito” dos habitantes; Leandra optapelo intimismo e pelo provincianismo da vida privada, pela negação à grande cidade; Irene fabrica uma imagem forjada para a cidade e a usa para convencer os cidadãos e o resto do mundo do seu papel; já Clarisse procura compreender e incorporar a multiplicidade de lugares como o verdadeiro sentido de lugar.

2. “As cidades e a memória” – a presença do sítio e a influência do passado

Em cada grupo de cidades costuma haver um “encantamento” e uma “armadilha”. No caso de “As Cidades e a Memória”, o encantamento prossegue no encontro com o passado como se ele fosse sempre melhor que o presente e uma inspiração para o futuro. A armadilha está na decepção de que o passado não permanece melhor ou nunca foi, e no seu esquecimento. Apresentadas quase todas na parte um do livro, é possível indagar se Diomira, Isidora, Zaíra, Zora e Maurília não estão assim situadas para que nos esqueçamos delas ao fim da narrativa.

3. “As cidades e o desejo” – a motivação inconsciente e a ação sobre a memória

Nelas há uma alusão insistente à contradição, à dualidade do espírito humano. Intuitivamente somos destinados à ordem e ao caos simultaneamente, e as “cidades e o desejo” refletem o paradoxo em paisagens regulares como Dorotéia e Anastácia ou dúbias como Despina. Ou ainda múltiplas como Fedora, em que quase nos perdermos nos infinitos caminhos que geramos para cada uma de nossas escolhas.

4. “As cidades e os símbolos” – a linguagem da subconsciência coletiva e a imagem da cidade

“Não existe linguagem sem engano.” é a frase final de Ítalo Calvino (p. 48) após ter descrito as desventuras de Marco em Ipásia, a quarta das “cidades e os símbolos”. Nelas discute-se a imagem da cidade formada não só pela composição de sólidos na luz e na sombra, mas também a partir da sua ornamentação, dos sinais e dos seus significados. Então a cidade passa a ser lida como densa e enigmática, já que é muito mais do que apenas sua forma física. É possível evocar, a partir delas, o clássico Imagem da cidade de Kevin Lynch (2), onde a questão central é a compreensão da cidade a partir do seu vocabulário visual, sua linguagem. Mas exploram também a utilização dos símbolos como marcação de territórios e hierarquias, classes, posturas ou ainda propositalmente como mensageiros do engodo. São, nesse sentido, cidades em que de alguma forma o discurso, ou os ícones, não correspondem às suas verdadeiras dinâmicas, ocultas ou dissimuladas.

5. “As cidades delgadas” – a busca pelo desprender da terra, a negação da imobilidade

Calvino cita motivos diversos para que cada uma das “cidades delgadas” seja descolada da terra. A idéia geral é de paisagens urbanas que se projetam para cima, ou se isolam da terra firme por algum artifício geológico ou construído: Isaura está no chão mas na verdade sobre um profundo lago negro extinto; Zenóbia sobre palafitas em um lago seco; em Armila não há as massas construídas; Sofrônia são duas meias cidades em que a cidade pesada é itinerante e a cidade leve é fixa; e finalmente, Otávia uma cidade teia-de-aranha pendurada sobre o abismo.

Através das “cidades delgadas” é possível verter a muitas paisagens da cidade moderna, como a verticalidade ou a transfiguração cíclica de seus espaços. Também nelas talvez se incluísse o próprio urbanismo modernista, as imagens de uma cidade-máquina baseada no movimento, ou o espírito etéreo de uma Ville Radieuse. Ou ver as “cidades delgadas” como buscas coletivas, através da técnica, para transcender o peso da superfície do planeta, ou para abandonar uma paisagem urbana feita apenas de pedras.

6. “As cidades e as trocas” – as relações entre os habitantes

Estas são como um preâmbulo das “Cidades Contínuas”. Nelas emerge a questão da circulação na cidade, com analogias com fios (Ercília) e redes (Esmeraldina) superpostas; e a própria mobilidade e mutabilidade urbanas, que lhe dão o caráter de um ser mutante, ainda que de pedra. “As cidades e as trocas” também abordam a tessitura do território, as camadas de atores no espaço urbano (Esmeraldina) e o embate entre rotina e mudança (Eutrópia).

7. “As cidades e os olhos” – a visão individual e os engodos

Estas são exemplos dúbios, em que se discute o referencial do qual se olha a cidade. Em termos de paisagem, são cidades descritas com um lado positivo que enche os olhos, cheio de cores, sabores, tentações. Em Zemrude o enfoque são as visões particulares, e o autor sugere que a maioria dessas visões tende a buscar mais o chão e as profundezas do que o céu, com o passar do tempo. As cidades e os olhos parecem evocar análises mais contemporâneas dos fenômenos urbanos, como em “A Cidade de Quartzo” e sua descrição dos bastidores dos guetos e seus embates (3).

8. “As cidades e os mortos” – engessamento, ciclo, fim de ciclo

Embora em algumas das “cidades e os mortos” sua paisagem seja mais literal, referindo-se a uma espécie de campo santo, ou um duplo, e muitas vezes desafiando as profundezas da terra, há uma questão que permeia todas. Aborda-se a idéia do ciclo como presença estruturadora, como um moto motiv do ser-cidade, para onde ele a leva, ou não leva... As “cidades e os mortos” evocam a temática dos filmes da trilogia “qatsi” (REGGIO, 1983), em que a questão principal passa a ser os ciclos “inescapáveis” do planeta e das nossas cidades civilizadas, e sobretudo a busca do sentido que os move.

9. “As cidades ocultas” – a natureza humana e sua dualidade

São as cidades mais tardiamente apresentadas no livro, o que faz das “cidades ocultas” um espelhamento das “cidades e a memória”, quase todas apresentadas na primeira parte. São cidades tão complexas quanto à natureza humana, e necessariamente contraditórias. As cidades ocultas exploram essas contradições na forma de dualidades intrínsecas, como o dentro e o fora de Olinda, a cidade feliz e a infeliz de Raíssa, os ratos e as andorinhas de Marósia, os homens e as bestas de Teodora, e os injustos e os justos de Berenice.

10. “As cidades contínuas” – antropofagia, destruição do meio

Em “as cidades contínuas” Calvino reúne os casos extremos de cidades: a metrópole, ou ainda, a sua aberração, a megalópole, e a possibilidade da humanidade ser um câncer assolando o planeta. São exemplos que aludem ao debate sobre as questões ambientais, mas também sobre o subúrbio e o planejamento regional. E de novo às utopias modernistas e às visões deformadas que delas restaram, no legado dos grandes conjuntos habitacionais.

11. “As Cidades e o Céu” – o ideal de perfeição e o cosmos

Opondo-se às “cidades e os mortos”, cidades como Tecla e Ândria não são apenas as antíteses de sua paisagem, buscando elevar-se do solo e negando a terra. Também buscam a antítese do ciclo, na idéia de uma permanência transcendental. Sonhos de todos os utopistas desde os antigos até Ledoux e além dele. São descritas como lugares urbanos de paisagem harmônica, e, às vezes, imutável.

Mas sua presença no livro é fundamental. Em meio a tantas dimensões imperfeitas – e horripilantes – do urbano, as cidades e o céu trazem o fascínio do novo, das reformas e das idéias que se apresentam como eternamente belas – até que a realidade e o tempo as gaste – e retornemos aos inescapáveis ciclos. Cheios de visões, mas sem ilusões, somos (arquitetos/urbanistas) chamados a assumir nosso papel como uma pequena peça das Cidades invisíveis: a de projetar para elas olhando para o alto, para o projeto das estrelas.

Um diagrama para o Cidades invisíveis

O “Diagrama” – uma proposta de visualização “temática” dos onze grupos de cidades apresentados pelo livro “As Cidades Invisíveis”
Ilustração Evandro Ziggiatti Monteiro

O “Diagrama” – uma proposta de visualização “temática” dos onze grupos de cidades apresentados pelo livro “As Cidades Invisíveis” (desenho do autor da resenha)

Uma linha horizontal divide o gráfico em duas partes (“terra-céu”), ficando abaixo dele as cidades “ocultas”, “e os símbolos”, “e os nomes”, “e os mortos”. Os quatro grupos apresentam cidades em um certo sentido “perdidas”; perdidas no tempo, ou na memória, ou fisicamente enterradas no espaço. Ou ainda, incompreendidas ou incompreensíveis.

Além da divisão terra-céu, a disposição dos grupos de cidades sofre a influência de quatro vetores principais. No centro, atua uma quinta força, não como um vetor, mas uma inércia que tenta manter junto de si três grupos de cidades invisíveis: as “cidades ocultas” (abaixo do horizonte); as “cidades e a memória” e as “cidades e o desejo” (ambos os grupos acima do horizonte).

O primeiro vetor (das cidades “desperdiçadas”) aponta – através das “cidades e as trocas” – para as “cidades contínuas”, onde a matéria das cidades passa a ser um fim em si de sua existência, ao mesmo tempo a semente de sua natureza finita e portanto da sua destruição. O segundo vetor (das cidades “idealizadas”), aponta para “as cidades e os olhos”, idealização no sentido de “pontos de vista”, com espaço para a desilusão e o engodo. O terceiro (das “perdidas”) vetor passa pelas “cidades e os símbolos” e aponta para as “cidades e os mortos”. O quarto vetor aponta para cima, passando pelas leves “cidades delgadas” e culminando com “as cidades e o céu”, estas sim discutindo uma idealização no sentido de “plano” ou “modelo”. As “cidades e o céu” ousam buscar o sentido cósmico da perfeição, em paisagens urbanas tão harmônicas quanto do universo que as rodeia.

notas1
ROSSI, Aldo. La arquitectura de la ciudad. Colección Punto y Línea, 7 ed. Barcelona, Gustavo Gili, 1986, p. 188.

2
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução: Maria Cristina Tavares Afonso. 1 ed. Lisboa, Edições 70, 1970.

3
DAVIS, Mike. Cidade de Quartzo – escavando o futuro em Los Angeles. Tradução: Renato Aguiar. 1 ed. São Paulo, Editora Página Aberta Ltda, 1993.

referências complementares 

JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. Tradução: Carlos S. Mendes Rosa. Coleção "a", 1 ed. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

KOYAANISQATSI. Direção de Godfrey Reggio. [s.l.]: IRE: 1983. p.e.: 1 DVD (89 min): p.e.: son., color.; NTSC.

sobre o autor Evandro Ziggiatti Monteiro é professor doutor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas, ministrando as disciplinas Teoria e Projeto VII Acústica Arquitetônica, Fundamentos do Urbanismo e Trabalhos Finais de Graduação

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As cidades invisíveis

As cidades invisíveis

Italo Calvino

1990

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