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Guilherme Wisnik resenha os dois volumes da coletânea organizada por Abilio Guerra, os "Textos fundamentais sobre história da arquitetura moderna brasileira".

how to quote

WISNIK, Guilherme. Crítica sem lugar. Resenhas Online, São Paulo, ano 10, n. 109.01, Vitruvius, abr. 2011 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/10.109/3847>.


Oscar Niemeyer na varanda do Palácio do Alvorada, Brasília, 1956
Foto M. M. Fontenelle [Acervo DPHA-DF]

A Romano Guerra Editora lançou recentemente, em dois volumes, Textos fundamentais sobre história da arquitetura moderna brasileira. Organizados por Abílio Guerra, os livros reúnem artigos e ensaios publicados entre 1983 e 2002, durante um período de quase vinte anos, que o organizador caracteriza como o momento de constituição inicial de um campo crítico na área de arquitetura no país.

Guerra é professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie (São Paulo) e criador do website Vitruvius, que nos últimos dez anos se configurou como a grande referência para a circulação de informações e o debate de idéias entre arquitetos e afins, tornando-se o espaço no qual essa discussão melhor prosseguiu no período seguinte, já de forma mais ampliada e polifônica.

Lendo-se os textos, acompanhamos de fato o percurso de formação de uma importante massa crítica em torno da questão, conduzido por intelectuais do porte de Sophia Telles, Otília Arantes, Carlos Alberto Martins e Carlos Eduardo Comas, entre outros. Pois, exceção feita à produção de figuras luminares como Mário Pedrosa e Flávio Motta, a reflexão teórica mais quente, até o final dos anos 1970, partiu em geral dos próprios arquitetos, tais como Lucio Costa, Vilanova Artigas e Lina Bo Bardi. Nota-se, assim, que o grande desafio em questão, para pensadoras como Sophia Telles e Otília Arantes, foi interpretar o percurso de “formação” da modernidade arquitetônica no Brasil à luz de um arsenal crítico já bem desenvolvido em outras áreas, como a literatura e as artes plásticas, realizando-se as devidas traduções. Com perspectivas em grande medida distintas, ambas lançam luzes sobre esse ponto, interpretando as particularidades no processo de aclimatação da modernidade européia ao solo extenso e informe da ex-colônia. Nesse sentido, é também de grande relevância a produção de críticos do Rio de Janeiro, que, nas páginas da revista Gávea, realizaram uma ponte entre as teorias da arte e da arquitetura nos anos 1990, e que estão, inexplicavelmente, quase que ausentes da compilação feita por Guerra.

Data de início dos anos 1980 a criação dos primeiros cursos de doutorado em arquitetura no país, assim como o ressurgimento das revistas especializadas, reanimando o debate que se encontrava paralisado. Compreensivelmente, os temas que mais aparecem nesses textos são a tentativa de reflexão sobre um pós-modernismo que parecia não encontrar lugar no país, a reavaliação do papel demiúrgico (auto) atribuído à nossa arquitetura moderna, e a desconstrução da trama historiográfica criada para interpretar essa arquitetura – que, tradicionalizando o passado colonial, situava a produção moderna como uma continuação natural daquela tradição. Soma-se a esses temas, ainda, a contribuição de novos aparatos teóricos capazes de ler os nossos edifícios modernos a partir de uma ótica formal, que acrescentava informações ao discurso dominante, fosse ele de ênfase política (a forma como decorrência de uma opção técnica), fosse ele mitologizante (a forma como mimese da natureza tropical).

Contudo, aos olhos de hoje incomoda muitas vezes o tom excessivamente específico de algumas dessas discussões, que pareciam feitas para circular em um ambiente restrito e, de certa forma, intelectualmente estreito. Esse, me parece, é o ponto mais sensível da questão, que envolve tanto a reflexão sobre o lugar problemático da crítica de arquitetura no Brasil, quanto o diagnóstico da perda de relevância da arquitetura na nossa sociedade. O que é chocante, se levarmos em conta a relevância cultural mundial da nossa arquitetura, ao menos até a inauguração de Brasília. As duas questões pedem atenção.

De acordo com a imagem humorada feita por Rem Koolhaas, a atividade do arquiteto é uma mistura venenosa e esquizofrênica entre onipotência e impotência. Pois, ao mesmo tempo que lida com símbolos de grande alcance midiático, escala e orçamentos de vulto, vê também, muitas vezes, suas intenções iniciais serem subvertidas por idiossincrasias de gosto dos clientes, por constrangimentos de legislação, e por apertos de orçamento, terminando por lamentar a eterna injustiça que se abate sobre o seu trabalho. No Brasil pós-Brasília, o componente de impotência evidentemente tem vencido, e provocado tanto um certo desencanto amargo, quanto uma reação indignada, que acaba por descolar o discurso dos arquitetos (reativamente utópico) da realidade, isto é, do mercado. É preciso somar a isso as enormes pressões ideológicas envolvidas na atividade de arquitetura, tais como: trabalhar para o estado ou para a clientela privada? Entender a sua ação na sociedade a partir uma matriz crítico-simbólica (artística) ou técnico-social (reparadora de carências)? No Brasil da ditadura militar, onde o discurso desenvolvimentista dos anos JK teve o seu sinal invertido, essa divisão ideológica se tornou agônica, e praticamente implodiu as bases do discurso e da prática arquitetônica no país. Como percebeu Luis Espallargas Gimenez, em texto publicado na coletânea, talvez todo este imenso debate pudesse ter sido adiantado se a arquitetura tivesse feito parte do movimento tropicalista. Quer dizer: não foi possível aos arquitetos, por uma série de razões, realizar uma autocrítica do seu discurso baseada em uma leitura negativa do Brasil. O que demonstra que o componente artístico da arquitetura acaba muitas vezes abafado pela inerente positividade que a profissão tem de encarnar na sociedade.

Como declarou recentemente em um debate público o artista plástico Nuno Ramos, os textos críticos sobre arte, no país, foram até pouco tempo o “lugar” por excelência no qual a obra de fato existia enquanto significação. Isto é, diante de um sistema de circulação de valores simbólicos e econômicos ainda incipiente, foi no espaço virtual do texto que os trabalhos se apoiaram, até que um sistema de mercado, exposições e financiamentos mais sólido pudesse suportá-los de forma mais orgânica. Com a arquitetura, no entanto, acontece uma situação inversa: exposta desde muito antes a um mercado mais voraz, e bafejada por um sucesso internacional precoce, que a levou a uma espécie de auto-indulgência crítica, a arquitetura brasileira apareceu para uma geração de intelectuais muito mais como um objeto de ataque e desmistificação do que de diálogo empático. Ao mesmo tempo, para os arquitetos continuou vigorando a prática apaziguadora de não se criticar os colegas, e de se considerar que a reflexão sobre arquitetura só pode partir dos próprios arquitetos. Conseqüentemente, as bienais de arquitetura são, até hoje, organizadas por um órgão de classe: o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), e as salas dos homenageados se parecem, curiosamente, com estandes de vendas. Qual é o lugar da crítica nesse contexto? Como voltar a situar a arquitetura e o urbanismo como fatos culturais relevantes?

O primeiro livro monográfico de peso sobre um arquiteto, publicado no país, data apenas de 1993 (Lina Bo Bardi). De lá para cá um número substantivo de estudos e publicações tem surgido, assim como o intercâmbio com universidades e arquitetos estrangeiros. O prêmio Pritzker, atribuído em 2006 a Paulo Mendes da Rocha é um sinal claro da vitalidade atual da produção brasileira, lastreada em uma visão essencialmente ética da cidade. Arquitetura não é perfumaria, mas, ao contrário, uma prática de “esclarecimento” coletivo, através da qual a sociedade figura, de modo concatenado, o seu futuro. Num país que descuida tanto desses valores uma vez tidos como básicos – como tem ficado claro, por exemplo, na maneira obscura como surgem as propostas de grandes obras para os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo e a orla portuária do Rio de Janeiro –, um possível desenvolvimento econômico pode se realizar, na verdade, como ato predatório e excludente. Pois, o que será do prometido “espetáculo do crescimento” sem uma visão democrática e estratégica da sua infra-estrutura física, que possa driblar as “leis” da especulação imobiliária e do city-marketing na direção de interesses mais amplos, generosos e, em última análise, inteligentes?

nota

NE 1
Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo, caderno Ilustríssima, 29 ago. 2010, p. 6.

NE 2
A publicação em Vitruvius aconteceu em abril de 2011, em procedimento de acerto da periodicidade da revista Resenhas Online.

sobre o autor

Guilherme Wisnik é arquiteto e crítico. Professor da Escola da Cidade, é formado pela FAU-USP, mestre em História Social pela FFLCH-USP, doutorando pela FAU-USP, e bolsista da Fapesp. Autor de “Lucio Costa” (Cosac Naify, 2001), “Caetano Veloso” (Publifolha, 2005) e “Estado crítico: à deriva nas cidades” (Publifolha, 2009), e organizador do volume 45 da revista 2G (Gustavo Gili, 2008) sobre a obra recente de Paulo Mendes da Rocha. É colaborador do jornal Folha de S. Paulo, e curador do projeto de Arte Pública Margem, pelo Itaú Cultural.

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