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Resenha do livro de Nikos A. Salingaros, professor da Universidade do Texas. Trata-se de um livro de notas de aula que se propõe a discutir a aplicação de técnicas matemáticas na geração de formas para arquitetura e urbanismo

how to quote

CELANI, Gabriela. Algorithmic Sustainable Design. Uma visão crítica do projeto generativo. Resenhas Online, São Paulo, ano 10, n. 116.03, Vitruvius, ago. 2011 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/10.116/3995>.


O “método de Mouzon”, um exemplo do “Novo Urbanismo” ["Twelve Lectures On Architecture", páginas 210 a 216]

Tem havido ultimamente um grande interesse pelos sistemas generativos de projeto (generative design systems). Um sistema generativo é um método indireto do projeto, no qual o projetista não se preocupa apenas com a solução de um problema em particular em um contexto específico. Ele (ou ela) procura criar um projeto mais ou menos genérico, que possibilite resolver problemas semelhantes em contextos diferentes. Segundo Mitchell, um sistema generativo permite “produzir uma variedade de soluções potenciais” (1). O diagrama de Fischer e Herr (2) descreve esta abordagem de maneira visual, comparando-a com a bordagem tradicional de projeto.

Diagrama de Fischer e Herr (2001) comparando o processo tradicional de projeto ao processo generativo

Um sistema generativo pode ser utilizado visando à otimização (convergência) ou à variedade (divergência), por meio da geração de múltiplas alternativas. Para problemas bem definidos, mas para os quais não existe nenhum método direto para encontrar uma solução, pode-se gerar sistematicamente todas as alternativas possíveis e em seguida testá-las, de modo a encontrar a alternativa ótima – aquela que melhor corresponde aos critérios exigidos. Em outras situações o objetivo pode ser a geração de uma grande diversidade de opções dentro de uma linguagem, seja para a exploração criativa de idéias, seja para a criação de famílias de objetos. Os métodos generativos em geral utilizam procedimentos sistemáticos que incluem o uso de parâmetros e a avaliação de condicionais. Essas sequências de instruções precisas são chamadas de algoritmos – daí o nome “projeto algorítmico” ou algorithmic design.

Nestes tempos de Generative Components e de Grasshopper o conceito de sistema generativo de projeto acabou sendo associado aos programas de modelagem paramétrica, dando uma falsa impressão de que (a) os sistemas generativos são algo novo e que (b) os sistemas generativos necessitam obrigatoriamente ser implementados em computador. Para desconstruir esses dois mal entendidos basta ler um artigo de Mitchell da década de 1970, “The theoretical foundation of computer-aided architectural design” (3), em que ele nos conta que os sistemas generativos existiam desde a época de Aristóteles e dá diversos exemplos surgidos ao longo da história.

O livro recentemente lançado de Salingaros começa justamente nessa linha, apresentando exemplos de métodos de geração de formas para arquitetura e urbanismo que utilizam “cutting-edge mathematical techniques” (“avançadas técnicas matemáticas”), nas palavras do autor, que possui formação em matemática. O livro se baseia em um curso dado pelo autor ao longo de doze semanas em 2008, na Universidade do Texas, em San Antonio. O texto é esquemático, em forma de notas de aula, e ilustrado por simpáticos croquis desenhados pelo autor.

Os métodos matemáticos apresentados incluem simetria, recursão, sequência de Fibonacci, combinatória, fractais, autômatos celulares e algoritmos genéticos. Após a apresentação de alguns desses métodos são apresentados exemplos de aplicação em arquitetura, de maneira não necessariamente literal. Salingaros esclarece que não está propondo que os arquitetos devam simplesmente gerar fractais e usá-los como forma em seus projetos, mas que podem observar as características típicas dessas composições algorítmicas - como a auto-similaridade e a repetição de formas em diferentes escalas – e aplicá-las de diferentes maneiras. O autor cita como exemplo desse tipo de aplicação as fachadas manuelinas, em que o mesmo tipo de detalhe aparece em diferentes escalas, dependendo da distância em que pode visto.

Outro conceito enfatizado por Salingaros é o do projeto adaptável (adaptive design) que, segundo ele, seria a solução para enfrentar a complexidade dos problemas em arquitetura. O projeto adaptável consiste em um algoritmo que recebe informações sobre as características do local e instancia uma forma em resposta a esses dados específicos. O autor também comenta sobre o a fabricação digital e a possibilidade de se obter complexidade a partir de regras simples e com a ajuda de máquinas de controle numérico.

Embora o objetivo principal do livro seja introduzir conceitos de desenho generativo, ele é permeado por comentários, crítica arquitetônica e princípios de projeto – como a linguagem dos padrões - influenciados pela obra de Alexander (e.g. “Os arquitetos de hoje em dia usam a tecnologia, não a ciência da maneira como Christopher Alexander e eu a usávamos para compreender a arquitetura”). Assim como seu mestre, Salingaros critica duramente o modernismo e faz uma apologia à arquitetura e urbanismo vernaculares. Logo após o texto sobre fractais, por exemplo, o autor afirma que “o minimalismo modernista não é fractal”, pois há uma enorme distância entre as escalas grande e pequena, sem elementos intermediários. Há referências explícitas ao Brasil, por exemplo, com críticas ao desenho urbano de Brasília e elogios às formas orgânicas das favelas. Nem mesmo a arquitetura algorítmica contemporânea escapa às críticas. O autor se refere ao “new algorithmic design” como algo desumano: uma busca vazia por formas divertidas e abstratas, porém irrelevantes e totalmente desconectadas da escala e das necessidades das pessoas:

“Eu espero, sinceramente, que os estudantes de arquitetura, que se impressionam facilmente com as coisas, não sejam seduzidos pelo Poder tecnológico colocado à sua disposição, e que, ao invés disso, percebem que essa força pode ser usada para fins malignos. É muito fácil deixar de lado o projeto adaptável e se fascinar pela tecnologia da manipulação digital e da geração de formas esquisitas” (p.164).

Os três últimos capítulos apresentam exemplos da possibilidade de emprego da legislação urbanística como código generativo para criar morfologias urbanas. O autor chama este método de “Novo Urbanismo” (New Urbanism), e ilustra-o com projetos como o bairro Schooner Bay, nas Bahamas, projetado por Stephen A. Mouzon, e praças projetadas por Alexis Hugh Ramirez para a cidade de Querétaro, no México – exemplos pouco conhecidos, mas aparentemente bem sucedidos. O primeiro estudo de caso mostra a ocupação progressiva de um conjunto de quadras em que a densidade, o tamanho dos lotes e o gabarito vão se modificando ao longo do tempo conforme a necessidade e a ocupação do espaço. O segundo discute questões de escala humana e apresenta uma série de regras práticas para se obter espaços agradáveis. Ainda que por meio de um enfoque completamente diferente, Salingaros apresenta métodos e conceitos que já nos vinham sendo ensinados por mestres como Álvaro Siza e Rafael Moneo, e que se constituem em importantes lições para a formação de jovens arquitetos e urbanistas. Sobre a praça, por exemplo, ele escreve:

"a praça urbana não precisa ser quadrada. Na verdade, apenas em raras ocasiões a praça deveria ser quadrada ou simétrica. Isso pode ser visto repetidamente em praças históricas que evoluíram ao longo do tempo. Ao construirmos uma nova cidade seguindo as regras de adaptação devemos permitir que a forma praça seja definida pelos fluxos e pela evolução do tecido urbano ao seu redor, sem impor-lhe um desenho simétrico rígido” (p. 237).

Na conclusão o autor reconhece que seu livro é, na verdade, um manifesto contra o sistema dos arquitetos-estrela, dos edifícios-troféu e da arquitetura como produto de consumo. Enfim, trata-se de contraponto fundamental à recente literatura sobre os novos métodos de projeto baseados no uso intensivo da tecnologia e sobre os novos meios de produção do edifício.

notas

1
MITCHELL, W. J. The theoretical foundation of computer-aided architectural design. Environment and Planning B: Planing and Design, Londres, n. 2, 1975, p. 127-150.

2
FISCHER, T.; HERR, C. M. Teaching generative design, In: Proceedings of the 4th International Generative Art Conference. Milão: Ed. SODDU, 2001. Disponivel em: <http://www.generativeart.com>. Accesso em: 10 de Abr. 2004.

3
MITCHELL, W. J. Op. cit.

sobre a autora

Gabriela Celani é arquiteta e professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp.

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