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Livro de José Lira trata dos embates de Gregori Warchavchik na construção da arquitetura moderna brasileira e lança hipótese para explicar como e por quais motivos Lúcio Costa minimizou a importância do arquiteto russo na historiografia

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ANELLI, Renato. De Odessa a São Paulo. Revisitando a trajetória de Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil. Resenhas Online, São Paulo, ano 11, n. 124.01, Vitruvius, abr. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/11.124/4210>.


Este livro é dedicado à reconstituição da trajetória de Gregori Warchavchik,  arquiteto russo-ucraniano de família judaica, formado em Roma e reconhecido no Brasil pelo seu papel de introdutor da arquitetura moderna no final da década de 1920. Fruto de uma longa pesquisa de pós-doutorado, o livro percorre minuciosamente os anos de formação em Odessa e Roma, antes de se deter em São Paulo, onde o arquiteto aportou em 1923 para desenvolver uma profícua carreira. Contudo, a profusão de informações não turva a visão do problema que o autor constrói:  identificar o papel desse arquiteto no processo de modernização cultural e produtiva brasileiro, ultrapassando os relatos consagrados pela historiografia.

Ao apresentar o livro de José Lira, o historiador argentino Adrián Gorelik insere um contundente comentário sobre a condição de pioneiro da arquitetura moderna no Brasil que acompanha Warchavchik: “e há algo mais paradoxal – e patético – para um pioneiro, que abrir um caminho que ninguém percorre?”. Sabemos que a arquitetura moderna que representa o Brasil internacionalmente é decorrente das concepções de Lucio Costa, o qual, após uma colaboração inicial com Warchavchik, constrói uma outra orientação, chegando a negar a importância deste para o movimento. José Lira tece um cuidadoso relato de como essa situação foi sendo criada. Para isso lança mão da história social e cultural, situando a trajetória de Warchavchik e identificando seus momentos chaves.

O primeiro é sua inserção na vanguarda modernista brasileira nos primeiros anos após sua imigração. Entre tantos estrangeiros imigrados, apenas após a construção da sua casa, em 1927, Warchavchik garante a boa acolhida da intelectualidade que havia promovido a Semana de Arte Moderna em 1922, movimento que conferia ao moderno a tarefa da construção de uma identidade nacional para o país. Nacionalismo e modernidade são os fios condutores da arquitetura moderna brasileira desde o início e causariam as tensões que definiriam a posição de Warchavchik na sua historiografia.

A aproximação com os modernistas tem seu auge em 1930, quando realiza a “Exposição de uma casa modernista” em uma pequena casa construída para locação. Durante o mês que durou a exposição, milhares de visitantes puderam experimentar uma arquitetura que integrava mobiliário, obras de arte e paisagismo inovadores. O sucesso da casa lhe permitiu o acesso a parte da aristocracia local disposta a atualizar seu gosto e se distanciar dos estilos acadêmicos. Entretanto, Lira mostra como o acesso a clientes mais abonados não foi suficiente para romper com sua principal contradição. A modernização produtiva da construção no Brasil ocorria apenas em grandes obras, conduzidas por engenheiros que estavam alheios à renovação estética modernista. Enquanto os canteiros de obra que adotavam a racionalização do processo construtivo estavam restritos a projetos em estilos  acadêmicos, as casas modernistas de Warchavchik eram construídas de modo tradicional, sendo cada inovação formal uma árdua conquista. O autor argumenta que essa contradição, identificada por alguns historiadores como uma anomalia da sua obra, constituiu uma condição reveladora das características do processo de industrialização do Brasil, portanto inerente à modernização do país.

O segundo momento crucial da trajetória de Warchavchik foi sua passagem pelo Rio de Janeiro. Tendo atuado em São Paulo, centro da economia cafeeira abalado pela crise de 1929, Warchavchik se aproxima da capital do país em 1930. Participa do IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos, conduz duas obras privadas que teriam grande repercussão e acaba sendo convidado a dar aulas na Escola Nacional de Belas Artes pelo novo diretor, Lucio Costa com o qual estabelece uma sociedade profissional. Seu estímulo à formação de uma vanguarda no Rio de Janeiro é inequívoco, mas seriam esses mesmos protagonistas que negariam sua relevância. Lira explora com cuidado esse período, ao identificar como ocorre, no campo da arquitetura, a mudança do eixo de renovação moderna dos salões aristocráticos de São Paulo para o aparato estatal do Rio de Janeiro após a Revolução de 1930. Warchavchik não se ajusta a essa nova situação, alinhando-se aos paulistas na desconfiança ante o novo governo federal. As iniciais indefinições de rumo desse novo governo alimentam a disputa pela hegemonia da representação do estado nacional. No enfrentamento com os modernistas, os defensores dos estilos acadêmicos aprofundam suas acusações xenófobas, que vinham sendo brandidas por personagens como Christiano Stockler das Neves em São Paulo e por José Mariano no Rio. Ao reproduzir trechos dessas críticas, Lira permite ao leitor que tome ciência do nível da argumentação brandida pelos conservadores brasileiros contra a arquitetura moderna. Nesses, a frequência e facilidade da ocorrência de acusações antissemitas nos permite imaginar que tal sentimento estivesse muito mais difuso na sociedade do que  supomos (um erro induzido pelo  alinhamento brasileiro na guerra contra o nazi-fascismo nos anos seguintes). Lira nos instiga a perguntar se não teria sido esse um dos fatores que levaram Lucio Costa a construir uma ligação entre a arquitetura moderna e as raízes mediterrâneas nacionais, afastando-se com isso da orientação mais próxima à Nova Objetividade alemã, que caracterizava até então a obra de Warchavchik. Para o nacionalismo da arquitetura moderna, o pioneiro estrangeiro se tornava um personagem problemático de sustentar. Aqui teríamos o surgimento das novas posições relativas de Lucio Costa e Gregori Warchavchik na historiografia da arquitetura moderna brasileira.

O livro avança ao mostrar como essa reviravolta repercute na postura do próprio Warchavchik, que entre 1933 e 1937 se afasta da cena para administrar os negócios imobiliários da família. Constitui uma atitude de defesa ante a turbulência política que remonta aos anos de infância e juventude em Odessa, onde o arquiteto sobreviveu aos progroms pré-revolucionários e à guerra civil pós-revolucionária, período cuidadosamente reconstituído na parte inicial do livro.

O predomínio conservador em São Paulo na década de 1930 levaria sua arquitetura moderna a perder o protagonismo inicial. Após a segunda-guerra, quando surge uma nova geração de arquitetos modernos, a produção dos arquitetos formados no Rio de Janeiro e liderados por Lucio Costa e Oscar Niemeyer se impõe como principal referência. Lira mostra o recuo de Warchavchik a uma produção mais ao gosto da clientela conservadora e sua falta de interesse em disputar um papel de liderança, afastando-se da dimensão pública e política que gradualmente dominaria o ambiente paulista na década de 1950. Aprofundando-se nos afazeres imobiliários de sua família e de seus clientes, Warchavchik retira-se da linha de frente da vanguarda moderna brasileira, que será assumida pela nova geração. O autor apresenta seus principais trabalhos realizados nessa nova fase, marcada pela atenção às mais diversas orientações da arquitetura do pós-segunda guerra. Aponta ainda como ele abandona a prática de profissional liberal e constitui uma empresa, revelando a mudança de estatuto do exercício da arquitetura conforme a sociedade brasileira se modernizava.

Alguns aspectos de método devem ser apontados no livro. José Lira tece um relato do qual emerge uma trajetória complexa, que supera os modelos evolutivos e lineares de explicação histórica ainda predominantes na arquitetura. Conforme suas palavras em uma entrevista ao site www.vitruvius.com.br, seu objetivo “foi pensar o conjunto da produção de Warchavchik em suas idas e vindas, hesitações e pesquisas, contradições e experiências, oportunidades e variações” (1). O seu fácil trânsito entre autores de diversas áreas das ciências humanas permite que se superem certas encruzilhadas mal explicadas da trajetória de Warchavchik, que só podem ser entendidas em uma perspectiva histórica. Contudo, seu objetivo é mais abrangente: através da “biografia intelectual e profissional” desse importante protagonista, contribui para o “entendimento de um processo cultural e social mais amplo e para a revisão de alguns obstáculos à discussão contemporânea em história da arquitetura moderna”. Destaque-se que o faz sem menosprezar o fato arquitetônico em si. Em suas análises das obras de arquitetura, enfrenta a forma arquitetônica como parte relevante da história social, econômica, cultural e urbana na qual está inserida. Posição que contribui para superar certa esquizofrenia metodológica presente na construção da nova história da arquitetura no Brasil, ainda dividida entre os defensores de uma certa autonomia disciplinar e aqueles que a utilizam como mera ilustração de processos históricos mais amplos.

notas

NE
Texto originalmente publicado na Domus Web, 23 dez. 2011 <www.domusweb.it/en/book-review/warchavchik-fraturas-da-vanguarda->. Revisão de Cristina Fino.

1
INVAMOTO, Denise. Gregori Warchavchik: de Odessa a São Paulo. Entrevista com José Lira. Entrevista, São Paulo, n. 11.047.01, Vitruvius, set. 2011, p. 4 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/11.047/4026>.

sobre o autor

Renato Anelli é arquiteto (PUC-Campinas, 1982), mestre em história (Unicamp,1990), doutor em arquitetura (FAU USP, 1995). professor titular e presidente da Comissão de Pós-Graduação do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos. Pesquisador CNPq desde 1995, publica regularmente no Brasil, Itália, França, Argentina e Alemanha trabalhos sobre arquitetura e cidade contemporânea.

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Warchavchik

Warchavchik

Fraturas da vanguarda

José Tavares Correia de Lira

2011

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