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Fugindo das armadilhas ideológicas e da construção de uma identidade nacional, o livro Brasil: Arquiteturas após 1950 apresenta a diversidade e complexidade da produção brasileira contemporânea

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CAMARGO, Mônica Junqueira de. Uma nova leitura da arquitetura moderna brasileira. Resenhas Online, São Paulo, ano 11, n. 128.01, Vitruvius, set. 2012 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/11.128/4467>.


A historiografia da arquitetura brasileira vem se ampliando consideravelmente, a partir das últimas décadas, com contribuições diversas: de trabalhos de revisão com base em novas leituras à exploração de novos temas, fontes e métodos. Mesmo com esse salto quantitativo e qualitativo, os trabalhos panorâmicos ainda são poucos e de natureza muito distintas: Arquitetura brasileira (1952) de Lúcio Costa; 1970 – Quadro da arquitetura brasileira (1970) de Nestor Goulart Reis Filho; Quatro séculos de arquitetura (1977) de Paulo Ferreira Santos; Arquitetura brasileira (1977) de Carlos Lemos. Os trabalhos seguintes, como os próprios títulos sugerem, concentram-se na produção moderna, reconhecida pela maioria dos autores como os anos dourados da Arquitetura brasileira, com grande destaque à produção dos arquitetos cariocas: Arquitetura contemporânea no Brasil (1981) de Yves Bruand; Arquitetura moderna brasileira (1982) de Marlene Milan Acayaba e Sylvia Ficher; Arquitetura no Brasil 1900 – 1990 (1997) de Hugo Segawa; e os mais recentes incorporam a Arquitetura das últimas décadas do século passado: Pós-Brasília: rumos da arquitetura brasileira (2002) de Maria Alice Junqueira Bastos; Arquitetura contemporânea (2003) de Roberto Segre; Arquitetura moderna brasileira (2004) organizado por Elizabetta Andreoli e Adrian Forty, com a colaboração de vários autores, e Brasil: Arquiteturas após 1950, (2010) de Maria Alice Junqueira Bastos e Ruth Verde Zein, que propõe uma revisão do discurso comum de certo ufanismo com a produção moderna, ampliando o conjunto das obras analisadas. Apesar do atraso da resenha, acreditamos que esta se justifica pelo alcance dessa publicação.

A quantidade, diversidade e complexidade da produção brasileira contemporânea são assustadoras até mesmo aos mais experientes historiadores, o que garante ao trabalho de Maria Alice e Ruth um caráter excepcional, só possível graças as suas intensas trajetórias de pesquisa, cujos mestrados (1) e doutorados têm como tema a produção brasileira da segunda metade do século 20, aos quais se somam os anos de experiência de Ruth como crítica da revista Projeto. O desafio enfrentado com coragem e empenho resultou em uma obra que já nasceu como referência. Brasil: Arquitetura após 1950 foi uma encomenda do mesmo editor de Arquitetura Contemporânea no Brasil de Bruand, o primeiro e o mais extenso levantamento sobre a produção brasileira do século 20, até 1969 (data de enceramento da pesquisa), fruto da sua tese de doutorado apresentada na Université de Paris IV. Ainda que passível de muitas críticas, como as revisões têm apontado, o livro de Bruand é a referência para todos os seguintes, inclusive para este que agora comentamos e cuja abrangência equipara-se à de Bruand.

Apesar da referência, são leituras muito distintas. O panorama de Bruand apresenta uma narrativa sobre a gênese e o ápice da Arquitetura moderna no país, sendo a produção carioca, especialmente a de Oscar Niemeyer, a grande protagonista, a qual atribui papel decisivo no desenvolvimento da Arquitetura brasileira, enquanto Maria Alice e Ruth buscam contemplar a diversidade e a simultaneidade dos fatos arquitetônicos, mais preocupadas com a sua complexidade do que com a sua singularidade. Fugindo das armadilhas ideológicas e da construção de uma identidade nacional, apresentam uma vasta e dispersa produção que coteja de intervenções urbanas a objetos arquitetônicos, de edifícios corporativos a habitação de interesse social.

O amplo leque de obras apresentado, que Montaner identificou em sua apresentação, como "um continente de arquitetura", cobre meio século de Arquitetura brasileira, sintetizado pelas autoras em seis capítulos: Continuidade (1945-1955); Diálogos (1955-1965); Pós-Brasília (1965-1975); Crise e Renovação (1975-1985); Novos Rumos (1985-1995) e Contemporaneidade (1995-2000), divididos em subcapítulos, cujos títulos sugerem os temas explorados.

Os três primeiros caracterizam-se por uma revisão historiográfica, tendo como ponto chave a interpretação de Brasília não como o ápice da Arquitetura moderna, mas como um ponto de mutação do movimento moderno brasileiro, cuja justificativa se pauta na produção, simultânea ou mesmo anterior, de uma Arquitetura de igual qualidade em outras partes do país, especialmente na cidade de São Paulo. A exploração dos concursos como fonte documental das ideias vigentes nos diversos períodos foi muito bem desenvolvida por Maria Alice e Ruth, na medida em que souberam explorar, além da descrição do projeto vencedor, todo o significado desses eventos. A seleção de obras pretende apresentar um panorama representativo da Arquitetura nacional, identificando não apenas as obras excepcionais que fundaram ideias ou redirecionaram os rumos da Arquitetura, mas aquelas que coletivamente são responsáveis pela qualidade do ambiente urbano. Segundo as autoras:

"Por boa Arquitetura se entende não apenas aquela que adequadamente atende aos requisitos técnicos, funcionais e financeiros, mas a que também seja, esteticamente boa. (...) pode-se postular que será boa Arquitetura a que se mostre apropriada ao momento e ambiente em que se insere.” (p. 267)

Frente a essa preocupação, pode-se estranhar a destacada presença de Niemeyer no sumário do livro - o único arquiteto que nomeia um capítulo e três subcapítulos, um deles compartilhado com um colega, porém o estranhamento logo se desfaz ao se avançar no texto, quando se esclarece que a intenção das autoras é chamar a atenção de que ele não era único, e que sua Arquitetura compartilhava de uma agitada efervescência de ideias, por exemplo, a contribuição de João Filgueiras Lima, Lelé, que perpassa quatro capítulos, nos quais as autoras vão revelando a trajetória desse trabalho ímpar, fruto de perseverança e dedicação.

Entretanto, no afã de escapar das obras consagradas, algumas omissões se fazem notar, além das já comentadas na introdução de Montaner, acrescentamos: o aterro do Flamengo de 1960, não só pelo paisagismo de Burle Marx, conforme apontou Montaner, mas que com a parceria de Reidy, realizaram uma das grandes invenções arquitetônicas do século 20, que abrange Urbanismo, Arquitetura e paisagismo, realizada três décadas antes da alardeada intervenção da equipe de Oriol Bohigas para Barcelona. A FAU USP, de 1961, de Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, totalmente ignorada pelos autores dos manuais estrangeiros, também foi relegada pelas autoras, sendo comentada apenas como termo de comparação aos projetos dos palácios de Brasília (p. 74) de Niemeyer ou da reitoria da Universidade de Brasília de Paulo Zimbres e colaboradores (p. 146), sem qualquer destaque entre as obras de Artigas. Ausência essa que causa surpresa, sobretudo, conhecendo-se a excelente descrição de ambas as autoras sobre essa obra em seus respectivos trabalhos de mestrado e doutorado. Reconhecer o papel da FAU USP, para o bem ou para o mal, enquanto objeto arquitetônico, ensino de Arquitetura e biblioteca especializada, enriqueceria o panorama apresentado, pois é, sem qualquer ufanismo, uma das referências mais relevantes da produção brasileira da segunda metade do século 20. Mesmo buscando minimizar a presença dos arquitetos e sobretudo dos expoentes, as autoras não escapam de eleger dois mestres: Niemeyer e Mendes da Rocha.

Com mais atenção às obras do que aos seus autores, a narrativa de Brasil: Arquitetura após 1950 se constrói a partir da descrição das obras, algumas detalhadamente exploradas, onde é possível identificar uma apropriada, para usar um termo caro às autoras, filiação ao formalismo analítico de Collin Rowe e a sua interpretação por parte de Carlos Comas. É a partir das obras, em uma leitura no sentido de dentro para fora, que as autoras estabelecem as relações com a produção dos seus pares, com o panorama nacional e internacional, de modo a configurar não uma dependência e sim uma troca de mão dupla, como claramente apontada pelas autoras no desenvolvimento do brutalismo, cujas datas dos projetos comprovam a simultaneidade das ideias que circulavam nos quatro cantos do mundo; ou na pertinente aproximação entre Lina e Reidy, até então não apontadas, seja entre a casa de vidro de Lina e a de Jacarepaguá de Reidy, ou entre os museus de ambos.

A descrição de uma obra e de seu material gráfico não é tarefa trivial, e as autoras demonstram pleno domínio. Chama atenção a familiaridade com que Ruth e Maria Alice intercalam precisas informações técnicas com comentários coloquiais, valendo-se de expressões e construções irônicas como: meter sua colher torta na massa do bolo; miesiano de carteirinha; versão casal Smithson, que amenizam o discurso acadêmico, sem contudo perder o rigor.

Integram esse inédito mapa de relações construído pelas autoras, os debates provocados pela pós-modernidade no contexto latino-americano, que resultaram na criação, em 1985, do Seminário de Arquitetura Latino-Americana (SAL), importante fórum crítico, em que se buscava fazer um balanço da modernidade e repensar a Arquitetura frente aos novos desafios. A troca, se não muito profícua entre os praticantes, trouxe contribuições importantíssimas no campo da crítica e da história, com os textos de Marina Waisman – El interior de la historia. Historiografia arquitectónica para uso de latinoamericanos; e de Christián Fernández Cox – Modernidad apropriada que trouxeram uma leitura do ponto de vista local, das ideias lançadas por Liane Lefraive, Alexander Tzionis e depois desenvolvidas por Kenneth Frampton sobre o regionalismo crítico.

Para a produção mais recente, de 1985 a 2000, comentada nos dois últimos capítulos, as autoras adotaram como critério de seleção e apresentação das obras, alguns dos temas que permeiam os debates atuais, como os já mencionados concursos, a habitação popular, os terminais de transporte, as reciclagens, a tecnologia, o lugar, evitando classificá-los segundo a geografia ou suas opções formais.

Bruand termina seu panorama com uma indagação (p.378): "mas será o futuro tão promissor quanto o passado recente e o presente?"

Brasil: Arquitetura após 1950 é uma resposta que, segundo Maria Alice e Ruth:

"ao renunciar a qualquer intento de dar continuidade, mais ou menos linear, aos discursos grandiosos que nos precederam, não pretendemos desconsiderá-los, apenas constatar o quanto eles parecem ter se esvaziado de sentido: cumpriram um papel, mas desde então o cenário mudou e o teatro está exibindo outros espetáculos. É assustador, mas talvez seja necessário aceitar a liberdade, e, com certeza, o desconforto, de vivermos hoje uma realidade fragmentária, ampla demais para ser enfeixada em palavras de ordem, em discursos esquemáticos triunfais e pretensamente eficientes, que embalam e consolam tanto quanto simplificam e enganam. O presente nos lança outros e novos desafios - e, para encará-los de maneira mais despojada, aqui jaz este trabalho, cujo anseio não é o de reafirmar a perfeição do ovo, mas o de romper sua superfície e respirar o ar, mesmo que irrespirável do mundo”. (p. 395)

Enquanto Bruand, frente às conquistas da Arquitetura moderna brasileira, colocava em dúvida a capacidade dos mais jovens em superar o brilhantismo dos mestres, Maria Alice e Ruth afirmam a inadequação de se prender à história, prevêem um quadro extremamente complexo a ser enfrentado para o qual seu texto se pretende um alerta, com lições a serem aprendidas e nunca repetidas.

notas

1
BASTOS, Maria Alice Junqueira de. Arquitetura contemporânea brasileira após Brasíliadiscurso, prática e pensamento, Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU USP, 2000; BASTOS, Maria Alice Junqueira de. Dos anos 50 aos anos 70: como se completou o projeto moderno na arquitetura brasileira. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2005; ZEIN, Ruth verde. Arquitetura brasileira, escola paulista e as casas de Paulo Mendes da Rocha. Dissertação de mestrado. Porto Alegre, UFRGS, 2000; ZEIN, Ruth verde. A arquitetura da escola paulista brutalista: 1953-1973. Porto Alegre, UFRGS, 2005.

sobre a autora

Mônica Junqueira de Camargo é arquiteta, professora dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação da FAU USP. Desde 2008, é editora-chefe desta revista Pós, revista do programa de pós-graduação da FAU USP.

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