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reviews online ISSN 2175-6694


abstracts

português
O livro de Juhani Pallasmaa é sobre o papel dos sentidos na concepção e percepção da arquitetura, destacando as mãos como ferramenta vital por onde começar a questionar os paradigmas vigentes sobre a prática arquitetônica

english
Juhani Pallasmaa's book is about the role of the senses in the conception and perception of architecture, emphasizing hands as a vital tool where to begin to question the paradigms of the architectural practice

español
El libro de Juhani Pallasmaa trata del rol de los sentidos en la concepción y la percepción de la arquitectura, haciendo hincapié en las manos como una herramienta vital por dónde empezar a cuestionar los paradigmas de la práctica arquitectónica

how to quote

CHAVES, Celma. A arquitetura pulsante de Juhani Pallasmaa. Resenhas Online, São Paulo, ano 11, n. 132.03, Vitruvius, dez. 2012 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/11.130/4552>.


Ao ver a capa do livro que me despertou interesse em escrever esta resenha, fui atraída por um desenho de inspiração mística e imediatamente pelo título: “La mano que piensa. Sabiduría existencial y corporal en la arquitectura”. Ao folheá-lo, vi que de místico, no sentido vulgar da palavra, ele não tinha nada. Fui descobrindo o valor desse estudo meticuloso e fundamentado que o autor havia desenvolvido, e sua preciosa contribuição às questões cruciais do existir humano, aquelas relacionadas ao que somos: seres que criamos, seja qual for o âmbito em que nos movemos.

No espaço da cidade contemporânea, onde o tempo do fazer artesanal perdeu-se na engrenagem veloz dos muitos fazeres e das muitas informações, é alentador deparar com os textos que compõem o livro do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa. O autor é ainda pouco conhecido do público brasileiro, mas na Europa já possui uma profícua trajetória como arquiteto e designer, e é conhecido e solicitado internacionalmente por seus escritos e conferências sobre arte e arquitetura que realiza em vários países europeus, nos Estados Unidos, Canadá, entre outros.

Trata-se de uma visão incomum da arquitetura e da arte, conciliando a sapiência intelectual com as elaboradas incursões ao mundo do inconsciente e da percepção, nos brindando um instigante ensaio a respeito da mão como sujeito dos ofícios humanos. No seu último livro traduzido ao português e publicado no Brasil com o título Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos (2011) apresenta uma crítica ao que ele considera a supremacia da visão nos processos cognitivos e de concepção da arte e da arquitetura contemporânea. Neste livro, publicado originalmente em 2009, o arquiteto finlandês segue em defesa da inclusão dos variados sentidos nesses processos, mas dá importância fundamental ao tato como catalizador e a mão como ferramenta que se contrapõe à cultura tecnológica atual, em tempos de afeição, às vezes desmedida, aos modos de vida automatizados.

Os textos presentes no livro são uma reformulação em estrutura editorial de uma coletânea de conferências que ministrou entre 1999 e 2008, publicados em periódicos especializados em diversos países. Está organizado em capítulos que em sua maior parte enfatizam a especial riqueza que representa o sentido do tato, na concepção do projeto de arquitetura, no fazer artístico e artesanal. A mão é apresentada essencialmente como articuladora dos níveis expressivos, como anunciadora da complexa multissensorialidade humana, em conexão com o cérebro, e como um componente que em diversas culturas assume simbolismos em gestos e em linguagens.

Faz referências aos textos que lhe são caros nesta abordagem, articulando conteúdos que vão da filosofia, à literatura, à anatomia, e à neurologia. Vivências pessoais que marcaram sua experiência infantil na chácara de seu avô são também recuperadas nessa aproximação:

“una comprensión de mi propia existencia corporal y de las interdependencias esenciales entre los aspectos mentales y físicos de la vida cotidiana. Ahora creo que incluso el sentido de la belleza y del juicio ético de cada uno de nosotros están firmemente basados en las primeras experiencias de la naturaleza integrada del mundo de la vida humana” (p. 8).

No âmbito da arquitetura é notável sua herança do empirismo nórdico: de Gunnar Asplund a Alvar Aalto, apresentando outros desconhecidos arquitetos e artistas de seu país, além de suecos e dinamarqueses. E, embora não mencione, é fácil perceber uma aproximação com o pensamento de Norberg-Schulz. As citações e explicações constituem abordagens diversificadas, e aparentemente contrastantes das artes, em escrituras, em adjetivações, em representações. E é nessa epistemologia particular que o arquiteto é apresentado não apenas como o coadjuvante da experiência espacial, mas como partícipe. O arquiteto e seus instrumentos, o corpo, a mente e as mãos, como partes da própria casa que projeta. “Presto mi cuerpo, mis manos y mi mente a servicio del outro, como si en mi papel de arquitecto yo fuera la comadrona en el parto de la casa” (p. 141).

É nessa poética do conceber e do habitar, do dasein (ser no mundo) que Bachelard associa a mão ao atributo imaginativo do homem, como um fragmento que ao integrar-se a toda nossa constituição corporal, amplia a percepção do próprio sentido do habitar. Embora não cite a abordagem da poética dos espaços de Bachelard, deixa claro em vários momentos do livro que a expressão do todo sensorial é essencial na experiência da arquitetura, como bem afirma o filósofo francês. Esta condição do habitar é mediatizada por nosso corpo, diz ele. Nesse sentido, corporificar significar sentir e vivenciar a arquitetura exatamente no que ela tem de concreto, sua materialidade. Superfícies que se tocam, espaços que dialogam ou repulsam o corpo, onde se traduz as impressões que a arquitetura causa:“a redondez de las esquinas... los pequeños detalles que te expulsan o te invitan a entrar” (1), diz Pallasmaa.

"A mão tem seus sonhos e suposições", segundo aponta Gaston Bachelard. Álvaro Siza, o arquiteto desenhando [PALLASMAA, J. La mano que piensa. Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 2012. pág.13]

Em sua apreciação da mão como instrumento de trabalho, Pallasmaa refere-se ao uso exaustivo da ferramenta computacional nos projetos de arquitetura, em que a multissensorialidade acaba reduzindo-se à produção mecânica. Defende a distinção, na acepção original do termo, do desenho a lápis, de sua incomparável expressão e vitalidade, na essência da união da mão e da mente. Aqui poderíamos nos referir à defesa que arquitetos como Álvaro Siza Vieira fazem da importância dos desenhos feitos à mão no processo criativo do arquiteto. A mão é considerada mais que um instrumento de concretização de coisas, é o elemento mais representativo desse processo, com autonomia e consciência própria, com afirma o autor.

Ao longo da leitura, uma montagem vai se configurando em capítulos que parecem fragmentados para realizar interpretações desse componente pulsante da criação, a mão. Descompondo as partes, para depois, numa sorte de síntese, mostrar que a mão, como fragmento é parte de um todo integrado e ela mesma contém os elementos desse todo: a mão é artesanal, é trabalhadora, é mental, é emocional, é conceitual, é tecnológica. A mão de Pallasmaa dá conta desse todo, convertendo-se esse objeto de estudo em objeto histórico, porque para cada uma dessas histórias, como já havia sublinhado Tafuri, esse objeto (a mão) tem algo para dizer (2).

Insta-nos à reconciliação entre o pensamento e as sensações corporais, para recordar que não vivemos em nossos corpos, mas somos constituintes corporais, nós mesmos. Uma separação que segue vigente nas práticas sociais e educativas até hoje. Isto se evidencia, segundo o autor, na supervalorização de nossa dimensão racional e intelectual, confirmando a tendência contemporânea a imaginar com demasiada precisão e a abusar das ferramentas de ajudas diagramáticas. Reivindica a necessidade de uma mudança de padrão educativo no âmbito da arquitetura, para que voltemos a descobrir a nós mesmos como seres físicos, mentais, e sensoriais, numa fenomenologia e que façamos uso total de nossas capacidades.

Aprofunda nas diversas expressões que uma integração entre corpo, mente e o eu assume no processo de construção da obra de arte e da obra de arquitetura. Argumenta que a inteireza criativa do artista e do arquiteto precisa estar em dois focos simultaneamente: no mundo e no eu. Sem reclamar definições psicológicas ou doutrinárias de qualquer filosofia, o autor reivindica apenas um ato sensorial entre o mundo e os instantes do inconsciente individual. Em uma narrativa livre de qualquer conotação de religiosidade ou de anticientificidade, o autor transita, com sutileza entre a linha fronteiriça, como ele denomina, da arquitetura vista pelo observador e pelo próprio arquiteto, entre o eu, o outro (observador/habitante/usuário) e o mundo observado e vivido.

Embora o texto apresente grande quantidade de referências de variados campos do conhecimento – o que agrega conceitos que requerem mais atenção – nos convida a uma viagem importante e necessária nesses tempos de uso constante, às vezes, beirando a insanidade, dos recursos das tecnologias digitais. Este fato tem gerado, na opinião do autor, um ensino, em todas as áreas da atividade humana, que desalenta a imaginação, reprime os sentidos e petrifica e aprofunda a fronteiras entre o mundo e o eu. Num mundo, considera Pallasmaa, que a arquitetura está se desumanizando, tornou-se apenas uma arte visual, de crescente não cuidado com os sentidos, especialmente o tato, é necessário um coração que sinta compaixão pelo destino humano, em tempos de arquiteturas egocêntricas e falsamente seguras de si mesmas.

Entretanto, os textos não são pessimistas, pelo contrário. Apresentam a arquitetura como uma espécie de imago mundi existencial, oferecem-nos a possibilidade de entendermos a nós mesmos e à nossa cultura. E é nesse processo de conhecimento de si mesmo, que o autor defende uma prática arquitetônica que faça uso da destreza da mão em seu sentido heideggeriano, que inclua um conhecimento-pensamento corporal.

O interesse multidisciplinar do autor enriquece suas colocações, mas a substância de seu texto é transmitida principalmente na mensagem que incide nas questões ontológicas mais profundas da presente condição humana: reivindicação de valores éticos na arquitetura, de valores existenciais no ato criativo,  crítica ao exagerado narcisismo em arquitetura. O livro reveste-se de significado nesses tempos de excesso de informações visuais que aprisionam olhares em entornos midiatizados, de obsessão pela singularidade, à revelia de uma qualidade sensorial existencial e experiencial, como aponta o autor. A mão que esboça traços, que escreve palavras poéticas, que manipula formas e materiais pode ser a mesma que aperta um teclado, que desliza o mouse, acompanhando as mudanças frenéticas de uma época. No entanto, é na arquitetura que essa mesma mão pode se encontrar com os olhos, a cabeça e o coração, e vislumbrar espaços eticamente humanos, ampliando nossa percepção e nossa experiência sensorial dos espaços que criamos e onde habitamos.

sobre a autora

Celma Chaves Pont Vidal é arquiteta, doutora em Teoria e História da Arquitetura pela ETSAB UPC Barcelona, docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPA. Coordena o Laboratório de Historiografia e Cultura Arquitetônica e pesquisa nos temas de arquitetura pública, história urbana e da arquitetura na Amazônia.

notas

1
PALLASMAA, Juhani. La arquitectura de hoy no es para la gente. Entrevista concedida a Anatxu Zabalbeascoa. El Pais, Suplemento Babelia, Madrid, 12 ago. 2006.

2
TAFURI, Manfredo. La esfera y el laberinto. Vanguardias y arquitectura de Piranesi a los años setenta. Biblioteca de arquitectura, Barcelona, Gustavo Gili, 1984.

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resenha do livro

La Mano Que Piensa

La Mano Que Piensa

Sabiduría Existencial Y Corporal En La Arquitectura

Juhani Pallasmaa

2012

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