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abstracts

português
Obra seminal explicita conhecimento tácito para o projeto a partir da observação do comportamento humano no ambiente construído. Elementos arquitetônicos são estruturados a partir de uma linguagem que sustente soluções projetuais da escala urbana à humana

english
Translation of a seminal work expliciting tacit knowledge on human behavior in relation to the built environment for design information. Architectural elements are structured through a language, which may support design from the urban to the human scale.

español
Traducción de trabajo seminal que explícita el conocimiento tácito para el proyecto, que se obtiene a partir de la observación del comportamiento humano en el entorno construido.

how to quote

BARROS, Raquel; KOWALTOWSKI, Doris. Do projeto urbano ao detalhe construtivo. A Pattern Language” finalmente traduzida. Resenhas Online, São Paulo, ano 12, n. 137.01, Vitruvius, maio 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.137/4734>.


“Mescla de faixas etárias” (Padrão n.40). Alexander et al. (2013, p.216) [Denise Aielo - BRSA]

A obra A Pattern Languange: Towns - Buildings - Construction foi publicada pela primeira vez em 1977. A obra teve um papel fundamental nas discussões de fatores do projeto arquitetônico e da relação ambiente construído - comportamento humano. Apesar de ter tido somente uma edição, inúmeras tiragens ao longo destes cerca de 40 anos divulgaram estas discussões e tiveram impacto não somente na área de arquitetura, mas também em áreas como por exemplo matemática e ciência da computação, tendo sido traduzida em vários idiomas. A Pattern Language insere-se no contexto de outras obras seminais com as quais dialoga, em maior ou menor grau, tais como as de N. John Habraken, Christian Norberg-Schulz, Kevin Lynch, Gordon Cullen, Olivier Marc, Bernard Rudofsky, Jane Jacobs, entre outras.

No início da década de 60, as investigações na área de metodologia de projeto foram formalizadas pelo Design Methods Movement nos E.U.A. e países da Europa. Christopher Alexander, por meio de sua pesquisa de doutorado (1), estrutura os problemas de projeto e desenvolve programa computacional para organizar os requisitos de projeto complexo de uma aldeia na Índia. Esta obra coincide com o período, na área da arquitetura, quando arquitetos e engenheiros atentos ao panorama científico procuravam aplicar novas técnicas ao desenvolvimento do projeto a fim de melhorar a qualidade do processo e de seus produtos. Paralelamente, Alexander percebe as limitações da aplicação de métodos puramente racionais aos problemas de projeto, considerados complexos e mais tarde denominados traiçoeiros (2). Alexander argumenta por uma visão complexa de estrutura das cidades ou de suas partes e desenvolve crítica às cidades resultantes do Movimento Moderno por meio da comparação entre estruturas abstratas contrastantes representadas por esquemas que denomina de árvore e semigrelha (3). A ideia de sobreposição, ambigüidade e multiplicidade do esquema de semigrelha representaria aquela visão mais complexa de estrutura, de impacto positivo na esfera da vida cotidiana dos habitantes. Na mesma linha de “Ekistics” (4), “A city is not a tree” teve grande impacto no pensamento subseqüente sobre o desenho urbano, vindo a influenciar teorias como a da sintaxe espacial (5) e a da teia urbana (6).

No fim da década de 60, Alexander abre uma nova linha de pensamento em metodologia de projeto com menor proximidade dos métodos científicos clássicos e maior inserção do conhecimento vindo das ciências sociais. Alexander e colegas do Center for Environmental Structure-CES iniciam uma série de pesquisas com base em observações de ambientes cotidianos. Várias publicações divulgam os resultados e preparam a base teórica dos patterns. Uma linguagem de patterns é apresentada pela primeira vez em obra que trata da proposta do CES para o concurso Proyeto Experimental de Vivienda-PREVI para área em Lima (7), sob abordagem pautada nos modos de vida, requisitos e preferências apreendidos no local e em processos participativos.

Na década de 60 também se consolida e passa a influenciar os estudos em arquitetura, a área da psicologia ambiental, estruturando os estudos sobre o comportamento humano no ambiente construído e representada por autores como Roger G. Barker, Edward T. Hall, Robert Sommer, Amos Rapoport e Harold M. Proshansky, entre outros. A participação de usuários futuros ou potenciais também é fortemente recomendada para dar voz às necessidades humanas mais subjetivas, tendo Henry Sanoff como expoente. Sobretudo, ressalta-se a importância em se considerar a relação do ser humano com o seu ambiente como processo interativo e não unidirecional ou determinista. A definição coerente da arquitetura humanizada seria a satisfação com o ambiente físico e inclui o conceito de renovação e descrença em perfeição instantânea. Refere-se às necessidades humanas constantes requeridas do ambiente construído, a saber, necessidades sensoriais de calor, luz, som e cheiro; territorialidade e privacidade; segurança; orientação espacial e constância; estímulo visual estético e beleza; variedade de estímulos sensoriais. As formas de satisfazer essas necessidades variam com o tempo e dependem da cultura e do clima local. A abrangência do tema da humanização em arquitetura e sua relação com fenômenos arquitetônicos de difícil ou mesmo impossível mensuração contribuem para a dificuldade em se produzir exemplos físicos claros das intenções humanizadoras. Neste sentido, ressalta-se a iniciativa pioneira em “A Pattern Language” na organização de dados da relação ser humano – ambiente para sustentar soluções projetuais, buscando ligar, de forma sistemática, o comportamento humano a elementos arquitetônicos. Um modo intemporal de construir é apresentado como a base teórica dos patterns e seria capaz de conferir vida a uma edificação ou cidade, constituindo um processo que liberaria uma ordem fundamental e inerente às pessoas (8). Para conhecer este modo, far-se-ia necessário construir uma linguagem viva de patterns, cuja estrutura seria criada por uma rede de conexões entre eles. E esta linguagem seria viva, como uma totalidade, à medida que esses patterns formassem um todo (wholeness).

No Brasil, o Design Methods Movement e mesmo os estudos da psicologia ambiental não tiveram repercussão expressiva na atividade profissional dos escritórios de projeto e, por muitos anos, pouco influenciaram os programas de ensino e pesquisa das escolas de arquitetura. Neste sentido, é sabida a influência marcante do modelo de ensino Belas-Artes, que reforçou a qualidade artística do projeto em contexto idealizado em detrimento até, em alguns casos, da qualidade técnica do projeto na realidade complexa das cidades, lugares e pessoas. Outro motivo dessa indiferença pode ter sido a falta de traduções de publicações seminais como, por exemplo, esta obra. Assim, considera-se que a tradução deste livro traz para a área uma importante contribuição que deve enriquecer as discussões sobre processo de projeto e humanização. O trabalho de revisão técnica da tradução do livro requereu a imersão no espírito da época e a releitura cuidadosa do texto original, dada a defasagem temporal desde sua publicação original e as novas dinâmicas e desenvolvimentos na área do projeto urbano e arquitetônico.

Os patterns apresentados incorporam profundo conteúdo humanizador derivado da observação de atributos espaciais de lugares apreciados por seus usuários. Os autores salientam que apresentam uma (possível) e não a (única) linguagem. Explicam que a aplicação dos patterns no projeto não necessariamente acarreta resultados semelhantes e que a relação entre eles não é linear, visto que ocorre uma riqueza de conexões. É premissa dessa proposta que o projetista seja alimentado por circunstâncias locais específicas. Muito embora estes esclarecimentos, os patterns têm por vezes sido considerados como de natureza determinista. Considerando o caráter prescritivo associado ao termo padrão na língua portuguesa bem como em arquitetura ressalta-se que, muito embora a tradução literal como padrões, o conteúdo e o caráter propositivo dos patterns indicam sua interpretação enquanto parâmetros de projeto, no sentido de serem elementos cuja variação de valor contribui e orienta a solução de um problema no todo sem lhe modificar a natureza. De fato, eles foram apresentados pela primeira vez como princípios de projeto com capacidade generativa (9).

“Inserção de moradias em áreas remanescentes” (Padrão n.48). Alexander et al. (2013, p.257) [Denise Aielo - BRSA]

A obra foi publicada no momento histórico em que se buscava urgentemente um caminho para o resgate qualitativo e o significado expressivo da arquitetura após a Segunda Guerra Mundial, especialmente em áreas residenciais nos Estados Unidos da América e em países da Europa (10). Um olhar sobre a produção habitacional no período permite observar que a orientação técnica moderna eliminou distinções espaciais importantes no âmbito da vida cotidiana, e que o caminho para aquele resgate envolveu a promoção de conjuntos de menor porte e atrelados ao lugar. Este contexto explica a crítica por vezes radical aos quadriláteros cristalinos da arquitetura da Era da Máquina, como no pattern 191. Cabe também uma ressalva para parte dos patterns da seção Construção, considerada não consolidada pelos próprios autores. Ressalvas decorrentes das diferenças climáticas também se fazem necessárias. Em regiões de clima quente, o uso de patterns tais como os de número 105, 128, 161 e 162 pode acarretar excesso de radiação solar se não acompanhado de conhecimento técnico específico e sensibilidade em projeto. Algumas das traduções não literais decorrem da defasagem temporal e conseqüente descompasso em relação a mudanças culturais e tecnológicas tais como as relacionadas ao hábito de fumar em ambientes internos e ao uso de lâmpadas incandescentes (patterns 139 e 183). Tratando-se de uma linguagem de projeto, enfatiza-se que linguagens são dinâmicas e refletem o espírito de cada época. O conceito da acessibilidade, muito presente na área atualmente, não é contemplado na obra original. É possível e recomendável que se desenvolvam patterns introduzindo temas novos como, por exemplo, o Desenho Universal.

A obra desenvolvida ao longo dos anos por Alexander continua influenciando e instigando novos desenvolvimentos, e novas linguagens tem sido propostas para diferentes tipologias de uso. Continuamente, surgem discussões acerca das raízes teóricas da obra de Alexander. De fato, identificam-se em sua teoria ao menos duas tendências em oposição, a saber, a racionalista procurando entender a ordem das coisas – o Estruturalismo de Jean Piaget – e a intuitiva enfatizando a experiência pessoal e os sentimentos – a Fenomenologia de Martin Heidegger (11). Desde sua publicação, “A Pattern language” têm recebido críticas significativas desde sobre o pouco conteúdo (científico) dos parâmetros (12) à negação da legitimidade de um pluralismo de valores em arquitetura (13; 14). Enquanto os parâmetros provavelmente possuem pouco conteúdo científico e pouca possibilidade de verificação das afirmações por falta de referências, eles demonstram uma conexão direta à vivência humana no ambiente construído, percebida por um senso comum e entendimento natural. De fato, a abordagem da linguagem dos parâmetros é considerada uma base preciosa para a comunicação racional no projeto ambiental (15), enquanto se admite a sintonia daquela obra à de outros pesquisadores considerados no meio acadêmico (16), os quais argumentam que as pessoas se sentem em harmonia quando mais próximas da natureza e no convívio social, também se referindo a estudos sobre a vida espontânea em comunidade e aos tipos de ambientes que a fomentam.

“A pattern language” sintoniza-se às reflexões e diretrizes atuais de projeto quanto à relação ambiente - comportamento, especialmente no que diz respeito a uma relação mais sensível com o lugar e os serviços ambientais, a valorização das pessoas, seu bem-estar e qualidade de vida vinculada a cidades mais vivas e na diversidade socioambiental. Os patterns de projeto incentivam a mescla de usos e um projeto urbano-arquitetônico menos rígido e mais participativo, com vistas à equidade social. Equivocadamente, por vezes parte dos patterns é tida como promovendo a segregação espacial quando, na verdade, a ênfase no tratamento dos limites dos espaços e bordas das edificações e conjuntos – os espaços de transição – se dá justamente com o intuito de dar suporte a uma diversidade de situações, eventos e culturas, valorizando a importância de um gradiente público-privado numa riqueza de espaços capazes de promover a identidade das pessoas com o lugar, nas diferentes escalas de intervenção. O livro traz à tona as preocupações referentes ao impacto socioambiental da construção civil e do desenho das cidades e, neste sentido, é um verdadeiro precursor de alerta sobre a sustentabilidade em suas variadas dimensões. Diversos patterns problematizam e sugerem alternativas para a mobilidade nas cidades e a redução do uso do automóvel individual; o combate à impermeabilização excessiva do solo e o incentivo à produção local de alimentos; o combate ao uso de materiais de alto consumo de energia e de água, à toxicidade, à falta de maleabilidade para uso e manutenção, a pouca durabilidade, entre outros. Concomitantemente, muitos patterns tratam do suporte à vida para além da pura contabilidade de recursos naturais, canalizando a necessidade humana inata por ambientes enriquecedores, vivos e saudáveis, numa visão holística.

A partir da edição brasileira, vislumbra-se a oportunidade de revitalizar e resgatar as importantes discussões sobre a qualidade do ambiente construído nos países de língua portuguesa. Espera-se que o conteúdo dos patterns e possíveis linguagens – rede de conexões entre eles – a partir do arquétipo proposto e em caráter propositivo e aberto, possam influenciar a análise e reflexão projetual e o fazer arquitetônico e urbanístico com vistas a um ambiente construído mais humano e sustentável. Para tanto, recomenda-se a consideração mais efetiva desta obra em atividades de ensino e pesquisa.

“Espaço de transição” (Padrão n.112). Alexander et al. (2013, p.548) [Denise Aielo - BRSA]

notas

1
ALEXANDER, C. Notes on the synthesis of form. Cambridge: Harvard Univ., 1964.

2
RITTEL, H. W. J.; WEBBER, M. W.; Dilemmas in a General Theory of Planning, Policy Sciences, Amsterdam, v. 4, n. 2, p. 155-169, 1973.

3
ALEXANDER, C. A city is not a tree, Architectural Forum, v. 122, n. 1, p. 58–61 e n. 2, p. 58-62, 1965.

4
DOXIADIS, K. A. Ekistics: an introduction to the science of human settlements. New York: Oxford University Press, 1968.

5
HILLIER, B.; HANSON, J. The social logic of space. Cambridge: Univ. Press, 1984.

6
SALINGAROS, N. A. Theory of the urban web, Journal of Urban Design, v. 3, n. 1, p. 53-71, 1998.

7
ALEXANDER, C., HIRSHEN, S.; ISHIKAWA, S.; COFFIN, C.; ANGEL, S. Houses generated by patterns. Berkeley: Center for Environmental Structure, 1969.

8
ALEXANDER, C. The timeless way of building. New York: Oxford Univ., 1979.

9
ALEXANDER et al. (Op. Cit., 1969)

10
ROWE, P. Modernity and housing. 1st (paperback) ed. Cambridge: M.I.T., 1995.

11
ELSHESHTAWY, Y. Searching for theory: Christopher Alexander's intellectual roots. Architectural Science Review, Sydney, v. 44, n. 4, p. 395-404, December 2001.

12
PROTZEN, J. The Poverty of the Pattern Language. Design Methods and Theories, San Luis Obispo, v. 12, n. 3/4, p. 191-194, Sept./Dec. 1978.

13
DOVEY, K. The Pattern Language and its Enemies. Design Studies, Oxford, v. 11, n. 1, p. 3-9, Jan. 1990.

14
SAUNDERS, W.S. A Pattern Language (book review). Harvard Design Magazine, Cambridge/Massachusetts, n.16, p. 1-7, Winter/Spring 2002. Disponível em: <http://www.gsd.harvard.edu/research/publications/hdm/back/16books_saunders.html>. Acesso em: 20 dez. 2008.

15
DOVEY, K. (Op. Cit., 1990)

16
SAUNDERS, W.S. (Op. Cit., 2002)

sobre as autoras

Doris Catharine Cornelie Knatz Kowaltowski é Professora Titular na Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP; Mestre e PhD em Arquitetura pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Arquiteta pela Universidade de Melbourne. Coordena vários projetos de pesquisa e é membro da Coordenação da Área de Arquitetura e Urbanismo da FAPESP. Atua nos cursos de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo. Concluiu orientação de várias teses de doutorado e dissertações de mestrado. Prêmio de Reconhecimento Acadêmico “Zeferino Vaz”, UNICAMP e Bolsa de produtividade CNPq. Publicou vários livros e capítulos de livro, artigos em revistas indexadas e inúmeros trabalhos em conferências internacionais.

Raquel Regina Martini Paula Barros é Arquiteta e Urbanista, Pesquisador e Professor Colaborador junto ao Departamento de Arquitetura e Construção e Professor Visitante junto ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Tecnologia e Cidade da FEC-UNICAMP. Doutor em Engenharia Civil na área de Arquitetura e Construção pela UNICAMP, Mestre em Arquitetura pela University of Minnesota. Concluiu Pós-Doutorado que consolida base teórico-conceitual de potencial humanizador e de sustentabilidade ambiental vinculada ao projeto da habitação coletiva na cidade (FAPESP2010/13401-5). Publicou Habitação coletiva: a inclusão de conceitos humanizadores no processo de projeto (São Paulo, Annablume, 2011).

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