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Django Livre utiliza o estilo neoclássico como grande referência arquitetônica para a morada dos chefes brancos escravocratas. O artigo analisa como as moradias são retratadas no filme.

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CAMPOS, Márcio Correia. Django Livre, o filme, e a “arquitetura neoclássica” nos Estados Unidos da América. Resenhas Online, São Paulo, ano 12, n. 140.04, Vitruvius, ago. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.140/4850>.


Django Livre [divulgação]

Há exatos 20 anos, Frank Gehry, em uma entrevista por ocasião da construção do American Center em Paris – portanto alguns anos antes da realização do Museu Guggenheim de Bilbao –, respondia com firme indignação à pergunta sobre os arquitetos que, ao tentar fazer dos seus prédios algo mais importante, mais substancial, estavam se apropriando de formas e detalhes do passado, tornando-se adeptos do neoclassicismo:

“Eu fiquei com muita raiva quando os arquitetos começaram a fazer prédios que pareciam templos gregos. Eu achei aquilo uma negação do presente. Era uma coisa muito podre para deixar de herança para as nossas crianças. É como se estivéssemos dizendo a eles que não há razão para ser otimista em relação ao futuro. Então eu fiquei com muita raiva. Daí que eu realmente comecei a desenhar o peixe. O peixe está aí há milhares e milhares de anos. É uma criatura da natureza, muito fluida. É uma forma permanente no tempo e sobrevive” (1).

Em seu último filme, Django Livre (2), Quentin Tarantino narra as aventuras de um escravo que, liberto por um alemão que vive como caçador de criminosos em troca de recompensa, tenta encontrar sua mulher, escravizada em uma das maiores fazendas do sul dos Estados Unidos, região onde o cerne da história é ambientado (3). Entre as várias citações aos filmes de western, a já infalível estetização da violência através da hipérbole, a maestria do humor e a fantástica trilha sonora, Tarantino desenvolve um épico inspirado nas lendas alemães transcrito para o momento histórico da Guerra Civil norte-americana, tendo como pano de fundo central a aberração da escravidão dos negros em meados do século XIX. À fundamental oposição entre o herói negro, interpretado por Jamie Foxx, e os vilões escravocratas, intermediada pela figura cômica do alemão “ilustrado”, corresponde uma série de oposições que formam a narrativa fílmica, entre elas uma de caráter espacial.

Há três situações espaciais básicas em que a história se desenvolve: a) o ambiente urbano, com duas variações: a pequena cidade de rua enlameada no Texas, onde a um negro não era permitido sequer montar a cavalo ou entrar no bar, e a da cidade de arquitetura francesa, com interiores metropolitanos onde os negros serviam aos brancos em distintas funções e graus de crueldade; b) o espaço intermediário das paisagens rurais dos caminhos e estradas, onde a liberdade pode ser experimentada ou conquistada pelos negros; e c) o espaço das fazendas, das plantações e das casas senhoriais, com sua arquitetura neoclássica como a relacionamos imediatamente com os Estados do sul dos EUA, usadas desde sempre no cinema (E o Vento Levou, para citar apenas um grande exemplo) como índice cultural desta região.

Em Django Livre, Tarantino não nos deixa conhecer o espaço de moradia dos negros, tampouco há qualquer edificação sobre a qual um negro tenha alguma autonomia de gestão ou uso: todos os edifícios são as casas dos brancos, seus estábulos ou casas de diversões e bares, enquanto os negros estão no espaço aberto das estradas e plantações, verdadeiramente despossuídos de qualquer abrigo arquitetônico: se estão no interior de alguma edificação, estão apenas na condição de serviçais. Ou como redentor, o caso de Django em sua trajetória libertadora.

Candyland é a sede de fazenda arquetípica, a casa neoclássica que é a morada da família do grande vilão, interpretado por Leonardo di Caprio e caracterizado como o mais desumano e sádico dos senhores escravocratas. Fotografada frontalmente, enfatizando sua imponência na paisagem rural, Candyland não sobrevive – assim como todos que ali moravam – à saga de Django e é explodida em uma cena que faz referência ao filme Giù la testa, de 1971, dirigido por Sergio Leone.

Acontece que no caminho a Candyland, Django também elimina o grupo de capatazes brancos que executavam todos os castigos físicos impostos aos escravos. O espectador tem a chance de entrar na choupana dos capatazes antes de Django: ali, em um único espaço, o grupo desfruta de um descanso, jogando cartas, tomando banho ou, como faz a única personagem feminina do grupo, interpretada por Zoe Bell, em uma sequência de conteúdo enigmático, observando imagens em um estereoscópio. E a imagem que a capataz olha com atenção é uma foto do Partenon.

Tarantino poderia ter escolhido muitas imagens para esta cena, mas ele resolve escolher exatamente uma imagem do edifício que, atravessando séculos e milhares de quilômetros, é a grande referência arquitetônica para a morada dos chefes brancos escravocratas fundadores da Klu-Klux-Klan. Associar as casas senhoriais neoclássicas ao poder dos brancos racistas poderia ser uma vinculação um tanto simples, mas fazer com que os brancos capatazes, executores práticos do poder tirânico e desumano apreciem o Partenon, confere à associação a função de uma potente acusação dentro do processo de significação experimentado naquela sociedade por um dos símbolos mais poderosos da cultura ocidental. A caminho de uma sociedade moderna, livre da escravidão, parece não haver outro final para Candyland que a sua completa destruição. Estaria Tarantino reafirmando a raiva de Gehry?

Django Livre [divulgação]

notas

1
Gehry, Frank O. On theAmericanCenter,Paris An Interview. In Jencks, Charles and Kropf, Karl (org.). Theories and Manifestoes of Contemporary Achitecture.Chichester,UK: Academy Editions, 1997, p. 118-120.

2
Django Livre (Django Unchained). Direção de Quentin Tarantino, 2012. In IMDb Internet Movie Database <http://www.imdb.com/title/tt1853728/>.

3
The masked woman in Django Unchained. Whats her significance? In blog.reddit, jan. 2013. Disponível em <http://r2.reddit.com/r/movies/comments/15i5to/the_masked_woman_in_django_unchained_whats_her/>. Sobre o filme, ver também: BILLSON, Anne. Some notes on Django Unchained. In Multiglom The Anne Billson Blog, 18 jan. 2013. Disponível em <http://multiglom.wordpress.com/2013/01/18/some-notes-on-django-unchained/>.

sobre o autor

Márcio Correia Campos, professor assistente em regime de dedicação exclusiva do Departamento de Projeto de Arquietura, Paisagismo e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia. Graduado em Arquitetura e Urbanismo por esta mesma Universidade (1993), Mestre em Arquitetura pela Technische Universität Wien (TU-Vienna), Áustria (1999), atualmente doutorando na Technische Universität München (TU-München), Munique, Alemanha. Experiência docente nas áreas de Projeto, Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo e História da Arte. Pesquisador nas áreas de projeto, teoria, crítica e história da arquitetura dos séculos XX e XXI e patrimônio cultural edificado. Prêmio Destaque no 6 Prêmio Jovens Arquitetos 2004 conferido pelo IAB-SP na categoria Ensaios Críticos. Experiência como profissional de projeto na área de Arquitetura e Urbanismo em escritórios de arquitetura no Brasil e na Áustria.

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