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Ana Luiza Nobre faz um balanço da quarta edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa, um espaço de produção, reflexão e crítica que não deixa a dever a Bienal de Veneza.

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NOBRE, Ana Luiza. A forma da forma e outras coisas. Notícias da Trienal de Lisboa. Resenhas Online, São Paulo, ano 16, n. 179.05, Vitruvius, nov. 2016 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/16.179/6283>.


O mundo inteiro parece ter descoberto Portugal. E a arquitetura portuguesa certamente está entre os motivos pra isso. Não bastasse o Castelo de São Jorge, o Convento dos Jerônimos, os dois Pritzkers, o país se firma como sede de um dos mais importantes fóruns de debate e divulgação de arquitetura do mundo. A Trienal de Arquitetura de Lisboa, que começou meio timidamente há menos dez anos, se consolida nesta quarta edição – a primeira pós-troika, em cartaz até 11 de dezembro – como um espaço de produção, reflexão e crítica que não deixa a dever a Veneza e em certos aspectos até rivaliza, se não supera sua congênere italiana.  Contam para isso sua escala e estrutura bem mais enxutas, além da ausência de representações nacionais que hoje ameaça a Bienal de Veneza (veja-se o histórico das mostras no próprio pavilhão brasileiro).

No caso de Lisboa, a decisão dos curadores, os arquitetos portugueses André Tavares e Diogo Seixas Lopes, foi optar por uma estrutura policêntrica, concentrando esforços em 4 exposições situadas em espaços distintos da cidade: Centro Cultural Belém, Fundação Calouste Gulbenkian, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia e a Sede da Trienal de Lisboa. Cada uma dessas exposições toma um viés complementar – e às vezes colidente – para discutir o complexo processo que em arquitetura vai da concepção à realização. Ou das ideias às circunstâncias.

Autonomia

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, Exposição “A forma da forma”, pavilhão
Foto Tiago Casanova

“A Forma da Forma”, exposição que dá titulo à Trienal, está localizada à beira do Tejo, no espaço externo do recém-inaugurado MAAT. O tema é tratado tanto por meio do conteúdo – um impressionante compêndio de imagens recolhidas pelo Socks Studio (Mariabruna Fabrizi e Fosco Lucarelli)  – quanto da própria espacialidade do pavilhão expositivo, projetado em parceria entre os arquitetos Mark Lee, Kersten Ggers e Nuno Brandão Costa. O desafio de converter o suporte em conteúdo expositivo fez com que os três arquitetos encarassem o pavilhão como um exercício projetual em escala 1:1. Partindo da seleção e sobreposição de seus próprios projetos, realizaram um “penetrável” que sintetiza, evidencia e problematiza a complexidade da pesquisa formal em arquitetura.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, Exposição “A forma da forma”, pavilhão
Foto Tiago Casanova

As contribuições brasileiras são pontuais, e se dividem entre as exposições “O mundo nos nossos olhos” e “Obra” – montadas, respectivamente, na Garagem Sul (Centro Cultural de Belém) e na Fundação Gulbenkian. A primeira apresenta uma nova versão do “Modelo Vivo” (Rua Arquitetos), em desdobramento desde a X Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013. Na versão produzida para o CCB, o desejo delirante de produzir uma maquete da cidade do Rio de Janeiro a partir da favela da Maré avança sobre um dos pilares do espaço expositivo, driblando a normatividade do projeto expográfico com uma indisciplina que corresponde aos processos informais de espacialização urbana. Com isso, garante presença como uma espécie de instalação no meio de um conjunto exaustivo de mapeamentos, análises e pesquisas urbanas – a maioria complexa demais para o formato e o espaço da exposição, e incompreensível para boa parte do público.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, Exposição “O mundo nos nossos olhos”, Modelo Vivo
Foto Tiago Casanova

Negociação

“Obra” é a exposição mais forte em termos da relação entre expografia e conteúdo (em boa parte produzido com base em pesquisa em acervos). Entendendo o canteiro de obras como um “espaço de negociação” – entre arquitetos, contratantes, operários, técnicas etc. – a curadoria buscou chamar a atenção para “o lugar onde a arquitetura ganha forma”. O projeto expográfico, dos arquitetos Inês Vieira da Silva e Miguel Vieira (SAMI arquitetos) foi determinante: a exposição começa bem antes do espaço expositivo, com a instalação de um corrimão metálico de desenho e execução rigorosa no saguão da Fundação Gulbenkian.  A delicada peça autoportante – que se percorre simultaneamente com os olhos e a mão – opera como um convite sutil à exposição, ao mesmo tempo em que reverte a imagem de sujeira e desordem frequentemente associada ao canteiro com um perfil em curvas e contracurvas de extrema clareza e racionalidade.

Cedric Price, McAppy, vista da grua, 1973-1976
Imagem divulgação [Canadian Centre for Architecture]

“Felicidade, leveza, sistema, tempo, material, comunicação e coreografias” são os temas que estruturam a exposição. Em “Felicidade”, uma documentação preciosa, hoje sob a guarda do CCA/Canadian Center for Architecture, expõe o minucioso programa de qualificação das condições de trabalho em canteiros de obras elaborado pelo arquiteto Cedric Price para a empresa Alistair McAlpine, na esteira das greves que afetaram a indústria britânica da construção, nos anos 1970. Encontram-se aí pormenorizadas, em desenhos, tabelas e textos, uma série de observações e propostas para melhorar aspectos relacionados à comunicação, à segurança e ao bem-estar dos operários, bem como à eficiência e economia nos modos de produção. Uma das propostas mais interessantes consiste no redesenho de um dos principais símbolos do canteiro: uma grua multifuncional que incorpora sistemas de iluminação e de comunicação (como alto-falantes e telas de televisão) para animar o ambiente de trabalho no canteiro e reverter sua brutalidade com uma estética pop.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, corrimão metálico na Fundação Gulbenkian, exposição "Obra"
Foto Tiago Casanova

“Coreografias” é um dos momentos mais poéticos da Trienal: que delícia ver Olívia Palito caminhando, sonâmbula, sobre as vigas em movimento de um arranha-céu em construção. Ou o casal que dança uma espécie de rock n roll soviético sobre um painel pré-fabricado. Os chilenos Pedro Ignacio Alonso e Hugo Palmarola fizeram uma montagem a partir de cenas de filmes e desenhos animados passados em canteiros de obras da União Soviética e Estados Unidos entre as décadas de 1920 e 1980. O resultado é uma sequencia que encanta pelo pas-des-deux dos personagens e componentes construtivos e faz pensar como o otimismo tecnológico associado à industrialização moderna suplantou barreiras ideológicas e políticas e contagiou até o imaginário infantil.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, filme “Choreographies”, de Pedro Alonso e Hugo Palmarola
Fotograma: A Dream Walking, Estados Unidos, 1934, direção de Dave Fleischer, Fleischer Stu

A seção “Leveza” contém outra participação brasileira: um documentário sobre o processo de produção de habitação em desenvolvimento desde os anos 90 pelos arquitetos da Usina, coletivo sediado em São Paulo. Enfatiza-se aí um outro tipo de organização do canteiro: aquele que associa o projeto de elementos construtivos leves e de pequenas dimensões a propostas de autoconstrução, com base em estratégias de conscientização e empoderamento de grupos em situação de vulnerabilidade. 

Permanência e experimentação

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, instalação “A Triagular History”, de Eduardo Souto de Moura
Foto Tiago Casanova

A Trienal de Lisboa se desdobra também em vários eventos satélites. Espaços pouco visíveis ou acessíveis da cidade são irrigados e ganham, com isso, outra dimensão. Como a casa em que nasceu o Marques de Pombal, palacete quase em ruínas que tem abrigado eventos e residências artísticas e durante a Trienal recebe uma peça musculosa produzida pelo arquiteto Souto de Moura com base numa reflexão sobre a permanência da forma – tema de inspiração rossiana que o arquiteto português explora do ponto de vista da sua materialidade, desafiando a própria arquitetura do palácio, no limite mesmo da sua resistência.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, workshop "The Power of experiment", galeria Quadrum
Foto Artéria

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, workshop "The Power of experiment", galeria Quadrum
Foto Artéria

Cabe destacar também o workshop “The power of experiment”, conduzido pelo atelier lisboeta Arteria, que juntou estudantes de escolas de arquitetura nórdicas e portuguesas em torno do desafio de “formular, formalizar e performar” uma estrutura arquitetônica sem passar pelo desenho. Outra ação/ocupação singela, porém notável, é a Plataforma Trafaria, instalada num antigo presídio do outro lado do Tejo, visando ampliar a discussão sobre o destino do espaço – que já foi cogitado para se tornar um empreendimento hoteleiro de luxo.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, Plataforma Trafaria
Foto Ana Luiza Nobre

Política

Mas a Trienal soube também se articular com outras instituições fortes, do ponto de vista político e econômico, e fez coincidir a abertura desta edição com a abertura das portas do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Belém. O projeto da arquiteta britânica Amanda Levete não está concluído – e a ausência da conexão projetada sobre a linha férrea foi sentida logo na abertura do museu, quando a multidão de visitantes provocou um congestionamento na passarela existente e seu fechamento por motivos de segurança. O problema não é novo – e vale lembrar que tampouco foi executada até hoje a passarela projetada por Paulo Mendes da Rocha para ligar o Museu dos Coches à zona riberinha.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, inauguração do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
Foto divulgação [EDP Foundation]

Nos dias que se seguiram à inauguração do MAAT (5 de outubro), boa parte do público que circulou por ali se mostrou sem fala. Talvez porque se trate de uma arquitetura um pouco estranha a Portugal. Ainda que o curador, arquiteto Pedro Gadanho – trazido de volta do MoMA para montar o projeto curatorial –, não deixe dúvidas sobre o princípio norteador do novo museu: a inserção de Portugal num circuito global e cada vez mais voraz que junta arte, turismo cultural e entretenimento, e se define por números: 2 a 3 dias em Lisboa, 7 a 8 minutos no Psycho Park de Dominique Gonzalez-Foester (instalação inaugural do MAAT).

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, inauguração do MAAT, congestionamento de pedestres na passarela sobre a linha férrea
Foto divulgação [EDP Foundation]

Um pouco assustador para quem vê com desconfiança o caráter cada vez mais midiático assumido pelos museus contemporâneos – e nem seria preciso lembrar do Museu do Amanhã, no Rio. Dois aspectos do projeto do MAAT, em todo caso, merecem atenção, e o distinguem dentro do seu gênero: o primeiro é a concepção da cobertura como espaço público. Nesse ponto, em particular, o projeto revela sua maior qualidade. Reporta-se à topografia da região com a delicadeza das colinas lisboetas, inaugura um mirante e uma praça ribeirinhas que oferecem novas visadas do rio e prometem usos diversificados, permanentes e independentes do museu – que tem caráter privado e é administrado pela Fundação EDP, ligada a uma das maiores empresas do setor enérgico do mundo (EDP), cuja principal acionista hoje é a estatal chinesa China Three Georges (CTG).

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
Foto Francisco Nogueira

Outro ponto a ser destacado é o uso de elementos de cerâmica vitrificada num complexo sistema de fachada que de certo modo leva adiante uma linha de experimentação desencadeada com outros projetos recentes em Portugal, como a expansão do Oceanário de Lisboa e o Terminal de Cruzeiros Leixões, em Matosinhos (projetados, respectivamente, por Pedro Campos Costa e Luis Pedro Silva). Ainda que os problemas de acabamento sejam evidentes, há um esforço de inscrever o museu numa tradição arquitetônica que se distingue pela relação forte com o conceito de lugar, em todas as suas dimensões (históricas/culturais/climáticas/ geográficas).

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
Foto Francisco Nogueira

Não obstante essas qualidades – mais facilmente percebidas quando o edifício é visto do Tejo, sob a luz da tarde – o MAAT carece de relação com a arquitetura do entorno. O projeto volta as costas para Belém e ignora inclusive o Museu dos Coches, que está bem ali, do outro lado da linha férrea. Tampouco busca um diálogo com seu vizinho mais próximo: um impressionante conjunto eclético erguido no início do século 20 para abastecer de energia a cidade de Lisboa e que hoje abriga uma parte do espaços expositivos do museu, entre máquinas, geradores e caldeiras centenárias.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
Foto Hufton+Crow [Courtesy AL_A]

Para além das questões suscitadas pelo tema da Trienal, um dos pontos mais fortes desta edição está justamente nas mudanças de escala e dimensão que compreende, como um zapping que aproxima de maneira brusca e inesperada lógicas radicalmente contrárias – um modesto laboratório de investigação de formas de resistência cultural num presídio desativado e um museu-espetáculo animado por um ambiente de negócios internacionais. Impossível não pensar no próprio processo de modernização e urbanização de Portugal, que se realiza de modo heterogêneo e disperso nas últimas décadas (e foi tão bem flagrado por Álvaro Domingues n’A rua da estrada). E perguntar-se que país será esse após a recessão econômica que vai ficando para trás, ainda que lentamente, enquanto hordas de turistas são despejados ao pé da Alfama.

Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
Foto Hufton+Crow [Courtesy AL_A]

Por isso, ainda que a Trienal não se livre de um certo enquadramento corporativo – assumido nesta edição pela decisão de reforçar os códigos internos da disciplina –, e que tenha sido afetada pela morte de um dos seus curadores (Diogo Seixas Lopes, um dos mais pulsantes intelectuais da cena arquitetônica portuguesa contemporânea, falecido em fevereiro passado), fica evidente que há motivos suficientes para estar atento ao que lá se passa, e às questões que Lisboa dispara.

nota

NA – Texto resenha as principais exposições da IV Trienal de Arquitectura de Lisboa, “The form of form”, curadoria de André Tavares e Diogo Seixas Lopes, Lisboa, de 5 de outubro a 11 de dezembro de 2016.

sobre a autora

Ana Luiza Nobre é arquiteta e professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio.

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