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Diego Inglez de Souza faz balanço da quarta edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa, que se consolida – após três edições de caráter mais experimental – no circuito de eventos internacionais que refletem, debatem e pautam questões para a arquitetura.

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SOUZA, Diego Inglez de. A forma e o risco. Uma visita à Trienal de arquitectura de Lisboa. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 181.04, Vitruvius, jan. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.181/6387>.


Entre outubro e dezembro de 2016, aconteceu a 4ª Trienal de Arquitectura de Lisboa, edição batizada de “A forma da forma” pelos curadores André Tavares e Diogo Seixas Lopes. As exposições, instalações e workshops tiveram lugar em diversos museus, centros culturais, edifícios históricos e equipamentos públicos da região metropolitana da capital portuguesa e arredores. Após três edições de caráter mais experimental em termos de formato, ambições e objetos, a Trienal se consolida no circuito de eventos internacionais que refletem, debatem e pautam questões para a arquitetura.

A espinha dorsal da Trienal é uma tríade que confronta três dimensões fundamentais da arquitetura, não sem dissonâncias: o projeto e sua concepção, suas referências espaciais, artísticas e imagéticas, o processo de construção destes projetos até que eles se tornem de fato objetos na paisagem e os territórios, representados por uma coleção de visões múltiplas de situações urbanas através de pesquisas e especulações sobre cenários futuros. A clara definição destes eixos abriam ao visitante a possibilidade de uma experiência com múltiplas entradas, na medida em que o programa e o calendário eram complementados por satélites, projetos associados e eventos.

Promenade defronte ao novo edifício do MAAT
Foto Diego Inglez de Souza

Entre o desenho e a obra

A exposição “Obra”, apresentada na brutalista sede da Fundação Calouste Gulbekian, é a exposição que apresenta conteúdo mais concreto, apesar do inevitável trocadilho. Jogar luzes sobre os canteiros de obra, expor suas entranhas e conflitos e abrir as caixas pretas que cercam as espetaculares realizações da arquitetura é tão revelador quanto pouco usual no circuito das grandes exposições. De acordo com os curadores “Da comunicação entre projecto e obra, da organização do tempo e do dinheiro, até à retórica política ou à excitação tecnológica, é na obra que tudo se joga”. Partindo da industrialização da ciência hennebiquiana do concreto armado, expõem-se diversos processos construtivos, passando por realizações recentes e simbólicas da arquitetura contemporânea, indo aos limites com o minucioso trabalho de assessoria à autoconstrução e estímulo à autogestão praticada pelos brasileiros da Usina. O documentário que apresenta a produção do grupo nos remete aos princípios elementares de uma arquitetura consequente: ser bem construída e socialmente justa inicialmente para ser expressiva em consequência disto.

O novo MAAT instalado na beira do Tejo
Foto Diego Inglez de Souza

Ao percorrer esta seleção, entrevemos as possibilidades de uma outra história da arquitetura vista a partir da história dos canteiros, além de possibilidades de crítica fora dos domínios das intenções do arquiteto-artista. Em uma análise exaustiva do processo que começa na encomenda e se encerra na apropriação de uma obra monumental como a Casa da Música do Porto, projetada pelo OMA de Rem Koolhaas, nota-se que do desenho ao canteiro o desrespeito aos prazos, custos e ao trabalho na obra são frequentes, ignorados ou mesmo menosprezados pelos arquitetos e pelos tomadores de decisões que se empenham nestas realizações ambiciosas.

O vanguardismo utópico dos Archigram vira ambiguidade pragmática na análise e nas propostas de Cedric Price para a reorganização dos canteiros da McAppy em reposta ao movimento grevista que paralisou o setor nos anos 1970. As ferramentas analíticas e prospectivas características da arquitetura ilustram os procedimentos e as deseconomias dos canteiros da empresa e apontam possibilidades de outras relações e operações mais produtivas para mediar os conflitos, longe de abalar as hierarquias ou lógicas produtivas. Este percurso se encerra num tom mais divertido e irônico com “Coreographies”, compilação de desenhos animados soviéticos e norteamericanos nos quais os personagens voam e posam de maneira eufórica sobre placas de concreto pré-fabricado ou caminham sonâmbulos sobre perfis metálicos içados por gruas em meio a skylines delirantes. A relação entre ideologia e escolha tecnológica durante a guerra fria se revela com clareza, assim como as permanências em termos semiológicos destas imagens que sugerem uma confiança cega na técnica e no progresso.

Modelo 3D como ferramenta na obra da Casa da Música do Porto
Foto Diego Inglez de Souza

Os riscos da forma

Já a exposição “A forma da forma”, empresta seu nome a esta edição do evento. Trata-se de uma abordagem que comporta um certo risco, debruçando-se sobre a episteme da arquitetura, ao enfocar a concepção formal e suas interlocuções com o campo da arte, seja através de uma espécie de atlas imaginário compilado pelo escritório Socks Studio, seja através do espaço expositivo instalado nas margens do Tejo, uma espécie de colagem espacial elaborada pelos escritórios Office KGDVS (Bélgica), Johnston Marklee & Associates (EUA) e Nuno Brandão Costa (Portugal) a partir dos seus projetos.

Como diriam os lusos, aí tem piada: arquitetos americanos, belgas e um português estão na beira do rio, como na anedota. O que eles fazem? Tudo, menos arquitetura. Exercícios formais pra cá, pra lá, citações artístico-arquitetônicas a torto e a direito, alvenarias provisórias e painéis de gesso à vontade, gentilmente oferecidos pelo patrocinador e o que resulta é uma maquete 1:1, um mock-up de ambientes e espaços que não funcionam como arquitectura, cadavre exquis espacial no qual uma sala de uma mansão chinesa se abre sobre o modesto cômodo de uma casa popular do Porto. Sinal dos tempos e da inutilidade sublime para alguns, exercício parnasiano para turistas ingleses verem para outros, contraste de escalas e proporções talvez, jogo sábio e magnífico de volumes sob a luz, provavelmente não. O curador Diogo Seixas Lopes deixa clara a ênfase no aspecto formal:

“Na nossa perspectiva, a arquitectura é uma construção visual com um amplo campo de responsabilidades e valores, que tendem a permanecer ocultos. Ainda antes de pensar na arquitectura como meio de projecto, ela é uma forma de conhecimento. Apesar de todas as tensões que acontecem durante a transformação física e social das cidades e paisagens, depois de os vários agentes que contribuíram para essa transformação se terem ido embora, o que permanece é a forma construída”.

Para o público, a colagem das formas funcionou, seja como objeto de fetiche, atração ou estranhamento que completa o espetáculo formalista do novo edifício do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), projetado pela inglesa Amanda Levete. Em meio à promenade ribeirinha de Belém, passando pelo CCB de Gregotti e pelo Museu dos Coches de Paulo Mendes da Rocha, ambos instituições consagradas com coleções importantes e programação consistentes, o novo MAAT surge antes como objeto na paisagem e mais tarde como proposta museográfica, espécie de reinvenção ou repetição do exaurido modelo do Guggenheim de Bilbao. O novo museu também ocupa as instalações da antiga termoelétrica Central Tejo. Nela, uma didática e completa exposição sobre o casal Charles e Ray Eames apresentava a história das formas e materiais que marcaram as cadeiras e múltiplas obras do casal.

A Central Tejo, que abriga parte do MAAT e recebeu o módulo expositivo “A forma da forma”
Foto Diego Inglez de Souza

Como mencionamos anteriormente, as possibilidades de leitura dos conteúdos apresentados é múltipla e esta talvez seja a principal riqueza desta edição da Trienal. Parece coerente a opção em favor da arquitetura como forma de conhecimento e de apreensão da realidade, além de ferramenta de sua transformação. A aposta na forma como dimensão primordial da prática profissional e da disciplina é que pode colocar em risco este entendimento renovado e amplo dos campos de trabalho e interesse do arquiteto, tornando o assunto um tanto hermético aos olhos dos não-arquitetos, a esmagadora maioria da sociedade.

A forma pela forma pode ser a cobra que morde o próprio rabo, como nos espaços impossíveis  ilustrados pelas heliografias realizadas pelo artista argentino Leon Ferrari, cujas reproduções se encontram entre as imagens selecionadas pelo Socks studio, juntamente com capas de discos de jazz ilustradas por Josef Albers (provocative e persuasive percussion), que nos indicam o papel do contexto no qual percebemos a figura e o fundo, o excepcional que confirma o ordinário, lição que serve para apreender também os objetos arquitetônicos. Afinal, um elemento pretensamente puro como uma cor primária (ou uma forma) ganha outros significados e dimensões quando inseridos em outros contextos, assim a forma de uma casa na cidade fantasma de Ordos, na China provoca outros efeitos no Tejo.

“O mundo transforma-se através da arquitectura. A forma é a síntese da sua natureza, uma construção visual que incorpora um conjunto de responsabilidades e valores, tantas vezes invisíveis. Após as tensões e fricções que acontecem durante os processos de construção e uso, é a forma que prevalece sobre as circunstâncias da sua gênese”.

Módulo expositivo “A forma da forma”
Foto Diego Inglez de Souza

O mundo aos nossos olhos

A tríade se completa com “O mundo aos nossos olhos”, que ocupou a Garagem Sul do Centro Cultural de Belém reunindo leituras prospectivas ou analíticas do fenômeno de urbanização galopante em diversas regiões do planeta. De acordo com os curadores do FIG Projects, “Os arquitectos não só têm ‘olhos’ para observar a cidade, mas também de investigação, necessários para a mapear e compreender”.

Trata-se de um vasto panorama de pesquisas que procuram observar a urbanização através da perspectiva dos arquitetos, sejam elas diagnósticos, projetos ou simulações, incluindo ilustrações de distopias como “A Petrópolis do futuro”, complexo urbanístico projetado por norteamericanos para explorar os recursos do pré-sal brasileiro. Algumas destas visões, ainda que sedutoras em termos de imaginário espacial e arquitetônico, são bastante indesejáveis do ponto de vista ambiental ou mesmo político. A aposta dos curadores do FIG é no sentido de ‘gerar consciência’ mas acaba por se desdobrar em algumas ambiguidades: as narrativas e representações são também utilizadas para envolver um largo espectro de públicos nem sempre arquitectónicos e, assim, entrar numa esfera política: em alguns casos as descrições procuram gerar consciência, noutros são críticas explícitas de fenómenos, e noutros, ainda, procuram mobilizar agentes e torno de visões alternativas para o futuro”.

Paralelos interessantes emergem de “49 cities”, compilação de projetos utópicos imaginados por ‘visionários’ comparados entre si em função de características e parâmetros relevantes no contexto atual, como densidade e sustentabilidade. “Ao longo da história, arquitectos e outros projectistas sonharam com cidades ‘melhores’ e diferentes – mais controláveis, mais defensáveis, mais eficientes, mais monumentais, mais orgânicas, mais altas, mais densas, mais dispersas ou mais verdes. Hoje, com as previsões da iminência do fim do mundo – do aquecimento global à crise energética pós-pico do petróleo, passando pela urbanização mundial descontrolada – os arquitectos e urbanistas encontram-se, uma vez mais, numa encruzilhada fértil para o pensamento visionário”.

As tipologias características destas novas ondas de urbanização em países periféricos são analisadas na pesquisa taxonômica “Typology”, de Emanuel Christ e Christoph Gantenbein, que enfatiza o papel do contexto na produção dos objetos arquitetônicos, como aspectos legais e características culturais dos aglomerados urbanos selecionados. Além da análise tipológica de alguns edifícios de São Paulo inclusa no estudo, a questão urbana no Brasil é representada por uma maquete viva do complexo de favelas da Maré, elaborada para discutir os rumos e os conflitos do crescimento urbano desordenado da comunidade de maneira participativa pelo coletivo Rua Arquitetos.

Outros trabalhos revelavam dinâmicas e estratégias de controle e gentrificação bastante familiares dos brasileiros. Em Uneven growth, um documentário analisa o mercado de habitações ‘acessíveis’ (affordable housing) em Manhattan, identificamos os mesmos procedimentos colocados em prática por incorporadoras e fundos especulativos para valorizar seus ativos e fazer rodar o engenho de produção do espaço urbano no Brasil. As coincidências entre as dificuldades enfrentadas pelos norteamericanos das classes populares em sua luta por moradia acessível e as artimanhas colocadas em prática por estes setores lembram a saga ficcional da personagem principal do filme Aquarius para permanecer em seu apartamento na orla do Recife. Outro trabalho traz um catálogo de dispositivos de controle de multidões e jovens nos EUA, outra estratégia que revela uma certa sofisticação da violência que nasce de fricções de grupos sociais distintos e que se expressa primordialmente no espaço urbano.

O fato de inserir a capital portuguesa nesta geografia cultural é uma conquista bastante importante da Trienal, estrutura hoje consolidada que reflete também a dinamização recente das atividades culturais em Lisboa. Promover o debate em torno das questões centrais da arquitetura contemporânea, suas práticas e reflexões de modo consistente e plural como nesta edição, este é um mérito da equipe da curadores, hoje representada por André Tavares, jovem editor e pesquisador cuja trajetória reflete uma parte importante da multiplicidade de perfis envolvidos no campo disciplinar da arquitetura, ligada ao entendimento da arquitetura como exercício intelectual – novamente, como forma de conhecimento.

Se o propósito deste tipo de evento é formular novas questões e promover o debate, estas dissonâncias e conflitos provocados entre os vários entendimentos do que seja arquitetura e da sua função social mostraram que o formato proposto pela Trienal revelou-se bastante acertado e estimulante – mais aberto, plural e partilhado mas sem perder o foco no campo disciplinar próprio da arquitetura.

notas

NA – Texto resenha as principais exposições da IV Trienal de Arquitectura de Lisboa, “The form of form”, curadoria de André Tavares e Diogo Seixas Lopes, Lisboa, de 5 de outubro a 11 de dezembro de 2016.

NE – Ver outra resenha sobre IV Trienal de Arquitectura de Lisboa: NOBRE, Ana Luiza. A forma da forma e outras coisas. Notícias da Trienal de Lisboa. Resenhas Online, São Paulo, ano 16, n. 179.05, Vitruvius, nov. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/16.179/6283>.

sobre o autor

Diego Inglez de Souza (São Paulo, 1978) é arquiteto, urbanista e professor da Universidade Católica de Pernambuco e viajou a convite da Trienal de Arquitectura de Lisboa, a quem agradece a gentileza.

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