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Diante das forças globais do capital, que remove contingentes humanos de suas casas para explorar economicamente seus territórios, o filme de Eliane Caffé registra um desdobramento local na forma das ocupações feitas pelos movimentos pela moradia.

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GUERRA, Abilio. Era o Hotel Cambridge. Um filme que dá cores locais a um drama global. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 183.03, Vitruvius, mar. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.183/6452>.


Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

Após a apresentação do filme Era o Hotel Cambridge para a imprensa, ocorrida no Cine Itaú Augusta no dia 9 de março de 2017, uma comoção toma conta dos jornalistas presentes durante a entrevista com equipe do filme. Muitos fazem elogios laudatórios antes das perguntas e estas expressam a perplexidade diante de um filme de gênero impreciso entre ficção e documentário. Os dois atores presentes – a baiana Carmen Silva, líder da Frente da Luta pela Moradia (FLM), e o palestino Isam Ahamad Issa, refugiado –, ao representarem a si próprios no filme, deixam ainda mais borrada a linha divisória entre o drama real e a representação fingida. Carmen, diante da situação inusitada, confessa emocionada que havia mentido para jornalistas em exibições do filme em festivais brasileiros e internacionais ao afirmar que não era atriz, mas o faz de forma ambígua: “eu sou atriz; na cena do choro eu fui dirigida pela Lili, que me pediu para chorar; e eu tinha tantos motivos para chorar, que foi muito simples; agora mesmo eu posso me sentar aqui e começar a chorar e nunca mais parar”. O choro da atriz é o choro da líder do movimento, o sofrimento que finge é exatamente o mesmo que está encarnado em cada palmo ou poro de seu corpo.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

Lidar com essa ambivalência parece ter sido o maior desafio – e mérito – de Eliane Caffé, a Lili. Isam Ahamad Issa, o refugiado palestino dublê de ator e de poeta, com um português rude cheio de quinas cortantes, dribla a pergunta sobre os percalços de sua vida ao se descrever como uma peça ínfima diante do desafio maior de se realizar um filme. Sua veia e verve poéticas tomam as rédeas da sua fala cheia de hiatos, convoca metáfora geográfica, descreve os rios que representam as trajetórias individuais que desaguam num mar coletivo, onde os sofrimentos de cada qual vão se sedimentar; coloca Lili na posição superior de amalgamar as vivências, de insuflar no barro da experiência coletiva a vida própria de uma obra de arte. Imagens que dão significado e sentido para a catarse que parece ter sido a filmagem para todos ou quase todos os membros do set, mas que embaralham mais uma vez o que é vida e o que é arte. A partir dessa situação de enorme densidade emocional, entender o filme passa a ser uma operação de retraimento, de evasão; é necessário de encontrar um ponto de vista um pouco mais isento.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

Contudo, ao se buscar isenção e transcendência excessivas, o risco é perder o frescor da experiência vivida, que parece ser tão significativa como o próprio filme finalizado. Talvez uma saída intermediária é propor uma metáfora de relativa autonomia, mas que ainda contemple o que está em jogo. No filme e nos depoimentos uma quase ausência se faz presente como espectro: as forças invisíveis do capital, que se materializam no fechamento especulativo de imóveis, nas leis e normativas que passam ao largo da função social da propriedade prevista na Constituição, no sistema de propriedades rurais que resulta no latifúndio e na migração interna, no desmazelo oficial com o sertão nordestino que impõe rigorosa carestia de água e alimento a sua população, nas guerras promovidas no Oriente Médio e África por conta do controle de jazidas de petróleo e de minérios, motivo maior da diáspora de populações expulsas nessas regiões e a presença de parcela desses contingentes no Brasil na condição de refugiados. São essas forças que insuflam substância histórica e social aos personagens do filme. Temos aqui um quadro global que nos sugere uma tela de talagarça, tecido de pontos grossos e abertos onde vovós fazem bordados. Por outro lado, a diretora em sua fala convoca de forma recorrente as “narrativas” das pessoas e personagens, as histórias de vida que ela diz lhe interessar mais como experiências de amplitude coletiva do que expressão de subjetividades fluídas. Podemos imaginar – a partir do historiador francês Paul Vayne – o cozimento de uma trama histórica com o entrecruzamento das várias linhas que representam as múltiplas e quase infinitas trajetórias individuais e de grupos. Podemos em minha metáfora quase alegórica imaginar que tais linhas são cozidas na tela de talagarça genérica que representa o Capital.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

A partir dessa imagem sugerida pela fala de Isam, podemos aplicar os pontos de crochê. São muitas as histórias paralelas que vão se sobrepondo, se entrecruzando, embargadas pela emoção de vidas que se separam e se juntam, em regra marcadas pelas distâncias geográfica e temporal, e pelas aproximações ao mesmo tempo forçadas e inusitadas que se dão nas situações da ocupação de imóvel abandonado no centro velho da capital paulista, o extinto Hotel Cambridge. A velhinha sem família, saudosa de sua vida no circo itinerante, que se revigora ante a possibilidade de ensinar português a um refugiado do Oriente Médio; o negro congolês que descobre que vai ser pai na África ao mesmo tempo em que se apaixona por uma branca brasileira; um palestino que tenta reconstruir sua vida no novo país mas se depara com a destruição de Gaza ao conversar com parente em um chat na internet; um velho ator desempregado que propõe a encenação dos dramas dos refugiados estrangeiros e é obrigado a incorporar as manifestações culturais dos migrantes brasileiros, uma fusão de demandas emocionais na forma de dança, música e poesia que se oferece como metáfora da própria história do filme. As irmãs Caffé – Eliane, diretora, e Carla, diretora de arte – comentam durante a entrevista como o interesse pelos refugiados presente no roteiro original vai ser ampliado no contato com o movimento de moradias, quando as demandas locais são incorporadas a partir do entendimento dessa gente como “refugiados na própria terra”.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

Do ponto de vista narrativo, as múltiplas histórias e situações cumprem o papel fundamental de humanizar o grupo e dar legitimidade à bandeira social que defendem. Trata-se de um contra-discurso, que se digladia de forma consciente com a imagem construída pela grande mídia de um coletivo criminoso, que se organiza e age ao largo das leis, passando por cima do direito de propriedade. Não são criminosos uma vez que se agrupam em famílias; não são pessoas de má índole, pois mitigam as dificuldades imensas com a formação de laços de solidariedade; não são foras da lei, afinal têm a seu favor a própria carta magna da precária democracia brasileira, que estabelece a moradia como direito social (1). Mas é possível enxergar também um segundo papel narrativo, mais estrutural do que argumentativo, que se aproxima da poderosa imagem da antiguidade grega: a calmaria que antecede a tempestade ou a guerra. Uma aproximação imperfeita, pois é uma calmaria cheia de sentimentos aguçados, algumas vezes à flor da pele, que vão carregando de energia estática o corpo coletivo dos invasores, uma eletricidade potencial que vai ser descarregada nas peripécias finais, cheias de correria, gritos e violência quando os moradores do Cambridge vão prestar solidariedade em outra invasão. Seja como for, a estrutura narrativa coesa é um elemento de destaque e, ao lado das ótimas performances da fotografia, cenografia, figurino, iluminação e atuação de atores profissionais e amadores, garante a excelente qualidade artística do filme.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

A tela de talagarça se mostra bem colorida com todos esses pontos e nós. Pelos furos da trama anônima, abstrata e descarnada constituída pela estrutura socioeconômica capitalista vão se insinuar os fios das histórias individuais e de grupo, de gama ampla de cores e tons, personalizando uma história que é ao mesmo tempo global e regional. Se ampliarmos as possibilidades desse cozimento coletivo, é possível alinhavar na mesma base ao menos dois desdobramentos do próprio filme: o adensamento do aspecto educativo interno ao movimento, sempre evocado pelas lideranças durante sua realização – encenar a si próprio a partir de um distanciamento e elaboração, vivenciar a alteridade ao ser obrigado a lidar com as diferenças culturais, aceitar a arte nas formas de música, poesia e dança como parte do cotidiano, dialogar com outras classes sociais ao aceitar a presença dos universitários da equipe de filmagem (2) –; a ampliação exponencial da luta coletiva pela moradia digna ao ter sua mensagem propagada pela estrutura social através de um meio tão persuasivo e potente como o cinema – a já mencionada comoção verificada na apresentação para a imprensa pode se espraiar pelas plateias em cinemas de rua, em shopping centers, de comunidades, em festivais, em residências quando for para a televisão fechada e, posteriormente, aberta (3); como foi explicitado por Carmem Silva em debate ocorrido no projeto Marieta (4), a capacidade de uma obra de arte como o filme de Eliane Caffé dialogar de forma mais universal com a sociedade pode permitir a compreensão e adesão às bandeiras de luta por outras camadas sociais, convertendo-se em arma importante na construção de uma imagem pública positiva do movimento.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

Por se tratar de tema polêmico no embate ideológico, há o risco imediato de sua trajetória no mercado exibidor ser mais cheio de obstáculos do que o normal – tanto por parte dos proprietários de cinema ao exibirem um filme provocador, como por parte do público, pois na atual divisão dos humores políticos vividos pelo país é possível que grupos se sintam atingidos pela inteligência aguda dos líderes e a extrema organização dos movimentos. Assim, os discursos de ódio acerca das ocupações que são vistos por um dos personagens ao acessar uma rede social na bem organizada biblioteca e centro de mídia do Hotel Cambridge ocupado têm algum risco de se repetir em fóruns de debate sobre o filme. É uma circunstância que se apresenta como mais um nó ou ponto na tela de talagarça, onde ficção e história real vivida serão transformadas tanto pelo acaso como pelas forças de apoio e antagonismo. Fecha-se assim a metáfora, mas não o que ela aponta: entre as frustrações das derrotas e as alegrias das conquistas, o movimento social pela moradia vai escrevendo de forma propositiva sua própria história.

Na linguagem comum, a emotividade é atribuída ao universo feminino, regra quebrada no filme, capitaneado em sua realização por duas mulheres, com personagens femininos mais focados e determinados do que os homens – propensos às dúvidas, angústias e evasões, em uma das cenas alguns personagens masculinos se escondem na cobertura para compartilhar bebidas alcoólicas. Portanto, atendendo a convocatória do filme, termino reabrindo a comporta que reteve até aqui a densidade emocional que compartilhei na apresentação do filme para a imprensa. Como diversos críticos e jornalistas, perco a vergonha em afirmar que me emocionei muito durante a projeção. Era o Hotel Cambridge é um filme que se assiste com a garganta travada e lágrimas nos olhos. Era o Hotel Cambridge é um filme que precisa ser assistido.

Cena do filme Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
Foto divulgação

notas

NA – ficha técnica do filme: Era o Hotel Cambridge (drama, 93’), direção de Eliane Caffé; produção de Rui Pires, André Montenegro, Edgard Tenembaum e Amiel Tenenbaum; direção de arte de Carla Caffé e alunos da Escola da Cidade; direção de fotografia e câmera de Bruno Risas; montagem de Márcio Hashimoto; elenco com os atores José Dumont, Carmen Silva, Isam Ahamad Issa, Guylain Mukendi e Suely Franco (atriz convidada); participação especial de Lucia Pulido e Ibtessam Umran; produção da Aurora Filmes e coprodução de Tu Vas Voir (França), Nephilim Producciones (Espanha) e Apoio (Brasil); distribuição da Vitrine Filmes.

1
Tanto no filme como no debate ficou evidente o amplo conhecimento dos seus direitos constitucionais por parte das lideranças e membros dos movimentos pela moradia. A Constituição Federal de 1988 estabelecia o direito à moradia de forma indireta, como um dos itens a ser contemplado pelo salário mínimo. Contudo, a emenda constitucional n. 26, de 14 de fevereiro de 2000, modificou a redação do artigo 6º, deixando expressa a moradia como direito essencial dos cidadãos do país: “Art. 6º – São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

2
O Making of do filme Era o Hotel Cambridge, exibido no projeto Marieta no dia 4 de março de 2017, apresenta diversas cenas que explicitam a extrema importância, para as lideranças do movimento de moradias, do compromisso com a educação cidadã dos participantes das ocupações, muitos deles em estágio de extrema degradação física e moral. Carmen Silva afirma explicitamente a obrigação em “devolver à sociedade cidadãos plenos”.

3
Um sinal evidente de que isso possa estar em processo é a série de críticas positivas já publicadas e o sucesso alcançado pelo filme em festivais – Festival do Rio; Festival de San Sebastián e Festival de Rotterdam – antes de entrar em circuito comercial. Agora resta esperar a resposta do público e a reação do mercado exibidor.

4
Trailer do filme Era o hotel Cambridge e trecho do debate sobre moradia social, com as participações de Eliane Caffé, Carla Caffé e Carmen Silva – respectivamente diretora, diretora de arte e atriz do filme – e João Sette Whitaker, Secretário Municipal de Habitação da Cidade de São Paulo no governo Fernando Haddad, podem ser vistos a partir da notícia: PORTAL VITRUVIUS. São Paulo, Notícias, 05/03/2017 <www.vitruvius.com.br/jornal/news/read/2693>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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