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reviews online ISSN 2175-6694

abstracts

português
Mais do que o espaço público, a vida cotidiana é o campo espaço/temporal da realização da vida humana, e como tal é entendido e assumido por Henri Lefebvre, Michel de Certeau, Georges Perec e Maurice Blanchot

english
More than public space, everyday life is the space / time field of the realization of human life, and as such is understood and assumed by Henri Lefebvre, Michel de Certeau, Georges Perec and Maurice Blanchot.

español
Más que el espacio público, la vida cotidiana es el campo espacio / temporal de la realización de la vida humana, y como tal es entendido y asumido por Henri Lefebvre, Michel de Certeau, Georges Perec y Maurice Blanchot.

how to quote

SILVA, Ricardo Luis. Il y a du quotidian ou, aqui, há o cotidiano. Conversa imaginária entre Henri Lefebvre, Maurice Blanchot, Georges Perec e Michel de Certeau. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 188.02, Vitruvius, ago. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.188/6655>.


Sobre as coisas comuns, colagem de Aline Barros, produzida especialmente para ilustrar esse texto

Apesar de indispensável para a constituição da própria formalização da vida humana e urbana, “abraçar” o cotidiano, como categoria, é ainda bastante problemático. Falar de “cotidiano” se torna algo sempre inglório, principalmente no âmbito acadêmico, onde a ciência e a cientificidade transformam tudo em demasiado histórico, metodológico, controlado, recortado... Coisas que o Cotidiano consegue rivalizar e enfraquecer pela própria constituição e existência.

Se pensarmos nos termos associados ao cotidiano, perceberemos o quanto sua essência convoca uma série de aberturas e alternativas desviantes. Cotidiano, cotidianidade, Dia a dia, diário, vida ordinária, o ordinário, o comum, e tantos outros termos que carregam tantos outros e diferentes “pesos” e conotações que, inevitavelmente, escapam a qualquer avaliação ou estruturação científica objetiva, pois anulam a todo momento as distinções entre os processos teóricos (trabalho cerebral) e os processos práticos (trabalho corporal). O cotidiano existe, está aí, sempre. Desmontando e desfigurando qualquer processo mais racionalizado e científico-positivista.

Talvez seja exatamente nesse desmontar da cientificidade filosófica que a existência e atuação do Trapeiro (1) ganhe força. Recolher, dentro do discurso de “filósofos” (entre aspas por conta da presença de Perec) que trataram do olhar ao cotidiano como algo necessário, mesmo dentro da filosofia (a antagonista do cotidiano), trapos e restos que poderiam auxiliar na argumentação (como a lanterna do trapeiro) do viver contemporâneo.

Como alegoria compositiva desse recolher, decide-se, como forma de aparição e contribuição ao discurso, estabelecer uma narrativa fantástica (dentro da história da filosofia e do pensamento do cotidiano), colocando os quatro autores mencionados frente a frente em um diálogo despretensioso sobre o Cotidiano. Ideias convergentes, olhares atravessados, discursos certamente contaminados uns pelos outros e por outros em comum.

A cena (2)

Café parisiense onde se encontram cotidianamente Henri Lefebvre, Maurice Blanchot, Georges Perec e Michel de Certeau. Amigos de longa data. Setembro de 1974. Perec está com 38 anos, Blanchot acabara de fazer 67, Certeau está com 49 e Lefebvre com 73 anos. Outono na Cidade Luz. O local está bastante movimentado. Garçons vêm e vão. Um deles acaba de deixar uma taça de vinho para Blanchot e levar a antiga taça já vazia. Na parede do café há uma pequena tabuleta antiga entalhada e pintada à mão com a expressão: IL Y A DU QUOTIDIEN (há – ou existe – o cotidiano). A mesa dos quatro amigos, que se sentam em círculo ao seu redor, está posta com pratos vazios e sujos com restos de suas refeições. Os copos permanecem ainda com líquido. Chove. Perec tem um caderno e caneta na mão, onde vez ou outra anota ou rabisca alguma coisa. Fuma, como de costume. Lefebvre manipula insistentemente – ao ponto de parecer ansioso – o açucareiro, que faz parte do galheteiro prateado e gasto, que está sobre a mesa. Blanchot, como já mencionado antes, toma uma taça de vinho tinto, a terceira da tarde, enquanto acaricia o botão de sua camisa. Certeau tem uma edição do dia do Le Monde aberto nas mãos, mas não lê.

Blanchot – Aquela tabuleta atrás do balcão sempre me instiga, me inquieta, me faz retomar em pensamento questões sobre o cotidiano...

Perec – Sim! A mim também... ainda mais quando vejo você, ou alguém, lendo o jornal. A imprensa diária fala de tudo menos do dia a dia. (p. 22)

Lefebvre – Imaginem vocês, o que pode ter acontecido nesse mesmo dia a cinquenta anos atrás? Acontecimentos ordinários, insignificantes. Do cotidiano. O caminho seria procurar nos jornais populares diários, procurar saber o que se passou nesse dia semelhante a tantos outros, ao longo de um ano relativamente tranquilo e próspero. Quase não encontrará nada que lhe permita prever o que sobreviveu, o que permaneceu escondido nas profundezas do tempo. Por outro lado, não descobrirá grande coisa sobre a forma como as pessoas viveram nesse mesmo dia: ocupações e preocupações, canseiras e divertimentos. Nada. (p. 9)

Blanchot – Mas o cotidiano não é nós mesmos, ordinariamente? O que se repete? (s/ p.)

Certeau – Nós, assim como todos os outros, homens ordinários. Heróis comuns. Personagens disseminadas. Caminhantes inumeráveis da vida urbana. (p. 55)

Perec – Mas se não encontramos o cotidiano nos jornais diários, a forma mais vulgar de literatura, onde acessamos o que realmente ocorre, o que vivemos, o restante, todo o demais, onde está? O que ocorre a cada dia e volta a cada dia, o trivial, o cotidiano, o evidente, o comum, o ordinário, o infraordinário, o ruído de fundo, o habitual. Como dar conta dele, como interrogá-lo, como descrevê-lo? (p. 22-23)

Blanchot – Mas eu volto àquela frase da tabuleta. O que é o cotidiano?

Certeau – Não seria uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar? (p. 40)

Lefebvre – O quotidiano é um campo e um processo, uma etapa e um trampolim, um movimento composto de momentos, a totalidade dos possíveis. (p. 26) O quotidiano não é a soma das insignificâncias? (p. 42)

Perec – Realmente é uma insignificância, um esquecido. Pois quem nos fala, me dá a impressão, é sempre o acontecimento, o insólito, o extraordinário: na capa, letras garrafais. Os trens só começam a existir quando descarrilam; os aviões somente concedem sua existência quando são sequestrados. Como se a vida não devesse revelar-se nada além do espetacular, como se o eloquente, o significativo fosse sempre anormal: cataclismos naturais ou calamidades históricas, conflitos sociais, escândalos políticos... (p. 21)

Blanchot – Sim, concordo! O cotidiano é banalidade, é o que cai e é deixado para trás, a vida residual com a qual nossas latas de lixo e cemitérios estão cheios: trapos e refugos; coisa muito promissora para nós que somos trapeiros, não é mesmo? Justamente por isso essa banalidade é também o mais importante, se ele nos leva de volta à existência na sua própria espontaneidade e como é vivida – no momento em que, vivido, o cotidiano escapa de qualquer formulação especulativa, talvez de toda coerência, toda regularidade. Vejo aí uma constitutiva profundidade do superficial. (s/ p.)

Lefebvre – Claro! A vida ordinária surge como o invólucro do extraordinário. (p. 20)

Perec – Extraordinário que obscurece nossa vida ordinária, pois, em nossa precipitação por medir o histórico, o significativo, o revelador, acabamos deixando de lado o essencial: o verdadeiramente intolerável, o verdadeiramente inadmissível; como vemos nessa manchete do Le Monde, o escandaloso não é o grisu [gás tóxico exalado da extração do carvão], é o trabalho nas minas. A “desigualdade social” não é “preocupante” em períodos de greve: é intolerável nas vinte e quatro horas do dia, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano. (p. 22)

Blanchot – O cotidiano não é mais a existência média, estatisticamente estabelecida de uma dada sociedade num dado momento; é uma categoria, uma utopia e uma ideia, sem a qual não se sabe como chegar ao presente oculto, ou ao futuro detectável dos seres. O indivíduo de hoje, das nossas sociedades modernas, é, ao mesmo tempo tragado para dentro e privado do cotidiano. E, o pior de tudo, isso é dificilmente perceptíveis. Característica essencial do cotidiano, por sinal. (s/ p.)

Lefebvre – Mas não seria antes o quotidiano que penetrou no pensamento e na consciência, pela via literária, ou seja, através da linguagem e da escrita? (p. 11)

Certeau – Como assim Henri?

Lefebvre – Perec, pegue um dia qualquer de suas anotações. (...) Esse dia – 16 de junho de um dos primeiros anos do século – o viveram de maneira especial um certo Bloom, sua mulher Molly e o seu amigo Stephen Dedalus, depois narrado em minucioso pormenor, de tal forma que esse dia se tornou o símbolo da “vida quotidiana universal”, vida impossível de captar na sua finitude e infinidade, envolvendo o espírito dessa época e o seu rosto “já quase inconcebível”, conseguindo o romance de Joyce arrancar do anonimato cada uma das facetas da quotidianidade. (p. 10)

Blanchot – O Ulisses de James Joyce?

Lefebvre – Maurice, conversamos disso outro dia... O quotidiano é, talvez, a personagem central de todo o texto de Joyce. O inventário do quotidiano feito durante toda a narrativa é acompanhado pela sua negação através do sonho, do imaginário, do simbolismo. O que se manifesta ali é a subjetividade; é, pois, o tempo. Com os seus aspectos provenientes das dualidades: o humano e o divino, o quotidiano e o cósmico, o aqui e o além... (p. 11-2)

Blanchot – Bem pontuado! O cotidiano é humano. Além disso, precisamos das grandes cidades para a experiência do cotidiano começar a nos alcançar. O cotidiano não está nas nossas casas, não está nos escritórios ou igrejas, menos ainda nas bibliotecas ou museus. Ele está na rua... Como você mesmo já disse um certa vez, a rua tem o caráter paradoxal de ter mais importância do que os lugares que conecta, mais realidade que as coisas que reflete. A rua torna público. (s/ p.)

Lefebvre – Não diria que está na rua, apenas... O humano e público estão na vida quotidiana. E, acima de tudo, a vida quotidiana encobre o misterioso e o admirável que escapam aos sistemas elaborados. (p. 30)

Perec – Garçom, por favor, troque nosso cinzeiro por outro vazio, sim? Aproveitando, um café gourmand!

Certeau – No espaço tecnocraticamente construído, escrito e funcionalizado onde circulam, as trajetórias do cotidiano formam frases imprevisíveis, “trilhas” em parte ilegíveis. Embora sejam compostas com os vocabulários de línguas recebidas e continuem submetidas a sintaxes prescritas, elas desenham as astúcias de interesses outros e de desejos que não são nem determinados nem captados pelos sistemas onde se desenvolvem. (p. 45)

Lefebvre – Você as chama de práticas quotidianas, não é mesmo?

Certeau – Práticas cotidianas, maneiras de fazer, são várias as expressões possíveis. Todas envolvidas com procedimentos populares, também minúsculos e cotidianos, que jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterar os próprios mecanismos... (p. 40)

Perec – Calma, preciso anotar isso...

Certeau – ... reaprendendo, para ler e escrever a cultura ordinária, operações comuns e fazer da análise uma variante do seu objeto. A meta seria alcançada se as práticas ou “maneiras de fazer” cotidianas cessassem de aparecer como o fundo noturno da atividade social. (p. 35-37)

Perec – Mas como falar dessas “coisas comuns”, e como cercá-las, como fazê-las sair, arrancá-las da concha a qual permanecem agarradas, como dar-lhes um sentido, um idioma? Que falem finalmente do que existe, do que somos. (p. 23)

Lefebvre – É no quotidiano que nos divertimos ou sofremos. Aqui. E agora. (p. 35)

Blanchot – Bravo!

Lefebvre – E é impossível compreender e aceitar o quotidiano “vivendo-o” passivamente, sem se retroceder. (p. 42)

Certeau – Que façamos uma bricolagem com e na economia cultural dominante, usando inúmeras e infinitesimais metamorfoses da lei, segundo seus interesses próprios e suas próprias regras. (p. 40)

Perec – Sempre me pego interrogando o habitual. Mas se é justamente ao que estamos habituados, não nos questionamos, não nascem questões, o vivemos sem pensar sobre ele, como se não veiculasse nem perguntas nem respostas, como se não fosse portador de informação. Isto não é nem sequer condicionamento: é anestesia. Dormimos nossa vida em um sono sem sonhos. Mas nossa vida, onde está? Onde está nosso corpo? Onde está nosso espaço? (p. 23)

Certeau – Cada vez mais coagido e sempre menos envolvido por esses amplos enquadramentos, o indivíduo se destaca deles sem poder escapar-lhes, e só lhe resta a astúcia no relacionamento com eles, “dar golpes”, encontrar na megalópole eletrotecnicizada e informatizada a “arte” dos caçadores ou dos rurícolas antigos. (p. 51)

Lefebvre – A atividade criadora do quotidiano: re-produção, re-começo, re-tomada. (p. 31)

Certeau – Essas maneiras de se reapropriar do sistema produzido, criações de consumidores, visam uma terapêutica de socialidades deterioradas, e usam técnicas de reemprego onde se podem reconhecer os procedimentos das práticas cotidianas. (p. 51)

Perec – O que se trata realmente é questionar o ladrilho, o cimento, o vidro, os nossos modos à mesa, nossos utensílios, nossas ferramentas, nossas agendas, nossos ritmos. Questionar o que pareceria termos deixado de nos surpreender para sempre. Vivemos, obviamente, respiramos, obviamente, caminhamos, abrimos portas, descemos escadarias, nos sentamos à mesa para comer, nos deitamos em uma cama para dormir. Como? Onde? Quando? Por quê? (p. 24)

Certeau – Mais que isso, é preciso interessar-se não pelos produtos culturais oferecidos no mercado dos bens, mas pelas operações dos seus usuários; é mister ocupar-se com as maneiras diferentes de marcar socialmente o desvio operado num dado por uma prática. (p. 13)

Lefebvre – Mas vamos separar definitivamente a pureza filosófica e a impureza quotidiana? Vamos considerar o quotidiano como desamparado, abandonado ao seu triste destino pela sabedoria? (p. 24)

Blanchot – Perec, o que tanto você escreve aí?

Perec – Um novo projeto... já te explico!

Lefebvre – Lembrem que a filosofia no século 19 abandona a especulação para se aproximar da realidade empírica e prática, dos “dados” da vida e da consciência. Para a filosofia, a vida quotidiana é não-filosófica, pois aquela confere ao homem quotidiano uma consciência e um testemunho decisivo, dado que é a crítica ao mesmo tempo inútil e radical do próprio quotidiano. (p. 24)

Blanchot – Filosofia. Filosofia... A questão é que nada acontece; esse é o cotidiano.

Perec – ... isso! Nada acontece. Incrível...

Blanchot – Eu me pergunto qual é o significado desse movimento estacionário? Em que nível este “nada acontece” está situado? Para quem “nada acontece” se, para mim, alguma coisa necessariamente sempre está acontecendo? Em outras palavras, o que corresponde ao “quem?” do cotidiano? E, ao mesmo tempo, porque, nesse “nada acontece”, existe a afirmação que algo essencial possa ser permitido acontecer? (s/ p.)

Lefebvre – Seria, finalmente, uma coleção de objetos fúteis indignos de entrarem nos domínios da Física, do Divino, do Humano profundo, temas sérios da filosofia moderna? (p. 25)

Blanchot – Trivialidades...

Lefebvre – Na trivialidade, o quotidiano compõe-se de repetições [de gestos, movimentos mecânicos, de ciclos temporais, tempo da natureza e tempo da racionalidade]; a exploração do repetitivo evocando o passado pela memória. (p. 31)

Perec – O que vocês acham da Saint-Sulpice?

Lefebvre – Permanece aberto um único caminho: descrever e analisar o quotidiano a partir da filosofia para mostrar a dualidade, a perda e a fecundidade, a miséria e a riqueza. E isso implica o projeto revolucionário de uma libertação que tiraria do quotidiano a atividade criadora inerente: a obra inacabada. (p. 25)

Certeau – A praça ou a igreja?

Blanchot – Tão inacabado é o cotidiano, que ele tem essa característica essencial: não permite que seja dominado. Ele escapa. Ele pertence à insignificância, e o insignificante não tem verdade, não tem realidade, não tem segredo, mas talvez, também, é o lugar de todas as significações possíveis. (s/ p.)

Perec – A praça, Michel.

Lefebvre – Lugar de encontro entre as ciências parcelares e alguma coisa mais. Ao investigarmos o quotidiano, ele demonstra a posição dos conflitos entre o racional e o irracional na nossa época, na nossa sociedade. Determina ao mesmo tempo a posição em que se formulam os problemas concretos da produção em sentido amplo: a maneira como se produz a existência social dos seres humanos, com as transições da rareza à abundância e do precioso à depreciação. (p. 37)

Certeau – Essas “maneiras de fazer” constituem as mil práticas pelas quais podemos se reapropriar do espaço organizado pelas técnicas da produção sociocultural. (p 41)

Lefebvre – Se trata de uma vasta procura que incide sobre fatos desprezados pelos filósofos ou postos de lado arbitrariamente pelas ciências sociais. (p. 41)

Perec – Ciências... sempre me inquietam. Na verdade, os cientistas...

Lefebvre – O cientista declara que o resíduo não tem interesse. Ridículo pedantismo: ele fecha o horizonte. Esse “resíduo” é o que a ciência conquistar, o conhecimento do amanhã. Se o resíduo não é infinito e infinitamente precioso, que fará o cientista? O seu destino está ligado ao do poeta, mesmo se o ignora. (...) o resíduo é o lugar das conquistas, das criações, das vitórias. (p. 34)

Certeau – A Ciência e sua “estatística” reproduzem o sistema ao qual pertencem e acabam deixando fora do seu campo a proliferação das histórias e operações heterogêneas que compõem os patchworks do cotidiano. (p. 45)

Lefebvre – Projeto revolucionário: reunir os fragmentos dispersos da cultura numa metamorfose do quotidiano. Ser Trapeiro, como já nos tinha sugerido Baudelaire (p. 55)

Blanchot – Um brinde a Baudelaire!!!

Lefebvre – Afinal, a vida quotidiana é o resíduo de todas as atividades determinadas e parcelares que podemos considerar e abstrair da prática social, mas também é, simultaneamente, o produto do mesmo conjunto social. (p. 48)

Certeau – Tomando sabiamente a referência da figura trapeira, penso que, para descrever essas práticas cotidianas de reunir os fragmentos dispersos, atos que produzem sem capitalizar, isto é, sem dominar o tempo, impunha-se um ponto de partida por ser o foco exorbitado da cultura contemporânea e de seu consumo: a leitura. (p. 47)

Perec – Leitura do cotidiano? Apenas uma tentativa, certamente...

Lefebvre – Leitura que revela a riqueza escondida sob a aparente pobreza do quotidiano; desvendar a profundeza sob a trivialidade, atingir o extraordinário pelo ordinário. (p. 54)

Blanchot – Revelada ou retomada? Resgatada do recalque? O estranhamente familiar? Digo isso porque o cotidiano é o que nós nunca vimos pela primeira vez, mas apenas o visto novamente, tendo sempre já visto por uma ilusão, que é, como de costume, constitutivo do cotidiano. (s/ p.)

Certeau – Era o que eu dizia sobre as “maneiras de fazer”. Penso nessa leitura que revela como uma “tática”. Entendo, ao contrário de estratégia, uma “tática” como um cálculo que não pode contar com um próprio, nem portanto com uma fronteira que distingue o outro como totalidade visível. A tática só tem por lugar o do outro. Ela aí se insinua, fragmentariamente, sem apreendê-lo por inteiro, sem poder retê-lo à distância. (p. 45)

Perec – Tática... interessante!

Certeau –  (...) multiplicidade de “táticas” articuladas sobre os “detalhes” do cotidiano. (p. 40)

Perec – Tchau, amigos. Essa conversa me fez pensar em um novo projeto. Depois conversamos e explico tudo. Deixo aqui alguns francos pela minha parte das despesas.

Certeau – Até breve, Georges. Continuando o que ia dizendo, ao contrário do “próprio”, pelo fato de seu não lugar, a tática depende do tempo, vigiando para “captar no voo” possibilidades de ganho. O que ela ganha, não o guarda. Tem constantemente que jogar com os acontecimentos para os transformar em “ocasiões”. (p. 46)

Blanchot – O Trapeiro, mais uma vez, certo? Esses jogos com os acontecimentos são como resignificações...

Certeau – Resignificações, mutações... Essas mutações tornam o texto habitável, à maneira de um apartamento alugado. Elas transformam a propriedade do outro em lugar tomado de empréstimo, por alguns instantes, por um passante. Os locatários efetuam uma mudança semelhante no apartamento que mobíliam com seus gestos e recordações; ou mesmo os pedestres, nas ruas por onde fazem caminhar as florestas de seus desejos e interesses. (p. 48)

Lefebvre – Isso me lembra muito o Homem na Multidão do Poe... desejos e interesses. O que me faz lembrar e associar nossa conversa com dois fatos ligados e correlativos: a quotidianidade e a modernidade. Esta auréola está aí e vigia-a, ilumina-a e desvenda-a. São as duas faces do espírito do tempo. Ao quotidiano, conjunto do insignificante, responde e corresponde o moderno, conjunto de sinais através dos quais essa sociedade se significa e se justifica. Mas cada um desses aspectos – o quotidiano e o moderno – marca e mascara o outro, legitima-o e compensa-o. A vida quotidiana é o contrário da modernidade, espírito do tempo. (p. 38-9)

Blanchot – Modernidade... anonimato! É o movimento do cotidiano que o indivíduo é mantido, meio sem saber, no anonimato humano. No cotidiano não temos nome, pouca presença pessoal, dificilmente um rosto, assim como não temos nenhuma designação social para sustentar ou incluirmo-nos. Por isso o cotidiano escapa. (s/ p.)

Certeau – Porque ele escapa?

Blanchot – Porque ele é sem um sujeito. Quando eu vivo o cotidiano, ele é qualquer um, qualquer que seja, que o faz, e esse qualquer um é, propriamente falando, nem eu nem o outro; ele não é nem um nem outro, e ele é um e outro em suas intercambiáveis presenças, suas anuladas irreciprocidades. Ao mesmo tempo, o cotidiano não pertence ao domínio objetivo. Para vivê-lo como algo que possa ser vivido através de uma série de atos técnicos separados, é preciso substituir um número de ações compartimentadas por essa presença indefinida, esse movimento conectado (que, contudo, não é um todo), através do qual estamos continuamente, embora no modo de descontinuidade, relacionados com a totalidade indeterminada das possibilidades humanas. (s/ p.)

Lefebvre – Eu insisto ainda, tratando-se do quotidiano, trata-se, pois, de caracterizar a sociedade em que vivemos, que engendra a quotidianidade (e a modernidade). Trata-se de defini-la, de esclarecer as suas mudanças e as suas perspectivas, mantendo alguma coisa de essencial e ordenando os fatos. A quotidianidade não é somente um conceito, mas podemos encarar esse conceito como fio condutor para conhecer a “sociedade”, situando o quotidiano no global. (p. 43)

Certeau – Hummm, vamos embora meus caros e ordinários amigos? Me parece que aquele grupo está querendo a mesa e já estamos aqui há muito tempo confabulando.

Blanchot – Esse vinho todo me deu sono, é verdade...

Lefebvre – O conceito do quotidiano tem ainda qualquer valor em uma sociedade? Se essa sociedade coloca no primeiro plano das preocupações a racionalidade, a organização e a planificação, podemos ainda distinguir um nível ou uma dimensão susceptível de se designar por quotidianidade? (...) Que resta como perspectiva da “sociedade industrial” se ela não produz a vida urbana na sua plenitude? Nada, senão produzir por produzir. (...) Na sociedade industrial, o lazer é uma tentativa ilusória da ruptura com o quotidiano. (p. 65-69-77)

Certeau – Vamos Henri, a conta já chegou. Onde estão os francos que o Georges deixou?

Lefebvre – O quotidiano, no mundo moderno, deixou de ser “sujeito”, rico de subjetividade possível, para se tornar “objeto”, objeto de organização social. (...) Forças políticas e formas sociais convergem nessa orientação: consolidar o quotidiano, estruturá-lo, funcionalizá-lo. (...) Uma quotidianidade programada num quadro urbano adaptado à produção tecnológica e capitalista. O quotidiano transformado e “dominado” vira instrumento de racionalização da vida. (p. 84-91-92)

Blanchot – Ah, meu caro, concordo com seu quadro, mas vejo aí ainda muitas possibilidades. O cotidiano é, e sempre será, o inacessível a que sempre já tivemos acesso. Afinal, a existência cotidiana nunca teve de ser criada. Isto é exatamente o que significa a expressão da tabuleta, “il y a du quotidien”. (s/ p.)

Certeau – Há! E indomável. Se Perec ainda estivesse aqui, ele lhe diria: e ponto!

notas

NE – Este texto é parte integrante da tese de doutorado do autor: SILVA, Ricardo Luis. Elogios à inutilidade: a incorporação do Trapeiro como possibilidade de apropriação e leitura da Cidade e sua alteridade urbana. 2017. 904 p. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. O texto em questão está inserido no capítulo/fragmento da tese, C1_3, que trata da argumentação do Cotidiano na vida urbana, sob a ótica de quatro autores franceses.

NA – A resenha a seguir não é específica sobre um texto ou autor e sim sobre um conceito manipulado cuidadosamente por quatro autores, dentre tantos possíveis. O “conceito resenhado” a seguir é o Cotidiano e os autores utilizados como fonte de conteúdo são os franceses Maurice Blanchot (1907-2003), Michel de Certeau (1925-1986), Henri Lefebvre (1901-1991) e Georges Perec (1936-1982), especialmente nos seguintes textos:

BLANCHOT, Maurice (1959). Everyday Speech (Original em francês La Parole Quotidienne). Tradução para o inglês de Susan Hanson. Yale French Studies, n. 73, New Haven, p. 12-20, 1987.

CERTEAU, Michel de (1974-1978). A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, Vozes, 2013.

LEFEBVRE, Henri (1968). A vida quotidiana no mundo moderno. Tradução de Jorge Alvarez. Lisboa, Ulisseia, 1969.

PEREC, Georges (1973). Lo infraordinario. Tradução de Mercedes Cebrián. Madri, Impedimenta, 2008.

1
O Trapeiro é uma alegoria utilizada na já referida tese de doutorado e foi aqui mantido para preservar a dinâmica original que motivou a organização do diálogo ficcional apresentado aqui como resenha.

2
Todas as frases do diálogo foram construídas a partir de trechos e frases dos textos referenciados anteriormente, tendo sempre a indicação da página de onde tal fragmento foi recolhido.

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