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Aula Magna, apresentada por Abilio Guerra na FAU Mackenzie no dia 15 de agosto de 2017, trata dos desafios apresentados aos jovens arquitetos, responsáveis pela construção dos espaços habitáveis da coletividade.

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GUERRA, Abilio. Sobre as casas do homem. Aula Magna para os alunos da FAU Mackenzie. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 203.05, Vitruvius, nov. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.203/7178>.


Casa-grande no interior do país
Foto Abilio Guerra

Bom dia! Agradeço muito aos estudantes e, em especial, ao Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie – Dafam pela honra de poder estar aqui com vocês. Há tantos anos como professor, nunca tinha me ocorrido ser convidado para dar uma aula magna. Espero apresentar para vocês algumas reflexões que possam inspira-los em alguma medida.

Nossa escola vivencia hoje uma grande transformação na sua estrutura de ensino de arquitetura e urbanismo. Professores e alunos estão envolvidos nos debates e discussões referentes ao conteúdo das disciplinas e metodologias de ensino, tendo como meta a interdisciplinaridade e maior adequação às demandas contemporâneas. Tal situação nos coloca, inevitavelmente, diante da questão central: o que significa ensinar arquitetura e urbanismo nos dias de hoje? Pergunta que se desdobra em outras: o que ensinar?; para quem ensinar?; como ensinar? Em suma, estão em jogo não só o conteúdo da área disciplinar, mas também sua inserção social.

Como gatilho da argumentação que trago para vocês, convoco uma notícia que viralizou nos meios de comunicação há algumas semanas. Em Minas Gerais, em uma universidade pública, um professor propôs a seus alunos o desenvolvimento de um projeto arquitetônico com cinco suítes, uma série de dependências nobres e uma enorme área de serviços com cozinha, lavanderia, despensa, depósito, cômodos técnicos e quartos e banheiros para oito empregados. O nome da atividade não poderia ser mais infeliz: “Casa Grande”. Os estudantes se rebelaram diante do “racismo e desrespeito contidos no nome e no programa da disciplina” e se recusaram a participar do curso, com a alegação de que o programa proposto revelava que “a estrutura escravocrata ainda segue presente no cotidiano brasileiro”. A universidade, para estancar a crise, decidiu que a disciplina “deverá ser revista” (1).

Não quero aqui à distância, sem o pleno conhecimento das nuances do ocorrido, criticar a proposta específica do colega professor, que imagino bem intencionado e talvez acometido por uma infeliz avaliação do que estava em jogo. Contudo, trago à cena comentário proferido por Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da USP, pessoa a quem respeito e admiro por suas posições e engajamento em prol de uma educação superior qualificada. No dia 28 de julho, em duas postagens no Facebook, Janine Ribeiro convidou seus seguidores a debater a questão. A primeira, feita no início da manhã, é bem curta e diz o seguinte:

“Não sei o que é mais esquisito numa faculdade paga com o dinheiro da sociedade (isto é, pública): o tamanho de 800 m2, a área de empregados ou o nome da disciplina, Casa Grande”(2).

Na segunda postagem, feita no final da tarde, em texto mais extenso, Renato Janine Ribeiro manifesta mais uma vez seu desconforto que tal disciplina esteja sendo ministrada em uma universidade pública. Faz questão de dizer que ensino público não se define por sua gratuidade, mas por ser “voltado para o bem comum, para o público”. E reitera de forma categórica: “o ensino público é aquele voltado para a solução de problemas da sociedade. Isso lhe dá um sentido ético e uma missão própria” (3). Na continuidade do seu argumento, nosso colega uspiano afirma não ter nada contra se ensinar alunos de arquitetura a fazer “casas que servirão a 0,1% ou menos da população”, “mas que seja promovido no setor privado, com o aluno pagando por ele”. Por fim, faz duas recomendações: “do que precisamos? De cursos universitários, na área pública, que revejam seus currículos para atender ao bem comum; de alunos que aprendam a ter responsabilidade social”.

Cozinha de casa-grande no interior do país
Foto Abilio Guerra

Discordo de forma radical da posição assumida por Renato Janine Ribeiro, pois sua argumentação acaba nos levando a conclusões inaceitáveis, sendo a principal delas entender que a vocação da universidade privada seria outra que não a “solução de problemas da sociedade”. Em meus mais de trinta anos de magistério no ensino superior sempre fui professor em escolas privadas – PUC-Campinas, Belas Artes, Escola da Cidade e Mackenzie – e em todas elas tive a sorte de contar com colegas docentes que me ensinaram que nossa obrigação ética não é com interesses pecuniários – seja dos proprietários da escola, seja dos alunos, futuros profissionais –, mas com o ensino sério de uma profissão de importância vital para a sociedade. Nossa responsabilidade é fundamentalmente ensinar arquitetura, mesmo considerando que ganhemos nosso sustento com nosso labor, mesmo entendendo que assim seja para investidores privados e para futuros arquitetos. A razão de ser de uma universidade – seja pública, seja privada – é servir a sociedade. O princípio ético que rege a docência universitária é fazer aquilo para o qual nós professores nos preparamos ao longo dos anos, com estudos e experiências: ensinar (e aprender) com nossos alunos. No nosso caso específico, professores de uma escola de arquitetura e urbanismo, tal premissa se traduz em como desenhar de forma adequada os suportes de praticamente todas as atividades humanas, nas escalas variadas da cidade ao objeto, considerando o retorno do filho pródigo, o “Design”, ao seio de nossa família.

Apenas para finalizar essa questão, lembro que a maioria das grandes universidades americanas é constituída de fundações privadas, e que no contexto brasileiro e latino-americano temos um número ponderável de escolas de ensino superior conduzidas por entidades confessionais privadas – as PUCs, as Metodistas, as Presbiterianas, caso específico dessa escola, as de outras orientações religiosas. Talvez as considerações de Renato Janine Ribeiro tenham sido induzidas pelo comportamento antiético de alguns centros universitários e universidades dirigidos por arrivistas, que abusam das concessões federais que os permitem atuar na sociedade ao oferecer cursos caça-níqueis.

São aberrações, que deveriam ser multadas e, em caso de reincidência, fechadas (mas não custa lembrar, que mesmo nessas escolas ruins sempre há professores que sabem e cumprem muito bem suas missões). As escolas particulares fora do trilho não podem, em hipótese alguma, servir de parâmetro para nosso ajuizamento acerca das responsabilidades das universidades públicas e privadas para com a sociedade que lhes dá guarida.

Mesmo considerando a importância de todos os conhecimentos, de todas as práticas e de todas as profissões, é necessário explicitar o caráter especial de nossa disciplina, pois ela acarreta uma descomunal responsabilidade coletiva, só comparável à medicina. Como já disse em outra ocasião,

“Durante a vida, cada homem habita três tipos de casa. O corpo, a primeira das casas, agasalha a estranha energia que interage com o mundo através dos sentidos para a seguir o elaborar via intelecto. A segunda é a casa da família, com os cômodos, objetos e artefatos que sustentam nossos hábitos, costumes, necessidades e (des)prazeres. Na terceira moradia entramos ao atravessar a soleira da porta e pisar a calçada pública que nos conecta com homens de famílias alheias. Sujeito às vicissitudes do tempo e do espaço, cada habitat tem sua história e sua geografia, mas tem também seu cuidador profissional, responsável pela saúde do corpo e sanidade do espírito. O médico cuida do corpo, abrigo primordial; ao arquiteto cabe zelar pelas outras duas, a casa da família e a cidade da sociedade. São eles os mais importantes profissionais de qualquer agrupamento humano”.

[...]

“A transformação constante das três moradas ao longo do tempo é a primeira analogia proposta. O invólucro liso e frágil que guarda nosso ser tão logo se faz o milagre do nascimento se metamorfoseia e passa por estados que podem ser resumidos pelos adjetivos que os qualificam: fofo, liso, brilhante, teso, rígido, frouxo, mole, enrugado, macilento, pútrido. Da casa talvez seja mais simples dizer que o ciclo da vida se revela na perfeição dos encaixes e acabamentos no momento da inauguração, no brilho e nos risco dos planos e anteparos desgastados pelo uso durante os tempos áureos e felizes, nas trincas e fraturas acumuladas no envelhecimento, nos escombros de seu arruinamento final. A complexidade das cidades e sua capacidade quase infinita de se regenerar quase nos consegue enganar, não fossem os achados arqueológicos que nos revelam de forma trágica: elas demoram, mas fenecem. A transformação, o mote inicial da aproximação entre corpo, casa e cidade, cede lugar para sua outra face, a efemeridade da existência, eufemismo para a palavra recalcada, a morte” (4).

Edifício Copan, São Paulo
Foto Rafa Netto

Entendo, portanto, que o arquiteto seja fundamentalmente responsável pelas casas dos homens, envolvendo conceituação, projeto, construção e manutenção. A partir de nossas escolas de arquitetura, urbanismo e design, as casas que devemos ensinar nossos alunos a construir são, em alguma medida, metafísicas, pois nelas estão contidas demandas anímicas que se materializam em desejos, valores, visões de mundo; elas conectam-se à vida e, inevitavelmente, à morte. Mas são também casas concretas, aonde estão embarcados conhecimentos técnicos, culturais e artísticos específicos de nosso tempo, o que nos coloca diante da contemporaneidade. E, não podemos esquecer, são casas específicas ao contemplarem um meio ambiente especial, uma cultura própria, um estágio de desenvolvimento econômico particular. Nossas casas fazem parte do mundo globalizado, mas expressam características que lhe foram impressas pelas construções materiais e imateriais da tradição histórica local.

Casa das Canoas, Rio de Janeiro
Foto Nelson Kon

Em outra ocasião comentei a Casa das Canoas, de Oscar Niemeyer, construída para si no meio do século passado. Trata-se de uma obra prima do arquiteto, mas também podemos considera-la genuinamente brasileira. Descrevi a casa assim:

“Como abrigo primordial [...], a Casa das Canoas tem no rochedo de granito seu centro gravitacional. A pedra está dentro e fora da casa: dela brota as águas da piscina, como se ocultasse uma nascente; nela se apoia um dos oito pilares que sustenta a laje de cobertura; sobre ela ondula a esquadria de vidro com ajuste feito por um muro baixo de alvenaria (de cor verde; mera coincidência?); e é nela que se apoiam os degraus da escada que liga o pavilhão superior social ao piso inferior privativo”. [...]

“A laje plana de cobertura se projeta em balanço por toda a extensão dos fechamentos e cumpre a função de proteger o interior da incidência direta do sol [...]; uma expansão maior em paralelo à piscina, conforma uma generosa varanda”.

“A introspecção [...] é traduzida na Casa das Canoas em intimidade da sala de estar, conformada por uma parede curva, com planta em oval incompleta”. [...]

“Ao contrário da maioria dos comentadores, que salientam a transparência e a integração interior e exterior, entendo que na área social da Casa das Canoas há uma oscilação entre transparência e introspecção” (5).

Nesse texto, onde faço amplo balanço comparativo entre a casa e o Pavilhão da Alemanha em Barcelona, do arquiteto Mies van der Rohe, tento compreender o que está por detrás das decisões de projeto do arquiteto brasileiro. Se é certo que parte delas pode ser atribuída ao seu talento inato, não há como negar que este só se desenvolve e floresce a partir do solo cultural e civilizacional brasileiro.

Casa das Canoas, Rio de Janeiro
Foto Nelson Kon

Assim, é possível apontar o que é tributário da discussão moderna internacional em voga e o que se relaciona de forma umbilical com o contexto sócio-econômico-cultural nacional, onde em meio à estrutura social moderna e em rápido desenvolvimento se revelam resíduos do passado escravagista relativamente recente.

“É possível detectar aqui um aspecto importante da obra de Oscar Niemeyer que está diretamente ligada ao estágio civilizacional deste Brasil de raízes rurais. De um lado, temos a sublimação da técnica e da tecnologia em um objeto estético virtuoso, carregado de reminiscências e alusões ao passado e à natureza exuberante, com formas orgânicas que escondem o cálculo estrutural e as decisões técnicas, os dois fatores que garantem a estabilidade da construção. De outro, temos o recalque do trabalho humano desqualificado em uma tectônica avessa às marcas humanas, tanto da geometria ordenadora mas principalmente dos vestígios do trabalho manual. Alguns sintomas parecem confirmar estas afirmações: a levitação dos palácios brasiliense se faz à custa do ocultamento do cálculo estrutural de Joaquim Cardozo; a apresentação dos trabalhos do arquiteto ao longo das décadas privilegia os croquis de concepção e o objeto arquitetônico finalizado em detrimento de dados técnicos, construtivos e programáticos; a recorrente opção de pintar de branco as grandes estruturas de concreto armado enaltece o desenho do arquiteto e rebaixa a construtividade técnica” (6).

Assim, a bela casa de Oscar Niemeyer se mostra depositária do que temos de melhor e do que temos de trágico. De um lado, a busca de uma relação íntima com a paisagem a partir de uma sensibilidade aberta ao encantamento e à harmonia, que resulta em uma obra encravada no locus paradisíaco, como bem pode ser definida a mata tropical luxuriante. Por outro, uma obra que resulta de uma abissal divisão de classes sociais, que se desdobra em uma divisão entre o saber criativo e o fazer banal, onde o primeiro é exaltado e sublimado, enquanto o segundo é escondido e recalcado. Em certa medida, quase toda casa brasileira projetada por arquitetos é simbolicamente uma Casa-Grande, abrigando ou não os serviçais. Se é certo que o ranço da escravidão se explicita em uma mansão de “oito quartos de empregados”, também é verdade que as periferias sem fim das metrópoles dos países pobres – ou injustos, caso do opulento Brasil – são cidades-dormitório destituídas de quaisquer vestígios de cidadania democrática.

Zona Leste, São Paulo
Foto Nelson Kon

Mas não achem vocês, caros alunos ingressantes, que basta boa vontade para se fazer boa arquitetura. A ética funciona de duas formas: como âncora com corda frouxa, para que possamos navegar o universo sem nos esquecermos de onde viemos e o motivo da viagem; e como alvo, para que tenhamos um objetivo final claro e que ao nos desviarmos por rotas tortuosas possamos retomar o bom caminho. Se a ética é condição necessária para a boa prática da arquitetura, ela não é condição suficiente.

Nós professores temos a obrigação de envolver nossos alunos com questões utilitárias, técnicas, estéticas, históricas e teóricas, com as escalas diversas dos objetos de estudo e as formas adequadas de sua representação. Se a ciência é universal, seu desdobramento técnico depende de disponibilidades de recursos econômicos e materiais, de gente treinada e disposta à construção – em suma, de uma cultura material. Se a teoria é um pensamento prescritivo e abstrato em uma de suas facetas, em outra ela é a capacidade de receptação das formas culturais existentes e uma busca contínua de se descobrir o modus operandi de um determinado contexto ou grupo cultural, quiçá de um arquiteto maior. Teoria só faz sentido a partir de um aporte histórico; história só faz sentido com uma perspectiva teórica; são irmãs xipófagas, que não se desgrudam sem o risco de fenecer.

São muitas as questões cruciais a serem debatidas por professores e alunos em uma escola de arquitetura engajada na solução dos problemas sociais, um debate que parte do saber disciplinar fundamental, mas que não pode ser por ele ilhado, pois eles – os problemas sociais – atravessam de cabo a rabo nossa sociedade odiosa. Assim, precisamos nos munir de saberes e olhares outros, que estão na sociologia, na história geral, nas várias artes, no saber popular.

Cena do filme “A que horas ela volta?”
Foto divulgação

Pode inclusive estar em um filme, caso da bela obra de Ana Muylaert, Que horas ela volta?, que trata com profundidade e sagacidade os dois aspectos aqui tratados – a casa e a cidade. Sobre o filme, comentei o seguinte:

“As ‘cenas urbanas’ do filme são reguladas por [um] princípio da escassez. A câmera registra a ansiedade de Val [empregada doméstica vivida pela atriz Regina Casé] tentando descobrir no desembarque do aeroporto a filha que não via há anos, ou então mãe e filha dentro do ônibus enquanto ele trafega junto ao rio Tietê. Não se vê nem a multidão do aeroporto, muito menos o rio e suas pistas expressas. Ganha especial importância a passagem do veículo pelo Largo da Batata, quando a protagonista diz não saber mais o que é aquele espaço imenso integralmente pavimentado, que tomou o lugar dos festivos encontros da comunidade nordestina. Aquilo que os sociólogos chamam de gentrificação – a expulsão das comunidades mais pobres com a justificativa de ‘revitalização’ ou ‘reabilitação’ urbanas – é o contraponto da fala nostálgica da empregada doméstica, que só vai encontrar o lugar de encontros e diversões equivalente na periferia da cidade. O Largo da Batata como espaço da memória afetiva aparece na fala de Val, mas o espaço urbano real, aquele que foi pavimentado pelas forças do capital, não nos é mostrado” (7).

A imaginação de Ana Muylaert nos revela uma cidade com duas faces: ela é uma dolorosa abstração cheia de impossibilidades da expansão do desejo individual de pertencimento; ela é também o registro do apagamento da memória coletiva pautada pela solidariedade. Na escala pequena, a casa de Val – na realidade, a casa senhorial dos patrões, onde ela pode usar um quarto para descansar entre uma e outra jornada extenuante de trabalho – é um cenário aberto da luta de classes fundada em valores arcaicos de convivência.

Cena do filme “A que horas ela volta?”
Foto divulgação

É bom que se diga que se trata de uma realidade presente no cotidiano de nossas cidades, mesmo que esteja se encolhendo com as transformações estruturais da sociedade brasileira. Mas estas ocorrem aos solavancos e não nos permitem afirmar, sem o risco de errar feio, que tal realidade está em processo de extinção. Voltemos à Casa Grande do filme “Que horas ele volta?”:

“Mas é o ambiente doméstico que se converterá no espaço de conflito. Os cômodos da casa – salas, quartos, corredores, área de lazer e fundamentalmente a cozinha, em geral apresentados de forma parcial – e os mobiliários e equipamentos ali instalados – mesas, geladeiras, sofás, camas e piscina – são convertidos em trincheiras da guerra desigual que vai ser travada entre os protagonistas. Sentar na cama ou à mesa interditada, comer a guloseima proibida, entrar no espaço indevido, servir o café aos convidados da festa com xícaras inadequadas, qualquer *uma dessas ações pode desencadear reações de enorme violência moral por parte dos patrões” (8).

Espaço da lareira, Sesc Pompeia, São Paulo
Foto Paulisson Miura [Wikimedia Commons]

Rumo agora para o fim dessa breve aula. Reitero para os jovens estudantes, em especial para os novatos ingressantes, que a maior responsabilidade que temos como arquitetos é projetar a casa do homem (e seus utensílios, pois não podemos nos esquecer dos estudantes de Design...). A pequena casa da família ou a grande casa coletiva que é a cidade precisam de nós para projetá-las, para construí-las, para cuidá-las. Tais casas são o suporte da vida coletiva, sem elas não é possível nem mesmo a parca felicidade que nos permite nossa efêmera existência individual. O que se diz aqui não é filosofia abstrata sem pé na realidade. Ao contrário, trata-se de conhecimento de domínio comum, entranhado nas gentes. Para que ele venha à tona, basta lembrar de frases comuns como “estou com saudades de casa” ou “preciso voltar para minha casa”, falas que expressam um feixe complexo de sentimentos e de valores, onde “casa” pode ser entendida como a nossa própria casa, a casa dos nossos pais, nossa cidade natal ou a que moramos hoje, muitas vezes nosso país, quem sabe nosso continente. Casa expressa fundamentalmente o sentimento de pertencimento, de raiz profunda do Eu, um ponto de onde se irradiam os sentidos e significados mais importantes de nossa vida.

Nossa casa é, antes de tudo, o casulo onde nos sentimos protegidos como no ventre de nossa mãe. Ela é, em alguma medida, uma impossibilidade, pois está contaminada por mitos coletivos e desejos individuais. Ela está na origem, no paraíso terreal ancestral que nos revelam escritos antigos. Ela está nas utopias dos pensadores de vários períodos da história ocidental que a projetam em algum lugar do futuro. Ela está dentro de nós, em nossa memória construída pelo desejo anímico de aconchego, que projeta na infância esse sítio sagrado.

Assim,

“voltar para casa é uma vontade que se defronta com riscos sem fim, como Ulisses em seu retorno a Ítaca, se livrando com astúcia de monstros e sereias, duelando com os pretendentes que assediam sua bela Penélope (que já nem se lembra mais dele após dez anos de ausência, esquecimento que não deixa de ser um tipo de morte). Voltar para casa pode ser dolorido. Sair de casa e retornar pode ser um desejo inviável” (9).

As palavras aqui alinhadas contêm uma fé no que somos e uma aposta no que podemos realizar. Uma universidade tem compromissos gerais com a sociedade. Uma escola de arquitetura tem com a mesma compromissos específicos, aqui abordados de forma sumária. Nosso pequeno coletivo pertence a ambas – universidade e escola de arquitetura –, o que significa que nosso compromisso e nossa responsabilidade são enormes. Os desafios são grandiosos, podem ser até mesmo intransponíveis para cada um de nós, mas não para nós quando tomados como coletivo focado na “solução de problemas da sociedade”.

Responsáveis que somos pelos suportes da felicidade coletiva, nós – alunos e professores – precisamos resgatar os mitos dos paraísos perdidos, acreditar nas utopias das sociedades democráticas, justas e igualitárias, guardar na memória e no coração a saudade de nossa casa primordial.

Despeço-me de vocês com um lamento que escrevi não faz muito tempo:

“Muitas vezes fico tentado a voltar para minha casa da infância, lá na cidade do interior de sol abrasante, só para me deitar com as costas desnudas no chão gelado da varanda, ouvir a voz distante da minha mãe falando com a vizinha por cima do muro do quintal, sentir o cheiro de fritura vindo da cozinha, ouvir o apito estridente da locomotiva e o ranger das rodas de metal limando os trilhos, deixar o tempo infinito passar devagar em velocidade quase estagnada, fechar e abrir os olhos para ter a noção do movimento das nuvens, vê-las aos poucos se transformando, ganhando formas de pessoas, bichos e coisas, os que existem e os imaginários, como navios e dragões, que navegam e voam para suas casas. Ter casa é preciso, retornar não é preciso” (10).

Obrigado.

Casa da minha mãe, Araraquara
Foto Abilio Guerra

notas

NA – Aula Magna apresentada na FAU Mackenzie no dia 15 de agosto de 2017.

1
RICCI, Larissa. Após alunos apontarem racismo, UFMG manda rever disciplina 'Casa Grande'. Estado de Minas, Belo Horizonte, 01 ago. 2017 <www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/08/01/interna_gerais,888460/apos-alunos-apontarem-racismo-ufmg-rever-disciplina-casa-grande.shtml>.

2
RIBEIRO, Renato Janine. Página pessoal no Facebook. Postagem feita no dia 28 de julho de 2017, às 06h47.

3
RIBEIRO, Renato Janine. Página pessoal no Facebook. Postagem feita no dia 28 de julho de 2017, às 18h31.

4
GUERRA, Abilio. Das três casas do homem. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 113.02, Vitruvius, fev. 2017 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.113/6404>.

5
GUERRA, Abilio. Oscar Niemeyer e seu duplo: Mies van der Rohe – ensaio sobre as relações entre a Casa das Canoas e o Pavilhão da Alemanha em Barcelona. Summa+, n. 147, Buenos Aires, dez. 2015, p. 89-91.

6
Idem, ibidem, p. 87.

7
GUERRA, Abilio. A piscina e a laje. Sobre o filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert. Resenhas Online, São Paulo, ano 14, n. 165.05, Vitruvius, set. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/14.165/5712>.

8
Idem, ibidem.

9
GUERRA, Abilio. Das três casas do homem (op. cit.).

10
Idem, ibidem.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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