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architectourism ISSN 1982-9930

Museu do Ipiranga, São Paulo. Foto Victor Hugo Mori

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Leia o artigo de Silvana Rubino sobre a exposição "Charlotte Perriand: design, fotografia, ativismo", em cartaz até 24 de outubro de 2010 no Museu do Design em Zurique, Suíça. A exposição teve curadoria de Arthut Rüegg, especialista em obras da designer


how to quote

RUBINO, Silvana. Muito alem da rue de Sèvres. Arquiteturismo, São Paulo, ano 04, n. 043.04, Vitruvius, set. 2010 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/04.043/3557>.


Abertura da mostra, 15 de julho de 2010
Foto Arthur Rüegg

O Museu do Design (Museum für Gestaltung) de Zurique, Suíça, exibe até 24 de outubro de 2010 a exposição Charlotte Perriand: design, fotografia, ativismo. Com a curadoria de Arthur Rüegg – especialista na obra da designer – e Andres Janser, é uma mostra precisa, pequena e necessária. De certo modo, Perriand vem sendo redescoberta nas últimas três décadas. Em 1985 sua trajetória e obra foram tema de uma grande retrospectiva no Musée des Arts-Décoratifs de Paris e em 1998 tivemos uma exposição no Design Museum de Londres. Seria exagero falarmos em um reconhecimento tardio, mas esta leva coincidiu com a publicação de sua autobiografia Une vie de création (1), de 1998 e seu falecimento em 1999. Em 2005 foi a vez do Centre Georges Pompidou, o Beaubourg realizar uma extensa retrospectiva de sua obra que ocupou boa parte do sexto andar do museu por quatro meses de intensa visitação.

Em relação às exibições anteriores, esta exposição em Zurique se destaca. Não é uma retrospectiva, mas uma mostra com recorte temático bastante circunscrito, apresentando uma atuação complementar à sua face mais conhecida, a saber, sua trajetória de designer. E ao fazer esta opção lança luz para parcerias com Pierre Jeanneret e Fernand Léger, deslocando um pouco Charlotte Perriand do papel restrito de membro do conhecido ateliê da rue de Sèvres, e do trabalho conjunto orquestrado por Le Corbusier.

Abertura da mostra, 15 de julho de 2010
Foto Arthur Rüegg


Logo no início do percurso temos a famosa foto de Perriand deitada na LC4, a conhecida chaise-longue assinada por Corbusier-Jeanneret-Perriand. A partir de então temos conjuntos, cenas montadas com seus móveis, com um agradável detalhe: com exceção de alguns originais, algumas peças únicas, em boa parte deles o visitante é convidado a se sentar, a usar a mobília. Mobiliário funcional e industrial: nada combina menos com essa idéia do que uma apreensão aurática, de obra única e intocável. E as pessoas se sentam para folhear os livros sobre Charlotte que repousam em uma mesa baixa também de sua autoria, assim como para olhar uma tapeçaria de Le Corbusier que faz parte de um dos conjuntos.

A exposição tem também o mérito de trazer o olhar de Charlotte como parte da cultura visual de seu tempo. Em sua faceta de fotografa temos uma série belíssima de objets trouvés: conchas, ossos, literalmente objetos catados nos diversos passeios e viagens que ela realizava com seu companheiro dos anos 1930, Pierre Jeanneret. Mas como o apreço a tais objetos moldados pelo acaso ou por causas naturais não era um privilégio seu, temos suas fotos entremeadas por outras de outros autores, com o mesmo tipo de foto e de peça fotografada. E se temos as fotos em belas ampliações, algumas vitrinas mostram os objetos em questão, esses pedaços de material orgânico que por conta do olhar de quem o recolheu, guardou e fotografou ganharam novo significado. Perriand chamava tudo isso de art brut.

Das fotos passamos às fotocolagens e mais do que o trabalho pronto e acabado a exposição evidencia a montagem, inserindo, mais uma vez estes trabalhos no contexto visual de outros trabalhos semelhantes. Suas colagens e “descolagens” encontram-se na mesma sala que vitrinas que mostram revistas como Das Neu Frankfurt, VU e Vorta, todas como o mesmo padrão gráfico engajado e radical que reconhecemos nas enormes fotocolagens que compõem o mural “La grande misère de Paris”, apresentado em 1936 no Salon des Arts Menagers, assim como em outras fotocolagens da própria Charlotte, de Le Corbusier, Geroge Brqque e Lucien Menizod.

Abertura da mostra, 15 de julho de 2010
Foto Arthur Rüegg


No caso das fotocolagens que ela fez para o Pavillon de la Agriculture somos apresentados a uma maquete que permite uma idéia do que era este pavilhão, seguida com uma desmontagem da montagem: fotos originais, que não são de Perriand paralelas às colagens, permitindo ao visitante refazer visualmente o processo que resulta em uma outra obra. A exposição tem nesses momentos felizes uma ênfase no processo de construção das coisas, na bricolagem que se esconde por detrás dessas imagens.

Quase ao final, o filme de Jacques Barsac, Charlotte Perriand creér l’habitat au XXe siècle, de 1985, traz Charlotte em sua conhecida vivacidade contando da dificuldade de se produzir um móvel industrial nos anos 1920 e 1930, lembrando o quanto suas propostas eram de difícil aceitação – “guilhotinamos Luis XIV, mas ainda moramos em casas de Maria Antonieta”, afirma a designer em certo momento. E, já senhora, lembrando de Le Corbusier com muita admiração e admitindo que não foi nada fácil deixar seu ateliê – foi preciso muito esporte de montanha, muito esqui e alpinismo para pensar no que tinha acontecido, ela recorda. Ela lembra do talento técnico de Jeanneret, da amizade com Majurice Dufrèsne, seu primeiro mestre que não obstante ter sido contrário à sua participação no ateliê de Le Corbusier – ele afirmou que ali Charlotte “secaria” – a ajudou a financiar o “Quarto do Jovem”, exibido na Exposição de Bruxelas em 1935.

É como se este pequeno percurso, de uma exposição que pode ser vista em uma hora, um pouco mais, deixasse claro que temos muito mais do que a linda jovem repousando na chaise-longue, que Charlotte Perriand foi parceira de trabalho de Corbusier, mas também de Léger, de Jean Prouvé e construiu uma carreira e um nome que a situam muito além da rua de Sèvres.

Abertura da mostra, 15 de julho de 2010
Foto Arthur Rüegg


Isso não é pouco. Do outro lado de Zurique, o pavilhão Heidi Weber, casa projetada por Le Corbusier, tem uma mostra permanente que traz outra versão dos fatos. A participação de Charlotte no mobiliário de Le Corbusier é reduzida a uma lenda inadequada e bem propagada em painéis que reproduzem o argumento de Vincent A. Masucci em Le Corbusier – Machines for Living. Furniture: a critical history (2), livro em que o autor afirma, sob protestos da própria Fundação Le Corbusier, que Corbu foi o único autor do mobiliário que hoje leva seu nome. E mais: de que já no final da vida Perriand relatoou sua versão dos fatos, convencendo praticamente todos da tríplice autoria: Le Corbusier-Jeanneret-Perriand.

Não se trata de reproduzirmos aqui uma contenda a respeito da autoria desses conhecidos móveis (que ficaram mesmo conhecido como móveis de LC), tampouco fazer justiça ao “verdadeiro autor”, mas de assinalar que por detrás dos gêneros “menores” do movimento moderno em arquitetura – como mobiliário e espaço doméstico – ainda há muito para ser visto e revisto, nem que seja por uma exposição que, sem apologia ou alarde, nos presenteia com novos olhares sobre fontes já exibidas e publicadas.

Notas

1
Ver RUBINO, Silvana Barbosa. Memórias de uma moça (nem tão) bem comportada. Resenhas Online, São Paulo, 08.089, Vitruvius, maio 2009 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/08.089/3040>.

2
Publicação do Centre Le Corbusier Press, 2010, para a mostra de verão do Heidi Weber Museum, 2010.

sobre a autora

Silvana Rubino, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e professora do Departamento de História da mesma universidade, viajou a Zurique em julho de 2010 para realizar pesquisa no arquivo do Eidgenössische Technische Hochschule (ETH), com apoio da Fapesp.

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