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arquiteturismo ISSN 1982-9930

Istambul visto do Topkapi. Foto Michel Gorski

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Uma conversa originada no Facebook descortinou uma série de lembranças, memórias e afetos em relação à antiga Rodoviária da Luz em São Paulo.


como citar

GUERRA, Abilio. A antiga Rodoviária da Luz. Sobre a autoria do projeto do edifício. Arquiteturismo, São Paulo, ano 10, n. 108.04, Vitruvius, mar. 2016 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/10.108/5959>.


"A história é um pouco mais complicada... Afinal, como o Bruneleschi, ele só fez a cúpula".
Luiz Felipe Cunha 

Dou outro lado da linha chega a voz familiar:

— Quem fala?

— Lemos, é o Abilio.

— Quem?!!!

— Abilio Guerra, Lemos!

— Hah, sim, como está?

— Muito bem. Estou te ligando para saber: foi você que projetou a antiga Rodoviária da Luz?

— Bem, a história é um pouco mais complicada...

Percebi que a resposta não seria direta e me mudo para outro cômodo. A audição de música no Marieta começa em breve, as pessoas estão chegando e a conversa está um pouco alta.

Meu telefonema para Carlos Lemos – arquiteto formado na FAU Mackenzie em 1950, sócio de Oscar Niemeyer e coautor do edifício Copan (1), professor titular da FAU USP por décadas, pesquisador, membro atuante em órgãos de proteção ao patrimônio nos três níveis da federação e do exterior (2), artista, escritor (3) – foi motivado por um contato anterior, via mensagem pelo Facebook enviada pelo arquiteto Felipe Contier uma hora antes.

— Abilio, você sabe quem projetou a antiga Rodoviária da Luz? Fiz uma rápida pesquisa e não descobri. Mas imagino que seja arquiconhecido.

Contier trabalhou um bom tempo no portal Vitruvius e merece uma resposta rápida:

— Eu já soube, pois me recordo ter pesquisado a cobertura colorida, mas não me lembro agora; se descobrir, te aviso!

Dentro do ônibus, a caminho do evento, resolvo encurtar a pesquisa e publico um Quiz Show no Facebook, convocando os amigos mais sabidos a resolver de forma rápida e imediata o enigma. E não demora. “Consta que é do Carlos Lemos”, diz rápido Affonso Risi, informação confirmada na sequência por Marcio Novaes Coelho Jr.: “Também conheço como autoria do Prof. Lemos”. Ecos se multiplicam. Eduardo Henrique Leal: “Carlos Lemos”. Sergio De Simone: “Carlos Lemos!” Miguel Góes: “Já ouvi que era o Carlos Lemos”. Sonia Afonso, de forma peremptória: “O projeto original é de autoria do Prof. Carlos Lemos”. Em trocadilho infame, Fred Fomm reitera o que todo mundo já sabe: “We've read (Lemos)”. Os palpites avançam pela madrugada e hoje bem cedo Mauro David Artur Bondi entra na conversa: “Sempre ouvi dizer que o projeto era do Prof. Carlos Cerqueira Lemos. Mas a qualquer hora vou perguntar para ele (tira-teima)”. Mal sabe o Maurão que eu já tinha feito o serviço de casa no dia anterior...

“Essa foto dá nostalgia”, disse Marcio Porto em algum momento da conversa pública. Diagnóstico perfeito do que tinha ocorrido comigo. Nos poucos minutos entre a mensagem de Contier e a publicação do Quiz Show fiz uma viagem incrível pela memória, me recordando das tantas vezes que esperei ônibus na antiga Rodoviária da Luz na metade dos anos 1970, quando fazia o transbordo dos ônibus que me traziam de São José dos Campos e Rio de Janeiro para os que me levariam para a casa dos meus pais em Araraquara, interior de São Paulo. Pássaro Marrom, Viação Cometa, Empresa Cruz, nomes das empresas proprietárias de comboios brutos, desconfortáveis, barulhentos, poluentes. Eu adorava aquele espaço imenso, com estrutura espacial fechada por módulos coloridos e translúcidos de plástico duro, com mezaninos espaçados que funcionavam como balcões e permitiam observar o vai e vem do formigueiro humano. E a demora era sempre tão grande que as televisões coloridas dispostas em série, presas na estrutura metálica, tinham uma enorme audiência garantida. Ali assisti a dois jogos da Copa do Mundo de 1974, ocorrida na Alemanha. Não me recordo mais dos jogos, mas não me esqueço do time incrível da Holanda, que acabou perdendo a final.

Mesmo tendo consciência do quanto era kitsch, concordo com o arquiteto e professor carioca Vicente del Rio, que afirma ser a antiga rodoviária um “excelente projeto”. Nada marca tão fundo a memória de uma pessoa se não tiver grandes qualidades. Lucas Caracik, em conversa paralela com um amigo, em alguma medida confirma o interesse acadêmico do edifício: “Artur, veja só que coincidência! Hoje mesmo tratamos da Rodoviária da Luz em um seminário!” E Thais Lavieri desloca o foco da conversa para o âmbito institucional – “Nossa!!! Uma lenda urbana!!! E o prefeito ou governador dessa gestão????” –, demonstrando os vários aspectos interessantes, no campo da arquitetura e do urbanismo, que envolvem a história desse equipamento infraestrutural.

Naiara Abrahão, nostálgica, nos traz a realidade do edifício, que já não existe: “Era tão bonito... Pena que demoliram... Lembro que eles fizeram tipo um comércio, meio shopping antes de colocarem tudo abaixo...”  De fato, no início dos anos 1980 foi inaugurado o novo terminal de passageiros, muito maior e melhor localizado, junto à marginal do Rio Tietê, e a antiga Rodoviária da Luz foi desativada e, após alguns anos de abandono, foi convertida em shopping popular, o Fashion Center Luz. Inaugurada em 1988, a área comercial funcionou até 2007, quando foi desapropriada pelo poder público  para abrigar o Teatro da Dança de São Paulo, projeto contratado ao midiático escritório suíço Herzog & De Meuron. Mesmo tendo excelentes qualidades, o projeto não parece que vai sair do papel. Hoje, após a demolição, temos ali uma enorme cratera, um terreno baldio imenso a espera de uma oportunidade.

E enquanto Tuca Vieira posta na linha do tempo da conversa facebookiana (4) fotos maravilhosas da rodoviária convertida em shopping – imagens que agora ilustram esse artigo –, os palpites dos amigos facebookianos se enveredam por conexões entre fatos e pessoas, complicando ainda mais uma história que parecia bem simples. Miguel Góes coloca em cena uma pista interessante: “E curioso é que os revestimentos – as pastilhas – são semelhantes ao prédio da Folha... Ambos [os edifícios] seriam (a se confirmar..) propriedade do Caldeira, sócio do Frias na Folha... Será folclore???” Alessandro Sbampato, sempre curioso e, por isso, bem informado, complementa: “O prédio da Litográfica Ypiranga, na rua Olga, em frente ao Memorial, é da Folha e tem as mesmas pastilhas”.

Entro em uma das salas de trabalho do coworking do Marieta e fecho a porta para ouvir direito o que me diz Carlos Lemos ao telefone:

— Bem, a história é um pouco mais complicada. O meu grande amigo Carlos Caldeira Filho, sócio do Octávio Frias de Oliveira no jornal Folha de S.Paulo, levava sempre um secretário da redação para pegar um ônibus para Santos. O embarque era feito na calçada, sem local preciso, o que o irritava muito. Viu naquilo uma oportunidade. Conversou com o sócio, acertaram um acordo com a prefeitura de São Paulo e construíram a rodoviária, um empreendimento privado. O Carlos, um cara interessado nas coisas, pesquisou tudo sobre terminais de ônibus – medidas dos veículos, fluxo de pessoas, dimensões e necessidades técnicas – e elaborou ele mesmo o projeto, que foi convertido em projeto técnico pelas mãos do engenheiro Raul Simões. Mas o Carlos não estava nunca contente e enfiou na cabeça que queria uma fonte e uma cúpula. A fonte não foi problema, mas não era simples compatibilizar geometricamente a base circular da cúpula com uma estrutura espacial de modulação quadrada. Ele me chamou para resolver a questão e se resume a isso minha contribuição para o projeto da Rodoviária. Bem, aproveita para falar com o “pessoal do Iphan”, com o Mauro, Victor Hugo, Michel, para marcarmos um almoço, pois faz tempo que não conversamos. Abraço e boa noite.

Enigma solucionado, deixo a palavra final desse arremedo de artigo para Felipe Contier, que provocou toda a discussão e foi o responsável pela liberação de tantas lembranças, informações e afetos: “Obrigado pessoal. Um projeto interessantíssimo que muitos esquecem”.

Cúpula projetada por Carlos Lemos para a antiga Rodoviária da Luz, centro de São Paulo
Foto Tuca Vieira

notas

1
SEGAWA, Hugo. Sobre a arquitetura de Carlos Lemos. Projetos, São Paulo, ano 15, n. 179.02, Vitruvius, nov. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/15.179/5823>.

2
Carlos Lemos teve participações diversas no Conpresp – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e Icomos – Internacional Council of Monuments and Sites.

3
GUERRA, Abilio. Carlos Lemos, escritor. Homenagem aos 90 anos do arquiteto. Drops, São Paulo, ano 16, n. 099.03, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.099/5855>.

4
A conversa completa ocorrida na página do Facebook pode ser verificada no link <https://www.facebook.com/photo.php?fbid=955433664547284&set=a.476134639143858.1073741853.100002419778722&type=3&theater>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora. Com Michel Gorski, é editor da revista Arquiteturismo.

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