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architectourism ISSN 1982-9930

Museu das Civilizações da Europa e da Mediterraneidade, Marselha, França, arquitetos Rudy Ricciotti e Roland. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Lugar cheio de verde, ruínas e memória, o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos está localizado na primeira cidade tombada pelo Iphan – o que ainda assim não impediu que a mesma fosse submersa em nome do progresso.

english
A place full of greenery, ruins and memory, São João Marcos Archaeological and Environmental Park is located in the first city listed by Iphan – which still did not prevent it from being submerged in the name of progress.

español
Lugar lleno de vegetación, ruinas y memoria, el Parque Arqueológico y Ambiental de São João Marcos se encuentra en la primera ciudad incluida en la lista de Iphan, que aún no impidió que se sumergiera en nombre del progreso.


how to quote

LOPES, Dayane Caputo Camacho. São João Marcos. Memórias de uma cidade submersa. Arquiteturismo, São Paulo, ano 13, n. 150-151.02, Vitruvius, set. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/13.150-151/7499>.


Já ouviu falar na cidade perdida de Atlântida? O mito da cidade submersa exposto nas obras de Platão desperta curiosidade e fascínio até hoje. Mas no estado do Rio de Janeiro o conto virou realidade. Sai a fúria dos deuses e entra a luta pelo progresso do governo brasileiro e a triste história de uma cidade inundada.

Em 1941, a elevação de uma das barragens do complexo de Ribeirão das Lages, de propriedade do grupo Light, provocou a destruição da cidade de São João Marcos em Rio Claro, que acabou vazia e alagada para dar lugar ao avanço energético do Rio de Janeiro. Com isso, seus habitantes tiveram que deixar para trás suas casas, tradições e memórias, para recomeçar a vida longe dali.

Ruínas e cruzeiro da Igreja Matriz da Cidade
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Criada em 1739, através da abertura da Estrada Imperial, a cidade de São João Marcos iniciou como entreposto para o escoamento de minerais, e, mais tarde entrou na rota do café, ligando os estados de Minas Gerais e São Paulo ao porto do Rio de Janeiro. Tão logo foi acontecendo o estabelecimento das primeiras fazendas de café na região, seu núcleo urbano foi se consolidando nas adjacências de sua Igreja Matriz.

Em 1850, durante o auge o ciclo do café, a cidade do vale fluminense ganhou importância e desenvolvimento, chegando a possuir 18 mil habitantes, dentre os quais 8 mil escravizados. Assim, pode-se afirmar que a prosperidade da região ocorreu por meio de um sistema essencialmente escravocrata tanto na produção do “ouro verde”, como na construção de toda infraestrutura da cidade.

Ponte em arco da antiga Estrada Imperial, feita de alvenaria de pedra arrumada e argamassada
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Estampada em seus casarios, igrejas e fazendas, a arquitetura colonial figura como traço principal na paisagem da cidade e seus belos edifícios. Além disso, chama atenção a significativa estrutura urbana, dotada de prefeitura, cadeia, hospital, igreja, colégios, teatro e clubes.

Afim de fugir dos planos de inundação, a população conseguiu que, em 1939, a cidade se tornasse o primeiro município brasileiro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – atual Iphan. Porém, em 1940, apenas um ano após seu tombamento, o então presidente Getúlio Vargas cancelou o ato por meio de decreto, visando solucionar de vez a problemática da intensa falta d’água sofrida pela capital carioca, acelerando assim, as obras de ampliação da Usina Hidrelétrica de Ribeirão das Lages.

Maquete criada a partir de acervo histórico com dimensões de 520m x 450m e escala 1:200, contendo a área urbana de São João Marcos existente no ano de 1940, antes do alagamento
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Devido a necessidade de estancar os crescentes protestos e resistência dos habitantes, logo chegou a ordem de destruir todas as edificações de São João Marcos e proceder o alagamento. E foi ali que em pouco tempo toda aquela estrutura foi engolida pelas águas e pela dor dos locais.

As ruínas ficaram submersas por mais de 70 anos, quando foi realizado um trabalho arqueológico que ajudaria a recontar essa parte da história do Brasil lançada ao ostracismo por igual período. Hoje o local abriga o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, localizado em Rio Claro, no Rio de Janeiro (conhecida como “Cidade do lago”, nas redondezas) e tornou-se um lugar para resgatar a antiga São João Marcos como monumento, não só como patrimônio arquitetônico, mas também um apanhado de paisagens, tradições, costumes, e do folclore presente na memória de seus moradores.

Descrição: Rampa de acesso ao Centro de memória e o restaurante, localizados na entrada do parque, antes do início do percurso das ruínas
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

O projeto teve início em 2008, coordenado pelo Instituto Light em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e foi concluído em 2011. Para isso foi necessário grande esforço multidisciplinar: arqueólogos, museólogos, arquitetos, engenheiros, pesquisadores, produtores culturais, dentre outros que trabalharam em conjunto para o resgate da memória da cidade. Hoje o espaço proporciona aos visitantes, de forma simples e lúdica, a ligação das evidenciações arqueológicas com a história da antiga cidade do Vale do Café Fluminense.

O Parque é o primeiro sítio arqueológico urbano do país e possibilita a observação da estrutura básica da cidade, com suas principais vias de circulação, traçados e alinhamentos das edificações restauradas, bem como das técnicas construtivas utilizadas na época, objetos dos moradores, entre outros artefatos devidamente classificados.

Traçado original da praça mantido através do trabalho de paisagismo, manutenção da forma dos canteiros e disposição dos bancos
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

 

A maior parte da cidade continua submersa nas águas do ribeirão, porém existe um circuito de visitação que corresponde ao local onde se concentrava o principal núcleo urbano do povoado que é visitável durante todo o ano. A parte mais alta, onde se localizavam as praças e a igreja Matriz, não foram submersas e podem ser identificadas, porém não tiveram suas edificações poupadas durante a demolição da cidade. Assim, as ruínas encontradas no sítio são um trabalho de arqueologia, recomposição e restauração das peças encontradas no trabalho de escavação.

A área de aproximadamente 930 mil m² é abraçada pela Mata Atlântica e beijada pelo espelho d’água da Represa de Ribeirão das Lajes. Não à toa leva o cunho “ambiental” em seu nome. A necessidade de proteção do reservatório e o fato de possuir limites com o Parque Estadual Cunhambebe, possibilitando a ligação entre os Parques da Bocaina (ao Norte do estado) e o do Tinguá (ao Sul), tornam o local um centro de conservação, fazendo parte, assim, do corredor florestal da Mata Atlântica no Rio de Janeiro.

Belezas naturais e a paisagem que emolduram o Parque
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Os visitantes do parque dispõem de comodidade para imergir em uma verdadeira experiência multissensorial no circuito das ruínas, que conta com percurso total de 3 quilômetros de sinalização ambiental, histórica e arqueológica. Durante o passeio é possível observar as deslumbrantes paisagens que misturam as belezas da mata verde e da água da represa, além de ouvir o canto e contemplar a grande variedade de pássaros da região.

O circuito de ruínas foi concebido de acordo com o traçado da antiga cidade, e se concentrou nas duas praças principais (5 de Julho e Feliciano Sodré), junto a igreja Matriz e a casa do Capitão-Mor. Segundo o Instituto Cidade Viva, responsável pelo trabalho de revitalização, no início do projeto grande parte de vegetal encobria a parte urbana, sendo necessário remover camada de sedimentos que chegavam até um metro de espessura. O piso, por exemplo, foi limpo com delicadeza para exposição do calçamento em pé de moleque.

Vista interna da casa do capitão-mor sendo possível observar diferenças de piso, setores e distribuição geral da planta
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Na restauração de achados dos edifícios pode ser observada a utilização de pouco material novo, empregado apenas para estabilizar as estruturas e as peças originais. A antiga casa do Capitão-Mor (que também serviu de escola local e sede de clube social da cidade), é umas das edificações mais bem preservadas e tem parte da sua fachada bem identificável, estrutura da planta interna além de piso e calçada destacados. Também se observa grande quantidade de molduras de argamassa, pedras trabalhadas em cantaria na forma de arco, bases de colunas. Soma-se a isso a visualização de partes das paredes, colunas internas e o emboço do casarão que se encontram em bom estado de conservação.

Fachada principal do Casarão do Capitão-Mor com portas e janelas trabalhadas em cantaria na forma de arco
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

A Igreja Matriz é um dos pontos de maior destaque no circuito, servindo como ponto para identificação do traçado original da cidade, que tinha aquele local como ponto principal. O desenho dos canteiros, caminhos e ruas das praças, bem como a localização dos bancos, foram mantidos e podem ser comparados com a maquete do centro de memórias. De suas ruínas é possível observar os calçamentos que a circundavam, em pé de moleque, assim como as soleiras da frente e fundos, porta lateral e a entrada principal.

Ruínas da fachada lateral da Igreja Matriz e da calçada em pé de moleque. Ao fundo pode-se observar a casa do capitão-mor
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Na parte frontal da Matriz foi construído um arco em concreto, destacando-se dos demais materiais da ruína, com finalidade de estabilizar as partes originais encontradas no trabalho de escavação. Assim, além de remeter a forma original da entrada da igreja, o material é bem destacado, diferenciando a intervenção. Sua arquitetura trazia inspiração peculiar daquela utilizada pelos jesuítas, de estilo maneirista, somado a torres em transição para o estilo barroco, ornamentadas com quatro pináculos e azulejos portugueses.

Entrada da Igreja matriz com intervenção em concreto visível na porta em arco
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Além do circuito das ruínas o parque conta com uma estrutura que abrange o centro de memória, guias turísticos, anfiteatro, salas exposições multimídia, restaurante, mirante, observatório de pássaros, além de um campo de futebol em tributo ao “Marcossense Futebol Clube”, time vivo na memória dos antigos habitantes.

Para os mais interessados na história da antiga cidade, o centro de memória apresenta uma maquete do município em escala, totens digitais com fotos e documentos do seu período seco e também uma exposição do documentário “A história de São João Marcos”, com relatos dos antigos moradores. Como parte da experiência multissensorial, é possível agendar um almoço com pratos relembrados pelos marcossenses.

Interior do Centro de Memória com maquete em escala, totens digitais e informações sobre a história da cidade
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

Outro conceito importante é a característica de eco museu, concepção que abarca a inclusão da comunidade do entorno, com o destaque dado ao conjunto, a participação da comunidade e não a objetos específicos, o que traz vida ao sítio arqueológico. O parque apresenta diversas atividades culturais realizadas a céu aberto no anfiteatro, com entrada franca e agenda cultural que pode ser conferida no site do mesmo.

Anfiteatro localizado na entrada do parque, junto ao centro de memória e restaurante. Nele acontecem semanalmente eventos culturais gratuitos que trazem vida ao parque
Foto Dayane Caputo Camacho Lopes, 2019

A ação de preservação e valorização do patrimônio cultural brasileiro rendeu ao projeto do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos diversos prêmios, dentre eles o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. Trata-se do mais importante reconhecimento nacional na área de proteção do patrimônio natural e arqueológico, concedido pelo Iphan e o Ministério da Cultura, na categoria Proteção do Patrimônio Cultural, atribuído em 2011.

O Parque de São João Marcos compreende um espaço para estudo arqueológico, ambiental e cultural, que resgata e protege o patrimônio brasileiro, tornando possível embarcar em uma verdadeira viagem no tempo. O sítio arqueológico veio reverter o processo de esquecimento da antiga cidade submersa nas águas tranquilas de Lages, em que hoje repousam uma soma de condições e contradições políticas, econômicas e sociais. O passeio é imperdível para todos os brasileiros.

sobre a autora

Dayane Caputo Camacho Lopes é arquiteta e urbanista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2012). Pós-graduada em Técnicas Construtivas (2018), possui também MBA em Sustentabilidade, ambos pela Faculdade Unyleya (2018/2019).

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150.02 patrimônio ambiental e cultural
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