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architectourism ISSN 1982-9930

Hotel Tambaú, João Pessoa PB, arquiteto Sérgio Bernardes. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Este artigo é um dos resultados da viagem de estudos, realizado em 2018 à cidade de Brasília. Esta atividade é parte das atividades extensionistas do curso de Arquitetura e Urbanismo, financiada pela FAU UFJF com tutoria do professor Mauro S. Campello.


how to quote

CAMPELLO, Mauro Santoro; et. al. As dimensões espaciais e não-espaciais de Brasília. Entre as rupturas sociais, a poesia e o poder. Arquiteturismo, São Paulo, ano 13, n. 154.03, Vitruvius, jan. 2020 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/13.154/7624>.


“Arquitetura é coisa para ser vivida”.
Lúcio Costa

O centro do Brasil: as rupturas social, poética e poder

Em meio à rotina de siglas para identificar cada um dos locais da cidade de Brasília — EQS, EQN, QL, CRN, SCN, SHLN, SQS —, ficou evidente a divisão que a cidade possui e a função de cada um desses setores dentro da lógica e vida Brasiliense. Claramente, tudo nos pareceu possuir seu devido espaço: a moradia, o ir e vir, o comprar, o hospedar, as solenidades, e etc. Se precisássemos assim eleger uma palavra para a nossa vivência na cidade, essa seria função.

Vivenciar um pouco de Brasília foi para nós como fazer parte de uma grande obra de arte viva, mutável e aberta às amplas e díspares leituras. Com isso, Brasília — marco da arquitetura e urbanismo modernista funcionalista nacional e internacional— acumula em meio a tantos olhares uma simbiose de adjetivações, como “catástrofe ao nível dos olhos” (1) para Jan Gehl à visão romantizada da cidade do futuro e atual de Juscelino Kubitschek.

O objetivo da viagem foi de instrumentalizar e reforçar elementos já presentes na estrutura curricular do curso de uma forma prática e imersiva aos participantes, permitindo o contato por meio do conhecimento e reconhecimento de novas técnicas, tecnologias e projetos de um fundamental recorte da história e teoria da Arquitetura Brasileira que é a cidade de Brasília.

A fusão da arquitetura com as escalas — bucólica, gregária, residencial e monumental — determinadas por Costa para Brasília, a faz um laboratório de ensino a céu aberto, não somente para o estudante de Arquitetura e Urbanismo, como também para a sociedade, o que torna, consequentemente, possível perceber as suas dimensões, tanto aquelas dimensões estritamente visuais — signos tão comuns e marcantes na paisagem de Brasília, como também dimensões não-visuais, do sentir o áspero, de sentir o liso, os odores, o frio e o quente. Assim, traçamos uma leitura da cidade por meio das reflexões advindas da nossa vivência em percorrer a cidade de formas variadas, tais como andar a pé, de carro e metrô.

Ilustração do roteiro final realizado na viagem, jan. 2019
Foto dos autores

 

O legado e os entraves da cidade construída

Mesmo tempos depois dos anos ideários do Governo JK, ainda nos surpreendemos ao chegar à cidade e nos depararmos com a evidente supremacia dos veículos, resultante da pujante industrialização dos anos 60, nos parecia ainda marcar a cidade e os preceitos do urbanismo modernista pareceram se materializar e fortemente definir o solo de Brasília. No plano, embora a nova capital estivesse isolada da maior concentração populacional, o projeto urbanístico e arquitetônico calcava-se em dar conta de conter a participação popular, tanto durante a construção, quanto depois, no seu futuro uso. Todavia, na prática, vê-se um cenário diferente. Explicitamente a população mais humilde nos parece estar nas cidades satélites, onde comumente a vida e estrutura são mais deficitárias. A atmosfera e toda materialização da exuberância de Brasília marca a desigualdade e automaticamente — e talvez inevitavelmente —, cria paredes imaginárias que se rebatem fisicamente no solo, no padrão de construção, nos grupos de usuários e na setorização atual da cidade.

No Congresso Nacional, percebemos algumas situações curiosas. A rampa que leva à escada que dá acesso à Câmara dos Deputados e do Senado estava impedida por cavaletes, por um funcionário da segurança e bloqueada por grades. O grande espelho d’água, implantado ao redor da construção, foi uma estratégia política para impedir a aproximação da população ao complexo. Estes dois exemplos desvirtuaram completamente o conceito de Niemeyer. A aparência é tudo se resume a bloqueios — catracas, grades, seguranças, câmeras.

Durante o entrar e o sair de um edifício a outro, verificamos e assimilamos alguns elementos, apesar de sutis, que nos pareceu existir. O que mais chamou a nossa atenção foi a aparente deliberada intenção de se afastar a participação popular. O ambiente, os usuários comuns aos edifícios, a burocratização no acesso, nos pareceu planificar bloqueios impedindo o usufruto original dos edifícios públicos o que reforçou, para nós, a intenção de participação e abertura popular dos projetos urbanos e arquitetônicos da capital.

Grandes avenidas destinadas à passagem predominantemente de veículos, out. 2018
Foto dos autores

Superquadra 308 Sul (quadra modelo), nov. 2018
Foto dos autores

Rampa central do Congresso Nacional bloqueada, nov. 2018
Foto dos autores

Praça dos Três Poderes, nov. 2018
Foto dos autores

O mover e a vida social

Tratando-se de Brasília, algumas imagens, como a arquitetura de Oscar Niemeyer, o planejamento de Lucio Costa, a organização sociopolítica e às questões governamentais logo vieram à nossa cabeça. Porém, ao chegarmos à cidade, as definições e pré-concepções tomaram novos rumos, uma vez que na vivência as dicotomias se desabrocharam e nos mostraram novas perspectivas da cidade, algumas diferentes do planejado.

 

O terminal rodoviário é por onde chega grande parte dos trabalhadores que moram nas Cidades-satélite, out. 2018
Foto dos autores

O transitar pelas “bordas” de Brasília nos possibilitou uma análise de fora (periferias) para dentro (cidade formal), à medida que nos aproximávamos daquela cidade sonho poetizada por arquitetos e urbanistas. As dicotomias eram visíveis, como a melhoria na qualidade das edificações, a qualidade viária e a abundante arborização. Tudo parecia melhorar no cenário.

A primeira visão da cidade foi de deslumbramento e curiosidade. Grandes arquiteturas se entrelaçam e se inserem em meio à massa esverdeada, largas avenidas delineiam o traçado da cidade, quase sem semáforos ou lombadas, carentes de pessoas, de pedestres e ciclistas, fatores que nos saltaram os olhos, ora positivo, como as grandes obras, ora negativo, como a elevada quantidade de automóveis.

As grandes distâncias entre os destinos, a falta de proteção contra o sol e chuva fora das quadras, o transporte público caro, e os grandes contornos para os veículos dificultaram a mobilidade, quase beiram a inospitalidade. A cidade parece clamar por abrigos, voz e pequenas gentilezas urbanas. Em Brasília, o habitar — nas quadras —, o trabalho — no eixo central — e o recrear — nos parques e centros culturais – estão ligados pela circulação prioritariamente de veículos.

Vista da Asa Sul a partir do Eixo Monumental, out. 2018
Foto dos autores

Na rodoviária do Plano Piloto, na confluência dos transportes, nos maximizou a vivência popular. A impressão é de que o conjunto de todos os ruídos — seja do grito do vendedor seja de alguma música religiosa da caixa de som próxima —, o movimento e a vida que existem por todos os cantos em outras cidades, em Brasília parece se concentrar neste ponto, como um coração pulsante e lhe conferindo uma roupagem vital. Em 1984 Lucio Costa pontuou que a rodoviária,

“É muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. É o Brasil” (2).

É um fato que Brasília materializou a Carta de Atenas, entretanto pela vontade política e social alguns aspectos foram na medida de seu crescimento sendo subvertidos, como o limite de densidade e população, a não construção de subúrbios sem planejamento, o transporte eficiente e a democracia do uso do solo.

Aglomeração de pessoas na rodoviária do Plano Piloto, out. 2018
Foto dos autores

A monumentalidade e as percepções das escalas

Partindo das percepções de nossa caminhada, foram vivenciadas diversas sensações, desde o sentimento de tranquilidade das quadras, até ao desespero de encontrar um abrigo em uma forte chuva no eixo monumental durante a ida ao Memorial Juscelino Kubitschek.

A sensação de domar o horizonte com o olhar se apresentou para nós à medida que a utopia de uma “cidade aberta” como um espaço de todos, percorrida ao menos pelos olhos com facilidade, se mostrou real. Para Lúcio Costa, Brasília não deveria se tratar de “uma simples aglomeração urbana, uma metrópole, mas o símbolo de uma nação“, o choque desta inovação era esperado. Dessa forma, acreditava que mesmo indo contra a lógica comum das aglomerações humanas, seria possível uma cidade como essa.

Caminhada às margens do Eixo Monumental, out. 2018
Foto dos autores

O caminhar ao longo do eixo monumental nos soou como uma experiência cênica. A leve alteração da topografia tornou a Praça dos Três Poderes inalcançável pela vista do transeunte que caminhava pela Esplanada dos Ministérios, deixando o horizonte mais instigante; algo muito curioso para este grupo de maioria mineira, que pela primeira vez no Planalto Central se depara com o horizonte infinito, sem mares de morros. Ao fazer então o trajeto da rodoviária até o Palácio do Planalto a pé, nos deparamos com uma experiência de percepção muito peculiar, o grande gramado central da esplanada engana o olhar, se mostra caminhável, mas na verdade tem as dimensões de um grande parque.

Trecho percorrido da Esplanada dos Ministérios, nov. 2018
Foto dos autores

A percepção da monumentalidade dos edifícios mudou a partir do momento em que se foi equiparada às distâncias horizontais entre eles, aos imensos gramados e às grandes avenidas, cujos sinais quase sempre estavam fechados. Entretanto, a identidade formal dos palácios e monumentos juntos demonstra o quanto Niemeyer dominava as formas arquitetônicas e o uso dos materiais, sendo capaz de representar a dimensão simbólica da vida em sociedade, manifestando a vontade do povo, de acordo com a proposta de Lúcio Costa.

Brasília: produto de arte e paisagem

Nossos olhares foram direcionados a visualizar atentamente as contribuições de cada um dos principais idealizadores da paisagem da cidade: Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Burle Marx. Contudo, nenhum elemento aparenta ser uma coisa, muito pelo contrário. Tudo é rico em sentidos, significados e sensações.

Detalhe dos pilotis nos prédios residenciais, nov. 2018
Foto dos autores

Um piloti não é apenas o representante máximo da livre circulação de pessoas; é um local de encontro, de espera por alguém, mas é também de contemplação da arte nas paredes, arte do domínio dos materiais, do verde ao redor e da forma de vida muito peculiar que se vive nas superquadras.

As grandes linhas de visão permitem um circuito de arte à céu aberto, que, devido à sua vastidão, funciona como uma galeria que possibilita a observação integral das obras. Essa abertura permite que de todos os pontos possam ver a maior arte na paisagem de Brasília: o seu céu, intermitente, jamais encoberto por ruas apertadas e prédios altos colados uns aos outros. E nós não fomos os únicos a ser impactado por esse céu, Claudio Naves representou o céu no Santuário Dom Bosco com degrades de cores, na Catedral de Brasília, Marianne Peretti posiciona os anjos voando num magnífico céu de vitrais, e no Palácio do Itamaraty uma estrutura de pergolado faz a ligação do jardim e do céu. Seja no exterior ou no interior, o céu de Brasília está sempre lá, vivo e grandioso.

Detalhe da Catedral de Brasília, nov. 2018
Foto dos autores

Entrada do Memorial JK, nov. 2018
Foto dos autores

Interior do Santuário Dom Bosco, nov. 2018
Foto dos autores

Nas visitas guiadas nos marcou muito o quanto cada detalhe é minuciosamente baseado nos ideais de ocupação social dos edifícios, como também em significados artísticos e arquitetônicos. Tanto no exterior, como no interior, a obra de vários artistas está sempre presente. Os edifícios são marcados pela contribuição de Bruno Giorgi, Athos Bulcão, Marianne Peretti, Alfredo Ceschiatti, Di Cavalcanti, Burle Marx e outros, com quadros, projeto paisagístico e esculturas abstratas, cujos temas principais são nossas raízes e tesouros naturais. Os painéis produzidos são pautados na aproximação com o público e remetem à nossa cultura, sendo que os azulejos cerâmicos são trazidos pelo Modernismo como uma retomada de nossas raízes portuguesas. Além disso, os artistas evocam a história de nosso país e da construção de Brasília através da formação de figuras abstratas e experimentais, que contaram com a participação dos operários das obras para concepção.

Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, obra de Oscar Niemeyer e painel de Athos Bulcão, nov. 2018
Foto dos autores

Interior atual da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, nov. 2018
Foto dos autores

A escala ampla de Brasília também é presente no interior dos edifícios, nov. 2018
Foto dos autores

Nas entrequadras, a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima é uma marca que não passou despercebida aos nossos olhos. Entre as árvores e a calmaria, aparentou desenhar sutilmente e com muito charme a paisagem daquela quadra modelo. Ao entrar em seu interior nos marcou a intervenção do restaurador Francisco Galeno no interior da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, após um significativo incêndio que atingiu seu interior e danificou o painel original de autoria de Alfredo Volpi. A pintura de Nossa Senhora possui uma pipa substituindo as mãos, terço como carretel de linha. Em um primeiro momento estranhamos a representação, sobretudo considerando o tradicionalismo da representação religiosa.

Brasília é, como um todo, uma obra repleta de antíteses e contrastes. Seu caráter funcional, além de não impedir o surgimento de demandas encontradas no restante das grandes cidades brasileiras, gerou desafios relacionados à mobilidade, habitação e segregação social, próprios de seu planejamento. Contudo, pareceu-nos que todos os problemas e peculiaridades observados fazem parte da consolidação da obra de arte que é a cidade. O concreto do edificado e o verde da vegetação, o azul do céu e opacidade do cerrado, os candangos vindos do sertão e as autoridades da capital, a monumentalidade do Plano Piloto e a pequenez de quem o habita. Todos os contrastes da ocupação do Planalto Central que só Brasília é capaz de propiciar!

As formas orgânicas presentes no interior dos edifícios: Congresso Nacional, nov. 2018
Foto dos autores


Foto dos autores

notas

NA – Esta produção contou também com as honrosas e significativas contribuições dos seguintes nomes: Mariana Machado Alves, Patrick Don Borges, Ana Laura Ferreira Pinheiro, Mayara Nacarate Machado, Rodrigo Oliveira Lopes e Silva, Alice Kaizer Souza, André Nassif Vieira, Ana Rosa Lopes Goretti, Amanda Lauro de Souza, Bheatriz Fazollo Lazzarini e Rebeca Landeiro dos Santos.

Agradecemos a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e a Universidade Federal de Juiz de Fora em nome da Pró-reitoria de Extensão.

1
GEHL, Jan. Cidade para as pessoas. São Paulo, Perspectiva, 2013, p. 196-197.

2
COSTA, Lucio. Plataforma rodoviária (1984). In COSTA, Lúcio. Registro de uma vivência. São Paulo, Empresa das Artes, 1995, p. 311.

sobre os autores

Mauro S. Campello é professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora e mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo Proarq FAU UFRJ.

Yann Souza Okada, Ana Elisa de Oliveira, Cleyton Luiz da Silva Rosa, Hudson Borges de Souza, Lara Vilela Vitarelli, Letícia Bedendo Campanha Pires, Lucca Lopardi Brigatto, Manoel Abreu Fernandes e Natália Rosa Fantin são alunos de graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora – FAU UFJF.

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154.03 viagem de estudos
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154

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