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architexts ISSN 1809-6298


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COMAS, Carlos Eduardo. A racionalidade da meia lua. Apartamentos do Parque Guinle no Rio de Janeiro, Brasil, 1948-52. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 010.01, Vitruvius, mar. 2001 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.010/906>.

O lugar, de 400 x 400 metros, tem uma topografia complicada. Desde um dos lados parte uma faixa quase plana de 10 metros de largura que corre paralela à única rua limítrofe, situada ao sul. Dos extremos desta faixa o terreno sobe delimitando uma depressão oval. O extremo interno da faixa é também o extremo da rua limítrofe e ponto de encontro da mesma com uma rua perpendicular muito curta que sai da via principal do bairro. Neste ponto se localiza o portão de acesso, construído no início do século junto com a mansão que se eleva à esquerda.

O encargo surge quando a mansão é vendida ao governo junto com uma porção adjacente de terreno. No terreno restante, de consideráveis dimensões, a família Guinle planeja a construção de uma urbanização residencial de luxo: uma combinação de edifícios de apartamentos e de lotes para residências unifamiliares. Costa realiza o plano geral e projeta seis edifícios. Mantém a depressão como parque coletivo, e dispõe um edifício frente a rua, junto ao antigo portão, e os outros em uma linha quebrada que parte perpendicularmente e se desenrola, aproximando-se de um arco abatido, entre dois dos limites do terreno; propõe uma rua serpenteante arborizada junto ao parque que se prolonga e bifurca para permitir o acesso às parcelas das residências unifamiliares.

Os edifícios de apartamento são paralelepípedos de 65 metros de cumprimento por 15 de largura que seguem os princípios de Le Corbusier: esqueleto estrutural de concreto independente, laje plana de entrepiso em balanço, garagem no subsolo, pilotis de dupla altura no primeiro pavimento, dos núcleos de elevadores e duas caixas de escadas exteriores, dois apartamentos duplex e dois normais na planta tipo e apartamentos especiais circundados por terraços no último pavimento. Os cinco apartamentos têm dimensões que variam entre 225 e 515 m2 e estão organizados em faixas paralelas ao longo de generosos espaços de circulação intermediários.

A proposta é direta porém não está isenta de sutilezas. A continuidade e a alienação da construção ao longo da rua limítrofe se respeitam e reforçam. A rampa da garagem se separa do edifício vizinho. Uma plataforma de pedra compensa a declividade relativamente suave do terreno. Constitui uma calçada elevada junto às lojas que compartilham o pavimento térreo de pilotis com a entrada de um dos núcleos de elevador. Uma marquise sobre delgadas colunas metálicas protege os degraus que dão acesso à plataforma e à entrada dos apartamentos distribuídos em oito pavimentos. A parede envidraçada do local comercial da esquina se quebra para indicar a calçada que conduz ao interior do terreno.

A descoberta do parque é também a descoberta da rua interior e de uma surpreendente leitura de crescent georgiano – os blocos interiores, um pavimento mais baixos se dispõem enfocando a velha mansão, o parque e as vistas ao poente, em direção ao mar. Continuidade e curvatura são virtuais, produto da pouca distância entre os blocos em relação a largura de suas fachadas. A separação permite acomodar melhor os blocos à declividade, libera espaços para acesso à garagem e valoriza a outra entrada dos apartamentos do primeiro edifício que, desta forma, se entende como dobradiça na articulação do tecido existente com a nova intervenção. As vantagens pragmáticas do esquemas são evidentes em comparação com o precedente inglês ou com os rédents curvilíneos que propôs Le Corbusier para Rio e Argel.

O primeiro pavimento de pilotis dos blocos é canonicamente aberto, com exceção dos dois núcleos de elevadores e seus respectivos vestíbulos. Não obstante, ainda que o pavimento de mosaico português da calçada se estenda para dentro da planta porosa, o desnível em relação à rua e a vegetação se utilizam para restabelecer a gradação tradicional entre o domínio público da rua e o domínio semi-privado da edificação. Tampouco o espaço de pilotis está indefinido funcionalmente. O segmento central entre os vestíbulos serve de porte-cochère, os dois extremos parecem alpendres mobiliados com cadeiras de jardim, locais de estar ou espera, semicerrados pela vegetação, que podem usar-se todo o ano e proporcionam vistas esplêndidas tanto do parque, mais abaixo, quanto dos penhascos de granito que limitam o terreno pelo norte. Se esta é uma porção de Cidade Radiante, há de convir que é uma Cidade Radiante de adulto, limpa de qualquer esquematismo e de todo o preconceito em relação com a herança figurativa do urbanismo ocidental.

O tratamento das fachadas também surpreende. No primeiro bloco, os salões e habitações frente à rua exterior ao sul se fecham com muros cortina cujos painéis inferiores são de vidro pintado de azul; as paredes laterais se revestem de pedra e estão perfuradas por uma fileira vertical de janelas quadradas que correspondem aos banheiros e aos extremos da faixa intermediária da planta. A neutralidade horizontal domina em ambos os casos, mas, frente ao parque, para o qual, logicamente, se abrem os salões e os dormitórios dos blocos interiores, o vidro se dissimula atrás de elegantíssimos painéis de textura diversa, grelhas de peças de cerâmica avermelhada ou placas de madeira pintadas de branco; aqueles perfurados por um marco central quadrado, estes interrompidos emuma das metades superiores. A disposição dos painéis reflete as distribuições interiores ligeiramente distintas em cada bloco, as grelhas protegem e animam as galerias que o clima propicia e a orientação reclama, os marcos são vestígios de janelas e anteparo para apoiar-se e desfrutar a paisagem. As referências ao mucharabi lusobrasileiro são óbvias, mas deveria registrar-se também a empatia com o Terragni da Casa del Fascio.

A generosidade dimensional dos apartamentos e a simplicidade de suas plantas desenvolvidas longitudinalmente contribuem para dar-lhes uma qualidade de casa esparramada, muito de acordo com a tradição brasileira de residência rural. Inclusive nos duplex, sugestivamente dispostos na seção intermediária dos blocos, Costa prefere conectar-se com os sobrados coloniais – casas em fita de dois pavimentos – e abster-se de qualquer efeito dramático nas secções, que fosse comparável aos de Le Corbusier em seus immeubles-villa. A possibilidade, dados os recursoso econômicos existentes, de multiplicar as circulações verticais e reduzir ao mínimo as circulações horizontais comuns não se descartou, e seguramente o fato contribui para aumentar a sensação de privacidade nos apartamentos. Nem a metáfora do hotel, nem a de navio ou mosteiro se aplicam a uma empresa deliberadamente antiheróica que recusa a monumentalização da residência e insiste em manter um certo decoro doméstico, uma sobriedade delicada que não faz alarde do orçamento privilegiado. Uma coleção de casas superpostas não é a única opção para a habitação coletiva, mas está longe de ser a menos grata.

sobre o autor

Carlos Eduardo Dias Comas é arquiteto, membro da Comissão Coordenadora do PROPAR (Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura) da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e responsável pela pesquisa "Arquitetura Brasileira Contemporânea: Cidade Figurativa, Teoria Acadêmica, Arquitetura Contemporânea".

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