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architexts ISSN 1809-6298


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REGO, Renato Leão. A poética do desassossego. A arquitetura de Álvaro Siza. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 010.03, Vitruvius, mar. 2001 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.010/908>.

"De Álvaro Siza refere-se habitualmente a geometria e a obstinação em a distorcer, comprimir, moldar, em analogia com os terrenos e o seu desenho acidental ou tão só com a vontade poética de perverter o cubo edificado de ressonâncias racionalistas" (1).

Com uma arquitetura que retoma ao mesmo tempo as duas atitudes projetuais que marcaram a primeira metade do século - as poéticas racionalista e organicista - e com grande capacidade de adaptação, Siza propõe uma espécie de "atualização de culturas arquitetônicas plurais" (2). O seu desenho se descobre como um palimpsesto: nele encontramos resíduos variados que nos reportam a experiências alheias, anteriores, aqui revividas sob nova relação intencional. A história da arquitetura é referência manipulada no seu método projetual que vai da reconstrução tipológica à releitura.

Com licença poética, Siza retoma temas e soluções formais da arquitetura de Corbusier, Wright, Aalto, Mies, Loos, Mendelshon, Stam, Scharoun. (Talvez como a amplitude e a fluidez dos espaços de Niemeyer na cobertura do Pavilhão da Expo 98 ou as passarelas do Sesc de Lina no Museu Iberê Camargo?). Ele, como Fernando Pessoa, é vários, múltiplo. Na alma, é todos aqueles outros: seus desenhos reviveram, na escuridão de olhos fechados, imagens da história da arquitetura. Sua arquitetura é interferência nessa realidade. Aí, o arquiteto ratifica a idéia de que a arquitetura nunca surge no vazio: suas formas remontam a outros desenhos e suas imagens nos remetem a outras arquiteturas. Siza é feito de muitos Álvaros.

                           * * *

  "Cada um é muita gente"

"Todos os dias a Matéria me maltrata"

Estas duas citações de Fernando Pessoa podem refletir uma faceta da arquitetura de Álvaro Siza que, por um lado, remete à iconografia da própria arquitetura e, pelo outro, entabula um diálogo das formas experimentadas com as possibilidades materiais da paisagem. A matéria condicionante ‘maltrata’ a aparência das formas - sua imagem ganha vida na aderência ao seu lugar. Daí os ‘acidentes’, papel da circunstância, na arquitetura de Siza.

Para Siza, os arquitetos não inventam nada, apenas transformam a realidade (3). Desse modo, a história da arquitetura – como parte integrante da realidade do arquiteto – também concorre na imaginação de Álvaro Siza, na medida em que o registro de suas formas e as instâncias visuais produzidas por uma memória sem fronteiras alimentam seu imaginário. É o que vemos mais obviamente no restaurante não construído em Malagueira, imagem da Savoye; ou no interior da biblioteca da Universidade de Aveiro, iluminada por uma versão das clarabóias da biblioteca de Viipuri, de Aalto. Ou ainda na torre inclina de escritórios em Berlim, que refaz a espiral do Guggenheim de Wright.

Mas, entendamos bem essa liberdade. Há que se evitar aí a presença da força de uma prática abstrata que superponha seus efeitos à paisagem. O traço pós-moderno de Siza rejeita esquemas mortos ou fórmulas anunciadas na mesma intensidade em que afasta formas puras, geometrias platônicas.

O projeto da arquitetura organicista é outra referência marcante e perseverante no seu trabalho. No modo como o arquiteto recria a idéia de lugar e na relação material do desenho com o contexto, manifesta-se sua afinidade com as atitudes projetuais de colegas nórdicos, como Utzon ou Aalto. Sua arquitetura inquietante enquanto transformação da realidade começa com um intenso diálogo com o lugar – configuração palpável da cultura na natureza – no e a partir do qual o arquiteto projeta. A arquitetura nasce sob um método "decididamente empírico e atento aos dados do contexto" (4), deixando gravada nos seus edifícios a singularidade do artefato arquitetônico.

As formas de Siza dialogam com o lugar, acidentam-se nele. Em certa passagem do Livro do Desassossego, Pessoa anota que "viver é não conseguir"; pois em Siza, realizar a arquitetura conota rechaçar a tranqüilidade de formas regulares, abstratas, pela adesão à paisagem. Entre a realidade e a forma platônica das idéias, são como que a abdicação do sonho da forma ideal, do volume abstraído; regularidade clássica, essa é a sua desistência em favor de uma arquitetura da circunstância.

Não se descarta, entretanto, o formalismo corbusiano: da plasticidade das formas conjugadas sob a luz, Siza constrói uma arquitetura de sensações - objects à reaction poétique. Como no Corbusier purista, que refaz a dinâmica cubista pela ordem que a geometria desenha, a beleza o espectador a encontra no ânimo da tensão estética.

Na relação dialética do processo criativo de Siza, formas primárias são introduzidas e, em seguida, modificadas por transformações. É o caso do Centro de Meteorologia de Barcelona: aí, um cilindro abstrato de 33 metros de altura e 33 de diâmetro - a modo de torre, marco ou farol - ganha recortes e cavidades, textura e revestimento, detalhes e ornamento, que vão conduzi-lo ao artefato que soluciona o problema arquitetônico apresentado, com atenção à particularidade da localização marítima e à ruptura da constância formal que o ente geométrico adotado apresenta. A planta circular é recortada em duas secantes para caracterizar os acessos ao edifício tendo como referências as vias que o tangem. Nichos, fendas, recortes e saliência no volume e gárgulas de mármore no alto do edifício criam expectativa e tensão no olhar que contorna a edificação.

No interior, a planta calcada numa figura octogonal apresenta um conjunto de quinas, dobras e arestas em espaços pouco regulares, contidos, paradoxalmente, na mesma geometria clara que se vê externamente.

De cada transformação - desassossego da forma - que acontece no projeto de Siza emerge o fragmento de vivências momentâneas. "Cada desenho", diz Siza, "deve captar, com o máximo rigor, um momento preciso da imagem palpitante, em todas suas tonalidades, e quanto melhor puder reconhecer essa qualidade palpitante da realidade, mais claro será" (5). Em uma imagem fixa, linear, continua Siza, não cabe tal proposta. É na forma fragmentada que se poderá encontrar uma resposta menos exclusivista à natureza complexa e multifacetada do projeto.

O distúrbio da harmonia, quer seja pela circunstância da paisagem e aderência ao contexto quer pela tensão embutida no fragmento e variação da constância formal, estabelece a particularidade e a singularidade do artefato. É este o caso da igreja para quatrocentas pessoas do complexo paroquial de Marco de Canavezes.

A posição da igreja no sítio conforma a praça irregular. Diante dela, a fachada, inscrita num quadrado de 17,5m de lado, com duas torres – campanário e batistério - ladeando a entrada –, remonta ao tipo familiar do edifício religioso. Aproveitando a declividade do terreno, semi-enterrada abaixo da nave, instalou-se uma capela mortuária, cujo revestimento externo de granito serve de soclo à igreja branca. No limite dos dois materiais – entre o peso do bloco de granito e a pureza da argamassa branca – uma abertura de 50cm de altura por 16 metros de comprimento - intriga o transeunte da parte baixa do terreno.

Variação da escala, da linha, da constância, surpreenderão o ateu e o fiel, que aí reza comovido. A presença corbusiana poder ser sentida nos volumes brancos banhados de luz suave que acomodam o programa do edifício às urgências que eles mesmos fabulam. A abside inverte a concavidade usual nos templos cristãos. A nave exibe, pela fenda horizontal numa de suas paredes laterais, o horizonte; pela outra, curva no teto, reta na raiz, culmina a dramaticidade do espaço interno, já anunciada na entrada, no umbral da porta de dez metros de altura. Como nuvem, as paredes do interior parecem responder a uma lufada de ar. A pia batismal, instalada à entrada da igreja numa sala de 5x6m com pé-direito de 16 metros e meio, revestida de azulejo branco, contribui, com o som da água que escorre da pia de granito, para a carga poética desta arquitetura.

Desde a parte posterior da igreja, como em todo o conjunto, sente-se que, contra a clareza do branco e até da razão, Siza ergue geometrias nada euclidianas, moldadas numa plasticidade intensa, colorida de formas brancas.

notas

1
Catálogo da Exposição Itinerante Tendências da Arquitetura Portuguesa, organizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e Secretaria de Estado da Cultura de Portugal, 1987 (o grifo é meu).

2
MATOS, M. C. "Inquirição a um projeto – a Escola Superior de Educação de Setúbal". In: TRIGUEIROS, L. Álvaro Siza, 1985-1995. Lisboa: Blau, 1995, p. 22.

3
Idem, Ibidem, p. 22. Cf. SIZA, A. Architecture Writings. Milão, Skira, 1997, p. 34.

4
MONTANER, Josep Maria. Después del movimiento moderno - arquitectura de la segunda mitad del siglo XX. Barcelona, Gustavo Gili, 1993, p. 196.

5
FRAMPTON, Kenneth. Historia crítica de la arquitectura moderna. Barcelona, Gustvao Gili, 7 ed., 1994, p. 322.

sobre o autor

Renato Leão Rego é doutor pela Universidad Politécnica de Madrid e professor adjunto do Departamento de Engenharia Civil da UEM - Universidade Estadual de Maringá, PR.

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