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REGO, Renato Leão. Um playground que é uma escultura, esculturas que são paisagens. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 010.04, Vitruvius, mar. 2001 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.010/909>.

Em 1961, Louis Kahn, "um arquiteto de convicções fortes e habilidades" (1), aceitou o convite do escultor Isamu Noguchi para trabalharem juntos no projeto de um playground na margem noroeste da ilha de Manhattan. Talvez Noguchi estivesse se referindo a Kahn nestes termos tanto pelas suas idéias, já sabidamente influenciadas pela filosofia de Heidegger, quanto pela sua arquitetura que, à época, começava a constituir um fenômeno extremamente significativo do período de transição do movimento moderno para o que viria a ser o pós-moderno (2), pela capacidade evocativa e pela imensa carga simbólica das formas geométricas simples, pela observação do sistema Beaux Arts, pela síntese entre modernidade e tradição, mirando a história sem imitá-la.

Juntos, o ‘arquiteto de convicções fortes’ e o escultor nipo-americano idealizaram o Riverside Drive Park Playground que, de acordo com o conciso memorial do projeto elaborado por eles, se estabelecia como uma "paisagem onde as crianças, seus pais, avós e pessoas de mais idade, pudessem encontrar diversão".

Foram várias as versões para o projeto, cinco no total, que se estendeu por um período de cinco anos, resultado de objeções, entraves legais e orçamentários. O programa preliminar, relativamente flexível, deveria obrigatoriamente observar a construção de espaços cobertos para uma enfermaria e demais serviços de atendimento ao público, a acomodação destas construções na paisagem com a mínima interferência na natureza, e lidar satisfatoriamente com as estruturas do subsolo, por onde circulavam trens da companhia municipal.

A proposta inicial estava articulada em três elementos principais, alinhados e arrematados por uma alameda que, de acordo com um croqui de Kahn, sombrearia uma série de equipamentos e brinquedos. Um core de planta circular assentado na pendente recortada do terreno criava uma arena, cujo centro era ocupado por uma fonte e para onde convergiam o anfiteatro, as salas construídas sob a rampa e a escada de acesso a esta praça, além de uma série de patamares triangulares para escalar e sentar-se, que faziam por fim a conexão com a parte baixa do terreno; este elemento central estava ladeado ao sul por dois montes artificiais com escorregadores e, ao norte, por um jardim de areia e seixos alternados numa trama labiríntica. Estes itens do programa permaneceriam ao longo do desenvolvimento das outras quatro versões subsequentes, sofrendo apenas deslocamentos e variações formais.

O desenho desta primeira versão do Playground está mais diretamente vinculado à arquitetura de Kahn pela imagem da rotunda instalada no centro da composição. Uma perspectiva vôo de pássaro da proposta para restruturação do centro de Filadélfia, feita em 1957, nos mostra a transformação do centro da cidade num fórum, aberto entre edifícios monumentais pela escala e escultóricos pela (pouco moderna) noção de massa, conformados em cilindros, tronco de pirâmide e torres de seção quadrada e em cruz. Kahn era de uma posição intermediária entre o funcionalismo e uma autonomia racional da arquitetura, fundamentada na sua expressão formal-lingüística. Por meio de uma sondagem arqueológica, sua arquitetura se referenciava em soluções formais consolidadas, combinando conceitos de geometria, ordem e módulo.

No desenvolvimento das versões subsequentes para o Playground, a arquitetura monolítica característica de Kahn e a disposição simples com que os espaços se alinhavam na extensão do lote logo dariam lugar a uma complexa relação entre cheios e vazios, marcada pela espontaneidade forjada a partir da justaposição de linhas quebradas, planos verticais e inclinados, distintos patamares e formas geométricas irregulares, que acrescida das peças de Noguchi vai "animar o espaço e dar sentido a ele" (3).

A maquete de bronze fundida a partir da quinta versão do projeto (Fig. 1 e 2), elaborada em 1964, nos revela uma geografia de formas imbricadas. Contra um arrimo irregular que contém os espaços cobertos do parque e que se propõe a esculpir uma sucessão de recantos a plein air, estão dispostos um anfiteatro e, mais adiante, um monte artificial com tobogã que desliza até um tanque com água; entre eles, uma plataforma dispõe uma coleção de esculturas-brinquedo: são pirâmides escalonadas, com balanço, com túnel, com escorregador, uma calota escalonada com fonte no cume, um tanque de areia e de seixos, um jardim seco. Slide Mantra (1966) é destas peças – trata-se de um muro enrolado como caracol que através de um buraco circular descortina uma escada entre suas paredes, ascendente até o escorregador que emerge do seu miolo.

Ao longo de todo o projeto, parecem ter ficado a cargo de Kahn a enfermaria e demais serviços, bem como o anfiteatro, a rampa, o arrimo e a plataforma onde estariam dispostos os brinquedos de Noguchi. A edificação fragmentada foi semi-enterrada, tal como a cidadela escavada que caracteriza o projeto de Kahn para o Lawrence Memorial Hall of Science (1962), transformando sua cobertura em área útil ao mesmo tempo em que evitava qualquer interrupção do parque pela barreira que um prisma isolado ergueria naquele cenário, tendo aberturas circulares nos moldes daquela empregada nos seus projetos na Índia e em Bangladesh.

Entretanto, a vontade de manipular o terreno a fim de construir uma certa paisagem, animando a natureza pela interferência do homem, já fazia parte da idéia de escultura de Noguchi. Moldar a terra no que ele chamou de escultura de espaços. Play Mountain (1933) é uma escultura-maquete em bronze de uma topografia imaginária, uma paisagem que refaz um fragmento da natureza desvelando a potencialidade artística de cada elemento envolvido na composição de modo a enfatizar a dramaticidade do conjunto. Trata-se de uma encosta a modo de pirâmide escalonada com o lado posterior transformado em colina espiral, em cujo topo as crianças poderiam subir e de lá escorregar com seus trenós no inverno. Na ‘montanha infantil’, uma escada é anfiteatro, plano inclinado é escorregador, quarto de esfera é concha acústica, movimentação de terra é poesia.

Familiarizado com o mundo americano da mãe e o Japão paterno, Noguchi alimentou um produtivo entusiasmo por distintas manifestações culturais primitivas e, particularmente, por aquelas da arte e do pensamento japoneses. E, neste aspecto, podemos entender o papel da experiência espacial dos jardins japoneses como referência à sua ‘escultura de espaços’. Os jardins de Noguchi estão impregnados com reminiscências dos elementos e da sensibilidade implicados nos jardins japoneses tradicionais, livremente interpretados por ele.

À parte o jardim mais ortodoxo que Noguchi executou na sede da Unesco em Paris (1957), no qual partiu do espírito do jardim japonês para realizar uma composição moderna de rochas naturais, vegetação, espelhos d’água, lanterna de pedra, seixos e areia, sua visão paisagista revela-se sobremaneira nos jardins secos não tradicionais, como o do Chase Manhattan Bank (1960-4), e na série de esculturas tipo mesa elaboradas no fim dos anos 60 (Fig. 3), que ele chamava de ‘paisagens mentais’.

Em Ziggurat (Fig. 4), escultura de pequeno formato realizada em 1968, o bloco de mármore branco é desbastado até torna-se uma placa horizontal que conserva duas saliências do que fora seu volume original: um paralelepípedo chato, periférico em relação à superfície polida de mármore, mas fundamental para a apreensão da obra, e outra maior, dentada a modo de escada. A escultura não é propriamente esta célebre figura que se destaca e dá nome à peça, é antes o espaço entre monumental e sagrado construído no campo em torno dela, salientado pela relação entre a figura principal e o paralelepípedo deitado na sua vizinhança. Para Noguchi a essência da escultura é a percepção do espaço, continuum da nossa existência (4).

Outras peças do acervo de Noguchi apresentam o contraste de pequenas superfícies absolutamente polidas e bem trabalhadas em toscos blocos de pedra, tal como saíam da terra, improvisando modificações e conservando as superfícies fraturadas. The roar (1966) é um tosco bloco irregular de mármore branco disposto horizontalmente com a ajuda de uma placa de granito negro polido sobre uma base de madeira bruta (Fig. 5). Esta como outras tantas esculturas de Noguchi são pedras refeitas pelo escultor, que deixa suas marcas por meio de breves alterações na textura do material de modo a grafar as interferências do homem no legado da natureza (Fig. 6). A consideração e permanência do acidental, encontrado no resultado destas obras, não era novidade, já que mesmo o improviso do jazz e a pintura de colegas americanos, como a action painting de Pollock, também o fizeram. Mas Noguchi imprimia aí um sentido mais amplo. Na cultura oriental, o inacabado e o incompleto ressoavam o fluxo e o movimento da vida.

Dispostas na natureza, estas pedras emprestavam um certo sentido dos jardins japoneses na medida em que configuram porções da natureza refeita pela cultura (Fig. 7 a 9). A exemplo da arquitetura de Kahn, grávida do desejo de imprimir ao espaço vazio a sensação de lugar (que encontro mais evidente em apenas alguns de seus projetos), a ‘escultura de espaços‘ de Noguchi empenha-se em conformar a natureza em paisagem.

Riverside moldava-se num lugar animado pela recriação da natureza.

Da parceria entre Kahn e Noguchi, que oscilou entre "gratificante e exasperadora", restaram os desenhos e maquetes, porquanto Riverside Drive Park Playground acabou não sendo executado por questões políticas. Ficou também uma homenagem do escultor ao arquiteto: Constellation (1983) é um arranjo de quatro diferentes blocos irregulares desbastados de basalto que, a modo de um jardim contemplativo japonês, repousam na amplitude de um gramado tendo ao fundo o Museu Kimbell, de Kahn.

notas

1
NOGUCHI, I. In: Play Mountain. Isamu Noguchi + Louis Kahn. Tóquio: Maruno, 1996. p. 65.

2
Cf. DE FUSCO, Renato e LENZA, Cettina. Le nuove idee di architettura. Milão: Etaslibri, 1991.

3
NOGUCHI, I. Fourteen americans: Isamu Noguchi. In: Apostolos-Cappadona e Altshuler, ed.: Isamu Noguchi: Essays and conversations. Nova York: Abrams, 1994. p. 24.

4
Idem, ibidem.

sobre o autor

Renato Leão Rego é doutor em Arquitetura pela Universidad Politécnica de Madrid e professor adjunto do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Maringá, UEM.

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