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BRANDÃO, Zeca. Millennium Dome. Um projeto nacional de poucos. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 010.07, Vitruvius, mar. 2001 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.010/912>.

Após um ano de uso e o investimento total de mais de um bilhão de dólares o Millennium Dome fechou as suas portas no último dia do ano 2000. De longe o maior e mais oneroso (politica e economicamente) de todos os "millennium projects", este empreendimento tinha como objetivo principal simbolizar o progresso tecnológico da Grã-Bretanha na entrada do terceiro do milênio. Assim como o Crystal Palace, que impressionou o mundo em meados do século XIX com sua munumentalidade e técnica construtiva representando os avanços provenientes da Revolução Industrial, o Dome pretendia ser um Projeto Nacional. Neste caso, a intensão parecia ser a de evocar o sentimento patriótico tão importante neste momento de indefinição diante da forma de participação da Inglaterra na União Européia.

Os fatos que caracterizam este projeto fazem lembrar outro evento muito conhecido dos ingleses: The Festival of Britain em 1951. Este festival além de comemorar o centenário da construção do Crystal Palace no Hyde Park, tinha como propósito reforçar a auto-estima de uma população pós-guerra que, apesar de vitoriosa, vivia tempos difíceis de austeridade na reconstrução de seu país. Assim, essa grande festa nacional para celebrar o fim de um período sombrio que foram os anos de 1940 foi a oportunidade de mostrar ao mundo que a Grã-Bretanha, unida como nunca pelo confronto com Hitler, entrava numa nova etapa de sua história.

Localizado em South Bank, região situada à margem sul do rio Tâmisa que enfrentava um forte processo de decadência urbana, este empreendimento era composto por várias edificações que exibiam ostensivamente a contribuição britânica à indústria da construção civil. A total liberdade espacial e plástica dada ao projeto permitiu colocar em prática as teorias modernistas, transformando o festival num laboratório de desenho urbano e arquitetônico sem precedentes. Foi sem dúvida o grande momento de liberação da arquitetura moderna na Inglaterra. O Royal Festival Hall, uma das principais obras do Festival of Britain, foi o primeiro monumento arquitetônico moderno de Londres e ainda hoje é um importante centro de lazer e cultura da cidade.

Entretanto, apesar do Royal Festival Hall ter sido a única edificação do complexo que resistiu aos tempos superando o caráter efêmero dos pavilhões de exposição, a torre Skylon e o Dome of Discovery, mesmo demolidos em 1952, permaneceram vivos na memória da população inglesa como os maiores íncones do festival. A torre Skylon que tinha como único propósito simbolizar o festival representava o "luxo de uma construção sem uso". O Dome of Discovery com seus110 metros de diâmetro e 28 metros de altura máxima manteve o status de maior cúpula do mundo por muito tempo. Construído em alumínio, que na época se apresentava como um material futurista, esta obra foi considerada um marco da engenharia do seu tempo se transformando numa espécie de precursor do movimento High-Tech inglês. Quase meio século depois, o arquiteto Richard Rogers, um dos maiores nomes da arquitetura High-Tech, fez uso destes dois elementos compositivos para projetar o Millennium Dome.

Equipamento âncora do plano de reestruturação urbana destinado a península de Greenwich, o Dome é hoje uma das maiores, se não a maior, edificação coberta do mundo. Uma gigantesca "tenda de circo" com 350 metros de diâmetro e 50 metros de altura máxima, sustentada por cabos de aço tencionados e fixados a 12 mastros com 100 metros de altura, implantada na extremidade da península. Cobrindo uma área fechada equivalente a duas vezes a área do Estadio de Wembley, o Millennium Dome teve como custo final de obra o valor aproximado de sessenta e dois milhões de dólares. Com o acesso facilitado pela Jubilee Line, nova linha de metrô com suas estações futuristas desenhadas por Norman Foster, outro expoente na arquitetura High Tech, a área que antes se encontrava longe e isolada ficou a meia hora do centro da cidade.

Como um típico exemplo do High-Tech inglês, considerado por alguns o legítimo herdeiro da arquitetura moderna, o Dome também se utiliza da tecnologia construtiva e do uso como base na elaboração plástica da proposta. Todos os seus componentes são cuidadosamente desenhados na busca do bom funcionamento, adequação construtiva e estética apropriada. O belo corte do tecido em fibra de vidro que cobre o equipamento, além de propiciar uma plástica interessante define a localização das torres de ventilação mecânica separando os acessos sociais dos de serviços. As próprias torres cilíndricas se apresentam como importantes elementos na composição arquitetônica. A coleta das águas de chuva, que após recicladas são utilizadas nos banheiros, também parece ser facilitada pela forma periférica da cobertura. Os 12 mastros em aço, referência explícita à torre Skylon do Festival of Britain, são fixados ao chão através de bases estruturais em forma de pirâmide que, além de oferecer uma escala mais apropriada aos usuários, definem a área de circulação e libera o piso dos cabos inferiores. Enfim, tudo é, ou pelo menos parece ser, absolutamente necessário. Uma relação harmoniosa entre o uso, a técnica construtiva e a estética.

Porém, é conhecida a complexidade de ordem funcional imposta pela forma circular ao projeto arquitetônico. A dificuldade de hierarquizar os espaços internos e externos, articular os setores sociais com os de serviços, racionalizar as áreas de circulação, diferenciar os acessos principais dos secundários, orientar os usuários, oferecer conforto ambiental através da iluminação, ventilação e acústica são alguns dos muitos problemas encontrados no edifício de planta circular. Apesar da competência técnica do arquiteto ter vencido a maior parte destes desafios, ainda que com um inevitável aumento no custo do projeto, a permanência de alguns conflitos comprometeram o bom funcionamento do Dome.

A configuração espacial proposta definiu dois grandes setores: uma arena central para shows e a área de exposições situada na periferia onde foram locados os pavilhões temáticos intercalados por blocos de serviços. A arena central era composta por um grande palco circular dotado de uma variedade de recursos tecnológicos, um anel demarcado no chão para uma audiência mais informal e interativa e uma arquibancada com cadeiras para o público interessado numa visão mais ampla e passiva do espetáculo apresentado duas vezes ao dia. Envolvendo este espaço central se encontrava o setor de exposições com suas treze Zonas Temáticas projetadas por diferentes designers. Se destacavam pela qualidade o Mind Zone de Zaha Hadid, o Body Zone de Nigel Coates e os Journey Zone e Talk Zone ambos desenhados pelo grupo Imagination. Nesta área de exposição foram projetados ainda os seis Core Buildings, contendo lanchonetes, lojas, telefones, informações, banheiros e outros serviços dirigidos ao público.

O resultado global do layout adotado apresentou uma série de conflitos de ordem espacial. A começar pela contradição de ocupar apenas duas vezes ao dia o espaço de melhor qualidade do equipamento, delimitado pela arena central, deixando-o completamente ocioso na maior parte do tempo. Por sua vez, o setor de uso mais intenso destinado às Zonas Temáticas apresentava sérias limitações impostas pela desarticulação funcional e estética entre os pavilhões. Localizado na parte de menor pé direito do Dome e confinado pela arquibancada da arena central que impedia a visão completa do equipamento, este setor provocava uma sensação de desconforto e confusão em seus usuários. Na verdade, esta proposta espacial enfraqueceu a monumentalidade sugerida pelo partido arquitetônico e confirmada pela visão externa do Millenniun Dome.

Um outro aspecto discutível refere-se à compreensão fácil e imediata dos espaços internos e externos destruindo qualquer possibilidade do elemento surpresa interromper a monotonia de uma gigantesca estrutura arquitetônica com 80.000m2 de área coberta. Deixar a individualidade plástica dos pavilhões como único instrumento responsável pela dinâmica espacial do equipamento parece ter sido um grave erro do projeto. O resultado das imagens internas, conseguidas por esta diversidade estética dos pavilhões, sugerem mais uma narrativa caótica e paradoxalmente previsível do que propriamente rica e surpreendente. Uma espécie de zoológico estilístico onde o espectador circulava numa inevitável rota única em forma de anel, procurando os seus temas de interesse. Após visitar o pavilhão escolhido, o usuário retornava ao "percurso obrigatório" em busca do próximo tema de interesse.

De qualquer modo, atribuir ao projeto arquitetônico o fracasso do empreendimento parece ser um exagero. Afinal, com todos estes conflitos espaciais o Millenniun Dome recebeu mais de seis milhões de visitantes, tornando-se a maior atração turística da Europa no ano 2000, ficando atrás apenas da Euro Disney. Se mesmo atingindo esta marca significativa de público o Dome não se viabilizou econômica e politicamente, o fracasso parece ter sido de outra natureza. Talvez o problema tenha sido superestimar a capacidade de atração de um empreendimento cultural com entrada paga. A previsão de atingir um público de doze milhões de visitantes por ano, como era o alvo inicial, não se mostrou viável nem mesmo no continente onde mais se valoriza a cultura.

É preciso considerar também, que a situação política de hoje difere bastante da de 1951, quando The Festival of Britain foi implementado com sucesso. Enquanto naquela época a Inglaterra vivia um processo de nacionalização em direção à um estado forte e unido por objetivos sociais, típico de um momento pós-guerra, hoje o país se encontra dividido diante de um irreversível processo de privatização imposto pela globalização. Os projetos nacionais de dimensão coletiva passaram a ser projetos individuais de pequenos ou mesmo grandes grupos privados comprometidos com o lucro. Isto talvez explique as pesadas e constantes críticas da imprensa inglesa que acabaram por minar a imagem do Millennium Dome. Assim, apesar de construído com recursos públicos e ter em seu discurso justificativo o apelo patriótico, a opinião pública jamais o considerou um verdadeiro Projeto Nacional.

créditos do Projeto

Arquitetura: Richard Rogers Partnership
Cálculo Estrutural: Boyden & Co / Ove Arup & Ptnrs
Consultoria Ambiental: Battle McCarthy
Paisagismo: Desvigne & Dalnoky / Bernard Ede
Iluminação: Speirs & Major
Acústica: Sandy Brown Assocs
Fotografia: Peter Durant

sobre o autor

Zeca Brandão é arquiteto e Professor Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – e doutorando pela Architectural Association School of London – AASchool.

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