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arquitextos ISSN 1809-6298


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Anna Julia Dietzsch narra sua ida para os Estados Unidos, para cursar o mestrado na Harvard Graduate School of Design (GSD) e o período posterior, quando se radicou no país e passou a trabalhar no escritório Davis Brody Bond (DBB)


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DIETZSCH, Anna Julia. Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos. Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 034.04, Vitruvius, mar. 2003 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.034/701>.

A escola

Em 1992 me formei na FAU-USP e depois de trabalhar em São Paulo por aproximadamente três anos saí do Brasil para cursar um mestrado na Harvard Graduate School of Design (GSD) nos EUA. Sem ter plena consciência do que me esperava e com o referencial de um mestrado começado na FAU-USP, surpreendi-me com um mundo acadêmico totalmente diferente daqueles que eu havia conhecido. Na primeira semana de aula vi-me sentada no auditório com os outros alunos da escola, num ritual que se realiza todo começo de semestre; o “studio lottery”. No pódio, todos aqueles nomes que eu antes estava acostumada a ver na lombada dos meus livros, se materializavam em rostos e pessoas reais. Ali estavam nossos professores daquele semestre apresentando as propostas para seus estúdios, para que pudéssemos escolher de qual participar: Miralles, Mack Scogin, Rafael Moneo, Jacques Herzog, Toshiko Mori, Rem Koolhaas, Jorge Silvetti, Andre Greuzen, Elizabeth Diller, Billy Tsien, Henrique Norten, Ben van Berkel, Ignasi Sola Morales, Phillip Stark e Rudolph el-Khoury foram alguns que vi passar pela escola. Naquele dia, vendo tantas idéias e propostas criativas perfilando ao meio dos mais variados sotaques, percebi que meus próximos dois anos seriam muito frutíferos e intensos.

Diferentemente do sistema europeu, do qual o nosso “sistema uspiano” advém, o mestrado de arquitetura nos EUA é “profissionalizante” e é raro conhecer alguém trabalhando em um escritório americano que não tenha um mestrado, ou não pense em fazer um. Embora haja muitas aulas teóricas na GSD, algumas maravilhosas, como o curso de crítica arquitetônica de Michael Hays, o estúdio é o coração da escola. Sob um grande teto de vidro inclinado, o estúdio é composto por quatro mezzaninos abertos, as “trays”, onde 300 alunos, agrupados em times de 10 a 12 pessoas, desenvolvem seus projetos. A cada semestre arquitetos convidados se mesclam àqueles com contrato mais longo para formar o quadro de professores, fazendo da escola um grande laboratório de produção arquitetônica.

A convivência no estúdio é intensa e o nível de exigência e discussão são aqueles de um atelier na Espanha, um estudio na França, ou um “office” nos EUA, com a vantagem da liberdade acadêmica que reina. Muitos dos projetos são propostos e patrocionados por clientes reais, instituições privadas e públicas interessadas em usar o “think-tank harvardiano” para lançar idéias destinadas a uma nova competição ou programa. Assim, tive a oportunidade de ir a Bilbao e a Cingapura com dois de meus estúdios, patrocinados pelo governo de Biskaia e pelo Departamento de Planejamento de Cingapura, respectivamente.

Meus dois anos de mestrado nos EUA foram anos de total imersão num mundo de grande força criativa e constante estímulo. Em contato com pessoas de diversas nacionalidades, com os mais variados pontos de vista e “approach” arquitetônicos, essa experiência não só me nutriu de uma boa dose de informação e energia, como também me obrigou a perceber os limites de minhas (pré) concepções e as possibilidades existentes para além delas. Se por um lado percebi o quão valiosa era minha experiência passada, na FAU-USP e como profissional em São Paulo, também me dei conta dos estreitos limites impostos por minha história de “classe-média-intelectual” paulistana. Como estrangeira ao meio de outros estrangeiros, aprendi que os rótulos são muito mais flúidos e que as expectativas e possibilidades são criadas muito mais através da interação real, do que por possíveis pré conceitos da daquele com quem se fala. Creio que essa percepção é o que carrego de mais valioso dentro de toda a minha experiência no estrangeiro.

O trabalho

Acabei a GSD em Junho de 1998, com o ápice do aquecimento econômico nos EUA e obtive alguns convites de trabalho, todos eles nos EUA e um na Espanha. Animada com a produção dos dois anos anteriores, resolvi que gostaria de ter minha “New York experience” antes de voltar a São Paulo e comecei a procurar trabalho em escritórios com projetos nas áreas de arquitetura e desenho urbano. Acabei optando por Davis Brody Bond (DBB), um escritório novaiorquino antigo, com forte tradição modernista e suficientemente grande para ter uma gama bastante diversificada de programas e escalas.

Apesar do seu tamanho (hoje são aproximadamente setenta empregados), DBB conseguiu manter a tradição de criação em estúdio, com elevado grau de interação e participação nas equipes de projeto, do “junior architect” ao “project manager”. Hoje percebo que foi essa liberdade de comunicação que acabou gerando oportunidades para que eu participasse em inúmeros aspectos do projeto que no início não imaginei participaria, como nas áreas de marketing e identidade e representação gráfica.

Outro aspecto que me atraiu quando da escolha de um escritório, foi o fato de DBB ter projetos no Brasil. Na época em que comecei a trabalhar, o escritório tinha um projeto construído em Sorocaba e um outro em construção em Campinas. Envolvi-me diretamente com a obra e tendo a oportunidade de voltar a São Paulo periodicamente, tive também a oportunidade de trazer para o escritório dois projetos ligados ao Brasil – um apartamento para um casal brasileiro em Nova York e a mega-branch do banco1.net em São Paulo.

Com o movimento de interação impelido pela forças econômicas globalizadas, há quatro anos tenho tido uma experiência profissional que se constitui da convergência de vários mundos; aquele dos EUA e do Brasil, principalmente, mas também o de outros países e culturas.  É comum nos EUA que projetos de grande escala sejam desenvolvidos por times com equipes de diferentes escritórios (vejam agora o exemplo da competição para a reconstrução do World Trade Center) e isso me proporcionou a oportunidade de participar de trabalhos com diversos profissionais fora do escritório e às vezes fora dos EUA. Um desses projetos foi a competição para a “Coned Site” em Manhattan, um projeto de 500.000 metros quadrados, ao sul do edifício da United Nations. Dele participaram DBB, KPF, OMA e Toyo Ito, tendo sido desenvolvido por uma equipe de trinta pessoas que se estabeleceu parte do tempo em Nova York e parte do tempo em Rotterdam.

Essas experiências de intercâmbio e constante trabalho em equipe me deixaram fortes impressões. Percebi mais claramente que o trabalho do arquiteto, e mesmo o processo de criação de um partido, se enriquece muito quando em contato com “forças estranhas”, outros profissionais que trazem para nossos vícios e idéias novas maneiras de conceber e pensar a arquitetura. Assim, as situações onde mais aprendi foram aquelas onde estive ligada a um grupo, brainstorming em conjunto através da produção de infinitas maquetes de estudo, colagens e outros meios de comunicação rápidos de idéias estruturadoras para a formação de um partido.

Uma outra impressão que guardo diz respeito à visão dos arquitetos brasileiros pelos estrangeiros com os quais tive contato. Nos meios em que vivi, na escola, no escritório e nos diferentes times de projeto, o Brasil é sempre visto com grande simpatia e admiração, se não com grande curiosidade. A imagem que se têm é a de um país alegre, ligado à imagem da arquitetura dos nossos grandes modernistas. Pouco se sabe, no entanto, do que realmente acontece no Brasil hoje, tanto em termos da nossa realidade sócio-econômica, quanto da nossa arquitetura contemporânea. E depois de muitas viagens de idas e vindas para o Brasil nesses últimos seis anos, percebo que parte dessa ignorância é reforçada por uma atitude que alguns dos intelectuais e profissionais liberais brasileiros demonstram, uma atitude “isolacionista” quer desconsiderar o que acontece fora do Brasil, se fechando para “o estrangeiro”.

Um dia, sentada num bar em São Paulo, surpreendi-me com um velho amigo arquiteto a dizer que nos EUA não há boa arquitetura. Ocorreu-me sugerir-lhe que olhássemos a nossa volta e apontássemos ao estrangeiro que chega onde está hoje a nossa boa arquitetura. Perceberíamos que sem saber aonde ir, nossa boa produção arquitetônica contemporânea não é facilmente achada. Depois sugeri que olhássemos com um pouco mais de cuidado para o trabalho de bons (pequenos) escritórios americanos, como Elam Scogin, ARO, Leslie Gil, Toshiko Mori, Sheila Kennedy, Silver Schwartz, L.E.F.T, Office dA, Foreign Office, para mencionar alguns. Todos eles, como muitos de nossos colegas aqui no Brasil, trabalhando intensamente e produzindo qualidade ao meio da mediocridade ao redor.

A vivência que tive no exterior e a oportunidade de mesclar meu mundo a outros, levou-me à conclusão de que sempre haverá um grupo de pessoas, em todas as partes do mundo, que estará pensando e produzindo no revés do comum, “além do normal”. E hoje percebo que quanto mais abrirmos os olhos, mais poderemos fazer parte desse processo contínuo de produção e transformação do medíocre reinante.

série completa dos "Depoimentos da Geração Migrante"

GUERRA, Abilio. "Depoimentos de uma geração migrante", Arquitextos 030.00, São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_00.asp>.

SPADONI, Francisco. "Geração Migrante – Depoimento 1. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena". Arquitextos 030.01. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_01.asp>.

LEONIDIO, Otavio. "Geração Migrante – Depoimento 2. Em Paris, chez Christian de Portzamparc". Arquitextos 030.02. São Paulo, Portal Vitruvius, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_02.asp>.

VIOLA, Assunta. "Geração Migrante – Depoimento 3. Arquitetura e criatividade: uma experiência com Massimiliano Fuksas". Arquitextos 030.03. São Paulo, Portal Viutrivus, nov 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq030/arq030_03.asp>.

ORCIUOLI, Affonso. "Geração Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona". Arquitextos, Texto Especial 161. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp161.asp>.

OIWA, Oscar Satio. "Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira". Arquitextos, Texto Especial 162. São Paulo, Portal Vitruvius, dez 2002 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp162.asp>.

MOREIRA, Pedro. "Geração Migrante – Depoimento 6. Brasil, Inglaterra, Alemanha – 15 anos", Arquitextos, Texto Especial 163. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp163.asp>.

LIMA, Zeuler R. M. de A. "Geração Migrante – Depoimento 7. Migrar, verbo transitivo e intransitivo. Uma experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 164. São Paulo, Portal Vitruvius, jan 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp164.asp>.

DIETZSCH, Anna Julia. "Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos", Arquitextos, Texto Especial 172. São Paulo, Portal Vitruvius, mar 2003 www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp172.asp.

sobre o autor

Anna Julia Dietzsch é arquiteta formada em 1992 na FAU-USP. Foi sócia do Escritório Andrade Dietzsch Morettin (1993-1995). Tem curso de pós na Graduate School of Design, Harvard (1996-1998). Desde 1996 é arquiteta na Davis Brody Bond, LLP, New York, Estados Unidos

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