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architexts ISSN 1809-6298


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O FAM (1963-1968), construído no aterro da Praia de Belas, é um belo projeto de linhas modernas dos arquitetos Carlos Maximiliano Fayet, Cláudio Luiz Araújo e Moacyr Moojen Marques


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MARQUES, Sergio Moacir. The Fountainhead – a nascente. O edifício FAM em Porto Alegre. Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 036.07, Vitruvius, maio 2003 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.036/687>.

O projeto do edifício FAM nasceu do casamento entre o desejo utópico da modernização urbana através da ação renovadora do urbanismo moderno com o conceito abstrato do conjunto habitacional de caráter autonomo.

O espírito da cidade funcional, do zoning, o centro administrativo, o centro de negócios, os bairros de habitação coletiva, as avenidas largas, os automóveis e o transporte público, a cidade jardim, e a tábula rasa como berço fértil da arquitetura moderna, são os ancestrais imediatos dessa parte de cidade nova conquistada ao rio após sucessivos aterros. Nela, criou-se e cresceu o anseio coletivo pela modernização na forma do espaço planejado e normatizado pelos padrões e ideais de um urbanismo que teve na Carta de Atenas a referência mãe.

O FAM (1963-1968), construído no aterro da Praia de Belas, obedece a morfologia determinada pelo Plano Diretor de 1959, que traçava para o novo território urbano, o Centro Administrativo de escala monumental, grandes parques urbanos, avenidas estruturais e bairros residenciais. Conjuntos de habitação coletiva configurados por uma seqüência de ruas entra-e-sai, intervaladas por praças vicinais com serviços locais, compostos por prédios de apartamentos com térreo mais três pavimentos, recuos laterais, de frente e fundos, e possibilidade de balanço sobre o recuo de jardim.

A matriz genética do Movimento Moderno expressa no expediente urbano para Porto Alegre do Eng. Edvaldo Pereira Paiva proliferou-se no projeto Praia de Belas (2), desdobrando unités habitationels e a cidade jardim em blocos de escala proporcionada à espaços públicos celulares distribuidos ao longo do aterro, em ruas locais armadas entre as avenidas estruturadoras, na forma de redans. Os grandes bairros de habitação coletiva do Movimento Moderno, como Toulouse le Mirail, particularizaram-se e adequaram-se ao contexto, através de instrução normativa, junto ao centro de Porto Alegre.

O modelo transgeracional da cidade moderna está na definição de um programa singular de moradia onde a idéia gestora da habitação comunitária se configura na opção preferencial de três protagonistas da vanguarda do Movimento Moderno no Rio Grande do Sul, proposto dentro do projeto para um bairro de 200 mil habitantes, sobre o aterro, junto ao centro de Porto Alegre. Fayet (F), Araújo (A) e Moojen (M) armaram para si uma situação particular de residência: três famílias de arquitetos (3), dispostas em um apartamento por andar em edifício de apartamentos representativo da arquitetura moderna. Filiação marcante na estrutura independente de concreto armado, na pureza dos volumes cúbicos, na fluidez e decomposição do espaço em planos, na envolvente de pouca substância da fachada principal.

O FAM (1963-1968) reúne a herança própria da arquitetura moderna brasileira, aparentado à escola carioca, aquela inaugurada em 1937 com o projeto do Ministério de Educação e Saúde e manifesta em obras paradigmáticas como o pavilhão do Brasil em Nova York (1939), o hotel de Friburgo (1944) e o Parque Guinle (1948), entre outros, combinando elementos e tecnologias modernas com dispositivos e arranjos ligados a tradição e a condição local. Da mesma forma, parentesco próximo com a arquitetura paulista gerada por João Vilanova Artigas e Rino Levi, e consangüinidade com as residências Nadyr de Oliveira (1960) e Antônio D’Elboux (1962) de Carlos Milan (4) e ainda as casas racionalistas de Oswaldo Bratke.

O uso do brise-soleil e o ajuste dos planos de fachada às condicionantes climáticas, provém de um caráter arquitetônico nacional, valorizado pela elite artística dos anos 30 e 40, que buscava “acomodar a internacionalização moderna à paisagem local (...) combinando avanço tecnológico à materialidade e formas tradicionais” (5). Lúcio Costa ao descrever sua proposta para a Universidade do Brasil em 1936 destacava dentre as características do projeto, “(...) - um caráter local inconfundível, cuja simplicidade, derramada e despretensiosa, muito deve aos bons princípios das velhas construções que nos são familiares” (6).

No edifício FAM a fachada principal, de orientação oeste, traz a fisionomia da porosidade, em um prédio cuja verdadeira face é a da transparência, da estrutura de concreto aparente e pele de vidro. A máscara, composta de venezianas, que se movimentam verticalmente através de contrapesos, combina composição moderna com a tradição do muxarabi mouro aportado ao Brasil via arquitetura lusa, e cria em toda a extensão da face principal, um espaço poché, tradicional na varanda da casa rural brasileira, que por transparência abre-se ao espaço de estar.

O projeto organiza-se a partir de uma malha determinada pela estrutura de concreto in loco, modulada em três crujias no sentido transversal e quatro no sentido longitudinal. O plano da fachada principal é definido pelo balanço das vigas longitudinais, que se projetam para fora tornando-se visíveis, nas quais estão apoiadas em três lados, as lajes de entrepiso, com a estrutura dos painéis venezianados, fixa nas faces livres. O sistema dimensional da estrutura, com vigas à vista (e pilares esbeltos de mesma secção), de altura homogênea em todos os cômodos, estabelece o gabarito de altura para os panos de fechamento externos e internos, ora painéis móveis, ora planos texturizados. Na face leste, caxilharia de correr com folhas venezianadas e folhas envidraçadas esconde-se em painel interno dos dormitórios e dá acesso à pequeno balcão de púlpito, interpretado do barroco brasileiro. Na fachada norte, onde estende-se linearmente as áreas de serviço, a estrutura compõe-se de forma a oferecer espaços de armazenagem para utensílios, dividindo o pé-direito em duas faixas de aberturas ao exterior, uma junto à laje superior e outra sobre o plano de trabalho.

Como no funcionalismo dominante das casas paulistas, os apartamentos organizam-se de forma anelar com a área de uso comum no centro. Espaço social à frente, ala intima ao fundo. Ligando ambas, por um lado à circulação principal, conectando banho e gabinete, do outro, as dependências de serviço lineares, permitem circulação perimetral.

O térreo é composto de uma espécie de pilotis disfarçado, onde encontram-se em toda a extensão para a rua, a garagem de automóveis, escondida por um trilho metálico horizontal, que preso às vigas de concreto, suspende painéis móveis de madeira. Um rasgo de vidro horizontal, entre o trilho metálico e a primeira laje, acentuam a independência da estrutura. Lateralmente uma pequena laje em balanço, assinala e convida, no painel contínuo de madeira, a entrar na casa.

O FAM tem no Movimento Moderno a nascente, bebeu na fonte da arquitetura brasileira e deu a luz à domesticidade da habitação coletiva moderna em Porto Alegre. No entanto, a relação de hereditariedade ocorre no cuidado em, dentro de seu próprio universo, acertar a resolução formal e técnica do projeto de maneira coerente, com características de requinte e simplicidade, despojamento e elegância, na resolução do todo e das partes, da sutileza e eficiência dos detalhes construtivos. Longe da massificação que toma conta da arquitetura praticada no mercado imobiliário da habitação, está a busca da contemporaneidade conjugada à percepção dos recursos e do local, revelando o trabalho de artistas (7).

Projeto
Arquitetos Carlos Maximiliano Fayet, Cláudio Luiz Araújo e Moacyr Moojen Marques

Estrutura
Engenheiro Fernando de Campos Souza

Instalações
Engenheiro Cláudio Herman Bojunga

Endereço
Rua Dr. Vicente de Paula Dutra 225
Praia de Belas
Porto Alegre RS

Área construída
832,00m²

Projeto
1964

Obra
1969

notas

1
Artigo originalmente publicado como MARQUES, Sergio Moacir. The Fountainhead, El Manantial. Summa+, Buenos Aires, n.58, p. 26-29, fev./mar. 2003. O título do artigo refere-se ao filme dirigido por King Vidor (1947), baseado vagamente na vida de Frank Loyd Wrigth e Louis Sullivan, protagonizado por Gary Cooper e Patrícia O´Neall. Ver RAND, Ayn. The Fountainhead, 1943. Edição em português The Fountainhead – A Nascente, Porto Alegre, Editora Ortiz, 1993.

2
Projeto Praia de Belas – Plano Diretor de Porto Alegre – Lei n. 2046 de 1959 substituída pela Lei n. 2330 de 1961. Plano geral de desenvolvimento urbano de conteúdo modernista, coordenado pelo Eng. Edvaldo Pereira Paiva, do qual fizeram parte Carlos Maximiliano Fayet e Moacyr Moojen Marques. Ver PORTO ALEGRE. Plano Diretor de Porto Alegre, Prefeitura Municipal de Porto Alegre, 1961. Lei N ° 2330 de 1961.

3
Talvez a maior densidade de arquitetos por metro quadrado da cidade: Carlos Maximiliano Fayet casado com a Arq. Suzy B. Fayet, Beatriz e Ângela, uma das filhas que estudou arquitetura. Cláudio Luiz Araújo, casado com Mary Suzana, Fernando e Lúcia, uma filha arquiteta. Moacyr Moojen Marques casado com Maria Ivone Bianchi Marques, Nadia Maria, José Carlos e Sergio Moacir, dois filhos arquitetos e Anna Paula Canez, sua nora arquiteta. Ver ARAÚJO, Cláudio. Um depoimento. Arqtexto, Porto Alegre, FA UFRGS, n. zero, 2000, p. 116-123.

4
Ver LUZ, Maturino. De Millan ao FAM: a casa vira apartamento. Revista Arquitetura, São Leopoldo, UNISINOS, n. 2, 2001, p. 49-71.

5
PEIXOTO, Marta. Sistema de proteção de fachadas da escola carioca de 1935 a 1955. Porto Alegre: UFRGS, 1994. Tese de mestrado, Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1994, p.11-13.

6
COSTA, Lúcio. Universidade do Brasil. In: XAVIER, Alberto (org). Lúcio Costa: sobre arquitetura. Centro de Estudantes Universitários de Arquitetura – CEUA, Porto Alegre, 1962. p. 85.

7
Sobre a arquitetura gaúcha, ver também: AU – ARQUITETURA E URBANISMO. Composições Gaúchas. São Paulo, n. 37, ago./set. 91; MARQUES, Sergio Moacir. A Máskara (cópia xerografada). Porto Alegre, FA UFRGS, 1997; WEIMER Günter, A Arquitetura. Porto Alegre, UFRGS, 1992; XAVIER, Alberto; MIZOGUCHI, Ivan. Arquitetura Moderna em Porto Alegre. São Paulo, Pini, 1987.

sobre o autor

Sergio M. Marques é arquiteto. Professor da FAU-UniRITTER e da FA UFRGS. Mestre em Teoria, História e Crítica da Arquitetura – PROPAR FA/UFRGS (1999), integrante do Núcleo de Projetos da FAU-UniRITTER e do MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados (1987). Autor de A revisão do movimento moderno? Arquitetura no Rio Grande do Sul dos anos 80, Editora Ritter dos Reis, Porto Alegre, 2002

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