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Enric Miralles foi um grande arquiteto e, talvez, o último grande de uma época. Um arquiteto desmesurado e brutal, que mobilizava todo o seu corpo para fazer arquitetura. Sua força expressiva foi envolvente, sua imaginação, transbordante


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MASSAD, Fredy; GUERRERO YESTE, Alicia. Enric Miralles. A inconclusa arquitetura do sentimento. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 048.01, Vitruvius, maio 2004 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.048/581/pt>.

Quando Enric Miralles (Barcelona, 1955) e Carme Pinós (Barcelona, 1954) ganharam, nos meados dos anos oitenta, o concurso para o novo Cemitério de Igualada (Barcelona), a crítica internacional reagiu positivamente, reconhecendo nestes jovens arquitetos a produção de uma linguagem aonde se conjugavam a obra de Gaudí, Aalto, Jujol, Sostres, Asplund, Le Corbusier... A idéia prevalecente seria de que o cemitério é uma metáfora construída, fruto da conjunção e do estudo, não só da obra mas do pensamento arquitetônico de todos eles. E neste ponto encontra-se seu grande valor. Não é uma construção da metáfora como um exercício pós-moderno, mas uma metáfora feita de pedra, aço e concreto. A arquitetura escavada na terra.

O crítico de arquitetura Josep Quetglas definiu Miralles como um arquiteto que “trabalha com a imaginação”, um arquiteto que “emociona com educação”, cuja arquitetura só “pode ser descrita ou desenhada após ter acontecido”. Quetglas afirmava que Miralles era um “puro arquiteto”, pois os produtos de seu pensamento eram arquitetura, ainda sem necessidade de haver sido construídas, formas que emanavam puras de sua imaginação. Estamos de acordo. Unicamente, matizaremos que, em nossa opinião, não só os produtos de seu pensamento já eram arquitetura, mas que também a própria estrutura e funcionamento de seu pensamento era Arquitetura.

Enric Miralles foi um grande arquiteto e, talvez, o último grande de uma época. Um arquiteto desmesurado e brutal, que mobilizava todo o seu corpo para fazer arquitetura. Um arquiteto que conhecia a arquitetura desde o seu interior e a transformava até seu exterior. Sua força expressiva foi envolvente, sua imaginação, transbordante. Um arquiteto difícil de catalogar. Um grande arquiteto aonde se aliou o conhecimento e a criatividade.

Com seu falecimento desapareceu uma pessoa aonde a integridade de seu desenvolvimento vital foi a prática da Arquitetura: uma arquitetura surgida do sentimento.

Chamamos arquitetura do sentimento a uma forma visceral de compreender a arquitetura, que emerge das entranhas profundas, que é dramática por se basear na provocação, uma provocação produzida pelas formas e materiais que a compõem: que se vive e se percebe com todos os sentidos. Uma arquitetura que não recorre a artifícios ou elementos supérfluos porque todos seus componentes são, em essência, arquitetura.

Muitas de suas obras se encontram ainda em processo de construção, enquanto que outras já começam a se tornar ruínas. Miralles fez de cada obra um universo; trabalhou dissecando-as e reconstruindo-as novamente, embaralhando um mundo de idéias e imaginação, que escapa à concepção clássica do fazer arquitetônico, utilizando tudo aquilo que passou por suas mãos. Revolvendo, fisgando: Miralles transformou o fazer do arquiteto em um jogo ao qual sempre nos convidada a somarmos. Seu legado arquitetônico é o prazer por pensar e construir arquitetura. Sua obra desvela a beleza da imperfeição. Miralles conseguiu que suas obras pudessem ser lidas como uma continuidade. Concebeu projetos que nasciam da experiência de outros. Sua obra pode ser lida como um todo, mas como um todo incompleto e inconcluso, cheio de fissuras e ruínas prematuras. Uma arquitetura de símbolos na qual, em muitos casos, se esquece ou se desinteressa do pragmatismo.

A personalidade arquitetônica de Enric Miralles é suficientemente intensa que nos dissuade a tentar defini-la segundo conceitos definidos a priori e, portanto, limitados. Mesmo tratando-se de um arquiteto puramente contemporâneo, a energia e marcada identidade que exala de seu trabalho o faz transcender as fronteiras temporais, já que sua obra pode ser entendida, antes de tudo, como um aprofundamento da essência da Arquitetura, à qual confere uma espécie de aura de atemporalidade tanto a ela como às motivações de Miralles como arquiteto.

Após sua desaparição, em julho de 2000, ficamos especialmente à espera da conclusão das obras do Mercado de Santa Caterina e do Parlamento de Edimburgo, aguardando comprovar se, tal como no interminável Cemitério de Igualada ou nas deterioradas e abandonadas instalações do Campo de Tiro com Arco, continuaria latejando o espírito de Enric Miralles e sobrevivendo o que gostamos de chamar “arquitetura do sentimento”.

Em 1994, Miralles estabeleceu com Benedetta Tagliabue (Milão, 1963), o escritório EMBT em Barcelona. Entre 1994 e 2000, EMBT recebeu encomendas de projetos internacionais de grande escala, em combinação com projetos de menor envergadura mas que colocavam grande complexidade. Durante este período, Miralles trabalhava em projetos que abordavam diferentes tipos de relação com estruturas pré-existentes: reabilitação de habitações – a sua própria e uma casa em Vall d’Hebron, Barcelona; reabilitação / ampliação de edifícios e complexos arquitetônicos – Prefeitura de Utrecht, Cemitério de San Michelle em Isola, Mercado de Santa Caterina. Destacam-se na série os projeto para o Parlamento de Edimburgo, Estádio de Chemnitz, Parque de Diagonal Mar, Escola de Música de Hamburgo e a nova sede da empresa Gás Natural.

A tarefa de se enfrentar simultaneamente com um crescente número de projetos de envergadura, colocou a necessidade de um grupo de colaboradores cada vez maior em seu escritório. Miralles reconhecia a necessidade de contar com uma atitude de “Jekyll e Hyde” para enfrentar eficientemente sua responsabilidade de direção sobre todos e cada um dos projetos que o escritório tinha em desenvolvimento durante este período: ser capaz de desdobrar-se mentalmente para poder dar conta convenientemente das demandas correspondentes à natureza de cada trabalho.

Ao longo de toda sua trajetória fica patente sua atitude de encarar cada projeto de maneira totalmente específica, segundo uma lógica própria, abordando cada um deles desde aspectos que transcendem a necessária funcionalidade e buscam aprofundar em essências que fazem confluir no desenho de cada projeto dimensões pragmáticas e outras plenamente subjetivas, mantendo-se a todo o momento aberto à conexão e estudo de novos estímulos, procedentes de novas aprendizagens e conexões com novos elementos, para desenvolver sua prática e pensamento da arquitetura.

Possivelmente estamos diante do período no qual Miralles se aproximou à prática da arquitetura com uma maior intensidade imaginativa, submetendo-se à profundidade de referências e interesses pessoais na hora de guiar e sustentar a concepção de cada obra. Um repasse sobre as imagens e textos que descrevem os respectivos processos de desenho evidencia a maturidade da erudição de Miralles na hora de escolher as referências que constituem os fundamentos conceituais de cada projeto.

Dos seus últimos projetos, que terminaram ou estão prestes a terminar após sua morte, gostaríamos de comentar com atenção o Parque de Santa Rosa em Mollet do Vallés (Barcelona), o Parque Diagonal Mar e o Mercado de Santa Caterina – ambos em Barcelona.

Na que provavelmente foi uma de suas últimas entrevistas, Miralles menciona estar lendo uma novela de Georges Perec – A vida: instruções de uso–, cujo preâmbulo proporciona uma boa metáfora de seu trabalho intelectual. Trata-se de uma breve reflexão sobre o puzzle (que, seguramente, fascinou a Miralles) sobre o qual Perec constrói sobre sua novela. A minuciosa escritura de Perec é recriada nos interiores das habitações (que são as autênticas protagonistas desta novela), tecendo uma narração na qual os objetos são portadores de histórias próprias que se somam ao puzzle de peças que constitui a realidade.

"Se Jujol foi um autêntico catador de objetos aparentemente inúteis que convertia em arquitetura, Enric Miralles foi um catador de idéias, de imagens e também de objetos, de formas de construção, que se inseriam no processo em curso e permitiam que o trabalho continuasse para sempre, sem parar jamais."
Ton Salvadó, Variaciones de Enric Miralles sobre Max Bill

As habitações de Perec e o catador de idéias talvez sejam boas imagens para descrever o Parque de Santa Rosa em Mollet do Vallès, (Barcelona), um projeto realizado entre 1992 e 2001, cujo processo de desenho pode haver sido imaginado como uma espécie de jogo, no qual Miralles cria ex novo uma paisagem social, não se adequando à topografia, mas redefinindo as condições do lugar para criar um entorno público de uso fluído. A combinação de materiais, formas, estruturas e suas sombras, cores... geram uma “natureza artificial”, um espaço aberto, dinâmico e plural que aguarda a interação com seus usuários. Talvez porque o Parque de Santa Rosa estivesse muito avançado quando Miralles faleceu, se percebe nele, em maior medida, a intervenção ativa do arquiteto. Neste parque consegue criar e plasmar um universo disperso de formas, que remetem a essa vontade de criação a todo detalhe que ele assumia. Uma paisagem de formas, de partes, que compõe um todo pleno de matizes. De fragmentos, de idéias soltas, que vão conformando uma paisagem onírica. A idéia de converter um lugar vazio, situado em um lugar da periferia suburbana de Barcelona, aonde uma paisagem metafórica e a não necessidade de um programa fechado dão valor e atrativo a esta obra.

Entre 1997 e 2002 se desenvolve o projeto e realização do Parc Diagonal Mar em Barcelona: um parque desfrutável, concebido à maneira de jardim e pátio de recreio, mas no qual a força expressiva do primeiro Miralles se dilui. Os modelos se repetem sem o vigor daquilo que em outras obras evoca a noção de “arquitetura do sentimento”. A inclusão de grandes jarros cobertos de trencadís, uma interpretação pop de Jujol, manifestam gravemente a inconsistência deste projeto, que carece do engenho do jogo que origina o Parque de Santa Rosa.

A proposta para a reabilitação do antigo mercado de Santa Caterina, situado no distrito de Ciutat Vella de Barcelona, implica em uma ação sobre o tecido urbanístico adjacente à estrutura existente que racionalizasse sua implantação. A intervenção pretende “mesclar-se e confundir-se” com a estrutura original. Ambos propósitos se conseguem mediante a realização de uma nova cobertura, que envolve a estrutura e a estende além do perímetro da primeira construção. A essência deste projeto se baseia no desenho de sua cobertura, a qual parte da metáfora de um imenso mar matizado pela recordação de frutas e verduras. São recuperados também elementos já empregados na Escola de Música de Hamburgo. O projeto não tem um planta de uso interno, possivelmente porque deseja recuperar a estrutura dos velhos mercados populares, de forma que a cobertura representaria um grande toldo baixo que abrigaria os postos de venda, sem nenhuma organização predeterminada. A obra é espetacular e cumpre um importante papel na recuperação urbanística de Ciutat Vella (projeto municipal no qual Miralles esteve ativamente envolvido). A cobertura se transforma na fachada mais importante do edifício, com o inconveniente de que só é visível visto de cima e, no momento, não está prevista a possibilidade de que exista um mirante que permita contemplá-la.

“Os projetos nunca terminam, mas entram em fases sucessivas, seja por não termos controle total sobre eles, seja por reencarnarem em outros projetos”, sustentava Miralles.

Como já dissemos anteriormente, a obra de Enric Miralles pode ser compreendida como uma unidade. Toda uma obra que define uma maneira de pensar, de ser e de aproximar-se ao conhecimento. Uma forma de expressar com a matéria sua curiosidade e seu pensamento. Miralles foi talvez um dos principais arquitetos dos últimos anos. O foi porque soube dissecar a arquitetura dos mestres para edificar com ela a arquitetura que desejava: sua arquitetura do sentimento.

Pese a as debilidades que possamos perceber nestas últimas obras, é patente o fato de que Miralles continuou executando com elas um rigoroso exercício de análise, preocupado em pesquisar as qualidades e valores de uma obra ou idéia, a fim de ter claro o que significam, para compreendê-las; para depois, realizar o esforço de compreender qual era sua própria relação com ela para, uma vez feitas assim próprias, assimilá-las a seu próprio conhecimento. Ao não haver podido viver para ver sua construção, estas obras – todas as obras permaneciam para sempre em construção na cabeça de Miralles – tornaram-se prematuramente matéria e intelectualmente inconclusas.

Em vão nos esforçamos em descrever o caráter de uma pessoa; em troca, reunimos sus ações, seus feitos e emergirá uma imagem de seu caráterJ.W.Goethe

sobre o autor

Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste são autores do livro Enric Miralles Arquitetura do sentimento, que será publicado em breve pela editora Testo & Immagine

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