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architexts ISSN 1809-6298


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Autor apresenta farto material documental do projeto brasileiro não construído de Mies van der Rohe, que poderia ter tornado ainda maior a influência do arquiteto alemão em São Paulo e no Brasil


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GALEAZZI, Ítalo. Mies van der Rohe no Brasil. Projeto para o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, 1957-1962. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 056.03, Vitruvius, jan. 2005 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.056/511>.

“A linguagem pode ser utilizada para os propósitos normais do cotidiano como prosa. Se você é muito bom nisso, pode falar uma prosa maravilhosa. E se você é realmente bom, pode ser um poeta. Mas a linguagem é a mesma, e sua característica é que tem todas estas possibilidades”(Mies van der Rohe 1)

“Penso que a influência que meu trabalho tem nas pessoas, está baseada em seu caráter racional. Todos podem utilizá-lo sem ser um copista, porque é absolutamente objetivo e penso que, se encontro algo objetivo, eu o utilizo. Não importa quem o fez” (Mies van der Rohe 2)

No volume 17 do Arquivo Garland Mies van der Rohe do Museu de Arte Moderna de Nova York (3), estão publicados uma série de croquis, anotações e documentos técnicos, referentes ao projeto de 1957 de Mies van der Rohe para o consulado dos Estados Unidos em São Paulo. Este projeto, por razões ainda desconhecidas, não foi construído, mas na relação de documentos pesquisados estão apresentadas plantas executivas, o que indica que o projeto chegou a etapas de finalização já em 1960 (figura 1).

O texto de apresentação deste projeto que antecede ao catálogo de desenhos, especifica que o período de desenvolvimento do trabalho foi entre 1957 e 1962. O projeto executivo é de junho de 1960, permanecendo a incógnita sobre o que aconteceu nos dois últimos anos.

Neste mesmo texto de introdução, escrito por Fran Schulze, editor responsável dos Arquivos Garland Mies van der Rohe, observam-se algumas incongruências quanto às imagens selecionadas para ilustrar o que seria a versão final do projeto. As pranchas não pertencem ao mesmo jogo, isto é, as propostas se distanciam em um ano já que as informações especificadas nos selos, indicam datas de 1959 e de 1960 e, efetivamente, o material gráfico não corresponde à mesma versão se organizarmos segundo a ordem descrita no índice do catálogo. Além disso, estão relacionados desenhos do projeto executivo da versão definitiva que não correspondem aos primeiros anotados.

No entanto, a falta de correspondência relativa à seleção de imagens, as quais foram identificadas depois de uma organização prévia de todo o catálogo, são esquecidas para que toda a atenção seja dirigida ao estudo do projeto arquitetônico, que está bem apresentado numa seqüência de imagens que incitam ao entendimento das fases do projeto e à identificação das características inerentes às obras de Mies van der Rohe.

Em 1957, realizou-se em São Paulo, a IV Bienal do Museu de Arte Moderna. Mies van der Rohe, Marcel Breuer, Kenzo Tange, Phillip Johnson, Francisco Beck, Jacob Mauricio Ruchti e Mario Glicerio Torres foram os arquitetos convidados para compor o júri que selecionaria os melhores projetos apresentados na Exposição Internacional de Arquitetura da IV Bienal. Entretanto, segundo a ata publicada na revista Acrópole nº 227 de 1957 (4), onde estão divulgados os profissionais premiados, o nome de Mies van der Rohe não está relacionado entre aqueles já referidos, responsáveis pelas menções.

Desconhecidos os motivos da provável ausência de Mies nas atividades que lhe haviam reservado na Bienal, sabe-se que o arquiteto esteve em São Paulo para visitar o terreno onde projetaria o edifício do Consulado dos Estados Unidos, como se pode comprovar na nota publicada por Philipp Lohbauer na revista Acrópole nº 230 de dezembro de 1957.

“Esteve em nosso meio, durante poucos dias, o ‘Pai da Arquitetura Moderna’ – Mies van der Rohe. Veio ele para estudar o local para projetar a nova Embaixada dos Estados Unidos em São Paulo, que será localizada na av. Paulista. (...) Contou-nos que com freqüência lhe pedem que faça conferências sobre arquitetura. Sempre rejeita os convites. ‘A língua do arquiteto’, afirma, ‘é o lápis, a obra deve falar por ele. Existe uma arquitetura só, a boa, a qual é, porém uma arte, o resultado de um processo específico de desenvolvimento lógico, processo esse que deverá evoluir do complicado e difícil para a última perfeição do simples, do sóbrio, do puro’.”

Sobre o seu ensino, desde quando dirigia a Bauhaus, até o trabalho que até então desenvolvia na ITT em Chicago, Mies explica ao entrevistador:

“Em nossa escola não projetamos, não fazemos projetos. Desenvolvemos nos primeiros quatro anos um ‘curriculum’, para, estudados todos os elementos estruturais, todas as condições específicas de uma obra, resolvidos todos os problemas particulares e inerentes à arte de construir (não de projetar), alcançar no quinto ano a composição de todos estes elementos, da qual deverá resultar a arquitetura pura com toda a sua beleza das proporções e da expressão limpa do seu destino.
Quatro anos de construção? E a vocação do estudante? A aptidão?
Fácil responder. Dou um lápis e um papel. Peço que o aluno, (naturalmente já com noções primordiais) desenhe a casa dele, a residência em que ele queria morar. É fácil separar o joio do trigo! Não há reprovações, a não ser por preguiça notória e má vontade de trabalhar” (5)

A IV Bienal de São Paulo aconteceu entre os meses de setembro e dezembro de 1957.

O terreno correspondia a uma parcela urbana na Avenida Paulista delimitada pelas ruas Itapeva e Rio Claro. Levantamentos aerofotogramétricos de 1968 indicam que até finais dos anos sessenta, não existiam edifícios construídos na área. Eram terrenos privados destinados à venda para empreendimentos imobiliários. Estas parcelas ainda seriam parcialmente desapropriadas para aumentar a largura da Avenida Paulista.

Os primeiros croquis apresentados pelo catálogo já sugerem as primeiras intenções de projeto quanto à volumetria e escala. Os 3 primeiros croquis apresentam aspectos comuns bastante evidentes, como a diferença de altura entre o edifício proposto para o Consulado e as “construções” vizinhas (figura 2). A verdade é que nem todos os edifícios desenhados nos croquis existiam, nem correspondiam em dimensões aos que realmente estavam aí, com exceção do que está representado ao lado esquerdo do consulado, em primeiro plano, junto à esquina da Avenida Paulista com a rua Itapeva, que corresponderia a um edifício de 15 pavimentos.

Figura 02 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

É curioso observar que no croqui C.03 a altura do edifício existente é aumentada, como se estivesse adicionando pavimentos para que realmente a diferença de altura entre as duas edificações fosse mais evidente – o traço horizontal mais fraco corresponderia ao primeiro traçado e as verticais e horizontais mais escuras à correção.

Pode-se observar, comparando os croquis C.01 e C.02, que existe uma diferença considerável em relação à ocupação do terreno. No primeiro, o afastamento do edifício em relação à Avenida Paulista é maior, identificando-se pela calçada e vegetação que determinam o que seria o acesso principal do edifício. No croqui C.02, o edifício está posicionado dentro da primeira metade do terreno, mais próximo da avenida. No projeto de fundações, a linha de propriedade está identificada junto ao muro de arrimo do acesso de veículos, localizado no espaço compreendido entre o Consulado e as duas edificações desenhadas na segunda metade do terreno. Isto indica uma provável correção em relação ao que está representado no croqui C.01, quanto à localização do edifício na parcela que lhe correspondia.

Observa-se também neste mesmo croqui, que com poucas linhas já se descreve como seria a área de jardins que delimitariam o acesso principal do edifício junto à Avenida Paulista.

Estas informações, que podem ser identificadas somente depois de uma análise de todos os documentos gráficos, sugerem que este croqui, reúne uma série de qualidades que seriam desenvolvidas no projeto arquitetônico definitivo do Consulado em São Paulo.

Mies realizou uma série de croquis preliminares para o projeto do Consulado, em que trabalha e estuda diferentes sistemas estruturais. Organiza as funções conforme número de plantas e estrutura. Desenha fachadas e croquis perspectivos nos quais identificam-se diferentes tipologias. É importante observar, que nestes croquis, podem ser reconhecidos outros projetos que Mies desenvolvia paralelamente ou que já tinha trabalhado antes.

É bastante provável também que parte dos desenhos catalogados não sejam de Mies van der Rohe. Gene Summers, um dos principais colaboradores de Mies desde 1950, era um dos arquitetos responsáveis pelo projeto de São Paulo. Entre 1956 e 1966, Summers era o braço direito de Mies, ficando sobre sua direção todos os projetos do escritório, desde estudos de residências, até projetos mais importantes de Mies, como Chicago Federal Centre (1959-1974) – no qual permaneceria como colaborador, a partir de 1966, como arquiteto associado à C.F. Murphy and Associates –, Toronto-Dominion Centre (1963-1966), Edifício Administrativo Bacardí em Cidade do México (1957-1961), Nova Galeria Nacional de Berlim (1962-1968), ITT Commons Building (1952-1954) em Chicago, entre outros.

Figura 03 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Para a análise destes estudos preliminares organizou-se os desenhos segundo a solução estrutural que apresentam. Primeiramente foram analisadas as propostas com as extremidades em balanço (figuras 3, 4 e 5).

No croqui C.04, está desenhada uma retícula de 4 x 7 pilares mais meio módulo, correspondente à parte em balanço dos pavimentos superiores. O pavimento térreo está representado por duas linhas em “L” traçadas sobre a trama de pilares. O croqui C.05 se aproxima bastante da descrita anteriormente. A modulação da estrutura é a mesma e ainda traz algumas dimensões que confirmam que o térreo (linha descontinua) teria uma superfície reduzida em relação ao primeiro pavimento e subsolo. O croqui da fachada surpreende pela forma de como estão representados graficamente os vidros no térreo: um ponto entre cada pilar, correspondendo à linha descontinua em planta.

O croqui C.06, segue a mesma linha, mas se adicionam muros no térreo de altura igual às portas de acesso, que se estendem para fora das projeções do edifício.

Estes muros poderiam ser uma nova interpretação e adaptação do projeto para o Teatro Nacional Mannheim (1952-1953) reservando-se, logicamente, as diferenças de escala e função que distanciam os dois projetos. Talvez o croqui C.07 representasse melhor esta comparação com o projeto para Mannheim. Ainda que a parte saliente dos muros não exista, agora a parte opaca vai desde o solo até a laje, acedendo-se diretamente às plantas inferiores pelo mesmo nível de onde partem os muros.

Figura 04 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

O sistema estrutural também permite a referência a Mannheim, sempre tendo em conta as diferenças de dimensões entre os dois projetos, e abre um novo grupo de estudos que contêm a mesma solução estrutural. (figuras 4 e 5). No croqui C.08, a disposição dos pilares ao longo das laterais do edifício permite a planta livre. Nesta proposta de 10 x 4 módulos – adicionando-se as extremidades em balanço – se observam algumas linhas mais fortes que indicam um mezanino a exemplo do que seria projetado para o Edifício Administrativo da Companhia Rum Bacardí no México (1958-1960).

Outros croquis de plantas podem ser relacionados a este esquema estrutural (figura 5). No croqui C.10, a retícula estrutural se estende para o estacionamento. Supõe-se que esta seria uma planta de subsolo a julgar pelas outras plantas, onde os estacionamentos estão sempre neste nível. O primeiro grupo de pilares partiria desde o térreo para formar os demais pavimentos.

Nas três imagens da figura 5, o edifício está situado em um terreno cujas dimensões e ângulos se aproximam muito ao terreno desenhado nos projetos definitivos, o que sugere que Mies, para estes estudos, já aplicava as condicionantes do terreno quanto a suas dimensões e topografia.

Figura 05 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Nos croquis C.12 e c.13 (figura 6), por exemplo, percebe-se uma retícula, que além de servir para representar o revestimento de piso, poderia ser derivada de um plano modulado (figura 7), também publicado entre os desenhos, que serviria de base para grande parte dos estudos e propostas.

Figura 06 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Foi trabalhada ainda uma série de propostas em que desaparecem os balanços, mas que se caracterizam pelo deslocamento das paredes do térreo para dentro, situando-se a meio modulo, em relação com o perímetro externo, ou na primeira linha de pilares subseqüente à exterior.

Como no grupo anterior, são trabalhadas várias modulações de estrutura, sendo que algumas já tinham dimensões mais exatas, pois estavam desenhadas sobre a base modulada já referida.

Nestas propostas selecionadas do catálogo (figura 7), as distribuições dos espaços internos diferem bastante em cada planta, principalmente, as escadas de acesso às plantas superiores, que mudam de número e posição em cada desenho. A situação do auditório é determinante para decidir e organizar os acessos ao edifício.

Figura 07 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Os acessos estariam separados pelas diferentes seções do serviço consular, como se pode verificar nas informações escritas em planta: “U.S.I.S.”e “CONSULATE”. Além dos serviços consulares, também estavam previstos escritórios para os Serviços de Investigação dos Estados Unidos. (U.S.I.S.). Algumas anotações, bastante curiosas e importantes para entender a evolução do projeto, estão escritas junto aos desenhos. Na planta do croqui C.12, por exemplo, pode deduzir-se que esta não correspondia às necessidades do programa, já que, conforme escrito no borde inferior da prancha, “não há seção consular” porque “o espaço central é muito pequeno para uma boa seção consular”. No croqui da figura 8 , está escrito “This building will balance”, o que provavelmente indica a satisfação de Mies e equipe com a proposta de planta, já que a estrutura não sugere nenhuma instabilidade.

Figura 08 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

O croqui perspectivo C15 (figura 9) esclarece os aspectos analisados nas plantas (C.13) e inclusive se poderia dizer que pertencem a uma mesma proposta, assim como a fachada F.01 (figura 9), que com mais exatidão representaria este esquema. Uma das imagens que ilustram um texto de 1957 de Udo Kultermann “O clássico L. Mies van der Rohe e os miesianos” (6) é de uma maquete para um projeto de edifício de escritórios em Indianápolis. Parece evidente a relação entre os dois projetos, se comparamos a fachada F.01 e a maquete. Mais um indicativo de que se buscou em estudos e projetos anteriores soluções que poderiam adaptar-se ao programa do Consulado em São Paulo.

“A questão da originalidade é, por tanto, irrelevante desde o ponto de vista da concepção moderna: não se trata de obter produtos novos, senão de construir objetos genuínos, cujos atributos formais, dêem conta ao mesmo tempo de sua estrutura visual e de seu programa. Artefatos que resolvam suas contradições internas por meio da síntese da forma, estabelecido em ordem que estruture o projeto, sem violentar as lógicas particulares dos elementos que o constituem” (7).

Figura 09 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Esta sucessão de imagens dos estudos preliminares – que se destacam no material documentado – foi selecionada justamente pelo interesse em analisar não somente etapas de projeto, mas também acompanhar, entender e aprender com estes exercícios de indiscutível importância para o projeto arquitetônico.

Esta análise deve desmistificar qualquer conceitualismo que se possa aplicar a este projeto de Mies van der Rohe e procura mostrar que todas as decisões de projeto são de ordem construtiva e prática. O exercício projetual é constante, buscando sempre uma estrutura sistemática e uma distribuição ordenada das funções. A correta aplicação de soluções técnicas concernentes à construção garante este essencialismo tipológico legitimo.

Existem 5 versões para o que poderiam considerar-se as propostas finais para o edifício do Consulado: a primeira de 1958, as 3 seguintes desenvolvidas durante o ano de 1959 e a 5ª versão definitiva de 1960.

Para estas propostas, não existem croquis preliminares pelos quais se pudesse identificar um processo evolutivo especifico desta fase do projeto. As 5 versões estão projetadas segundo uma modulação específica, já presente em alguns estudos referidos anteriormente, ao qual a estrutura está condicionada.

O quadro modular (figura 7) que já deveria acompanhar as decisões de projeto desde as fases iniciais, trata-se de uma rede modulada aplicada sobre toda a superfície do terreno e que determina também a superfície edificável – polígono interior – que fixa as projeções máximas da edificação.

Acredita-se que este quadro modular, reconhecido em outros projetos de Mies, serviu somente como ferramenta para ordenar as decisões previamente tomadas, nunca o projeto estando totalmente condicionado a ela, como se pode comprovar em todos os esboços que antecedem às versões finais. São desenhos concebidos independentes de qualquer modulação preestabelecida e que se ajustam, posteriormente, a uma ordem coerente e pretendida, o que confere mais qualidades ao processo de projeto.

As cotas informadas na planta nos permitem identificar que cada módulo mede 1,42m x 1,42m, aproximadamente. Isto, a princípio poderia ser um dado relevante, mas adquire mais importância quando se conclui que, efetivamente, todos os elementos estruturais estão condicionados a estas dimensões.

Os planos executivos de 1960 especificam a distância entre eixos de pilares de 8,52 m e 7,10 m. Estas dimensões, por exemplo, se divididas entre o número de perfis metálicos dispostos entre cada vão do perímetro, nos dá o mesmo coeficiente anterior: 1,42 m. Este dado ainda permitiu concluir, definitivamente, que o quadro modular serviu para todas as propostas, pois, se aplicarmos as medidas de 1,42 m x 1,42 m nas versões anteriores (1958 e 1959), chegamos às mesmas dimensões para todos os edifícios projetados desde a 1ª versão de 1959 (figura10).

O número de vãos varia para cada projeto, respeitando sempre dimensões gerais já estabelecidas, com exceção das planta de 1958, em que é muito mais evidente a diferença de ajuste da estrutura comparada às versões seguintes (figura 10).

Figura 10 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962. São Paulo. Mies van der Rohe. Esquema das propostas finais. Plantas Baixa

A simetria é uma característica básica evidenciada pelos dois pátios internos e pelas escadas. As circunstâncias relativas ao ajuste do programa resultam em um encaixe programado dos escritórios perimetrais e dos espaços restantes de trabalho da planta de subsolo; ou seja, todas os programas estão submetidos a um esquema geral, permitindo da melhor forma possível suas adaptações às áreas que lhes são reservadas.

São bastante evidentes as características comuns que apresentam estas cinco últimas propostas: a plataforma de acesso, o hall de entrada – que agora é comum para as seções Consular e dos Serviços de Inteligência – os pátios internos, número de pavimentos, distribuição dos escritórios, etc.

Por outro lado, algumas variáveis quanto à disposição dos espaços e funções, são determinantes para a ordem estrutural, que uma vez alterada, resulta em uma nova reestruturação de todo projeto, que justificam as possíveis melhoras até chegar ao que se consideraria a solução para o edifício.

Sobre este exercício constante de adequação estrutura – função, submetido a um esquema construtivo claro, e a implicação formal deste processo na concepção em arquitetura, Hélio Piñón explica: “a concepção atua, sobre as realidades físicas, capazes de gerar uma visualidade intensa que afeta à totalidade da experiência espacial. O caráter tectônico, essa verossimilitude construtiva que em ocasiões adquire o material da arquitetura, faz parte do raciocínio que encontra a forma em seu constituir-se. De maneira análoga aos requisitos funcionais, a construção introduz uma disciplina ao conceber; mas do mesmo modo que com eles ocorre, não se trata só de um impedimento momentâneo que entorpece o processo do projeto, senão que constituirá ao longo da vida da obra, um agente ativo na gênese de seu sentido formal, e por tanto arquitetônico” (8).

Figura 11 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Nas versões de fevereiro de 1958 e de fevereiro de 1959 (figura 11), o auditório está localizado no primeiro pavimento. Isto resultou na interrupção do esquema estrutural, por razões óbvias, pois os dois pilares que complementariam a malha, estariam localizados dentro do auditório no meio da platéia. É provável que isto fosse compensado com reforço estrutural nas vigas e laje, sobretudo porque os pilares reaparecem nos pavimentos subsolo e segundo.

Figura 12 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Em abril de 1959, o auditório é deslocado ao pavimento inferior, ajustando-se a área de assentos às dimensões determinadas pelos pilares. (figura 12) Dessa forma, define-se um novo acesso direto ao pavimento inferior. O térreo estaria agora mais reservado aos escritórios de atendimento ao público, permanecendo o auditório, que seria um espaço de uso mais eventual, separado, mas com um acesso próprio.

Alguns croquis indicam que num determinado momento, pensou-se em um acesso independente em relação às áreas consulares, mas sempre associado a outros setores, como para os escritórios do U.S.I.S. (figura 13).

Figura 13 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Em junho de 1959, o auditório voltaria a passar por novas transformações. A estrutura agora é de 8 x 5 pilares, ao invés da anterior de 8 x 6 (figura 14). O auditório está encaixado ao módulo que lhe corresponde; entretanto, o pilar que se localizaria no meio do palco é substituído por outros dois, localizados nas extremidades. Esta mesma solução permaneceria para o projeto final de janeiro de 1960.

Figura 14 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Em quase todas as fases do projeto desde 1958, as escadas estiveram localizadas junto à fachada frente aos pátios internos. Somente na versão de abril de 1959, que foram deslocadas para o centro da planta (figura 12). Neste caso, assumem dimensões menores e uma vez situadas atrás dos painéis da recepção, junto às zonas de serviços, parecem perder importância na hora de organizar as funções. Por este motivo, é inevitável a criação de espaços junto às escadas para permitir a comunicação com os corredores e outros setores. Nas demais plantas, as escadas parecem estar mais bem inseridas formando uma ante-sala de comunicação com os departamentos e zonas de circulação.

O pavimento térreo da primeira proposta de 1959 apresenta uma particularidade em relação às demais: toda a zona periférica esta elevada em relação ao nível do hall de acesso.

Figura 15 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Para decidir como seriam as escadas que acederiam a este nível, fizeram-se alguns croquis perspectivos. Pequenos deslocamentos podem ser observados nas escadas de acesso à biblioteca, sendo escolhida a última solução (figura 15). Para as escadas de acesso às zonas de escritório, além dos diferentes posicionamentos, foi estudado também o tipo de revestimento das paredes que poderiam ser opacas ou de vidros (figura 16).

Figura 16 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

A decisão de elevar toda esta zona perimetral do térreo foi tomada para permitir o acesso ao estacionamento. Entre as versões definitivas, a de fevereiro de 1959 é a única em que as garagens estão localizadas nas laterais do edifício. Desta forma, precisava-se altura para aceder ao subsolo desde a rua. Por isso, a parte do pavimento térreo que se projeta sobre o estacionamento está elevada. Quando o estacionamento volta a estar localizado na parte posterior do edifício – o que parece muito melhor já que podem ser acedidas todas as vagas pelas duas ruas transversais – o térreo volta a estar somente em um mesmo nível (figura 14).

Figura 17 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Nenhuma das versões projetadas desde 1958 detalha os dois pátios internos. Estão especificadas, somente, algumas árvores que não estão igualmente representadas em pranchas de um mesmo jogo. Entretanto, foram pensadas, no mínimo, 12 propostas para estes pátios. Os croquis referentes a este estudo esclarecem muito bem o exercício realizado para determinar a parte revestida de pedra e grama, lâminas de água, posição dos bancos e arbustos (figura 17-18).

Pelo número de pedras do revestimento de piso, se pode comprovar, que estes pátios foram estudados já para o projeto de 1960, pois coincidem com o número de módulos de esquadrias e perfis metálicos da versão definitiva.

Figura 18 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Alguns destes croquis especificam a porta de acesso. Nos demais, pode-se deduzir pela maneira de como estão dispostos os elementos. Entende-se que o acesso estaria no vestíbulo que comunica à biblioteca. Isto indica que o pátio da direita serviu de base para os croquis. Da outra forma, o acesso estaria voltado para zonas mais restringidas: a ante-sala dos escritórios da seção consular à esquerda e a ante-sala dos escritórios da U.S.I.S à direita, ou também, a porta poderia estar girada para o corredor da esquerda, que une o hall de acesso à biblioteca e os demais departamentos.

Figura 19 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Os planos executivos, correspondentes à proposta final de 25 de janeiro de 1960 (figura 19), consistem basicamente em planos do projeto estrutural – alicerces, lajes, vigas e pilares – e de instalações elétricas e hidrossanitárias, além de outras plantas, cortes e fachadas cotadas.

Figura 20 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962

Entre todos estes documentos, um de bastante interesse, é a prancha de detalhes de esquadrias (figura 20). As informações contidas são setores de plantas e cortes, detalhes de fixação das esquadrias à estrutura – em todas suas diferentes e poucas ocorrências –, que resumem todo o projeto quanto ao aspecto construtivo. A partir deste documento, foram novamente desenhados estes detalhes. Um exercício indispensável para um correto entendimento de todo o projeto do Consulado em São Paulo, (figura 21) e de outras obras de Mies, já que se buscou suporte em outros projetos para completar informações técnicas, que pela escala reduzida das imagens, não puderam ser identificadas.

Figura 21 – Consulado dos Estados Unidos, 1957-1962. São Paulo. Mies van der Rohe. Detalhes de estrutura e esquadrias

Redesenhar o projeto e seus detalhes construtivos, tendo como base as imagens dos originais publicados, foram de fundamental importância para entender todas as decisões de projeto. A procura de referências em projetos desenvolvidos, simultaneamente, ou já existentes, permitiu aceder-se a uma esfera de relações “construtivas” já bastante referida pela crítica durante anos, mas que nunca deixa de ser surpreendente, sobretudo porque se acredita que aí pode residir um dos grandes valores para o projeto arquitetônico.

“O caráter tectônico é, em realidade, uma condição da forma arquitetônica que aportam uma ordem ao material, prévio ao arquitetônico, do que a arquitetura se nutre. Garante a verossimilitude física do artefato e se rege por critérios de autenticidade. Não se atinge pela mera expressão do procedimento construtivo nem se orienta a uma idéia para valer como transparência e adequação, senão que é a noção de coerência seu horizonte sistemático” (9).

Efetivamente, durante o decorrer deste trabalho valorizou-se mais os estudos preliminares do que a versão final do projeto. Talvez porque se considere que estes croquis representariam soluções mais interessantes do que a desenvolvida até o final (!) Isto se comprova simplesmente com uma análise atenciosa aos projetos anteriores de Mies e equipe que, como já foi sugerido, podem corresponder muito às primeiras anotações do Projeto para o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo.

E para a Arquitetura Moderna Brasileira? Qual foi a contribuição deste projeto de Mies para a cultura moderna, num período em que a arquitetura brasileira – sobretudo a paulista – apresentou seus melhores frutos?

A influência de Mies em São Paulo e no Brasil já estava mais do que estabelecida. É conhecida a quantidade de projetos modernos realizados pelos arquitetos brasileiros em que se podem reconhecer as influencias miesianas e sua “visão industrializável” (10). É importante ressaltar, que muitas técnicas construtivas aplicadas aqui, foram adaptadas às circunstâncias brasileiras sob vários aspectos, (tecnologia, indústria, economia, cultura,etc.) o que de certa forma foi importante para conferir particularidades a estes projetos brasileiros, prontamente reconhecidos internacionalmente.

A crítica especializada estava atenta à produção local, o que é bastante positivo, a julgar pela herança deixada nas revistas e outros periódicos da época. Deve se adicionar que a “aventura que se tornou Brasília” (11) concentrou todas as atenções na construção da nova capital. O tema arquitetônico foi vulgarizado em jornais e publicações de grande circulação, desviando a atenção e a pesquisa em arquitetura para longe das intervenções e novos projetos, que mereciam uma atenção particular.

notas

1
Apud CARTER, Peter. Mies van der Rohe at work. London, Phaidon, 1999, p. 10.

2
Entrevista com Graeme Shankland para BBC Third Programme, 1959. Cf. CARTER, Peter. Op. cit., p. 180.

3
SHULZE, Franz; DANFORTH, George E. (ed.). The Mies van der Rohe Archive, The Museum of Modern Art, An Ilustrated Catalogue of the Mies van der Rohe drawings in the Museum of Modern Art. Part II: 1938-1967, the American Work. Volume 17 – Ron Bacardí y Compañia, S.A. Administration Building (Cuba) and another Buildings and Projects. Nova York / Londres, Garland Publishing, 1992.

4
Acrópole. São Paulo, IAB, ano 19, n. 227, 1957.

5Acrópole. São Paulo, IAB, ano 19, n. n. 230, 1957.

6
Habitat. São Paulo, ano 7, n. 38-45, 1957.

7
PIÑÓN, Hélio. Curso Básico de Proyectos. Barcelona, Edicions UPC, 1998, p. 68.

8
Idem, ibidem, p. 94.

9
Idem, ibidem. Op. cit., p. 92.

10
SEGAWA, Hugo. Arquitetura no Brasil 1900-1990. São Paulo, Edusp, 1999, p.148

11
SEGAWA, Hugo. Op. cit.

fonte das figuras:

Figura 01: SHULZE, Franz DANFORTH, George E., Consulting Editor; “The Mies van der Rohe Archive, The Museum of Modern Art, An Ilustrated Catalogue of the Mies van der Rohe drawings in the Museum of Modern Art. Part II: 1938-1967, the American Work. Volume 17 (Ron Bacardí y Compañia, S.A. Administration Building (Cuba) and another Buildings and Projects)”; Garland Publishing, Inc., N.Y. and London, 1992.

Figura 2-9 e 11-20: SHULZE, Franz DANFORTH, George E., Consulting Editor; “The Mies van der Rohe Archive, The Museum of Modern Art, An Ilustrated Catalogue of the Mies van der Rohe drawings in the Museum of Modern Art. Part II: 1938-1967, the American Work. Volume 17 (Ron Bacardí y Compañia, S.A. Administration Building (Cuba) and another Buildings and Projects)”; Garland Publishing, Inc., N.Y. and London, 1992.

sobre o autor

Ítalo Galeazzi é arquiteto, doutorando em Projetos Arquitetônicos da Universidade Politécnica da Catalunha (UPC), Barcelona

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Na vida das ruas. Escrevendo muito depois de Heidegger

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A máscara do arquiteto

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