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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Lugares do silêncio e da memória, os cemitérios atuais construídos na Europa são concebidos como lugares de encontro para os vivos e a Morte, um local para se meditar sobre a transitoriedade da vida e a infinitude da eternidade

english
Places of silence and memory, cemeteries built in Europe today are designed as meeting places for the living and dead, a place to meditate about the transience of life and the infinity of eternity

español
Lugares de siléncio y memória, los cementarios construídos hoy en Europa son diseñados como lugares de encuentro entre vivos y muertos, un lugar para meditar sobre la transitoriedad de la vida y la infinidad de la eternidad


how to quote

MASSAD, Fredy; GUERRERO YESTE, Alicia. Cemitérios contemporâneos. Entre a vida e a morte. Arquitextos, São Paulo, ano 05, n. 060.02, Vitruvius, maio 2005 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/05.060/459>.

Arquitetura para os mortos. Lugares de despedida, recolhimento, contemplação. Percursos míticos, mágicos, simbólicos. Pontos de encontro e de memória. Espaços transcendentes e íntimos. A arquitetura funerária é expressão de nossa relação com a morte. Entretanto, o aspecto de grande parte da arquitetura funerária atual, expressão da dessacralização de nossa cultura, poderia ser também manifestação da recusa pueril ao memento mori na sociedade ocidental, que tenta minimizar muitas vezes esse choque, escondendo a dor, convertendo estes lugares em locais assépticos, neutralizados.

Como se com esse procedimento a própria morte desaparecesse, se constroem lugares denunciadores do esforço de alienação da consciência frente à morte, de afastar o impacto que implica se defrontar com ela. A arquitetura esfumaça a morte, distrai os vivos da realidade do passamento e amortece a dificuldade de acompanhar o translado do corpo inerte pelos rituais prévios à exumação. É difícil pensar que essa neutralidade seja vontade de evitar a obscenidade que é se intrometer na intimidade da agonia e da morte.

Panteões, cemitérios, velórios, capelas, crematórios, mausoléus aspiram a ser símbolos de recordação e respeito. Mas é no dramatismo e complexidade de obras como o Cemitério de Igualada de Miralles e Pinós (2), o Crematório Treptow de Axel Schultes, o Crematório Woodland de Asplund, o Cemitério San Cataldo de Rossi, que se adentra na busca de uma arquitetura imbuída de uma emoção capaz de cobiçar a sinceridade da dor profunda ante a morte de um ser querido, uma vez que falam dos significados da morte para o homem contemporâneo – muito além de ser uma construção ou recinto protocolar aonde se abrigam os pranteadores ou se reúnem pessoas em datas específicas –, que lá pode intuir ou reconhecer a reflexão e o sentimento profundos acerca da morte em nosso tempo.

Aldo Amoretti e Marco Calvi construíram uma necrópole contemporânea cujas estruturas foram concebidas para acolher o processo natural de transformação do corpo morto. Ou seja, a solução funcional que rege o programa deste cemitério – cujo objetivo primordial é evitar a saturação – se baseia no respeito tributado à memória dos que ali descansam e no inevitável esquecimento progressivo sobre eles, trazido pelo tempo. O cemitério de Armea em Sanremo (Itália) conta com três zonas de exumação: "Uma sucessão de enterros, em uma gradual passagem do pessoal ao coletivo", é como os arquitetos descrevem a maneira em que se habita esta cidade dos mortos.

A zona de enterramento está imbricada com a topografia natural, configurada por sarcófagos e nichos para depositar cinzas, identificados com lápides. Da tumba, após quarenta anos, os restos serão trasladados para um nicho individual situado em uma torre ossuário – "uma espécie de urna coletiva". Quarenta anos mais tarde, após os restos "terem perdido sua individualidade", os restos serão depositados em um ossuário ou urna de cinzas comuns, aonde permanecerão para sempre. A concepção do planejamento funcional deste cemitério levou em conta, talvez involuntariamente, a futura ausência das pessoas que velam hoje seus mortos, definindo assim a morte como a fatal culminação do ciclo da vida e ao cemitério como o receptáculo da desintegração da matéria humana.

Para Jordi Badia, diretor do escritório BAAS e autor de numerosos projetos de arquitetura funerária, a referência do projeto é o sentimento inspirado por um conceito elaborado pelo escultor Jorge Oteiza, no qual este apresenta a percepção religiosa dos espaços vazios e a compreensão da tumba como um lugar de partida e não de permanência: "Ao adágio aqui jaz corresponderia mais precisamente daqui partiu". A luminosa estrutura branca do Velório de Terrassa – como que levitando entre o céu e a terra, que foge da opacidade da construção funerária – quer transmitir, nas palavras deste arquiteto, essa sensação da iminência da partida, do passo para o outro lado.

A capacidade de invocação à dimensão transcendental e arquetípica da morte e da alma parece adquirir sua maior intensidade naqueles projetos nos quais a arquitetura e a natureza se fundem em uma espécie de indescritível intercâmbio de energias. O Velório de León – projetado por Badia em conjunto com Josep Val – se enterra para se esconder de seu entorno: uma lâmina de água como cobertura atua também como fachada na qual o reflexo do céu surge como uma alegoria da morte, enquanto a estrutura interior – sendo que nas salas de vigília a única visão é a do céu – se apresenta como uma laje de espessura infinita.

A idéia do infinito na morte, a inquietude que inspira imaginar a infinitude da eternidade, ganha um impressionante símbolo no cenário cósmico criado pela ilimitada extensão do céu e do mar entre os quais se situa e se compõe o Cemitério de Finisterre de César Portela. Um cemitério cujo espaço está integrado pelo mar, pela montanha e pelo céu e umas mínimas edificações espalhadas desordenadamente pelo território aberto de uma ladeira, inspirado nos arcaicos sepultamentos celtas. Sem temor de evocar o romanticamente sinistro, César Portela faz com que o fundamento deste cemitério sejam as ressonâncias emotivas despertadas e alentadas pela forte paisagem, "buscando a transcendência do lugar até o silêncio", apelando pela esperança mediante uma obra na qual a arquitetura quer se dissolver caladamente na natureza como símbolo de silêncio, ausência e memória.

Espaços e estruturas pensados não só como memorial, morada final ou ante-sala desta, mas como lugares de encontro para os vivos e a Morte, nos quais se pode reconhecer que o essencialmente sagrado é a matéria e a consciência de uma vida humana no espaço e no tempo terrestre. Arquitetura que faça sentir, na carne e no espírito, a vida ante a morte.

nota

1
Artigo publicado originalmente com o título "Cementerios. Entre la vida y la muerte" em La Vanguardia, 27 abr. 2005.

2
MASSAD, Fredy; GUERRERO YESTE, Alicia. "Enric Miralles. A inconclusa arquitetura do sentimento". Arquitextos n. 048.01. São Paulo, Portal Vitruvius, maio 2004 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq048/arq048_01.asp>.
TEIXEIRA, Carlos M. "Enric Miralles, 1955-2000". Arquitextos, Texto Especial n. 002. São Paulo, Portal Vitruvius, jul. 2000 <http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp002.asp>.

sobre o autor

Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste, titulares do escritório ¿btbW, são autores do livro “Enric Miralles: Metamorfosi do paesaggio”, editora Testo & Immagine, 2004

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