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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O texto discute os valores atribuídos aos espaços, pela análise de como certas características de ambientes permeiam o imaginário das pessoas, usando como estudo de caso os escritórios de advocacia, e a imagem associada entre o ambiente e o seu ocupante


how to quote

DUARTE, Cristiane Rose de Siqueira; BRASILEIRO, Alice; SIMÕES, Ana Paula; CUNHA, Viviane. Sóbrio, organizado e conservador: o escritório é a cara do dono? Sobre valores, símbolos e significados dos espaços. Arquitextos, São Paulo, ano 06, n. 069.10, Vitruvius, fev. 2006 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.069/384>.

Este artigo comenta uma pequena parcela das discussões travadas no âmbito da disciplina de pós-graduação “Arquitetura e Projeto do Lugar”, do PROARQ/FAU/UFRJ, e faz parte de um conjunto de pesquisas desenvolvidas pelo grupo Arquitetura + Subjetividade + Cultura (grupo ASC), no mesmo programa.

O artigo tem o objetivo de discutir os valores e significados atribuídos aos espaços, pela análise de como determinadas características de ambientes permeiam o imaginário das pessoas. A pesquisa que está na base deste trabalho procurou mostrar que cada elemento de uma arquitetura tem um valor simbólico que "fala" com o inconsciente do observador, fazendo-o elaborar uma imagem mental pré-concebida dos valores agregados ao determinado ambiente. Utilizamos como estudo de caso os escritórios de advocacia, e a imagem associada entre o ambiente e o seu ocupante, o “advogado em pessoa”. Os resultados de nossa pesquisa apontaram para a compreensão de mecanismos de atribuição de valores e significados dos espaços, por parte dos indivíduos, com base nos significados pré-concebidos a partir de sua memória seletiva, tema de base dos estudos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa ASC, do Proarq/FAU/UFRJ.

Espaços, objetos, percepção e cultura: um pouco de fundamentação teórica

Ao tomarem contato com um determinado ambiente construído, as pessoas recebem seus impactos primeiros a partir das sensações que geram nelas a percepção, etapa inicial de todo um processo de conhecimento do lugar (processo cognitivo). Para Del Rio (2) a percepção é “um processo mental de interação do indivíduo com o meio ambiente, que se dá através de mecanismos perceptivos propriamente ditos e, principalmente, cognitivos”. De fato, desde o primeiro contato com o ambiente, há uma inter-relação muito dinâmica entre nossos sentidos, nossa percepção, nossa memória, nossos valores culturais e o espaço em que estamos imersos. Sentimos, carregamos essas informações de significados e passamos a perceber, a re-avaliar o ambiente, para poder senti-lo de novo, num diálogo incessante. A realidade dirige ao homem estímulos sensoriais, que são captados pelos cinco sentidos. Após essa captação, entra em ação a racionalidade, onde atuam os diversos filtros, a motivação, a avaliação e a conduta do sujeito. Esse processo culmina numa organização mental onde a realidade percebida é representada por esquemas e imagens mentais.

Quando entramos numa sala, vemos seu mobiliário, cores, formas, padrões de luz, sentimos cheiros (como de flores sobre a mesa, ou do novo carpete, por exemplo), ouvimos sons ou ruídos que estão acontecendo ali, sentimos pelo tato a textura dos materiais. A partir dessa nossa experiência juntamos todas as características que identificamos e construímos valores para esse espaço. Ainda, os objetos constantes naquele espaço serão observados e até mesmo o posicionamento (simétrico, não-simétrico etc.) dos elementos não ficará fora de nossa apreensão, mesmo que não tomemos consciência imediata disso. Sem esse mecanismo não conseguiríamos reconhecer e diferenciar salas comerciais de residenciais, por exemplo, no momento que entramos nelas. E se diferentes pessoas de uma mesma sociedade atribuem significados semelhantes a determinados espaços construídos, é pelo fato de que essas pessoas compartilham as mesmas bagagens culturais. Assim, compreende-se que, para reconhecermos um ambiente e conseguirmos imaginar ou supor a natureza da atividade que acontece ali, estamos fazendo uso dos valores simbólicos impregnados nos elementos desse espaço.

Baudrillard trabalha com a noção de que “não se trata, pois, dos objetos definidos segundo sua função, ou segundo as classes em que se poderia subdividi-los para comodidade da análise, mas dos processos pelos quais as pessoas entram em relação com eles” (3). Este autor considera que, a partir dessa relação, a leitura de diferentes objetos pode acontecer através da compreensão sobre o simbolismo que emerge dos aspectos desse objeto como materiais, formas, cores, proporções e tamanhos e não necessariamente do objeto em si. Por outro lado, os significados simbólicos dos espaços fazem sentido somente para aqueles que, por estarem imersos numa cultura e numa lógica própria de significados, entendem os códigos desse simbolismo.

Desta forma, compreende-se que, ao penetrar num ambiente arquitetônico, um indivíduo desencadeará tal processo mental em frações de segundo num vai-e-vem repentino que engloba o processo cognitivo e de análise filtrada por componentes culturais armazenados em sua memória, sendo capaz, em alguns instantes, de emitir suas primeiras impressões ("que lugar agradável, aconchegante..." ou "não gostei daqui, parece uma loja cara: vou ser esnobado... vou embora já!").

Segundo Rapoport (4), o conceito que se tem sobre o ocupante de uma sala é incorporado na opinião que se tem sobre a aparência da própria sala. A partir destas considerações, decidimos, como parte de um dos trabalhos didáticos da disciplina “Arquitetura e Projeto do Lugar” (Proarq/FAU/UFRJ) averiguar se, no caso de um escritório de advocacia, o indivíduo receptor transfere, de fato, para o espaço do escritório todos os atributos que espera encontrar em um advogado em pessoa

Nesse trabalho buscamos identificar os elementos que carregam significados decisivos na avaliação feita por diferentes pessoas, de um mesmo contexto sócio-cultural, que um espaço comercial possa ou não ser um escritório de advocacia.

Com a pesquisa tivemos a intenção de verificar os atributos culturalmente atribuídos ao espaço de um escritório de advocacia, mas, também, os componentes psico-sociais que formam o imaginário do próprio advogado.

Materiais e métodos

No âmbito do grupo de pesquisa “Arquitetura, Subjetividade e Cultura”, do Proarq/FAU/UFRJ, temos buscado desenvolver metodologias de análise dos Lugares com base na pesquisa etnográfica. A etnografia é a análise antropológica que “revela o que as pessoas pensam e nos mostra os significados culturais que elas usam diariamente” (5). No entanto, para o presente trabalho, devido ao curto espaço de tempo imposto pela disciplina, foi feita pesquisa apenas por meio de entrevistas com apoio de figuras. Tal estratégia de trabalho se baseou nas afirmações de Gibson (6), segundo quem a visão é considerada, dentre os demais sistemas perceptivos, o que melhor transmite informações ambientais, sendo responsável por cerca de 80% das informações sensoriais.

Inicialmente, foi feita uma seleção de fotografias que retratassem o interior de vários escritórios, de diferentes características, não apenas de advocacia, e figuras de ambientes diversos de trabalho. As figuras foram, em seguida, modificadas por meio de softwares gráficos, a fim de não permitir o reconhecimento dos ambientes por parte de algum informante que por ventura tivesse tido acesso anterior a alguma das referidas figuras. Por isso todas as figuras foram apresentadas em aspecto “artístico”, como imagens aquareladas. Procurou-se diversificar o conteúdo das imagens para possibilitar uma ampliação do leque de respostas.

As figuras foram apresentadas a nossos informantes em conjunto com algumas perguntas da entrevista, que foi estruturada da seguinte forma:

1) - Diga com que tipo de ambiente se parece cada uma dessas figuras.

O objetivo da pergunta foi a verificação do imaginário a respeito de escritórios de maneira geral, utilizando uma resposta verbal aberta. Nesta pergunta o entrevistado foi convidado a responder livremente sobre o que parecia cada ambiente retratado nas figuras, sendo que neste ponto ele não sabia ainda que a pesquisa versava sobre escritórios de advocacia. Esta omissão de informação foi feita propositalmente, para que não houvesse influência no julgamento das figuras e pudesse ser verificada a reação espontânea do entrevistado.

2) - Quais idéias, sentimentos e ou imagens que você associa a um escritório de advocacia?

O objetivo da pergunta foi a verificação do imaginário direcionado especificamente para escritórios de advocacia, deixando o entrevistado utilizar seu próprio repertório sem recorrer às figuras. Nesta pergunta o entrevistado não tinha acesso às figuras, e as respostas poderiam versar sobre quaisquer aspectos, desde o “sentido da advocacia” que poderia ser lembrado ao se pensar num escritório de um advogado, até o instrumental que esse profissional utiliza; no entanto, o entrevistado não contava com opções pré-escolhidas, a resposta era totalmente aberta e basicamente descritiva.

3) - Qual ou quais figuras você acha que poderia ser um escritório de advocacia, e qual ou quais dessas figuras você acha que não seria um escritório de advocacia de forma alguma? Por quê?

O objetivo da pergunta foi identificar aqueles elementos que caracterizam um espaço como um escritório de advocacia e os que o caracterizam como não sendo um escritório de advocacia. Nesta pergunta o entrevistado era estimulado a apontar, especificamente, quais elementos das figuras o remetiam a um escritório de advocacia e aqueles que não seriam encontrados nesse tipo de escritório.

Após a aplicação das entrevistas, os dados foram tabulados em planilhas. A nossa análise busca por padrões, depoimentos que se repetem com bastante freqüência nas entrevistas, como sendo sinais do compartilhamento de significados (7). Esta contabilização levou à tabulação final, enumerando os itens mais característicos de um escritório de advocacia e aqueles que pela sua presença naquele espaço, não o caracterizavam como um escritório de advocacia.

Apresentação dos resultados

Os resultados são apresentados não como respostas diretas das perguntas, mas pela combinação das respostas, buscando direcionar a análise. Assim, pôde ser notado, por exemplo, quase que unanimidade (94%) em se apontar a figura identificada como F5 como sendo de um escritório de advocacia. Da mesma forma, as figuras F1 e F11 também obtiveram um percentual razoavelmente elevado (69% e 50%, respectivamente).

Convém ressaltar que a figura F11, na pergunta 1, quando os entrevistados não conheciam ainda o tema da pesquisa, foi citada pela metade deles como sendo escritório de um médico. Aliás, durante toda a pesquisa, foi forte a ligação encontrada entre escritórios de advogados e de médicos. Fica portanto a pergunta a ser analisada em futuras pesquisas, sobre a semelhança de "caráter" que um médico e um advogado parecem ter no imaginário deste meio cultural do qual constam nossos informantes.

As respostas geraram uma série de gráficos que facilitam a compreensão dos resultados. No primeiro deles (ver gráfico 1) é apresentada a freqüência total das figuras, que demonstram a forte tendência de se apontar as figuras identificadas como F5, F1 e F1 como aquelas que mais parecem um “escritório de advocacia”.

Examinando as figuras mais votadas como sendo mais "parecidas" com escritórios de advocacia, iniciamos uma identificação de seus elementos e componentes físicos para, posteriormente, analisar os fatores simbólicos subjacentes às suas características (ver figuras identificadas como F5, F1, F11).

Em relação às características mais representativas de um escritório de advocacia, foram os seguintes os resultados obtidos: a) trata-se de um ambiente tradicional (sóbrio); b) existem livros nas estantes; c) é um ambiente organizado (não apenas no sentido da limpeza e da arrumação, mas também por conta de uma organização visual caracterizada pela simetria na disposição dos equipamentos); d) existência de cadeiras; e) existência dos revestimentos em madeira (ou lambris de madeira aparente; f) transmite a “sensação” de privacidade (ver estes elementos no Gráfico 2).

Já as figuras identificadas como F8, F9 e F13 foram apontadas como aqueles que não se pareciam com um escritório de advocacia (ver as figuras identificadas como F8 e F13).

Quanto aos elementos visíveis nas figuras que foram considerados como não pertencentes à imagem de um escritório de advocacia, os resultados foram os seguintes: a) ambiente muito colorido; b) ambiente muito iluminado; c) ambiente despojado (ver gráfico 3).

Como justificativa para suas escolhas, para que as figuras F1, F5 e F11 fossem as mais citadas como ambientes de escritórios de advocacia, alguns entrevistados deram os seguintes relatos:

“... advogado é muito arrumadinho, formal...” (referindo-se à F11)
“...tem móveis antigos...” (referindo-se à F5)
“...pelos livros, pelo mobiliário...advogado é conservador...” (referindo-se à F5)
“...sóbrio, demonstra organização e grandeza na decoração. Vista da janela do alto, imponente. Cadeira central e duas de visitas...” (referindo-se à F1)
“...cadeira muito alta...” (referindo-se à F1)
“...livros (Códigos), formalidade, escritório tipo antigo, madeira nobre...” (referindo-se à F5)
“...pela "caretice", esses quadros como estão dispostos...devem ser diplomas de advogado. Tradicional na arrumação.” (referindo-se à F11)

Análise dos resultados

Segundo Machado, percebemos somente aquilo que nossa mente seleciona através da atribuição de significados. A percepção é, então, “altamente seletiva, exploratória, antecipadora” (8). Nesta pesquisa foram identificados 6 itens, selecionados pelos entrevistados, que carregam os códigos simbólicos compartilhados entre diferentes pessoas para reconhecer e diferenciar um escritório de advocacia: existência de livros, apelo à privacidade, existência de cadeiras para “clientes”, ambiente tradicional, revestimentos em madeira e ambiente organizado.

Analisando os elementos citados, buscamos entender não somente os significados a eles atribuídos mas, também as próprias expectativas dos informantes no que diz respeito à figura do advogado construída em seu imaginário.

a) Organização e simetria

Vemos que, nas três figuras selecionadas como sendo correspondentes à imagem que os informantes têm de um escritório de advocacia, foram sublimados os aspectos de organização e de simetria na disposição dos elementos. A balança, usada como símbolo da advocacia e associada à própria personificação da justiça (uma figura feminina, segurando uma balança e tendo os olhos vendados para não ser influenciada pelos aspectos visuais dos fatos que serão pesados na balança) constitui-se num arquétipo que se remete à noção de equilíbrio (9). Simetria e organização estão, portanto, numa coerência de valores com essa imagem.

Por sua vez, Lévi-Strauss (10), ao descrever a morfologia das aldeias Bororó, ressalta a simetria como característica essencial para representar a hierarquia das essências sociais e cósmicas. Segundo o autor, a simetria é usada naquelas tribos como imagem que simboliza os poderes ordenadores da sociedade indígena, colocando-a em direto alinhamento com os poderes benéficos.

Esta análise da morfologia espacial nos parece, portanto, de acordo com a idéia de que um advogado seria alguém metódico, equilibrado e justo; capaz de ordenar os fatos por hierarquias de valores.

b) O uso da madeira

Em relação aos revestimentos em madeira, material considerado "nobre", Baudrillard (11) aponta que “...a nobreza hereditária da matéria existe somente por uma ideologia cultural análoga à do mito aristocrático na hierarquia humana”, ou seja, a leitura que é feita do material acaba se aplicando, por ideologia cultural, à pessoa que o detêm. É a ligação da qualidade subjetiva à qualidade física do material.

Por sua vez, Jung (12) sugere que a aproximação etimológica (em alemão) de "madeira" , "trabalho" e "ato sexual" (a partir de vênus) não é um acaso e representaria uma simbologia que atrela os três significados.

Portanto, a madeira traz a idéia de calor e aconchego (pense-se, ao contrário, na sensação de uma parede revestida com mármore). A partir destas considerações, podemos ser levados a imaginar que os nossos informantes acreditam que a advocacia representa uma profissão nobre, mas que não é estática e que depende das relações humanas e da comunicação entre diversos setores da sociedade, servindo, muitas vezes , como mediador entre eles.

c) A existência de livros

A existência do item “livros” traz consigo um simbolismo de conhecimento e cultura. Ainda que o advogado não tenha lido os livros exibidos no seu escritório, a simples existência deles transmite ou sugere o conhecimento que ele, profissional, adquiriu.

Não há a necessidade da veracidade da informação ou do material, mas somente o seu signo cultural, somente o seu valor de ambiência (13). Assim, é a detenção do saber e, mais ainda, a possibilidade de ter o saber em suas mãos quando lhe convier, que faz ressonar a imagem de livros na mente do observador.

d) Visão alta e cadeiras com espaldar alto

Dois comentários recorrentes nos chamaram atenção em relação às respostas de nossos informantes. O primeiro referia-se à vista que se poderia ter de uma janela situada em um andar alto e a segunda remetia-se à cadeira com espaldar alto. Pode parecer que ambas as observações não têm conexão entre si mas, na verdade, ambas referem-se à simbologia do poder.

Segundo Durand (14) "elevação e poder são, de fato, sinônimos”. Assim, aquele que ocupa uma cadeira com o mais alto espaldar está em posição de superioridade em relação àquele que ocupa a cadeira baixa.

Da mesma forma, a visão de uma janela alta faz com que se sinta a sensação de dominação daquilo que está abaixo. Assim, um escritório situado num andar alto, com uma vista panorâmica do entorno, será percebido como um local no qual se domina, se gerencia com poder.

O fato dos informantes terem ressaltado a altura (do espaldar e da vista da janela) como características inerentes a um escritório de advocacia é sintomático. Essa situação revela que a profissão de advogado o aproxima, no imaginário das pessoas, de um certo poder, de uma capacidade de alterar a ordem dos fatos se julgá-los corretos ou incorretos. Isso, como veremos mais adiante, nem sempre é apontado como uma qualidade positiva.

e) Ausência de cores e “ambientes tradicionais” versus cores e “ambientes despojados”

Analisando os dados do Gráfico 3 (sobre os elementos que não fazem parte da imagem de um escritório de advocacia), pode-se perceber que a presença de cores no ambiente é a característica mais marcante para o ambiente não ser considerado um escritório de advogado. Nas palavras de Baudrillard: “O mundo das cores opõe-se ao dos valores e o elegante é ainda o esmaecimento das aparências em benefício do ser: negro, branco, cinzento, grau zero da cor – é também o paradigma da dignidade, recalque e do standing moral” (15).

À luz das palavras de Baudrillard, compreendemos que, culturalmente (o autor refere-se aqui à cultura ocidental), a cor forte seria a negação de tudo aquilo que nossos informantes esperam de um advogado, uma vez que a imagem deste profissional seria, realmente, a de uma pessoa que transmita dignidade e elegância.

No entanto, Baudrillard, quando se refere acima no "grau zero da cor", inclui o branco, o que tornaria um ambiente claro. Assim, pensamos que não apenas a ausência de cores " berrantes" seja relacionável com um ambiente de advocacia, mas também o fato de ali predominarem os tons mais escuros.

De fato, quando pensamos que um ambiente despojado também foi considerado um item não-característico de um escritório de advocacia, e quando, ainda, verificamos que o aspecto tradicional do ambiente foi citado pela imensa maioria de nossos informantes, somos levados a concluir que as cores "abertas" e "claras" (aí incluindo o branco) estão para um ambiente "despojado" assim como as cores "fechadas" ou escuras para um ambiente tradicional.

Neste mesmo sentido, verificamos que algumas figuras com ambientes revestidos com madeira não foram selecionados como representativos de escritórios de advocacia por serem madeiras de tons mais claros (pinus, pau marfim, etc). Assim, é interessante constatar que, como veremos mais abaixo, os tons claros se remetem muito mais às cores que se afastam da idéia de reclusão e de sigilo muitas vezes almejada por clientes que consultam advogados. Seria então o tom escuro que estaria ligado ao sigilo, à privacidade?

f) Luz versus privacidade

De fato, em relação ao item “muita luminosidade”, também considerado como não-característico de um escritório de advocacia, pôde ser percebido que não se trata exatamente da presença da luz, mas da relação entre luz e lugares abertos, por oposição a lugares fechados e privativos, considerados característicos de um escritório de advogado. Segundo Hall (16), ambientes com pouca iluminação fazem com que as pessoas aproximem-se umas das outras e assim tenham mais privacidade, elemento considerado importante num escritório de advocacia.

Por outro lado, ouvimos, por parte de alguns de nossos informantes, que existe uma outra característica muitas vezes atribuída aos advogados: foi o que chamaram de "maracutaia" (sic.). De fato, 30% de nossos informantes alegaram que, pela proximidade do poder e pelo conhecimento dos caminhos que traça a justiça, segundo eles "nem sempre justa", poderia existir, na profissão, alguns indivíduos nem sempre tão "nobres" e nem sempre tão "leais às causas de uma justiça realmente cega". Nesse sentido, apontavam a "sobriedade" e a "penumbra" das salas como indícios destas atividades escusas. De fato, trata-se de mais um simbolismo que pode ser atribuído aos espaços com menor iluminação, pois, como diz Bachelard (17) a pouca luminância remete ao arquétipo de gruta, caverna, que, por sua vez, permite o aprofundamento no inconsciente: "a penumbra é cavidade arquetípica, mundo fechado no qual trabalha a matéria mesma dos crepúsculos locus de pensamentos escusos".

Considerações finais

Partindo da idéia de que o valor pessoal confere significado ao espaço, definido por Rapoport (18), talvez possamos dizer que o inverso pode acontecer num escritório de advocacia ou em outros tipos de espaço, ou seja, os valores associados aos elementos que compõem o espaço emprestam significado a quem o ocupa. O conceito simbólico gerado pelos elementos do ambiente se estende, ou pelo menos influencia, a imagem de quem utiliza o espaço.

Assim, a relação cultural que tais elementos têm com tradição, conhecimento, ciência, ordem e respeitabilidade, seriedade, a partir dos conceitos de Baudrillard, pode estar associada ao perfil profissional de um advogado bem qualificado, como se no imaginário das pessoas esses elementos e um ótimo advogado fossem expressões diferentes para o mesmo conjunto de conceitos. E o fato do escritório de um advogado apresentar o maior número desses elementos marcantes para a construção desse imaginário faz com que mais esse escritório “pareça” de advocacia. E talvez os advogados busquem ir ao encontro desse imaginário não para satisfazer essa expectativa, mas para promoção e valorização de sua imagem profissional, também numa gradação de quanto mais próximos desse modelo cultural mais seu conceito profissional com as pessoas se aproxima do ideal.

Assim, através do estudo do imaginário associado ao escritório de advocacia pudemos perceber que o espaço possui seus próprios valores e significados culturalmente reconhecidos pelas pessoas que compartilham os mesmos códigos simbólicos e esses conceitos se estendem aos outros tipos de espaço.

Vimos que a percepção do espaço passa pela interpretação da imagem simbólica dos elementos que o compõem. Como profissional produtor de espaços, o arquiteto projeta para as pessoas que utilizarão esses espaços, influenciando diretamente na percepção que seus usuários terão de seu trabalho.

Homem e ambiente convivem num processo de interdependência mútua, criando uma ligação íntima entre os processos psicológicos de percepção do espaço e os processos de criação desse espaço. Ainda, a maneira pela qual o homem modifica o ambiente e se deixa modificar por ele é hoje um tema de muita relevância, pois os espaços são expressões culturais do homem (19) ao mesmo tempo em que são suportes espaciais para a construção de sua identidade. Assim, parece-nos de extrema importância que o arquiteto compreenda como os elementos simbólicos participantes do espaço têm influência no que as pessoas percebem dele.

* * *

Post scriptum – Apenas como curiosidade, sem que isto tenha qualquer influência nos resultados do trabalho, informamos que a única figura que efetivamente foi baseada em fotografia de um real escritório de advocacia é a F13.

notas

1
Uma versão ampliada deste texto foi apresentada oralmente, no Colóquio Bernard Salignon, promovido pela UFPE, em Recife, em 2003.

2
DEL RIO, Vicente. “Cidade da mente, cidade real: percepção ambiental e revitalização na área portuária do RJ. In: DEL RIO, Vicente; OLIVEIRA, L. (org). Percepção ambiental. São Paulo e São Carlos, Studio Nobel / Editora da UFSCar, 1996, p. 3-22 (p. 3).

3
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. 3ª ed. São Paulo, Perspectiva, 1997, p. 11.

4
RAPOPORT, Amos. Human aspects of urban form. Oxford, Pergamon, 1977.

5
SPRADLEY, James P. Participant observation. New York, Holt, Rinehart and Winston, 1980, p. 3.

6
apud HALL, Edward T. A dimensão oculta. 2ª ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1977.

7
SPRADLEY, James P. Op. cit.

8
MACHADO, Lucy. “O estudo da paisagem: uma abordagem perceptiva”. Revista de Geografia e Ensino, UFMG, Belo Horizonte, 1988, p. 37-45 (p. 44).

9
DURAND, Yves. Le test archétipal des neuf élements. Bruxelles, Cahiers de Symbolisme n. 4., 1963.

10
LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes tropiques. Paris, Plon, 1955.

11
BAUDRILLARD, Jean. Op.cit., p. 45.

12
JUNG, Carl Gustav. Métamorphoses et symboles de la libido. Paris, Montaigne, 1932, p.145.

13
BAUDRILLARD, Jean. Op.cit.

14
DURAND, Gilbert. Les stuctures anthropologiques de l´imaginaire. Paris, Dunod, 1992 (1ª ed., Bordas, 1969), p.151.

15
BAUDRILLARD, Jean. Op.cit., p. 38 (grifo nosso).

16
HALL, Edward T. Op. cit.

17
Apud DURAND, Gilbert. Op. cit., p. 276.

18
RAPOPORT, Amos. Op. cit.

19
RAPOPORT, Amos. Pour une anthropologie de la maison. Paris, Dunod, 1972.

sobre os autores

Cristiane Rose Duarte é Arquiteta, Doutora pela Université de Paris-I -Sorbonne; Professora Titular da FAU/UFRJ

Alice Brasileiro é Arquiteta, Professora Assistente da FAU/UFRJ, Mestre e doutoranda do PROARQ/FAU/UFRJ

Ana Paula Simões é Arquiteta e Mestre pelo PROARQ/FAU/UFRJ

Viviane Cunha é Arquiteta, Mestre e doutoranda do PROARQ/FAU/UFRJ.

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