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architexts ISSN 1809-6298


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A partir do conceito derridiano “entre”, o autor faz uma leitura da marquise do Parque do Ibirapuera, projeto de Oscar Niemeyer, com aproximadamente 600 metros de extensão, que interliga o conjunto de edifícios do parque


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GUATELLI, Igor. A marquise do Parque Ibirapuera e manifestação do conceito derridiano “entre”: arquitetura como suporte de ações. Arquitextos, São Paulo, ano 06, n. 070.05, Vitruvius, mar. 2006 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.070/371>.

Grande laje, projeto do renomado arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, com aproximadamente 600 metros de extensão, que interliga o conjunto de edifícios formado pelo Palácio das Industrias, hoje o edifício da Bienal, o pavilhão de exposições Governador Lucas Nogueira Garcez, conhecido como “Oca”, os Palácios das Nações e dos Estados, o Museu de Arte Moderna (não previsto no projeto original), e, apenas muito recentemente, apesar de previsto no projeto original, um grande auditório, o espaço criado sob essa marquise é um imenso vazio entre edificações cujos conteúdos, funções, pré-estabelecidos determinam, sugerem, condicionam usos, significados e sentidos. Apesar de ter sido pensada como uma grande cobertura para as pessoas que circulam de um prédio ao outro, esse espaço, entretanto, não é meramente um complemento desses outros espaços circundantes, pois o funcionamento desses dá-se de forma completamente independente de sua existência ou não.

Presença e ausência, intertextual, pois opera entre diversos “textos” definidos, traço, pois desprovido, ou liberto, de qualquer intenção inicial ou orientação quanto aos usos e funções possíveis, quanto aos referenciais semânticos ou predicações, e, ao mesmo tempo, elemento estruturador e desestruturante, pois, respectivamente, articulador (definição de um percurso) e ambíguo e emancipador – pois transita entre ser um elemento constituinte de um parque ou parte constituinte do conjunto arquitetônico edificado – esse espaço é capaz de potencializar ações e acontecimentos inesperados – “A ausência é a alma da pergunta”, diz Jacques Derrida (1) – por vezes, sem qualquer relação com os usos “dominantes” das edificações ao redor.

Portanto, também um excesso, pois “desnecessário” (2), se considerado à luz dos pressupostos e lógica funcionalistas, essa “presença” (essencial – dentro da obra ?), a marquise, de pura ausência – o espaço originado – ao mesmo tempo em que depende e se justifica pela presença das demais construções, é capaz de, em momentos, transcender sua condição de vazio ao registrar e abrigar essas ações criativas, esses “eventos”, transformando-se, assim, em um espaço suplementar não só no conjunto edificado do qual faz parte, mas do parque, ampliando sua condição previamente determinada de mera infra-estrutura e de mero suporte ao “bom” funcionamento do conjunto edificado, mas, também de, no momento seguinte, regressar à sua condição de traço, de um vazio veiculador de intensidades e à espera de outros registros, ações.

Assim, à luz dos conceitos de liberdade positiva e liberdade negativa propostos por Isaiah Berlim (3), poderíamos argumentar que, em função do verificado nesse espaço apresentado, particularmente a Marquise, para que surja uma ação emancipadora nos espaços propostos pela arquitetura do edifício talvez não seja o suficiente apenas livrarmos esses espaços de certos condicionamentos quanto aos usos propostos, tratando-os geralmente como “espaços-livres”, mas de concebê-los como espaços que possam ir além da representação ou condição de complementaridade ou parte constituinte e concatenada de um todo – suficiente para sugerir ou induzir um uso e ocupação – levando-os a uma condição de espaço disjuntivo, quase autônomos, sendo o “excesso”, em alguns casos, uma estratégia viabilizadora da condição entre em arquitetura.

Cabe frisar não se tratar, porém, de uma defesa do excesso pelo excesso, ou de uma arquitetura apenas de entres, de sobras ou interstícios, pois esses apenas justificam-se, viabilizam-se ou constituem-se se em relação a algo coerentemente e “precisamente” definido e determinado; do contrário, não haveria razão alguma em se falar de excessos, excessos em relação a que, entre em relação a quê?

Sentidos e significados são sugeridos, organizações e configurações espaciais adequadas às destinações exigidas estão presentes e garantem o funcionamento do conjunto, porém, dialogando e, por vezes, conflitando com o indefinido, com o seu contrário, com aquilo que pode estar aquém e além, não só de sua própria situação inicial pretendida no ato da projetação, como do conjunto todo.

Como nas escrituras de Derrida, em que defende uma quase ausência do escritor, um abandono da necessidade de significar a palavra como forma de dar passagem e, assim, enriquecimento da própria palavra, da palavra emancipada, do porvir, dos múltiplos e não previstos significados, o que vemos nessas obras é, em alguns momentos, uma quase ausência do arquiteto, principalmente se considerarmos o papel tradicional deste em um projeto, ou seja, solucionador de conflitos e problemas, organizador, planejador, definidor ou propositor de caminhos e sentidos.

Ausências capazes de produzirem presenças, esses espaços do entre, espaços infra-estruturais, não apontam caminhos, não condicionam ou definem usos, mas, ao contrário, funcionam “apenas” como um suporte, potencializando, sem garantias, a abertura e acolhimento de caminhos, de usos e ações imprevistas (4).

Derrida, como já mencionado, em seus textos, opera a partir, poderíamos dizer, de um apagamento do sentido, das estruturas vigentes e visíveis, do discurso acabado e concatenado e hierarquizado (o que implica em uma ausência de centro ou de origem), das representações e significados apriorísticos, objetivando, justamente, um movimento de significações, ou seja, a produção de significações não previstas, ou, em uma leitura possível, uma estratégia que visaria, dentre outras coisas, uma multiplicidade de significações. Teríamos, assim, uma situação onde a subtração de pré-significações, de sentidos, a ausência de um centro, de uma origem, torna-se importante para uma adição de outros sentidos, de outras significações, o que o próprio Derrida denomina movimento de suplementaridade (5).

Em arquitetura, por sua própria natureza, ou seja, construção, ou seja, permanência, diferentemente dos textos de Derrida, não poderíamos falar em apenas ausências ou entres puros. Mas, certamente, o que essas obras nos mostram é que, em determinadas circunstâncias, a subtração ou enfraquecimento dos significados e destinações prévios, sobretudo quanto aos usos, mostra-se importante na produção de um movimento de significações e, até, de novos espaços, através de suas constantes re-significações.

Subtração, enfraquecimento, diminuição, neutralização dos sentidos, mas que também poderia ser entendido como uma condição, inicialmente, de emancipação em relação a um texto pré-estabelecido, a uma sintaxe reguladora de formas e funções ou a um encadeamento “lógico” dos espaços segundo parâmetros funcionalistas pré-estabelecidos, para, em seguida, tornar-se inspiração, inspiração capaz de traduzir-se em uma atividade “libertadora”, em liberdade de escolha, pois lida com a possibilidade de uma ruptura com o enunciado e o previamente anunciado para aquele espaço. Nesse momento, caberia uma indagação: não seria justamente um enfraquecimento, uma neutralização das pré-determinações que permitiria uma intensificação da troca?

Não se trata, porém, como já afirmamos anteriormente, de suprimir a articulação entre espaços, ou mesmo da defesa de uma completa desfuncionalização da linguagem arquitetônica, mas de liberar a arquitetura, em determinados momentos dessas pré-condições “enrijecedoras”, condicionadoras e organizadoras do movimento e da mobilidade. Conceitualmente, a Marquise do Parque Ibirapuera poderia ser entendida como uma possibilidade dessa outra maneira do fazer arquitetônico, do por vir em arquitetura, ou seja, uma arquitetura baseada não em um fortalecimento do objeto “monumental” e paradigmático, mas uma arquitetura do subjeto, sub-objeto, subjétil (6), suporte.

notas

1
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença, São Paulo, Perspectiva, 1995, p. 59.

2
Suplemento – fora da obra? Cf. DERRIDA, Jacques. La verdad en pintura. Barcelona, Paidós, 2001.

3
BERLIM, Isaiah. Estudos sobre a humanidade – uma antologia de ensaios. São Paulo, Companhia das Letras, 2002. Segundo o filósofo e historiador Isaiah Berlim, há dois conceitos de liberdade, o que denomina de liberdade negativa e liberdade positiva. De forma muito sucinta, para ele, liberdade negativa seria a ausência de interferência, livrar-se de alguma coisa, dos impedimentos, sobretudo quanto às possibilidades de escolha, ou daquilo que restringe, em suma, uma tentativa por libertar-se de qualquer interferência externa. De maneira contrastante, o sentido de liberdade positiva estaria atrelado não mais à noção de libertação de alguma coisa, mas libertação para agir ou pensar. Segundo Berlim:

“[o] sentido positivo da palavra liberdade provém do desejo que o indivíduo nutre de ser seu próprio senhor. Desejo que minha e minhas decisões dependam de mim mesmo, e não de forças externas de qualquer tipo. Desejo ser o instrumento de meus próprios atos de vontade, e não dos de outros homens. Desejo ser um sujeito, e não um objeto [...] ser um agente — decidindo, e não deixando que outros decidam — guiado por mim mesmo e não influenciado pela natureza externa ou por outros homens [...] Acima de tudo desejo ser consciente de mim mesmo como alguém que age, tem vontade e pensa, responsável por minhas escolhas e capaz de explicá-las a partir de minhas idéias e meus propósitos” (p. 237).

Para Berlim, essas seriam duas maneiras distintas de se alcançar a independência: a primeira, através, primordialmente, da abnegação, a segunda, por meio da auto-realização. Posto isso, torna-se interessante passarmos a analisar, por esse prisma, essa aparente “fragilidade” e/ou “incoerência”, quer seja quanto aos usos pré-determinados ou quanto às correspondências entre dimensões propostas e usos previstos para um espaço.

4
Cf. DERRIDA, Jacques. Khôra. Paris, Éditions Galillée, 1993.

5
Cf. DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo, Perspectiva, 1973.

6
Do francês subjectile. Cf. DERRIDA, Jacques; BERGSTEIN, Lena. Enlouquecer o subjétil.(Forcener le subjectile) São Paulo, UNESP, 1998.

referências bibliográficas

FOUCAULT, Michel. “Of other spaces”. In: Diacratics 16 1, springs. Paris, [s.n.], 1986.

SOLA MORALES, Ignási. Territorios. Barcelona, Gustavo Gilli, 2002.

TSCHUMI, Bernard. Architecture and Disjunction. Cambridge, The MIT Press, 1996.

__________. Event Cities. Cambridge, The MIT Press, 1994.

__________. Event Cities 2. Cambridge, The MIT Press, 2000.

sobre  autor

Igor Guatelli é arquiteto e mestre pela FAUUSP (“O discurso da Desconstrução em Arquitetura: 1960 ou 1990?”) e Doutor pela FFLCH-USP com a tese “O(s) lugar(es) do entre na arquitetura contemporânea – arquitetura e pós-estruturalismo francês”. Professor das universidades Mackenzie e UNIP além de professor convidado da UNICAMP.

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