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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Vinicius de Moraes Netto analisa os efeitos que os objetos arquitetônicos e suas diferentes configurações acarretam – impactos sociais, econômicos e ambientais


how to quote

NETTO, Vinicius M.. O efeito da arquitetura:. Impactos sociais, econômicos e ambientais de diferentes configurações de quarteirão. Arquitextos, São Paulo, ano 07, n. 079.07, Vitruvius, dez. 2006 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.079/290>.

É lugar comum a idéia de que coisas que existem, que sejam produzidas ou que venham a acontecer têm ‘efeitos’ – isto é, têm repercussões sobre nós mesmos e sobre outras coisas que existam, ou que virão a existir. Esse é na verdade o fato central por traz das ‘relações’ entre coisas, o fato de que as coisas afetam umas as outras, de que há uma realidade interligada – algo que está por trás da maneira como entendemos o mundo em volta, as conexões entre eventos ou objetos, e que está por trás da própria possibilidade de ‘conhecer’ as coisas e nossa realidade. Que a arquitetura como objeto construído é um fenômeno capaz de produzir efeitos é um tema ainda pouco discutido – muito menos discutido do que deveria ser – sobretudo em nosso Estado, onde percebemos reduções dramáticas na possibilidade de variedade de formas de nossas edificações, e a afirmação de tipos arquitetônicos aparentemente imposta pelo mercado da construção civil. Exatamente essas tipologias (e seus ‘efeitos’) que o presente texto pretende analisar.

Não que a possibilidade da arquitetura gerar efeitos seja algo estranho à arquiteta e ao arquiteto; na verdade observações e preocupações sobre certos efeitos da edificação são recorrentes na mente dos profissionais mais atentos, tanto no mercado quanto aqueles envolvidos no ensino e na pesquisa em arquitetura.

Que efeitos serão esses? Refiro-me aos efeitos do objeto arquitetônico – aos impactos que o edifício construído gera, independentemente daqueles efeitos desejados pelo arquiteto. Muitos desses impactos do edifício são sequer conhecidos pelo arquiteto, e eventualmente até mesmo não desejados (por exemplo, o projeto de conjuntos habitacionais, como o famoso Pruit Igoe nos Estados Unidos, rejeitados pelos moradores). Porém, efeitos ocorrem sobre algo – mas que algo é esse? O que está sujeito ao edifício produzido? Em geral os efeitos da arquitetura são vistos como o seu impacto sobre nossa percepção visual: a arquitetura ou o edifício é capaz de alterar nossa percepção, ter um efeito positivo, negativo, neutro, agradável, desagradável, belo, feio, estranho e assim por diante. Esses efeitos são na verdade evocados na nossa prática – e consistem de efeitos psicológicos sobre o humano. A arquitetura afeta o sujeito, afeta sua leitura do ambiente, gera ambientes com ‘ruído’ menor ou maior. Vários termos e conceitos foram produzidos para endereçar esses efeitos e, portanto, esse papel da arquitetura: harmonia, composição, equilíbrio, ordem, desequilíbrio; mesmo conceitos peculiares como o de ‘sublime’, o aterrador, o caótico etc.; assim como temos teorias e campos de pesquisa que apareceram para explicar esses efeitos, como a gestalt, as teorias semióticas em arquitetura, a idéia de ‘estética’ que vem dos gregos, e mesmo a idéia de uma ‘psicologia em arquitetura’ (e não tenhamos medo de admitir que para entender os efeitos da arquitetura sobre as pessoas, arquitetos tem emprestado termos e estudos de outras áreas como a psicologia ou a semiologia). Estranhamente, nossa noção sobre os efeitos da arquitetura tem se restringido a esses termos e a essa natureza estética e psicológica, amarradas necessariamente ao aspecto visual da arquitetura. Há um conjunto de razões para essa ênfase usual, e aqui não poderei discutir sequer parte delas. Deixem-me apenas reduzir essa discussão e colocar que temos nos concentrado na arquitetura como fenômeno visual, perceptivo, e que o sujeito dessa ênfase, isto é, o que no ser humano poderia se relacionar a essa ênfase é o sujeito estético, que se resume ao sentido da visão e a sua psique. Essas dimensões humanas e sua relação com a arquitetura são naturalmente importantes, e muito. Mas eu gostaria de argumentar aqui que tanto essa visão da pessoa (ou o que na pessoa) é afetada pela arquitetura, e esse entendimento da arquitetura como fenômeno puramente visual é completamente insuficiente. Na verdade, temos tido cada vez mais conhecimentos (vindos sobretudo de outras áreas) que nos permitem dizer que essas visões são cada vez mais insuficientes.

Mas que outros efeitos a arquitetura poderia ter? Alguns poderiam argumentar, com razão, que a arquitetura, como objeto produzido para atender as necessidades humanas, para abrigar as nossas atividades, pode falhar ou ser bem-sucedida nesse sentido: ela pode atuar ‘ao lado’ das nossas atividades, ou atrapalhá-las – elas podem, termo usual em arquitetura, ‘funcionar’ bem ou mal. Aqui, temos a visão de que a estrutura interna do edifício pode contribuir ou não no desenrolar de uma atividade, de uma seqüência de práticas. Esse efeito começa a se aproximar do que eu gostaria de endereçar aqui: o de que a arquitetura importa, isto é, tem efeitos sobre o que fazemos, e como interagimos no espaço– e esse é um efeito na verdade bastante importante – talvez o mais importante de todos. Ainda que central, permitam-me deixar as considerações sobre a estrutura dos espaços internos da arquitetura e sua relação com a atividade que ela abriga (isto é, a configuração das plantas e seu efeito sobre nossas práticas dentro do edifício) para um outro espaço. Deixe-me enfatizar os usos do edifício, mas de forma mais genérica, sem tocar na configuração interna, para concentrar-me nos diferentes tipos arquitetônicos. Seriam todos os edifícios iguais, ou se aproximariam enquanto forma, enquanto implantação no lote, no quarteirão, na cidade? Certamente não. De fato, parece haver grande diversidade de formas, que podemos atestar diariamente na nossa experiência urbana. Essa grande diversidade, contudo, por necessidade cognitiva ou por semelhança de fato, parece ser passível de agrupamento em ‘léxicos’, em gramáticas mais recorrentes, em características que aproximam mais certos objetos que outros. Esses ‘tipos’, guardadas variantes culturais ou de análise, são agrupados em 3 modalidades: a do edifício ‘livre’, isento de ligações (como explorado sobretudo no modernismo em arquitetura, no séc.XX, e chamado em nossos planos diretores de ‘torre’); a dos edifícios ‘colados’ uns aos outros (‘alinhados nas divisas’, como coloca a terminologia de plano diretor); e por fim um terceiro tipo, híbrido, uma justaposição um tanto desengonçada desses dois tipos, o edifício ‘base-torre’, edifício com volume duplo, um basal horizontalizado, colado nas divisas, e um volume superior verticalizado, isento de contato com volumes laterais. Esses três esquemas de formas, definidas sobretudo pelo seu aspecto externo (isto é, o grau de alinhamento ou continuidade de suas fachadas), parecem representar grande parte das formas arquitetônicas produzidas em nossas cidades – algo contemplado e mesmo prescrito por planos diretores. Estes são, grosso modo, os três tipos diferentes de arquitetura reproduzidos em nossas cidades e em nossos ateliers de projeto.

Se a arquitetura como objeto construído tem efeitos, teriam tipos diferenciados os mesmos efeitos? Ou antes, poderiam coisas diferentes gerar os mesmos efeitos, ou gerariam efeitos diferentes? É possível suspender essa relação entre natureza de um objeto, e a particularidade de seu impacto? Se coisas diferentes geram efeitos diferentes como nossa experiência das coisas parece confirmar, seria razoável dizer que esses tipos poderiam ter efeitos diferentes. Por exemplo, voltando à bem-conhecida dimensão estética, um conjunto de edifícios alinhados teria um efeito estético, uma percepção diferente de um conjunto de edifícios ‘soltos’, com alturas variadas, um conjunto fragmentado.

Determinismo arquitetônico?

Esse argumento faz sentido sobretudo contra a idéia de ‘determinismo arquitetônico’, ou a existência de relações absolutas de causa-efeito, ou de causalidade entre uma forma e seu resultado funcional ou social. Pessoas que argumentam contra o determinismo em arquitetura têm uma posição em princípio cuidadosa e inteligente. Contudo, esse cuidado não pode implicar na suspensão completa dos efeitos diferenciados que coisas diferenciadas têm. Do contrário teríamos um mundo onde coisas diferentes, ao terem suspensas as relações diferenciadas e particulares com seus efeitos, passariam: 1) A ter efeitos iguais. Elas perderiam seu sentido, e teríamos um mundo onde as diferenças não importariam, porque coisas diferentes teriam os mesmos resultados. Nossa experiência do mundo seria a de um mundo homogêneo, sem ‘elementos’, sem diferenciação interna. Entretanto, um mundo sem relações de causa-efeito, para desconforto dos ‘pós-estruturalistas’, seria impossível. 2) Ou a ter efeitos aleatórios – imprevisíveis. Aqui, a relação aleatória entre arquitetura e seus efeitos implica em suspender a própria possibilidade de uma relação entre forma e função, isto é, que uma forma pode ser mais apropriada que outra para a funcionalidade de uma atividade, pode ‘auxiliar’ mais ou menos a atividade. Se não pudéssemos de algum modo antecipar ao menos alguns dos efeitos de projeto (isto é, do edifício construído), perderíamos o sentido como profissionais – seríamos desnecessários. O próprio papel social do arquiteto surge em função da consciência de uma certa causalidade, uma ‘causalidade parcial’ entre projeto, edifício e seus efeitos, devidamente entendida e controlada pelo arquiteto. Mesmo esteticamente, dimensão freqüentemente taxada como ‘subjetiva’, existem relações de causalidade: certos arranjos de formas arquitetônicas sugerem certas formas de uso (como exemplo, fachadas com mais transparência se relacionarem a atividades mais públicas, como comércio). Do contrário, teríamos suspensa até mesmo a idéia de ‘caráter’ em arquitetura, ou de uma gestalt arquitetônica. Se essas formatações são mera definição cultural ou se a cultura apenas fixa os significados que podemos ler em certas formas, o fato é que nossa experiência termina por estabelecer, e ser baseada em certas causalidades entre arquitetura e seus efeitos.

Contudo, aprendendo com os cuidados do argumento anti-determinismo, devemos sim rejeitar a tese de implicações lineares, absolutas, diretas entre ‘a’ e ‘b’ – mesmo porque tudo o que existe, e a arquitetura incluída, tem relações e efeitos complexos, parcialmente imprevisíveis; estão presos em emaranhados os quais vemos apenas parte. Mas afinal qual é o nível de causalidade, de relação entre objeto arquitetônico e seu efeito sobre as pessoas? Onde ele se manifesta? Ou mais gravemente, onde essa relação não acontece? “O problema é: a arquitetura determina o quê? Como? E em que condições? Certamente não determina como os modernistas clássicos o pensavam. Mas talvez a tarefa central deva ser esta: mostrar a real dimensão da determinação arquitetônica” (2). Existe um nível de causalidade e ao mesmo tempo de indeterminação – a possibilidade de haver sempre outras faces para um mesmo fenômeno. Devemos aceitar tanto a existência das causalidades quanto a das complexidades do objeto, e entender sobretudo o primeiro grupo de efeitos, para que erremos menos e acertemos mais na passagem entre intenções de projeto, e os efeitos do objeto construído. “[O] problema tem sido como descrever tanto a ação do social sobre a forma do edifício, quanto a ação do edifício sobre a sociedade” (3). Advogando que o determinismo forma-função na verdade não existe, Hillier e seus colegas da University College London afirmam que o erro é assumir que edifícios pode agir mecanicamente sobre o comportamento das pessoas. “Como pode um objeto material como um edifício se impor diretamente sobre o comportamento humano?”. A idéia de um determinismo espacial “nos cega para o mais importante fato sobre o ambiente construído: que o espaço não é um pano de fundo para o comportamento social – ele é em si comportamento social. Antes de ser experienciado pelo sujeito, ele é na sua própria espacialidade carregado de padrões que refletem a sua origem nos comportamentos que o criou” (4). “Hillier resolve esse mistério com a hipótese de que a relação entre forma e função passa, em todos os níveis do ambiente construído, da residência à cidade, pela variável da configuração espacial” (5). O espaço arquitetônico (e sua continuidade com a rua e outros edifícios) consiste de uma estrutura de partes, de ‘vazios’ que ocupamos, definidos por paredes e formas construídas. As relações e seqüências desses espaços tornam-se fundamentais na nossa apropriação do espaço. Elas têm o efeito de distribuir o movimento dos nossos corpos no espaço. Além disso, espaços são produzidos, inconscientemente (e em casos felizes, assim definidos em projeto) para reproduzir padrões de movimento e co-presença das pessoas dentre desses espaços – de acordo com formas variáveis de organização e relação sociais (6). A determinação arquitetônica de que falo é, portanto, restrita a sua influência sobre níveis de movimento das pessoas e padrão de uso do espaço, além da distribuição de atividades e de densidades no espaço da cidade – ambos demonstrado em pesquisas sistemáticas em arquitetura e urbanismo (da sintaxe espacial à economia urbana).

Se admitirmos que tipos arquitetônicos geram percepções diferenciadas, que outros efeitos diferentes esses tipos teriam? Eu gostaria de argumentar que esses efeitos se relacionam àqueles aspectos de funcionalidade ou uso que mencionei acima – efeitos que tem a ver com a forma e o uso de nossos edifícios-tipo. Investiguemos essa possibilidade. Sob o ponto de vista de uso, a diversidade de atividades a ser abrigada sob forma de arquitetura é comprovadamente positiva. É ponto comum aceitar que a proximidade de serviços diversos é algo bom para as pessoas, que têm, sem grandes deslocamentos, a chance de encontrar e satisfazer seus interesses e rotinas, desde trabalho, moradia, consumo até lazer e ócio. Na verdade, muitos arquitetos, economistas e geógrafos afirmam que é exatamente essa a razão para produzirmos os complexos arquitetônicos tão densos e estruturados que chamamos ‘cidades’ – a própria razão para a existência das cidades. Aqui, a presença de térreos comerciais nesses tipos arquitetônicos tem sido vital: sem térreos comerciais, não teríamos a chance de produzir esses usos e essa diversidade de atividades tão positiva, que é o próprio motor das cidades e das nossas trocas sociais, econômicas, políticas.

O efeito social da arquitetura

Freqüentemente, quando arquitetos alteram esse princípio fundamental (sobretudo no século XX), esse verdadeiro ‘gene’ espacial da vida social, da produção e da troca econômica, da difusão das idéias, correm o risco de cometer um grave erro. Ideologias, qualidades e dogmas arquitetônicos à parte, Brasília, nossa extraordinária capital, está aí para demonstrar isso. Brasília teve seu padrão de distribuição das localizações de atividades meticulosamente definido de acordo com princípios de ordem aparente das separações, das distinções entre zonas funcionais (divulgados sistematicamente na Carta de Atenas, de 1933 – uma ordem apenas aparente, já que a cidade auto-produzida é certamente dotada de ordem, de uma ordem muito menos óbvia, que vai além das geometria cartesiana dos paralelismos e ortogonalismos racionalistas, uma ordem contida nas estruturas internamente diversas e imprevisíveis dos padrões de localização de atividades e de densidade e forma arquitetônica). Nada provaria menos "prático"’, "eficiente" (se quisermos usar esse termo pragmático) ou mesmo "vivo" socialmente: alterar esse "gene" da vitalidade social, econômica, política, urbana enfim, implica em um tremendo aumento nas distâncias a serem percorridas pelas pessoas, e no tempo investido, se quisermos atender um número de atividades ou fazeres. Riqueza compositiva à parte, Brasília, ou melhor, a distribuição de suas atividades – diversificadas mas que não geram volume, densidade, intensidade e variedade gerada pela continuidade morfológica – se coloca o tempo todo contra, e não a favor, das pessoas em suas rotinas (7).

Na verdade, quase nada provaria menos prático. Outra questão, agora sob o ponto de vista da forma, também é fundamental: teríamos a mesma possibilidade de achar serviços e vivermos imersos nessa intensidade de trocas em qualquer configuração espacial, geométrica? Em qualquer padrão arquitetônico? Os estudos pioneiros de morfologia arquitetônico-urbana e configuração de quarteirão de Martin, March e seus colegas em Cambridge (8) mostram que não: eles de fato demonstram a eficiência superior dos quarteirões periféricos quanto à absorção de área construída (e também seu desempenho em habitabilidade – ao contrário do que acreditamos), em uma comparação entre as torres de Manhattan e uma cidade idealizada com edifícios periféricos (9).

Empiricamente, o caso de Brasília (10) uma vez mais nos permite atestar que, sobretudo quando comparado, um tipo particular gera efeitos particulares. Quarteirões rarefeitos, sem continuidade de fachadas, cujos edifícios apresentam grandes espaçamentos entre si ou recuos laterais (previstos em nossos planos diretores), terminam por reduzir consideravelmente a densidade dos quarteirões (cujos edifícios precisam então verticalizar-se para atingir densidade razoável) (11) reduzem o número de portas voltadas para o espaço público, e enfraquecem a relação fachada-rua que parece bem-vinda na animação do espaço público (12). Essas observações nos permitem entrar em uma dimensão quase normativa – em elementos potencialmente importantes na definição do projeto e das guias morfológicas dos Planos Diretores. A noção de urbanidade proposta por Holanda nos é útil nesse sentido, ao explicitar decisões de natureza arquitetônica que devem se consideradas tanto no ensino quanto na prática da arquitetura e do planejamento urbano:

  • minimizar espaços abertos em prol de ocupados;
  • menores unidades de espaço aberto (ruas, praças);
  • maior número de portas abrindo para lugares públicos;
  • minimizar espaços segregados (topologicamente, e não apenas perifericamente), guetizados (becos sem saída, condomínios fechados) e efeitos panópticos (pelos quais tudo se vê e se vigia) (13).

Proponho essas características como ativas em dimensões morfológicas mais amplas: elementos arquitetônicos que, a partir de observações empíricas e estudo científico, podem ser considerados como elementos da vitalidade de nossos espaços:

  • Configuração e implantação do edifício, buscando como qualidades:
  • a continuidade de fachadas;
  • densidade arquitetônica (não necessariamente através de altura);
  • pluralidade de usos dos edifícios, e da rua;
  • atividade comercial de térreo, quando há demanda e possibilidade.

Entretanto, os efeitos de diferentes tipos arquitetônicos não se encerram na intensidade de uso social e de trocas e eficiências de nossa micro-economia. Eles têm sérias relações também quanto a questões de poluição em nossas cidades; e o que parece ainda mais alarmante, para as relações (pouco discutidas) entre arquitetura e segurança pública.

Cidades onde tipos arquitetônicos com recuos laterais e térreos privados e gradeados são reproduzidos sem restrição tendem a ter mais dependência do automóvel. Isto é, a tipologia dos recuos, ao tornar quarteirões rarefeitos e com menos diversidade social e econômica (um padrão consagrado no mercado!), passa a induzir o uso do automóvel – simplesmente porque reduz a oferta de serviços e a variedade de atividades que precisamos em nosso dia-a-dia, tais como aquela que encontramos em certos bairros, quando em um raio de 5 minutos a pé encontramos serviços variados como restaurantes, padaria, locadora, e cyber-café – atividades de pequena escala que favorecem o pequeno empresário, a relação pessoalizada com os clientes, e uma idéia de vizinhança (que não tem nada de abstrata). O tipo dos recuos tende a reduzir o número de pedestres, porque ao limitar a quantidade de serviços disponíveis nos térreos e ao reduzir a apropriação pública desses espaços, induz a busca de serviços em localizações afastadas, impondo percursos mais longos às pessoas, mais adequados ao veículo privado ou coletivo. Ao induzir o uso do automóvel, essa configuração arquitetônica tem ainda o efeito de aumentar o volume de veículos nas ruas. E, portanto, tende a aumentar seus ‘efeitos colaterais’: congestionamentos, tempo de deslocamento, consumo de combustível, e poluição.

Arquitetura – e segurança pública?

Mas talvez o mais grave efeito ‘colateral’ (certamente o que mais tememos em nossas cidades, sem desconfiar que os projetos dos edifícios possam ter a ver com isso) seja o impacto desses tipos sobre a segurança e a ocorrência de crime em nossas ruas. A densidade arquitetônica e a presença abundante de térreos comerciais (algo que o mercado e a indústria da construção civil, sem saber das conseqüências, vêm eliminando) contribuem para intensidade de uso pedestre. Ora, temos cada vez mais estudos que demonstram a relação entre espaço e crime: pesquisas que apontam para uma importante dimensão urbana na oportunidade, na incidência, e na distribuição do crime (14). Novamente, o tipo dos recuos e térreos privados, quando reproduzida como ‘regra’, tende a ‘espantar’ o pedestre (por eliminar as razões para o movimento e ao reduzir as densidades e continuidades de térreo), e esvaziar nossas ruas. E exatamente aqui está o problema: o melhor meio de aumentar a segurança é manter as ruas com pedestres. Pedestres, ao utilizarem os espaços das ruas, aumentam a ‘vigilância mútua’ – isto é, um pedestre ‘vigia’ inconscientemente o outro, para sua própria segurança, e ao fazer isso aumenta o grau de controle sobre o espaço, o que beneficia a todos. De fato, pesquisas mostram que crimes violentos tendem a ocorrer longe dos olhos das pessoas. Aqui, o estranho não é o ‘inimigo’ como pensamos: ruas movimentadas são a melhor defesa contra o crime (15).

Observamos que a tipologia consagrada no plano diretor e no mercado da construção consiste de soluções arquitetônicas mais verticalizadas (implicando redução de custos relativos para o construtor, enquanto aumenta progressivamente o valor de venda das unidades em andares mais altos) e mais isoladas da rua (que oferecem uma idéia de segurança). Esse tipo consagrado nos anos 1990 em diante precisa dos recuos e térreos privados que, quando reproduzidos em conjuntos extensos, parecem gerar muitos dos efeitos nocivos listados acima. Comparemos por exemplo dois bairros de Porto Alegre, o bairro Bela Vista, de classes média e alta, caracterizado pelo alto grau de fragmentação arquitetônica e pouca continuidade de fachadas, com abundância de recuos laterais de altura e de térreos privados e cercados, cuja arquitetura é resultado da influência direta dos planos diretores mais recentes e dos "gostos de mercado", e o Bonfim, bairro denso e compacto, com alta quantidade de movimento pedestre, veicular, e diversidade de serviços oferecidos nos térreos. Ao passo que no Bela Vista vemos pedestres somente em certos pontos (como em torno de praças) e horas do dia (fim-de-tarde), com grande número de ruas desertas de pedestres mas abundantes de guaritas de segurança, o Bonfim consiste em um bairro altamente movimentado (tanto de pedestres quanto de veículos), um espaço onde moradores encontram-se com mais freqüência e convivem bem com o estranho (e lembremos que a presença abundante de "passantes" estranhos deixa as ruas mais seguras). Um bairro mais diverso socialmente, portanto propício para uma ‘urbanidade’ ou mesmo para a idéia de integração social, segurança e ‘cidadania’.

Vale notar que a tipologia dos edifícios com recuos, grades, guaritas e térreos privados só foi consagrada porque parece responder aos anseios de classes média e alta por mais segurança – mas que termina por gerar exatamente o efeito oposto.

Uma denúncia

Gostaria de fazer aqui uma importante denúncia: os tipos arquitetônicos que vêm sendo vendidos abundantemente hoje em nossas cidades oferecem apenas uma “ilusão de segurança”. Trata-se de uma segurança que só ocorre internamente, gerada pela separação do espaço exterior com o edifício recuado, com térreo privado cercado por grades e guarita. Esse rompimento com o espaço externo na verdade produz efeitos sobre a segurança das ruas em volta, ao renunciar a relação entre edifício e uso público de térreos, a relação franca entre o edifício e a rua – relações geradoras de movimento e segurança. O que é grave aqui é o fato de exatamente ao gerar segurança interna, se produz mais insegurança nas ruas e bairros onde esses tipos tornam-se ‘regra’. Seguros dentro de áreas privadas, a maioria de nós experimenta o medo e a tensão da chegada às residências, nas sinaleiras e esquinas próximas, e a tensão da espera enquanto se abre o portão de uma garagem. Mas presos na irracionalidade do medo ou na ilusão de segurança dos muros, não entendemos que a segurança interna assim engendrada é parte da causa da insegurança externa. Térreos com serviços (não necessariamente todos os térreos) tornam a rua mais movimentada, e mais seguras. A mesma análise pode ser feita sobre os condomínios fechados: produzem segurança interna, mas contribuem para esvaziar as ruas em torno, com seus muros cegos, sem atividades e portas, gerando insegurança na chegada em casa, nas ruas próximas ao condomínio, exatamente para as pessoas que buscam segurança vivendo internamente. Os tipos exibidos em folders nas sinaleiras e tornados o objeto do marketing e da publicidade que exploram exatamente o medo do crime, a necessidade de segurança, e de diferenciação e segregação social, terminam por aumentar os riscos de incidência de crime nos espaços públicos que tornam mais vazios.

Esses efeitos parecem ter, portanto, origem no tipo arquitetônico em si: no caso negativo, um tipo que torna nossos quarteirões mais ‘rarefeitos’, eliminando fachadas contínuas, públicas, com comércio e serviços (16). Mas qual a forma que o quarteirão deve ter? Qual a combinação e quantidade de tipos para gerar a intensidade de usos e de movimento nas ruas? Nem sempre alinhamentos laterais e junto ao passeio são coisas possíveis ou generalizáveis (17). Que outras soluções mistas ofereceriam os impactos sociais adequados? Esse é uma questão ainda difícil de responder – até mesmo porque não temos estudos sistemáticos sobre essas configurações. Pesquisas têm apontado que continuidade de fachadas e usos públicos de térreos com densidade e uma proporção suficiente de térreos contínuos, naturalmente diversificados de acordo com demanda e oferta de serviços, são fortes ingredientes para os resultados desejados. Quarteirões ‘híbridos’ por assim dizer (isto é, formado parte por edifícios colados parte recuados, com térreos cuja somente parte é pública) também oferecem a morfologia e uso adequado, quando ‘trabalhando’ com outros quarteirões densos assim.

Há sem dúvida uma tensão muito sutil aqui, e frágil: uma tensão socio-espacial onde a configuração dos tipos arquitetônicos agrupados em conjuntos gera uma intensidade variável de uso da rua, de uso pedestre. Essa tensão pode ser adequada, em áreas onde há densidade arquitetônica, continuidade de fachadas animadas e térreos de uso público em quantidades suficientes para ‘tensionar’ o movimento de pessoas e a presença de atratores para aumentar a possibilidade de interação (comunicativa, ou apenas perceptiva, a ‘atenção mútua’ do outro), a sensação de segurança e a segurança efetiva contra crimes violentos, além dos benefícios micro-econômicos das trocas facilitadas entre consumidor e serviço, da redução do tempo de deslocamento, assim como os efeitos ecologicamente necessários de redução da dependência do automóvel, de consumo de combustíveis não-renováveis, e de emissão de gases poluentes em nossas cidades.

Impactos da arquitetura

Para concluir, permitam-me listar certos efeitos que continuam ignorados em nossa prática de projeto – os efeitos diferenciados de tipos diferenciados, presentes quando reproduzidos extensamente em quarteirões e áreas da cidade – e que merecem estudo sistemático:

I. Intensidade de interação social e troca econômica (a ‘animação da rua’). Aqui, quatro fatores são centrais:

  • As atividades nos térreos (interface entre arquitetura e espaço público da rua);
  • A diversidade de atividades, quando há densidade e tipos adequados;
  • A densidade arquitetônica, função de padrões de crescimento e localização;
  • A continuidade de fachadas animadas, dependente da morfologia dos recuos laterais e frontais, e dos usos de térreo menos ou mais privados/públicos.

II. Praticidade na busca de atividades e eficiência no suprimento das demandas da população.

III. Tempo e custo de transporte veicular, nível de congestionamento, e consumo de combustíveis, em função da necessidade de busca de serviços (longe ou perto, veicular ou pedestre).

IV. Emissão de gases poluentes, em função da influência dos tipos arquitetônicos sobre o uso pedestre ou a indução ao uso do automóvel.

V. Segurança pública: quando diferentes tipos contribuem para gerar movimento pedestre e aumentar a co-vigilância nas ruas, ou para esvaziar a rua de pedestres ao induzir o uso do automóvel – aumentando riscos de crimes violentos.

Todos esses fatores – ou esses efeitos da arquitetura – voltam a repercutir, como causas, na nossa qualidade de vida. Eles não podem ser percebidos em casos isolados; somente quando parte de conjuntos. Assim como os danos de uma indústria poluente ao sistema ecológico só são percebidos ao longo do tempo, os tipos arquitetônicos que renunciam a interface com o espaço público da rua e o pedestre (aparentemente ‘inocentes’ e sem qualquer repercussão além da [ilusão de] segurança para seus moradores) também têm efeitos para toda uma população – ainda que não estejamos acostumados a pensar sobre isso. Precisamos assumir e estudar com seriedade o fato que diferentes tipos e densidades arquitetônicos têm impactos diferenciados, que vão desde os espaços movimentados, seguros, socialmente e economicamente apropriados até aqueles rarefeitos, segregados, e inseguros. Assim, avançaremos tanto em conhecimento quanto em domínio projetual do potencial da arquitetura para além do estético – entendendo a arquitetura como parte fundamental de nossas vidas.

notas

1
Agradeço ao Profs. Dr. Frederico de Holanda (UNB), Dr. Romulo Krafta (UFRGS) e Júlio Celso Vargas (UNIRITTER) pelos comentários em versões anteriores deste artigo, ao Prof. Fernando Duro (UNISINOS) por nossas discussões sobre determinismo arquitetônico e morfogênese. Imprecisões e equívocos são responsabilidade do autor.

2
HOLANDA, Frederico (em comunicação pessoal).

3
FORTY, Adrian. Words and Buildings: A Vocabulary of Modern Architecture. London, Thames&Hudson, 2000. Tradução pessoal.

4
HILLIER, Bill. Space is the Machine. Cambridge, University Press, 1996, respectivamente p. 378; p. 388. Tradução pessoal. Hillier fundou na University College London uma tradição de estudos morfológicos que competia, na sua origem nos anos 1970, com a clássica tradição em morfologia de Cambridge. Atualmente, sua pesquisa relaciona fundamentalmente a abordagem morfológica à dimensão social do espaço.

5
FORTY, Adrian. Op. cit.

6
HILLIER, B.; HANSON, J. The Social Logic of Space. Cambridge, University Press, 1984.

7
Veja estudos sobre a densidade arquitetônica de Brasília, e seus efeitos sobre a variedade de atividades e de pessoas utilizando espaços públicos. HOLANDA, Frederico (org). Arquitetura e urbanidade. Brasília, ProEditores, 2003.

8
Veja os estudos de morfologia de Cambridge (atualmente chamado The Martin Centre for Architectural and Urban Studies, Cambridge University), como MARCH, Lionel (Ed) The architecture of form. Cambridge, University Press, 1976; MARCH, Lionel; STEADMAN, Philip. The geometry of environment. Cambridge USA, MIT Press, 1971; MARTIN, Leslie “Architects’ approach to architecture” In RIBA Journal, May 1967; MARTIN, Leslie.; MARCH, Lionel (Eds) Urban space and structures. Cambridge, University Press, 1972. Veja também os trabalhos de STEADMAN, Philip. “How day-lighting constrains acccess”. In Proceedings of the Fourth International Space Syntax Symposium London, UCL Press, 2003 < www.spacesyntax.net/symposia/SSS4/fullpapers/05Steadmanpaper.pdf>; “Sketch for an archetypical building”. In Environment and Planning B – Planning and Design, 27, Anniversary Issue 92-105, 1998; e principalmente Architectural Morphology: An Introduction to the Geometry of Building Plans London, Pion 1983.

9
Veja um artigo recente, que retoma a tradição de Cambridge (UK) agora no M.I.T. (EUA), sobre o desempenho de configurações do edifício e do quarteirão quanto a habitabilidade, de RATTI, Carlo, RAYDAN; Dana; STEEMERS, Koen. “Building form and environmental performance: Archetypes, analysis and an arid climate”. In Energy and Buildings nº 35, 2003, p.49-59. <senseable.mit.edu/papers/pdf/RattiRaydanSteemers2003E&B.pdf>. A pesquisa do desempenho energético ganha crescente atenção, devido aos desafios de sustentabilidade em arquitetura – sob o nome de “sustainable architecture and building design”. As dimensões social e econômica do projeto arquitetônico ainda carecem de atenção.

10
Veja os diversos artigos em HOLANDA, Frederico. Op. cit.

11
VARGAS, Julio. “Densidade, paisagem urbana e vida da cidade: jogando um pouco de luz sobre o debate porto-alegrense”. Arquitextos nº 039, Texto especial nº 195. São Paulo, Portal Vitruvius, ago. 2003 < www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp195.asp>.

12
Obviamente nem todas as áreas de uma cidade poderiam oferecer o grau de densidade delineado acima; mas freqüentemente observamos que, mesmo em áreas predominantemente unifamiliares, mais distantes das centralidades de uma cidade, temos certa disponibilidade de serviços oferecidos na escala local, em função da natural relação urbana entre intensidade de demanda de serviços, e sua oferta.

13
HOLANDA, Frederico (org). Op. cit., p. 16.

14
Veja recentes estudos na correlação entre estruturas urbanas e a distribuição do crime por BATTY, Mike. “Crime and policing <www.casa.ucl.ac.uk/research/crime.htm>; e principalmente HILLIER, Bill; SAHBAZ, Ozlem. “High resolution analysis of crime patterns in urban street networks”. In Proceedings of the Fifth International Space Syntax Symposium, 2005 <www.spacesyntax.net/symposia>. Mike Batty e Bill Hillier são pesquisadores da University College London.

15
Diferentemente, crimes sem violência (como roubo de carteiras, etc.) tendem a ocorrem em ruas extremamente movimentadas. Cf. HILLIER, Bill; SAHBAZ, Ozlem. Op. cit..

16
Um estudo recente, não publicado, realizado na Bartlett School of Graduate Studies, University College London, aponta que mais densidade residencial em quarteirões, com maior número de portas para a rua, tem co-relação positiva, com menos incidência de crimes.

17
KRAFTA, Romulo (em comunicação pessoal).

sobre o autor

Vinicius Netto é Arquiteto, PhD (Advanced Architectural Studies, University College London), Mestre em Planejamento Urbano e Regional (UFRGS). Professor de morfologia arquitetônico-urbana (Unisinos). Membro da Comissão de Urbanismo do IAB-RS, e de grupos de pesquisa sobre formas de integração entre arquitetura e urbanismo, e as relações entre espaço e o social.

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