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architexts ISSN 1809-6298


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Sergio M. Marques mostra neste artigo o projeto para o autitório do Centro Universitário Ritter dos Reis, de autoria do arquiteto Claudio Luiz Araújo


how to quote

MARQUES, Sergio Moacir. Plugg-and-play. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 086.03, Vitruvius, jul. 2007 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.086/230>.

Dentre as instituições de ensino superior brasileiras, principalmente aquelas que, a partir das condições econômicas e políticas da década de 1990, expandiram-se expressivamente, o Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter, trilhou, de certa maneira, um caminho singular. Entidade sem fins lucrativos, de origem familiar, no inicio dos anos 1970, quando o ensino privado no país ainda era modesto comparado à rede pública e os índices atuais, abriu duas carreiras universitárias: Direito e cinco anos mais tarde, Arquitetura, afetas às preferências da mantenedora. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, primeira da rede privada em Porto Alegre e a quarta no Estado, considerando a Universidade Federal (atualmente são 16 cursos de arquitetura), surgiu e se estruturou conjuntamente com a própria formação da instituição. Teve, portanto, uma participação privilegiada, além da responsabilidade na fisionomia acadêmica e na própria identidade institucional, na política de organização espacial, no plano diretor das instalações, nos projetos para as edificações e em uma certa cultura visual que permaneceu, nas exposições, eventos, publicações e peças gráficas de um modo geral.

Charles Rennè Hugaud (1925-2003) e Cairo Albuquerque da Silva (2) (1945) além de amplamente envolvidos com a organização inicial do curso de arquitetura e dos projetos para Porto Alegre, foram encarregados de contribuir com a mantenedora, na definição dos conceitos de organização espacial relacionados à filosofia institucional pretendida.O UniRitter escolheu, ao contrário da tendência na época, em disseminar-se em bairros urbanos, em instalações de médio porte. Escapando da organização em campus normalmente, clusters gigantes encravados em áreas periféricas, a gleba original destinada para o Centro Universitário, com dois hectares, configurava-se em parte de quarteirão ocupado por rede transmissora local, habitação unifamiliar de classe média, escola de 1° e 2° grau e sub-habitação, em bairro residencial situado na zona sul de Porto Alegre (5 km do centro). Espaço proporcional para um instituto de ensino de aproximadamente cinco mil alunos, distribuídos em áreas afins, objetivando um centro de excelência (3).

Antiga pedreira de granito rosa, de onde saiu material para a construção da catedral de Porto Alegre, a área oferecia uma espécie de platô paralelo à rua e relevo íngreme em direção ao fundo do lote. Os arquitetos traçaram para o plano mais horizontal do terreno, as linhas racionalistas da edificação longitudinal, ordenada pela distribuição das funções, predominantemente ateliês e salas de aula, perimetralmente ao redor de três átrios de dezoito, vinte e seis e vinte e quatro metros de comprimento, respectivamente, construídos e colocados em funcionamento em etapas gradativas. Com dois conjuntos de escadas, sanitários e saguões amplos (onde se concentram boa parte das instalações), compartimentando o átrio linear, o espaço, é basicamente conseqüência da estrutura de concreto armado in loco, que oferece generosos vãos de oito e meio por nove metros de laje, com balanços internos para a circulação de aproximadamente quatro metros, ao gosto da arquitetura brutalista brasileira difundida a partir dos anos 1960 e 1970, com epicentro na arquitetura paulista dos anos 1950 (4). O curso de arquitetura, inicialmente ocupando o primeiro átrio, distribuía-se em ateliês abertos, de livre circulação e ampla transparência, a exemplo da FAU-USP de Vilanova Artigas. A frugalidade do projeto e da construção configurou “uma obra que faz da economia de meios compositivos, técnicos e materiais uma virtude em lugar de uma limitação” (5).

O projeto original previa o auditório, como um volume plugado, em eixo transversal, à nave principal do conjunto, no centro de gravidade da composição, voltado aos fundos do lote, aproveitando a topografia do terreno. Como nos estudos posteriores, aberturas laterais flanqueavam o corpo principal, fazendo com que a platéia continuasse externamente na área aberta.  Contingências levaram à um novo estudo, na década de 1980, onde o auditório mantinha-se sobre o eixo, porém voltado à rua e a frente da fachada principal do grande prédio linear, adentrando o espaço ocupado pela pedreira e assumindo um determinado protagonismo compositivo pela excepcionalidade volumétrica. Nesta alternativa, palco e retaguarda posicionavam-se na face oposta à do átrio, permitindo através de painéis móveis a integração deste com a platéia.

Nos final dos anos 1990, com a anuência dos autores do projeto do edifício principal, o Prof. Arq. Cláudio Araújo e equipe foi encarregado de ultimar o projeto definitivo do auditório e de novo edifício de salas de aulas na extremidade oeste da nave principal. A noção de “pluggs” a serem conectados na estrutura vertebral já constituída e em pleno funcionamento, parece determinar o conceito de edificações contemporâneas que delicadamente ligam-se ao corpo principal através da circulação configurada pela esquadria poliédrica, no caso do auditório, e da passarela metálica, no bloco B. A reverência à arquitetura original do edifício sede, segue, em uma espécie de contextualismo moderno, no concreto como material expressivo, dessa vez pré-fabricado através de placas de fechamento lateral, de um metro e vinte e cinco centímetros de largura e toda a altura do bloco, com duas nervuras longitudinais presas internamente na estrutura, executadas com precisão. O concreto pré-fabricado configura uma espécie de boite close rasgada lateralmente para permitir o acesso e oferecer uma insólita visão da antiga pedreira, transversalmente através da platéia, voltada para o átrio, de costas à rua. A esquadria multifacética, de alguma maneira aporta ao volume minimal de concreto, a rugosidade roubada do relevo pétreo do terreno. Tal como Álvaro Siza na Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, a recomposição e contextualização se volta também ao terreno e à topografia de maneira implícita.

O auditório articula-se com o átrio principal através de foyer criado dentre o espaço externo virtual oferecido pela estrutura de fixação de elementos de proteção solar do edifício existente, a ser fechado no pavimento térreo por planos de vidro. Ali estão sanitários, café e espaço para pequenas exposições, acesso à retaguarda e palco e arrancada das circulações laterais que conduzem o público, através de suave declividade, ao centro e nível intermediário da platéia. Os espaços laterais de circulação, dentro da esquadria irregular, ainda permitem um confortável meio de intermediação entre interior e exterior, incomum em auditórios.  Na face oeste, estabelecem conexão visual com o principal acesso do Centro Universitário. Pelo leste com a face rochosa da escavação, em um hueco, surpreendente para quem chega até ele, ocupado sutilmente por uma escultura de Caé Braga (6).

Transcende os valores conceituais e poéticos do projeto, o apuro técnico e atenção às exigências de conforto específicas das atividades de audição, bem como o rigor nas soluções construtivas, que conferem densidade às estratégias projetuais, abordagem típica das gerações de vanguarda do Movimento Moderno no Rio Grande do Sul e de Cláudio Araújo em particular. A esquadria poliédrica, cuidadosamente detalhada recebe no plano superior, contribuindo com a dinâmica espacial, uma seqüência de tubos aspersores de água sobre o vidro superior, para controle da temperatura das circulações. As envolventes internas do espaço de audição, bem como a proporção da sala, foram criteriosamente avaliadas por especialistas com softwares apropriados. As condições de luminotécnica  projetadas com apuro, para os diversos tipos de uso. A construção pré-fabricada, cuidadosamente planejada em sua seqüência de montagem e executada por empresa competente.

A postura atenta ao contexto histórico, cultural e espacial, de certa maneira conseqüente dos anos 1980, dotou o arquiteto no projeto moderno do auditório do UniRitter de profunda sensibilidade em sua inserção no processo histórico da instituição, e na concepção do “container tecnológico” conectado ao edifício existente.

Na inauguração do espaço, com a conferência de Joseph Rykwert e o sugestivo título de “A sedução do lugar” (7), foi plugar e ligar (8).

ficha técnica

autor
Arquiteto Claudio Luiz Araújo

colaboradores
Arquitetos Daniel Pitta Fischmann, Marcel Gregory Trescastro, André Luis Pereira Nunes, Carlos Henrique Neves Lourenço e Rodrigo Bueno Conceição

direção de obra
Arquitetos Cláudio Luiz Araújo e Luiz Isidoro Boeira

cliente
Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter

estruturas de concreto e pré-fabricadas
Engenheiros João Baptista Rosa, Renato Azevedo e Renato Garcia

instalações elétricas e hidrossanitárias
Engenheiros Werner Laub, Mauro Medeiros e Claudio Meneghetti

climatização
Engenheiro Carlos Medeiros

acústica
Arquiteto Flavio Maya Simões

luminotécnica
Arquiteta Anna Maria Hennes

pré-fabricação e construção
Construtora Premold Ltda / Engenheiros George Soeiro de Souza e Nelson Vargas

estrutura metálica
Metalplan / Engenheiro Ervino Herrlein

datas
Projeto: 2000–2001
Construção: 2002–2006

área construída
1.245,00 m²

local
Rua Orfanotrófio, 555 – Porto Alegre RS Brasil

notas

1
Artigo originalmente publicado na revista Summa +, n. 86, Buenos Aires, jan. 2007.

2
Arquitetos integrantes da equipe que projetou o Centro Administrativo do Estado do Rio Grande do Sul.

3
As idéias iniciais em relação à sede de Porto Alegre desenhavam um conjunto de Faculdades que comporiam um híbrido entre uma Escola de Belas Artes e uma Politécnica.

4
O edifício sede do UniRitter foi premiado na I Bienal de Arquitetura do Rio Grande do Sul, em 1992, na qual o Cláudio Araújo integrava o júri.

5
MAHFUZ, Edson da Cunha. Edifício Sede de las Faculdades Integradas Ritter dos Reis. In MARQUES, Sergio Moacir (org.). Porto Alegre, Elarqa n. 33, Dos Puntos, Montevidéu, fev 2000, p. 62.

6
Presente dos professores da Faculdade de Arquitetura, em 2006, a Flávio D’Almeida Reis,  atual reitor do Centro Universitário, primeiro diretor da Faculdade de Arquitetura e um dos idealizadores da instituição, pelo aniversário de 30 anos do curso de arquitetura.

7
Joseph Rykwert, na aula inaugural do semestre letivo de 2005/1 da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, realizada no novo auditório, ainda em construção, a título de inauguração do espaço, citou seu livro a sedução do lugar, onde narra o ritual de marcação do território, realizado pelas legiões romanas na tomada de posse e início da construção de acampamentos militares que ocasionaram o surgimento de novas cidades.

8
Ver também XAVIER, Alberto; MIZOGUCHI, Ivan. Arquitetura Moderna em Porto Alegre. São Paulo, Pini, 1987.

sobre o autor

Sergio MMarques, arquiteto, professor e coordenador do Núcleo de Projetos da FAU UniRitter, professor da FAUFRGS, sócio MooMAA – Moojen & Marques AA.

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