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architexts ISSN 1809-6298


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O artigo traz uma discussão a respeito do projeto elaborado pela equipe do autor, vencedora do concurso Bairro Novo na Barra Funda. Decorridos quatro anos da realização do concurso, o plano urbano veio novamente à baila por conta das recentes eleições


how to quote

OLIVEIRA, Euclides. Projeto urbano Bairro Novo – uma reavaliação. Arquitextos, São Paulo, ano 09, n. 104.03, Vitruvius, jan. 2009 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.104/82>.

Decorridos quatro anos da realização do concurso Bairro Novo, na Barra Funda, pela PMSP (então sob a administração do PT e que não foi adiante, pois o governo que o sucedeu, de ideologia diametralmente oposta, decidiu pela sua anulação), o nosso plano urbano, vencedor do concurso (1), veio novamente à baila por conta das recentes eleições municipais. Sem pretender retornar ao mérito dos eventos políticos que cercaram a feitura e a rejeição deste plano, queremos aproveitar a ocasião para por em discussão o projeto em si, que no fundo, foi muito pouco debatido tanto com o público quanto com os colegas de profissão, faltando um pouco mais de empenho neste sentido por parte do IAB, que organizou o concurso e da Sempla, que o encomendou.

1. Quanto a localização da área

“A estrada de ferro corta a cidade como uma cicatriz, através de fábricas, moinhos e pátios ferroviários abandonados. Um percurso que se faz numa área esquecida, para a qual a cidade deu as costas. Viagem por um mundo em suspensão; apesar da passagem do trem, reina a mais completa imobilidade. Esses espaços estão à espera que alguma coisa aconteça. Aqui, o passado aguarda o futuro”.
Nelson Brissac Peixoto (2)

Apenas a irracionalidade do capital imobiliário no uso do solo e a incapacidade dos “mercados” em organizar a produção do espaço da cidade contemporânea podem explicar como que uma área com a qualidade urbana deste terreno na Barra Funda ainda possa estar desocupada, sem uma habitação construída sequer, ao lado do centro histórico de uma metrópole cujo trânsito caótico é motivo de desespero geral e de queixas diárias em artigos da mídia local.

O terreno, com área de 107, 6266 Ha, é limitado ao norte pela Avenida Marginal do Rio Tietê, ao sul pela Avenida Francisco Matarazzo, conta com dois corredores expressos para ônibus (um na Francisco Matarazzo e outro na Avenida Marquês de São Vicente), é fronteiriço à linha de trens suburbanos da CPTM e fica a menos de um quilômetro da estação intermodal da Barra Funda (metrô/ trem/ ônibus). Como pode se ver trata-se decididamente de um filé sem osso, biscoito fino para um plano urbano.

A topografia é praticamente plana e conta com uma ocupação esparsa e desigual, caracterizada pelo macro-parcelamento do solo, o que facilitaria as desapropriações que se fizessem necessárias em uma intervenção no local. Manter desocupado um sítio com tais atrativos constitui-se em um luxo ao qual São Paulo não pode se dar, tanto que a Sempla e a Emurb (desde a administração Luísa Erundina) compreenderam a situação e tentaram alavancar o desenvolvimento da região com a Operação Urbana Água Branca e depois com o mencionado concurso. Uma pena que a politicagem vulgar não permitiu que esta ocupação se tornasse realidade, restando à região permanecer em sua silenciosa espera do futuro, isto em um país onde a função social da propriedade privada fundiária é ressaltada em sua Constituição Federal e no Estatuto das Cidades.

2. Quanto aos Fundamentos do Plano Urbano

“Mas a cidade – dizia Marsílio Ficino – não é feita de pedras (hoje, teria dito de plástico), é feita de homens. Não é a dimensão de uma função, é a dimensão da existência”.
Giulio Carlo Argan (3)

Metrópoles, cidades ou vilas (habitat do homem civilizado) são conformadas e fisicamente definidas por espaços públicos de acessibilidade universal e fronteiras naturais – é tão simples assim mesmo. E lembramos aqui que quadras não são apenas massas residuais do sistema viário, mas elementos constitutivos dos espaços urbanos; nestes, (segundo Lewis Mumford), limitações de densidade populacional, gabaritos, superfícies e usos, são necessários para que sirvam como lugares onde indivíduos e grupos sociais possam interagir entre si dentro de uma escala adequada. A qualidade dos espaços públicos e sua articulação com os espaços de domínio privado é que determinarão a qualidade da vida urbana, com toda a sua riqueza cultural de ritos, festas, sagas e costumes.

Estamos falando aqui dos arquétipos das cidades, que possuem uma evidente continuidade no tempo. Cito a seguir, por pertinente, um trecho de uma entrevista do crítico alemão Wolf Jobst Siedler sobre este assunto.

“Todas as cidades se auto-renovam através de nexos particulares. No entanto eu tenho dúvidas a este respeito; eu me pergunto se não existem elementos constantes no gestalt de uma cidade, que permanecem apesar das transformações sociais e formais desta última. É sempre com espanto renovado que eu me deparo com as plantas das cidades da antiguidade escavadas – tais como Sybaris, Lokris ou Metapont – tudo nelas me parece familiar, até a disposição das ruas. Em toda a parte, seja no Egito ou na Mesopotâmia, as ruas eram largas o bastante para que uma carroça de bois por elas passasse. As ruas principais eram duas ou três vezes mais largas do que as locais, nelas várias carroças podiam trafegar ao mesmo tempo. Na periferia das cidades os edifícios tinham dois ou três andares enquanto que nas avenidas eles tinham três ou quatro. Podemos imaginar nos mudando para uma destas casas sem dificuldades. Elas estão no nosso imaginário, tudo nos é familiar.Estas cidades foram destruídas há 3000 ou 4000 anos atrás e deveriam parecer muito estranhas para nós. Mas se pelo menos os planos viários da Paris dos Bourbons, ou os de Londres da rainha Vitória, ou ainda os de Berlim de Schinkel, tivessem sobrevivido, suas dimensões não teriam se revelado muito diferentes das da Babilônia. Parece-me que isto tem tudo a ver com ‘constantes’: o olho humano reconhece uma face a uma distância de 80 metros; a voz humana alcança 60 metros, podendo assim alguém chamar um conhecido do outro lado da rua ou falar com as crianças de uma janela tanto em Pompéia quanto em Philipsburg. A transformação das cidades primitivas para as da antiguidade, e destas para as medievais e em seguida até as cidades do século dezenove, foram, neste aspecto, muito pequenas. Tais ‘constantes’ sempre sobreviveram; e assim, estas tipologias urbanas com milhares de anos de idade são mais familiares para nós do que as produzidas com uma visão futurista, no século vinte.” 940

Sabemos bem que esta continuidade imemorial foi rompida pelo urbanismo modernista, tal como detalhado na Carta de Atenas. Como notou Giulio Carlo Argan o problema da unidade urbana, da cidade como organismo histórico em desenvolvimento, foi deliberadamente posto de lado, porque não importava que a sociedade industrial tivesse uma história; ela era o seu fim. Mas evidentemente a história continuou; e durante e após a reconstrução (em parte) modernista da Europa que se seguiu à segunda guerra mundial, o grupo que preparou o CIAM de Dubrovnic (1956), denominado Team 10 (5), começou a dessacralização dos princípios da Carta de Atenas durante o congresso, sendo seguido pelos metabolistas japoneses, pelo grupo da Casabella, na Itália, da revista Fórum, na Holanda, etc. (6). O próprio Le Corbusier, a esta altura da sua vida já se encontrava desiludido com o capitalismo, a revolução industrial e até mesmo com a própria machine, que ele tanto louvara como o “espírito de uma nova era.” (7)

A cidade pós-moderna (8) veio com o neoliberalismo econômico e a globalização financeira; ela caracteriza-se, nos países da periferia do capitalismo, pela produção de novas centralidades urbanas que imitam as metrópoles do primeiro mundo, resultado da maior concentração da riqueza nas mãos de uma pequena e alienada parcela da população.

Como subproduto destas novas centralidades temos aqui em São Paulo, há muito tempo, a chaga urbana dos condomínios fechados, horizontais ou verticais, que nada mais são do que a expressão física da vontade das elites de se segregarem espacialmente do restante da população e, por conseqüência, da própria cidade. As incorporadoras e corretoras abocanharam este filão de ouro e, sob o pretexto de uma duvidosa segurança aliada a um pseudo modus vivendi glamourizado, criam conjuntos a cada dia mais sofisticados, transformando-os em verdadeiros clubes, com piscinas, quadras de esportes, porte-cochères, espaços gourmets, academias de ginástica, e o que mais possa passar pela cabeça de seus marqueteiros. São estes condomínios os verdadeiros destruidores da urbanidade, das práticas sociais e culturais da cidade, do papo no café ou no bar da esquina, dos encontros casuais, do confronto das diferenças, da convivência entre classes, etc.. Com esta negação do espaço público fecha-se o comércio de vizinhança, erguem-se shopping-centers um atrás do outro para os que possuem automóveis e a vida urbana, tão rica na diversidade que lhe é própria, vai aos poucos se esvaindo, enquanto que a pobreza é inevitavelmente segregada desta “cidade global”, deslocando-se para a sua periferia.

3. Quanto ao partido adotado

“Para reencontrar o espírito de uma obra, um objeto, um parque, uma arquitetura... é preciso que ela represente uma alegria, um desafio, que envolva o fortuito. [...] Esta seria a forma de um objeto que voltou a ser cidade, onde seria novamente possível mover-se e não apenas trafegar, onde andar a pé e repousar voltariam a ser uma fantasia. Sonhar sempre é possível”.
Jean Baudrillard (9)

Na concepção do Bairro Novo optamos pelo reticulado cartesiano (símbolo habitual de civilização, segundo Leonardo Benévolo) para o seu sistema viário, orientando-o no sentido geral norte-sul, direção do escoamento natural das águas pluviais para a bacia do rio Tietê. A célula básica do bairro, definida por vias principais de 25 m de largura, compreenderia quatro quarteirões formados por quatro vias secundárias que, por sua disposição em forma de catavento, gerariam uma praça no interior de cada célula. Esta malha abstrata ao ser sobreposta às vias públicas existentes criaria singularidades nas quadras a ela lindeiras, trazendo o inesperado e o casual à rigidez geométrica do seu desenho.

O projeto viário previa também a demolição do Viaduto Pompéia por se constituir ele em uma barreira psicológica para a integração do bairro com a sua vizinhança ao sul, além de outros inconvenientes tais como a degradação da paisagem urbana, a favelização e a ocupação irregular de suas cabeceiras e a absoluta falta de segurança para a travessia de pedestres, principalmente durante a noite. Para substituí-lo o projeto previu a cobertura de um trecho da linha férrea por um lajão, elevando suavemente as áreas anexas e permitindo assim uma travessia ampla e natural do leito ferroviário. Na seqüência, a Av. Nicolas Bôer, que leva à margem norte do rio Tietê, receberia duas vias laterais para o acesso local, liberando assim o tráfego de passagem para o Bairro do Limão. A Av. José Nelson Lorenzon (projetada) ladearia o córrego da Água Branca, canalizado a céu aberto e convenientemente arborizado, que receberia parte das águas de drenagem da área. A estação da CPTM existente seria deslocada para este limite natural de vizinhança, servindo assim melhor a ambos os bairros.

O plano urbano contemplava um sistema viário que promovesse a valorização do pedestre e um zoneamento que minimizasse a necessidade do uso do automóvel. Nas vias primárias a calçada seria complementada por galerias cobertas sob os prédios lindeiros; as esquinas seriam configuradas como espaços generosos e equipadas com mobiliário urbano adequado. Em todas as vias públicas a travessia de pedestres seria feita por meio de “lombo-faixas”, lombadas suaves de concreto armado que, niveladas com as calçadas, facilitariam seu uso por idosos, crianças e portadores de deficiências físicas.

4. Quanto ao ordenamento do solo privado

Mais do que um enfoque cultural ou meramente técnico, pretendemos com este plano, propiciar a criação de espaços públicos e privados abertos para a diversidade que,ao contrário de segregar as diferenças sociais, promovam sua necessária confrontação e coexistência no seio deste novo assentamento urbano.

Na organização do solo privado buscamos um parcelamento fundiário de dimensões tais que permitisse sua incorporação por pequenas e médias construtoras e um zoneamento que unisse uma mescla de usos variados nos lotes a uma maior integração das edificações com o espaço público. As habitações de interesse social seriam distribuídas por todos os quarteirões do bairro, impedindo-se assim a discriminação espacial da pobreza e a formação de condomínios fechados nas quadras, dois itens fundamentais deste plano, aumentando-se, ao mesmo tempo, as oportunidades de emprego para os moradores das HIS.

Os quarteirões de uso residencial e misto (hab/com/serviços) se constituiriam em blocos de volumetria definida em suas três dimensões no projeto, formando massas tectônicas bem caracterizadas que configurariam os espaços urbanos públicos (ruas, praças, parque) e privados (o interior das quadras). Para tanto os edifícios que as comporiam seriam construídos no alinhamento das vias de circulação, não contariam com recuos laterais e teriam gabarito de altura único por bloco. Os edifícios seriam de uso exclusivamente residencial quando voltados para as ruas e praças no interior das células urbanas, e de uso misto (com comércio nas galerias do térreo) quando voltados para as vias principais. Os prédios de esquina seriam “coringas” quanto ao uso, podendo, se assim necessário, serem utilizados em sua totalidade para comércio e/ou serviços.

Obedecidos os itens acima, seriam livres de restrições os demais aspectos referente aos projetos de arquitetura tais como as dimensões e o nº de unidades por edifício, os sistemas construtivos, os materiais de acabamento, a composição das fachadas, etc.. Em resumo, estas disposições do plano permitiriam a diversidade e o pluralismo arquitetônico dentro de uma estrutura normativa rigorosa das massas tectônicas que constituiriam o lugar.

5. Quanto a qualificação ambiental do bairro

“Seria conveniente não nos esquecermos de que em grego, parádeisos, fonte primeira de paraíso, significava também jardim”.
Souza Brandão (10)

O projeto paisagístico proposto para o espaço público do bairro abrangeria, basicamente, um sistema de dez praças com área de cerca de 6.500 m² cada, um parque urbano com 74.500 m² e a arborização da malha viária.

As praças, concebidas com características de áreas de lazer destinadas às unidades habitacionais, apresentariam um desenho com leitura de fácil identificação dos acessos, convergindo para um ponto focal de interesse paisagístico, numa linguagem adequada ao uso comum de todas elas.

Ao par desta unidade, cada praça teria elementos peculiares, visando ao enriquecimento e identidade desses espaços livres do bairro. Assim, a praça I, contaria com tanques para peixes e espelhos d’água e na praça II haveria espaços para a comercialização de frutas e flores. Na praça III encontrar-se-iam diversos tipos de fontes e na praça IX foram propostos espaços para feiras de artes e artesanatos, locais para uso dos grafiteiros e assim por diante: praças pomares, praças com palco e anfiteatro, praças para se passear, todas elas dotadas de equipamentos de lazer para as diversas faixas etárias. Quanto às espécies arbóreas e arbustivas escolhidas para cada um destes espaços, estas foram indicadas de acordo com o tema de cada uma das praças e se constituiriam em parte integrante do arranjo espacial e funcional proposto.

O parque, situado próximo a ponte sobre o Tietê, foi concebido em uma linguagem de feição orgânica, com um modelado de relevo em ondulações suaves e um lago, referência simbólica às antigas várzeas e meandros do rio.

Áreas de lazer passivo alternar-se-iam com outras de lazer ativo; o plantio seria composto principalmente, por extensos gramados com grupos de árvores nativas e renques de palmeiras plantados mais densamente nas faixas lindeiras ao sistema viário, de modo que funcionassem como barreiras visuais e sonoras que favorecessem a tranqüilidade no interior do parque.

Na arborização viária procurou-se a criação de um dinamismo na paisagem, priorizando-se a utilização de espécies nativas e exóticas de uso tradicional na cidade, que enfatizassem as floradas que caracterizam as mudanças sazonais, com a presença, entre outras, de jacarandás, ipês, tipuanas e quaresmeiras. No interior das quadras foi prevista uma faixa non aedificandi de 15 m de largura, favorecendo a permeabilidade do solo e que seria tratada como um pomar, atraindo assim a passarada para os pátios internos dos quarteirões.

6. Em defesa dos pontos polêmicos do plano

“Vale mais ser repreendido pelos gramáticos do que ser incompreendido pelo povo”.
Santo Agostinho (11)

Abordamos a seguir, as criticas mais comuns ao Bairro Novo que tem chegado ao nosso conhecimento, procurando justificar as soluções adotadas, todas elas frutos de uma longa reflexão sobre o meio físico no qual atuamos em nossa profissão de arquitetos – a urbs.

– Existe a cidade modernista e a tradicional – ganhou, no concurso, a cidade tradicional.

Supomos que esta afirmação (simplista) se deva a nossa adoção do quarteirão urbano definido pela construção dos edifícios em seu perímetro, maximizando assim o seu contato com a rua e favorecendo a formação de grandes espaços internos nas quadras. Esta é realmente uma solução milenar e universal de morfologia urbana e estranhamos que muitos colegas aleguem não ter sido ela uma característica do urbanismo paulistano, quando somente a partir de 1972, com a Lei de Zoneamento e Uso do Solo e de1975 com a lei 8.266 (código de obras) passou esse modelo a sofrer restrições legais (eu mesmo ainda projetei alguns edifícios no alinhamento e sem recuos laterais, como o Senac da Av. Francisco Matarazzo). Acontece que por aqui, além do galo ter cantado atrasado, o resultado das novas leis (por pressão dos agentes imobiliários) ficou muito aquém do esperado, com os novos edifícios sofrendo com a falta de insolação e privacidade devido aos risíveis recuos laterais exigidos e a tipologia dos lotes, com centenas de prédios exibindo fachadas cegas (ou quase) para as ruas, perdendo assim seu contato vital com o espaço público em troca de uma duvidosa volumetria modernista e norte-americanizada. Sugerimos também a estes colegas uma releitura de algumas das dezenas de artigos e ensaios escritos nas últimas décadas sobre as conseqüências, para a população, da dissociação espacial entre o domínio privado e o público (a rua).

– Trata-se de mais uma tentativa frustrada de dar uniformidade à cidade.

Se assim fosse, seria esta uma tentativa presunçosa e arrogante, estamos falando de um bairro minúsculo para a escala de SP, em meio a outros de feição urbana ainda não consolidada. A tal uniformidade só existiria nas massas tectônicas, algo que é um feijão-com-arroz em cidades tanto d’aquém quanto d’além mar (os projetos urbanos modernistas, desde o “Plan Voisin” até o de “Chandigarh” tem seus gabaritos rigorosamente definidos). A variedade, como já foi dito, seria dada pela arquitetura diferenciada de cada edifício que comporia as quadras. Quem viveu as décadas de 40 a 60 no Rio de Janeiro certamente se lembrará da feição extremamente humana e agradável desta cidade, regulada por PAs (Projetos de Alinhamento) que fixavam gabaritos de altura para os seus diversos bairros (geralmente em 4 pavimentos mais cobertura e pilotis), modelo urbano este criminosamente abolido pelo governador Carlos Lacerda que liberou os gabaritos e recuos, permitindo o acréscimo de um pavimento para cada 50 centímetros de afastamento do alinhamento e das divisas. Tal legislação não só destruiu o modelo urbano consagrado da cidade, mas também sua relação harmoniosa com a magnífica natureza do lugar.

– O acesso de pedestres e veículos aos edifícios com galerias comerciais será confuso e difícil.

Não será, basta apenas verificar a propriedade da solução em milhares de edifícios desde Porto Alegre até Belém do Pará. Não estamos inventando a roda; esta tipologia, introduzida no Brasil cremos que por Alfred Agache, é perfeita para nosso clima tropical que alterna calor intenso com chuvas copiosas ou a tradicional garoa.

– O projeto é uma citação do Plano Cerdà, para Barcelona.

Em primeiro lugar, consideramos tal assertiva como um elogio e não uma crítica ao nosso projeto; mas gostaríamos de esclarecer uma confusão comumente feita sobre o plano de Ildefonso Cerdà. O aspecto revolucionário deste plano (de 1867) eram os quarteirões quadrados, construídos no perímetro, mas dos quais 1 ou 2 lados não eram edificados, incorporando-se assim ao espaço público o interior dos mesmos. Infelizmente os agentes da especulação imobiliária sabotaram esta solução e os quarteirões acabaram sendo construídos em todo o seu perímetro. Já o chanfro em suas esquinas é marcante e significativo por suas dimensões, mas adotado (em outras escalas) normalmente nos terrenos de esquina pelo mundo afora. Aliás, esquinas são nós urbanos plenos de significados quase que mágicos; são o lugar dos encontros, da surpresa, da escolha, do fluxo das informações, das perspectivas que se abrem; seus lotes são geralmente a menina dos olhos dos arquitetos.

– Não há um aproveitamento comunal mais elaborado do interior dos quarteirões.

E não era para haver mesmo, criamos barreiras urbanísticas (as HIS) que impedem este tipo de organização do solo. Tal aproveitamento levaria à criação de condomínios-clube fechados, isolados da vida social do bairro e alheios ao dia a dia da cidade. Imaginamos os pátios internos como locais para criança bater bola e andar de velocípede, com um belo pomar nos fundos, só.

– O projeto representa uma cópia do modelo europeu do quarteirão fechado e uma volta ao passado, com o abandono dos postulados urbanos modernos.

Esta é uma pequena variação da primeira crítica apresentada; mas a questão é importante e não custa repassá-la. Não sabemos de onde foi tirada a idéia de que a quadra é uma tipologia estranha ao nosso urbanismo, afinal fomos colonizados por europeus. O uso do quarteirão fechado (12) era comum na grande maioria de nossas cidades até uns trinta ou quarenta anos atrás, quando a pressão da especulação imobiliária pelo maior aproveitamento dos lotes urbanos levou aos quarteirões abertos, de feição norte-americana, mas com ocupação do solo excessiva e recuos e afastamentos insuficientes para a insolação, a ventilação e a privacidade dos seus edifícios. O resultado são estas metrópoles que aí estão com quarteirões ecléticos que são verdadeiros mostruários de estilos arquitetônicos e de materiais de construção. O retorno à quadra fechada não representa um abandono dos postulados do urbanismo modernista, simplesmente porque estes últimos nunca foram aplicados por aqui, a não ser como farsa tipológica, para se construir mais no mesmo espaço urbano (com as exceções de praxe). A variedade de alturas dos edifícios nas quadras abertas de SP é mera conseqüência de uma combinação entre as áreas dos lotes e o “lassez faire” do nosso código de obras, que no fundo reflete o desejo, consciente ou inconsciente, de um skyline de uma metrópole norte-americana.

– O projeto representa uma tentativa de inserção de São Paulo na economia mundial através de novas centralidades apoiadas no mito da cidade global.

Isto é um delírio, projetamos um bairro residencial com comércio local para a classe média paulistana e não um distrito como os da burguesia de Dubai, com suas torres mirabolantes e jardins saídos dos contos das mil e uma noites. As novas centralidades que aspiram (um tanto ou quanto provincianamente) a esta condição globalizada são as regiões da Berrini, da Nova Faria Lima e da Marginal do Rio Pinheiros, com a sua ponte estaiada, todas na região sudeste da cidade. Conforme Mariana Fix, “O mito das cidades globais, por sua vez, já nasce enfraquecido, e por isso ganha ares de farsa. Tem como miragem as novas centralidades produzidas em cidades como São Paulo, que reproduzem em escala modesta, o skyline que mimetiza os centros de comando e projeta, em um país semiperiférico, a imagem de uma global city (13).

– Uma família normal não moraria no mesmo bairro de sua empregada doméstica, como nós pretendíamos em nosso projeto.

Esta barbaridade nos foi dita por uma autoridade do governo municipal que anulou o nosso contrato; trata-se de racismo e preconceito social e é crime previsto no nosso Código Penal. Menciono-a aqui para relembrar que em meus tempos de criança, empresários, doutores, professores, quitandeiros, sapateiros, mecânicos, lavadeiras, costureiras, moravam todos no mesmo bairro e não havia nada de excepcional neste fato; na Gávea (RJ) onde passei minha infância e juventude havia inclusive um parque proletário, iniciativa do governo Vargas, aonde depois veio a ser erguido o célebre conjunto habitacional do Affonso Reidy. Com o desenvolvimento do país veio uma maior concentração da renda, a disparada dos preços dos imóveis, o subemprego e a miséria explícita, com a conseqüente separação espacial das classes sociais. No programa do Bairro Novo havia, acertadamente, previsão para certo número de habitações de interesse social (HIS), que distribuímos como já foi dito anteriormente, pelos diversos quarteirões do bairro evitando assim a formação de guetos com a segregação programada da pobreza. Nunca achamos que as elites paulistanas voltariam a viver próximas ao centro histórico da cidade; pensamos que os habitantes do bairro deveriam ser da classe média verdadeira: pequenos comerciantes locais ou do vizinho Bom Retiro, comerciários, prestadores de serviços de variadas complexidades, professores, profissionais liberais, jornalistas, taxistas e outros microempresários, artistas, artífices, repúblicas de estudantes (existem várias universidades na vizinhança), arquitetos, etc. Conforme Leonardo Benévolo, “a cidade industrial ainda não é certamente a cidade dos iguais entre si, mas na cidade industrial a igualdade deixa de ser uma utopia teórica e torna-se uma proposta praticável” (14).

– A demolição do viaduto Pompéia e o lajão a ser construído sobre a ferrovia mascaram sua presença e representam um gasto desnecessário no sistema viário do bairro.

A linha da CPTM representa uma barreira física entre o novo assentamento e os bairros vizinhos ao sul, enquanto que o viaduto que a transpõe se constitui em uma alternativa precária e arriscada de travessia para o pedestre. A laje que substituiria o viaduto Pompéia (que seria implodido) cobriria pouco mais de 200 metros do leito ferroviário, proporcionando mesmo assim uma excelente articulação espacial com a vizinhança. Convenhamos que tal obra não seria nenhum bicho de sete cabeças (compare-se esta com a recente cobertura de todo o pátio ferroviário da Gare d’Austerlitz, em Paris – nosso empreendimento torna-se então tão simples e diminuto...).

– Enquanto os projetos forem apenas plasticamente interessantes, não terão mercado, é preciso haver uma reflexão mais séria sobre o assunto.

Esta objeção é de um representante do capital imobiliário e provavelmente uma autocrítica, pois apenas há alguns anos antes o mercado havia levado um tombo feio na Nova Faria Lima. Já o interesse plástico do bairro, esse só surgiria na medida em que as quadras fossem constituídas por edifícios de alta qualidade arquitetônica, pois como dizia Louis Kahn, ordem não é por si só garantia de beleza. Qualidade urbana o Bairro Novo teria de sobra: transporte público fácil, paisagem agradável (arborização, parque, largos, praças), valorização do pedestre, mescla de funções, possibilidade de geração de empregos locais (comércio e serviços), previsão de equipamentos institucionais, vidas diurna e noturna, etc. Agora, se alguém procurasse construir visando o mercado de habitação para as classes ricas e as elites globalizadas, certamente quebraria a cara, pois esta empreitada não estaria de acordo com o genius loci do bairro (o espírito do lugar).

Em tempo – o concurso e o desenvolvimento do projeto vencedor contaram com um consultor experiente e permanente, indicado pela Sempla, vindo do mercado imobiliário.

– As ruas de menor hierarquia contidas no interior da malha ortogonal viária principal fará desta última uma unidade de vizinhança típica do modelo territorialista de ocupação do solo da Carta de Atenas, recusado pelos autores.

Ao colocarmos no miolo de cada célula urbana uma praça formada por ruas de tráfego local, aceitamos o risco de uma possível e indesejada subdivisão do bairro em territórios desarticulados socialmente entre si; no entanto contamos com os seguintes fatores para fazer frente a esta probabilidade:

  • a inexistência de uma via principal de alta velocidade de acesso às células.
  • a força da malha viária principal, com suas galerias de comércio local (próprias para a freqüência de pedestres) definindo todas as quadras do bairro, associadas aos largos dos cruzamentos, que articulam quatro células em torno de um único nó viário.
  • a ausência de equipamentos urbanos tais como escolas, creches, postos de saúde, no interior das células. sua disposição seria ao longo da grelha ortogonal, favorecendo a extroversão dos quarteirões.
  • a escala dos espaços envolvidos, abertos e de acesso amplo e irrestrito.
  • a tendência natural e universal do pedestre (e mesmo do automóvel) de cortar o caminho em diagonal passando, quando for este seu rumo, pelo interior das células ao invés de contorná-las, tornando-as mais “permeáveis”, sociologicamente falando.

E por fim, achamos que a qualidade paisagística e ambiental conferida por esta solução ao bairro, justifica por si só o risco de sua adoção.

– As “lombo-faixas” nos cruzamentos complicariam ainda mais o trânsito já engarrafado da região.

São Paulo não tem mais solução viária possível e a degradação urbana causada pelo transporte individual já ultrapassou em muito o limite do aceitável. Já é tempo de criarmos, como em certas cidades da Holanda e da Alemanha, barreiras físicas que piorem ainda mais o trânsito em áreas bem servidas por transporte coletivo (metrô, trem, corredores de ônibus), convencendo assim a classe média a deixar seu carro em casa e a reivindicar, como classe formadora de opinião que é, as melhorias sabidamente necessárias no sistema público. As “lombo-faixas” servem também para lembrar ao automobilista que ele divide o espaço da rua com outros usuários (pedestres, ciclistas, etc.) com direitos iguais de locomoção. Já nas faixas laterais das vias principais e nas ruas secundárias, a pavimentação em paralelepípedos ou solução similar, visa a diminuir a taxa de impermeabilização do solo do bairro além da redução da velocidade dos veículos junto às calçadas. 

7. Epílogo

“Dizia-se que a cidade era o lugar da esperança... Ou do desespero”.
Milton Santos, Manual de geografia urbana.

Em março de 2008 a Telefônica vendeu à Tecnisa Construção e Incorporação sua gleba na área foco do Bairro Novo, entre a estrada de ferro e a Avenida Marquês de São Vicente, com 244 mil metros quadrados de área (cerca de 25% do total destinado ao bairro). Esta última vem desde então declarando na mídia que erguerá no local (legitimamente, o zoneamento o permite) um “bairro” constituído por “condomínios-clube” que são “prédios de apartamentos construídos com grandes e variadas áreas de lazer” (14), ou seja, justamente tudo aquilo que não queríamos para esta parte da cidade. Parafraseando Marx, para nós trata-se aqui não do urbanismo da miséria, mas da miséria do urbanismo.

notas

1
O Concurso Público Nacional "Bairro Novo – Concurso Nacional para um Projeto Urbano" foi promovido em 2004 pela Prefeitura do Município de São Paulo, através da Empresa Municipal de Urbanização – EMURB – e organizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento de São Paulo – IAB/SP. A Comissão Julgadora, formada pelos arquitetos Valter Caldana, Alberto Rubens Botti, Alfredo Máximo Garay, Jorge Wilheim, José Magalhães Júnior, Luiz Fernando de A. Freitas, Nádia Somekh e Paulo de Melo Zimbres, divulgou a Ata de Julgamento no dia 22 de julho de 2004, aonde se referenda o primeiro lugar para o Projeto PR 1051, de autoria dos arquitetos Euclides Oliveira, Dante Furlan e Carolina de Carvalho, com paisagismo do Arquiteto Sidney Linhares. O projeto vencedor, os projetos classificados em segundo e terceiro lugares, além dos sete que mereceram menções honrosas, estão divulgados na editoria Projeto Institucional do Portal Vitruvius e podem ser acessados através do link www.vitruvius.com.br/institucional/inst92/inst92.asp.

2
PEIXOTO, Nelson Brissac. Arte/Cidade. São Paulo, Sesc SP, 2002, p. 105

3
ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1992, p. 223.

4
SIEDLER, Wolf Jobst, entrevista conduzida por LAPUGNANI, Vittorio Maganago para a revista Domus, n. 685. Milão, jul./ago./ 1987.

5
A Carta de Atenas sempre contou com adversários como Bruno Zevi, Ludovico Quaroni, Ernesto Rogers, Pierre Vago e “arrependidos” como José Lluis Sert. O “Team 10” formou-se na década de 50 e era constituído por Jacob Bakema, Aldo van Eick, Alisson e Peter Smithon, Georges Candilis, Sadrach Woods e outros.

6
Podemos citar como exemplos (díspares entre si) Aldo Rossi, Colin Rowe, Leon e Rob Krier, o Archigram, Piet Blom, Herman Hertzberger, Manfredo Tafuri, Vittorio Gregotti, Oriol Bohigas, Denise Scott Brown.

7
Le Corbusier, consultado por Candilis, apoiou a posição da direção do CIAM, sugerindo inclusive, a redação de uma Carta do Habitat.

8
A cidade neoliberal (americanizada) muito pouco ou nada tem a ver com o urbanismo americano utópico de Frank Lloyd Wright, ou o “europeizado” de Sert, Richard Neutra, Rowe, dos irmãos Krier, Scott Brown, ou ainda com o “New Urbanism” de Peter Katz, Cristopher Alexander, Jane Jacobs, entre outros, ficando mais no domínio do laissez-faire capitalista, que de resto sempre reinou sobre as cidades norte-americanas.

9
BAUDRILLARD, Jean. Entrevista concedida a revista AU- Arquitetura e Urbanismo nº 30, São Paulo, Editora Pini, jun/julho de 1990.

10
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. Petrópolis, Editora Vozes, 2008, vol. II.

11
AGOSTINHO, Aurélio (Santo Agostinho). LE GOFF, Jacques, A Civilização do Ocidente Medieval. São Paulo, EDUSC, 2002, p.108.

12
Sugiro aos interessados que dêem uma volta pelos bairros mais antigos de São Paulo (fora o centro histórico, degradado e onde os exemplos são incontáveis) e procurem edifícios construídos no alinhamento e nas divisas, com 3 ou 4 pavimentos, formando blocos que tomam todo o quarteirão ou mesmo isolados. Eles existem às dezenas em Pinheiros, Vila Madalena, Itaim Bibi, etc., são simpaticíssimos, na exata escala do pedestre e dificílimos de alugar ou comprar por suas evidentes qualidades urbanas (e mais raramente, arquitetônicas). E por fim, lembramos que Brasília, cidade ícone dos postulados da Carta de Atenas, tem gabarito de altura pré-fixado para cada um dos seus edifícios segundo sua função, criando assim uma homogeneidade de massas construídas por zona funcional do conjunto urbano.

13
FIX, Mariana. São Paulo cidade global – fundamentos financeiros de uma miragem. São Paulo, Boitempo Editorial, 2006, p. 168.

14
BENÉVOLO, Leonardo. A cidade e o Arquiteto. São Paulo, Editora Perspectiva, 2001, p. 32.

15
Jornal Valor Econômico, edição de 26 de março de 2007, reportagem “Tecnisa vai criar novo bairro na Barra Funda”.

sobre o autor

Euclides Oliveira é o titular do escritório Euclides Oliveira Arquiteto SC Ltda. Foi sócio do arquiteto Sergio Pileggi de 1973 à 2002 no escritório Sergio Pileggi & Euclides Oliveira Arquitetos. Tem obras premiadas pelo IAB-SP nos anos de 1977/ 83/ 87/ 92/ 94 e 2002, bem como as medalhas de prata e ouro dos 45º e 47º SPBA. Além de menções honrosas, foi premiado em concursos públicos e privados nos anos de 1982/ 85/ 95/ 2004 e 2006

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