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architexts ISSN 1809-6298


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português
Este artigo apresenta o modo de morar em superquadra sob a perspectiva da população residente. O estudo analisa os aspectos físicos, funcionais e sintácticos dos espaços habitacionais, salientando sua influência no uso destes espaços

english
Tânia Beisi describes the daily life within the "superblock" in Brasilia from the point of view of the user and inhabitants

español
En este artículo Tânia Beisi Ramos presenta la vida de la supercuadra de Brasília desde el punto de vista del que vive en ella


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BEISL RAMOS, Tânia. Superquadra: vida suspensa. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 112.04, Vitruvius, set. 2009 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.112/27>.

A superquadra é uma solução residencial experimentada há mais de quarenta anos. Planejada, desenhada, criticada e defendida, envolve um modo de morar que percorreu um caminho próprio: o da adaptação, do ajuste às circunstâncias proporcionadas em diferentes momentos da história da construção da cidade.

As primeiras superquadras começaram a ser erguidas há pouco mais de cinco décadas. Na altura da inauguração de Brasília a superquadra foi desacreditada com o argumento de que “não oferecia condições mínimas de habitabilidade” (1). Entretanto muitos limites, quantitativos e qualitativos, relacionados à satisfação das exigências destes espaços habitacionais foram sendo superados. Os blocos continuaram a ser construídos. O comércio foi se instalando. A população, de diferentes locais do país, procurou acomodar-se a uma cidade que é, em tudo, distinta da de origem, independentemente do local de procedência. Para muitos que iriam habitar as superquadras, a transferência para a capital significou uma imposição profissional. Durante algum tempo a vida esteve suspensa, dividida entre o existente e o conhecido, e o futuro e o desconhecido, perplexa, entre a admiração e surpresa pela efetiva construção da nova capital e as expectativas pós mudança.

Uma interpretação sobre o modo como a população residente se apropriou da superquadra é aqui proposta. Entre desencantos e deslumbramentos, interessa destacar o modo como a superquadra reforçou a identidade da capital, que tem na modernidade a sua característica singular. E interessa conhecer o modo como os moradores das superquadras usam e apreciam o seu espaço habitacional. O texto apoia-se nos procedimentos metodológicos utilizados no desenvolvimento da tese de doutorado intitulada Os Espaços do Habitar Moderno: Evolução e Significados (2). O estudo centrou-se na análise de desempenho do espaço construído - caracterização física, funcional e sintáctica dos espaços da habitação em uso (3) -, e baseia-se na opinião da população residente, anónima, alguns poucos identificados, que facultaram informações orais, escritas e gráficas, e que contribuíram ao responder os inquéritos (4). Foram aplicados nas superquadras mais de dois mil e seiscentos inquéritos, e dentre o número total recolhido, duzentos e setenta e três foram considerados no estudo. A recolha de informação por meio de um questionário estandardizado foi realizada em trinta e três tipologias habitacionais distintas, dispersas pelas faixas cem, duzentos, trezentos, quatrocentos e setecentos, sul e norte, do Plano Piloto. Para além de procurar esboçar um quadro socioeconômico da população, o inquérito com cento e quarenta e quatro questões procurou aferir o grau de satisfação da população relativamente às diferentes escalas dos espaços em que vive - da cidade (considerando o posicionamento da superquadra no Plano Piloto), da superquadra (características físicas e proximidades ao local de trabalho, estudo, equipamentos coletivos, comerciais, áreas verdes e etc.), do bloco (número de andares, dimensões, características físicas, iluminação, segurança dentre outros aspectos) e do apartamento (tipos e número de espaços, distribuição em planta, dimensões, condições de iluminação e de ventilação e etc.).

Procurou-se identificar as transformações realizadas no interior do apartamento, diferenciando-as daquelas que os moradores gostariam ainda de realizar e que até o momento não foi possível, esboçando um desejo de reajustamento e de procura da situação adequada.

Entre o previsto e o existente

As superquadras, inseridas numa sucessão de quadriláteros dispostos ao longo do Setor de Habitação Coletiva do Plano Piloto, são reconhecidas individualmente. São em número finito. Têm endereços semelhantes – letras e números que orientam e informam o seu posicionamento no desenho da cidade. Mas são também mencionadas consoante a proximidade de equipamentos comerciais e serviços existentes nas suas adjacências. Estão implantadas em sequências simples ou duplas; combinam blocos residenciais com alturas semelhantes – inicialmente seis, depois três, e pontualmente dois, quatro, cinco e sete pisos. Os blocos têm dimensões desiguais, surgindo por vezes a dobrar – blocos duplos geminados que ocupam a extensão lateral da quadra e definem uma grande frente construída, entretanto permeável devido a presença dos pilotis. Apresentam modos de implantação distintos relativamente ao quadrilátero que delimita a superquadra e distinguem-se pelas fachadas em ‘panos corridos’ – vidro ou cobogós - e pela combinação destes elementos com outros tipos de aberturas.

Inicialmente o bloco pristino, a lâmina, domina a organização do espaço da quadra. Depois, passa a partilhar este espaço com edifícios quadrangulares e edifícios em ‘H’, para então passar a apresentar alterações volumétricas inseridas pela presença de varandas, que conferem movimento às fachadas. Apresenta larguras variáveis, e em algumas situações divide o terreno da quadra com habitações geminadas unifamiliares.

Embora existam edifícios implantados diretamente sobre o solo, a grande maioria dos blocos habitacionais está implantada sobre pilotis. A ideia consiste em: 1) privilegiar o espaço público anunciando que residir nas superquadras implica ter a vida suspensa, elevada do solo segundo uma proposta de verticalização da habitação que liberta o espaço térreo, tornando-o permeável ao movimento pedonal; e 2) estabelecer uma relação de complementaridade entre a habitação, suspensa sobre pilotis e os amplos espaços livres de uso coletivo, equipamentos e serviços, promovendo novas relações espaciais e sociais.

Mas o que era característica marcante da cidade, o livre atravessamento do solo tem sido objeto de alterações: cercas vivas, gradeamentos e encerramento de espaços destinados a diferentes funções. Razões não faltam. Para alguns deve-se à “má localização do bloco na quadra”, que faz com que “haja grande número de pessoas que atravessam os pilotis”: os visitantes. Para outros a “utilização do estacionamento público por pessoas não residentes na quadra” promove a presença e a circulação de estranhos nos seus espaços. A localização dos “bares junto às áreas habitacionais” e a presença de “barracas comerciais junto à área verde”, também constituem motivos para as presenças consideradas ‘inconvenientes’.

Seja qual for a explicação e visando uma maior segurança, os percursos pedonais são, cada vez mais, restritos e condicionados por barreiras topográficas definidas pela implantação do bloco sobre plataformas, que impossibilitam o seu atravessamento transversal; mas também por barreiras verdes e por grades em locais estrategicamente selecionados. Há entretanto, uma percepção de que a cerca viva permite camuflar ocasiões de perigo, por isso a utilização deste meio para garantir privacidade ao pilotis tem vindo a encontrar alguma resistência pelos próprios moradores. Estes continuam, entretanto, a pugnar por melhores condições de manutenção dos espaços de vida quotidiana traduzida por pedidos de “aumento da iluminação das áreas do bloco” e maior segurança. A opção passa muitas vezes pela instalação das ‘guaritas’ nos pilotis e dos sistemas internos de videovigilância.

Entre o existente e o desejado

As associações de moradores – as prefeituras - de cada superquadra têm, elas próprias, se ocupado da manutenção da iluminação, da recuperação de calçadas e da realização e conservação de jardins, de uso comum, assumindo de modo interessado e procurando, com recursos arrecadados entre os moradores da quadra, não somente dar as respostas possíveis aos problemas de âmbito local, como promover o convívio entre moradores (festas juninas, bingos, aulas de ginástica, comemorações diversas). Estão cientes da “contribuição dada para o aumento da qualidade de vida na superquadra”, e referem-se a cada uma delas como “única”.

Aspectos francamente positivos estão relacionados com a facilidade na identificação da superquadra na cidade, com o reconhecimento do bloco na quadra e com a presença da vegetação abundante. Enquanto as queixas referem-se em grande parte à inexistência de espaços para a cultura e o lazer.

Na realidade, a não construção da totalidade das unidades de vizinhança – ‘bairros’ - como planejado significa que a vida na superquadra, tal como foi idealizada, ‘inventada’ por Lucio Costa, está suspensa, interrompida e ainda por completar. É verdade que parte da população utiliza equipamentos (como os clubes privados) localizados no exterior das superquadras, mas isto ocorre especialmente nos finais de semana. A proximidade destes equipamentos no dia-a-dia tem outro impacto. Por isso, e com olhos postos no exemplo da unidade de vizinhança formada pelas superquadras 107, 108, 307 e 308 Sul, e convencida de que a implementação do projecto original virá acarretar melhorias na vida quotidiana, os moradores das demais quadras tem se movimentado no sentido de resgatar esta idéia. Enquanto se consegue a aprovação para a construção de um clube de vizinhança, em outras situações simplesmente se certifica que não surja, de repente, um equipamento indesejado onde inicialmente estava previsto um outro, cientes porém, de que contra os interesses do setor imobiliário, por vezes, resta apenas a resignação.

Ainda assim, a complementaridade de funções sustentada pela diversidade de serviços de apoio à habitação e pela especialização do comércio local, localizados nas entrequadras, continua a ser um dos pontos fortes da superquadra. Curiosamente, há equipamentos que começam a ser menos apreciados como é o caso das escolas públicas, situadas no ‘coração’ das superquadras e base de estruturação da unidade de vizinhança. Implantadas de modo profundo no interior das superquadras, é preciso percorrer acessos sinuosos que contornam blocos, espaços ajardinados e estacionamentos para chegar até estas escolas. Esta situação associa, repetidamente, a insatisfação dos residentes ao ‘’barulho” e ao “vandalismo” que se verifica no interior da quadra. Refere-se ainda à proximidade da ‘Escola Parque’ como a causa para a “persistente poluição sonora”. Para os moradores o mau funcionamento da engrenagem passa ainda pelo “número insuficiente de vagas de estacionamento” automóvel para a procura diária, “circulação de transportes escolares velhos, barulhentos e poluentes” e pela “presença de estranhos no interior da quadra”. Em algumas destas superquadras os moradores se uniram em um abaixo-assinado e, recorrendo a órgãos jurídicos, conseguiram a redução dos anos de escolaridade a funcionar na escola da respectiva quadra. A decisão implica a diminuição da carga horária e consequentemente da presença e do número de alunos, vindos na maioria de outras cidades do Distrito Federal. É importante referir que estas escolas são frequentemente utilizadas pelos filhos dos trabalhadores das próprias superquadras. São alunos que, estando longe do seu local de residência, estão entretanto, próximos do local de trabalho de pelo menos um dos pais. Ainda em outras superquadras em processo de construção, os moradores recusam, a partida, a implementação do equipamento escolar como parte integrante do conjunto edificado da quadra. Se esta postura vier a estender-se, o conceito de unidade de vizinhança apoiado nas distâncias máximas percorridas entre ‘casa-escola’ e aplicado nas superquadras do plano piloto, perder-se-á. De qualquer modo é ainda importante referir que esta alteração no percurso proposto não é de hoje. Por um lado, nem sempre existiram equipamentos educacionais para os níveis de escolaridade pretendidos nas proximidades da superquadra, promovendo a dispersão da população estudantil. Enquanto por outro lado, uma larga fatia desta população não frequenta, há tempos, as escolas públicas localizadas nas superquadras, mas sim os colégios privados situados no exterior e, não raras vezes, bem distante das superquadras de origem.

No interior da superquadra surgem ainda diferentes opiniões perante as soluções de projeto e a inserção da massa edificada: o acesso viário aos blocos ocorre, de modo geral, pelos “fundos” - resultado da diferenciação das fachadas principal e secundária. Em diversos blocos este acesso é delimitado pelas caixas de circulação vertical exteriores aos volumes retangulares das edificações, motivo de desagrado, apesar de essa implantação privilegiar a fachada principal, e orientar os espaços sociais da habitação para amplos espaços verdes. Outro exemplo, em blocos recentes com empenas laterais mais largas e maior número de apartamentos (de dois para quatro apartamentos por piso), não há diferenciação das fachadas principal e secundária, uma vez que ambas apresentam características de fachada principal. Curiosamente são os moradores a sugerirem aos projectistas que “situem as caixas de elevadores e escadas no exterior do bloco” de modo a “alterar os espaços estreitos, pequenos e sem iluminação natural que resultam desta distribuição”. Independentemente das diferentes opções de organização espacial interna e sua implicação na existência ou não de volumes salientes nas fachadas, a preocupação comum que permanece reiteradamente, em ambas as situações, é a “criação de um sistema que iniba a passagem de estranhos nos pilotis”.

Isto porque, para a população, os pilotis, assim como os espaços comuns do bloco, são considerados prolongamentos do espaço privado da habitação, ou seja, a superfície de terreno equivalente à ‘projeção’ assume um caráter privado, e implica uma proximidade entre o ‘estar debaixo do bloco’ e o ‘chegar em casa’, que não existe entre este ‘chegar em casa’ e o ‘chegar à quadra’, encarado como um simples ‘estar perto’.

A imagem pública do bloco em que reside assume especial importância, e a população demonstra interesse pela sua “modernização”, o que para eles consiste em “melhorar efetivamente o bloco e não apenas manter o existente”. Esta preocupação traduz-se em iniciativas como a “construção de jardins na frente e nas laterais do bloco”, “reformas em lixeiras e elevadores”, “construção de salões de festas (5), depósitos de bicicletas, guaritas nos pilotis e copa para empregados”, “colocação de toldos para protecção de cargas e descargas”. A sua opinião traduz ainda o facto de os andares altos terem grades nas janelas - “os blocos parecem gaiolas” e incomodam-se com a conversa entre moradores nos apartamentos e outras pessoas no térreo, defendendo para esta situação o “uso dos interfones”. Apontam a repetição tipológica e a “demasiada homogeneidade dos blocos mais antigos” como “cansativa” comparativamente “aos novos blocos [que] prevêem fachadas diferenciadas”. Outros ambicionam que nos blocos antigos, os “brises” ou as “caixas de sombra sejam transformadas em varandas dos apartamentos” e que as “áreas de estacionamento junto ao bloco sejam transformadas em área privativa e coberta” para fazer frente ao “número insuficiente de vagas de estacionamento” automóvel pois “há mais carros nos blocos do que moradores”.

Confrontados com projectos de blocos de sete pisos de construção recente, alguns moradores dos blocos da fase construtiva inicial da cidade propõem “um estudo para o aproveitamento da cobertura dos blocos para áreas de lazer”. Os argumentos escudam-se na tentativa de trazer o convívio social para o espaço interior, numa solução que além de acrescentar um piso ao número inicialmente definido, transfere para a cobertura, individual ou coletiva, o uso previsto para o nível do solo.

Blocos com o piso da cobertura construído no Plano Piloto são uma realidade. A alteração de gabarito é significativa, chegando ao ponto de se repensar legislativamente a sua continuidade. Muitos blocos estão ainda por construir. Em todo o caso não custa relembrar a advertência do próprio Lucio Costa, em inícios da década de 70: “os empreendedores imobiliários interessados em adensar a cidade com o recurso habitual do aumento de gabaritos; e aos arquitetos e urbanistas que reputando ‘ultrapassados’ os princípios que informaram a concepção da nova capital e a sua intrínseca disciplina arquitetônica, gostariam de romper o princípio dos gabaritos preestabelecidos, gostariam de jogar com alturas diferentes nas superquadras, aspirando fazer de Brasília uma cidade de feição mais caprichosa, concentrada e dinâmica, ao gosto das experiências agora em voga pelo mundo; gostariam, em suma, que a cidade não fosse o que é, e sim outra coisa” (6).

A introdução de espaços destinados às atividades de lazer na escala habitacional do bloco será mesmo a maior inovação no modo de viver a superquadra, pois permite valorizar a habitação através da inserção de espaços de uso coletivo nas suas imediações diretas. As alterações ocorrem ao nível das coberturas, dos pilotis, e também nas varandas dos apartamentos que, entretanto, surgem nos blocos mais recentes como espaço de transição entre o espaço privativo da habitação e o espaço público exterior (7). A volumetria dos blocos altera-se completamente, o edifício pristino da fase inicial de construção da cidade passou a ‘caso de estudo’ de pesquisas que se lançam no resgate da história arquitetônica de Brasília. Exaustivamente divulgados desde a época da construção e inauguração da cidade, esses blocos diferenciam-se daqueles de construção recente, pelas dimensões, forma, materiais, cores e tipos de abertura em relação ao exterior, mas também pelo programa e pela organização espacial das tipologias da habitação.

Porém, apartamentos de ambas as épocas são alvo de reformas ou alterações.

O esquema interno do apartamento definido por Niemeyer na primeira fase de construção da cidade orienta outras situações e se prolonga no tempo. O programa funcional, estruturado segundo três setores – social, privativo e serviço –, organiza a habitação de modo que, por meio do primeiro se tenha acesso aos demais. Quando isto não acontece, será o corredor de distribuição do apartamento, com maior proximidade ao setor privativo, que irá promover o acesso aos espaços de serviço (cozinha, área de serviço e dependências).

Menos numerosos são os casos em que se tem mais de uma alternativa de percurso no interior do apartamento, podendo-se ir de um a outro setor funcional diretamente e sem espaços intermediários. Algumas das alterações realizadas promovem esta reorganização dos percursos de circulação, na tentativa de permitir uma distribuição em ‘anel’, abaixo exemplificada. Constituem alterações profundas no apartamento, sendo mesmo uma situação pretendida por diversos moradores. Implica facilitar o acesso aos diversos espaços do apartamento sem encontrar eventuais visitas nestes percursos.

Grafos dos espaços da unidade habitacional e dos distintos setores funcionais – original e com alterações -, com indicação do percurso em ‘anel’ na segunda opção. Os grafos representam as relações topológicas estabelecidas pelos espaços do apartamento.

Agrupamentos de compartimentos contíguos – sala/quarto e sala/cozinha, com a intenção de “ganhar área”, ou intervenções de modo a criar novos espaços pela divisão de outros dando origem, por exemplo, ao lavabo, bem como as alterações relacionadas à substituição e renovação dos materiais de acabamento, armários da cozinha, pinturas e reforço da segurança do apartamento são referidas com frequência tanto como ‘realizadas’ e ‘por realizar’, sendo claramente perceptível o investimento já feito pelos moradores nos imóveis mais antigos, muitos deles ex-apartamentos funcionais, após a sua aquisição. As maiores críticas referem-se à ausência da ‘copa’ como espaço independente no sector de serviço, dado que a cozinha passa a ser assumida, cada vez mais, como local de permanência e convívio familiar, sobrepondo-se aí diversas actividades.

Nos blocos recentes, os casos analisados apresentam uma especialização funcional, acompanhada de uma maior compartimentação dos espaços dos apartamentos - a área social abrange espaços delimitados ao hall, sala de estar, sala de jantar, sala de tv, escritório. A varanda surge como local de extensão do espaço interior e está, na grande maioria das vezes, fechada e incorporada aos espaços sociais ou privativos. O quarto será local de sobreposição de atividades, como o estudo, o trabalho, as atividades físicas, a tv e o descanso. Neste caso, os espaços acessíveis pelo setor privativo passam a sê-lo também pelo social, de modo a, novamente, permitir o percurso em ‘anel’ dentro da habitação. Queixas frequentes referem-se aos “banheiros sem ventilação natural”.

De modo geral as alterações realizadas correspondem à actualização do interior doméstico tendo em vista novas exigências. São reajustes feitos segundo novas circunstâncias, e são também uma tentativa de personalização da habitação de modo a se destacar na uniformização existente.

O que se verifica

Com forma urbana e características dimensionais definidas, a superquadra deveria estar integrada nas unidades de vizinhança previstas por Lucio Costa, que se repetiriam ao longo das ‘asas’ do Plano Piloto. O que não acontece. E ainda assim, pretende criar vínculos de vizinhança ao localizar equipamentos coletivos e serviços na sua área de abrangência, dotando-a de alguma autonomia relativamente às necessidades quotidianas dos moradores e situando a ‘escola’ no seu núcleo.

Com o tempo, este modo de morar tem vindo a sofrer alterações. Mas com ‘limões faz-se uma saborosa limonada’. E a superquadra apresenta uma imagem positiva, segundo a avaliação que dela fazem aqueles que efectivamente lá residem. Da população inicial, muitos dos que vieram transferidos permaneceram. Conhecem bem as superquadras. Em 60% dos casos estudados a habitação anterior estava localizada em outra quadra do Plano Piloto. Estão organizados em associações de moradores, conhecem os problemas, sugerem soluções e participam. A convivência em família distribuída por quadras vizinhas ocorre há três gerações. Admitem que “adquiriram qualidade de vida” ao optarem pela superquadra e muitas vezes o “regresso ao local de origem está fora de questão”. Muitas das alterações realizadas no interior do apartamento refletem o modo como a população tem procurado adaptar o espaço de residência às novas expectativas e necessidades surgidas ao longo do tempo.

Há já algum tempo as características físicas das primeiras superquadras deixaram de ser modelo para aquelas posteriormente construídas. As tipologias habitacionais que até certo momento constituíram elas também, exemplos para os projetistas que se ocuparam em construir o eixo residencial, deixaram de o ser. A cidade está a experimentar alterações e as que mais interferem no modo de viver a superquadra ocorrem ao nível do bloco. A presença ou a ausência de equipamentos colectivos e serviços nas proximidades da superquadra influenciam o modo como a habitação é utilizada. Do mesmo modo, a introdução de novos espaços funcionais no bloco influencia o modo de usar os espaços envolventes. Quanto maior é a sobreposição de espaços e de funções destinados ao convívio social no bloco, menor será o uso dos espaços públicos, correndo o risco da ‘limonada azedar’. Há um prolongamento das relações sociais estabelecidas entre o uso da habitação e o uso dos espaços exteriores. Esta associação permite identificar a superquadra como uma referência cuja imagem tem vindo a renovar-se, mas não os seus princípios orientadores. A preservação da escala quotidiana enquanto espaço permeável, arborizado e de uso coletivo volta a ser defendida (8). Em atenção ao Plano Piloto, patrimônio urbanístico tombado? Com certeza, mas também em atenção ao modo inovador e excepcional de morar em superquadra que continua a agradar àqueles que nela vivem.

notas

1
KUBITSCHECK, Juscelino. 50 Anos em 5. Meu Caminho para Brasília. Rio de Janeiro, 3º Vol. Bloch Editores, 1978.

2
RAMOS, Tânia Beisl. Os Espaços do Habitar Moderno: Evolução e Significados. Os Casos Português e Brasileiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2006. Publicação da tese de doutorado realizada no período 1997-2003 (Universidade Técnica de Lisboa/Universidade de Brasília).

3
Os instrumentos analíticos utilizados no desenvolvimento do trabalho apoiam-se nas técnicas da Avaliação Pós-Ocupação (APO), bem como na metodologia da Sintaxe Espacial de HILLIER, Bill e HANSON, Julienne. The Social Logic of Space. Cambridge University Press, Cambridge, 1984.

4
A aplicação de inquéritos à população residente das superquadras do Plano Piloto realizou-se entre 1999 e 2001.

5
Em visita recente à cidade (Abril 2009) foi notada uma alternativa para o uso dos pilotis como salão de festas. A medida consiste na instalação de toldos fixos enrolados no teto do piso térreo, que ao serem verticalmente abertos delimitam, temporariamente, uma área dos pilotis para o uso privado. Voltando a ser enrolados a área dos pilotis é reassumida como espaço público.

6
Referência à ‘carta de Lucio Costa ao Senador Catete Pinheiro em 1974’ in COSTA, Maria Elisa (Org) Com a Palavra Lucio Costa. Rio de Janeiro, Editora Aeroplano, 2001.

7
As varandas passam a incluir churrasqueira privativa como equipamento permanente.

8
IPHAN. Plano Piloto 50 Anos: cartilha de preservação – Brasília. IPHAN/15ª Superintendência Regional, Brasília DF, 2007.

sobre o autor

Tânia Beisl Ramos, arquitecta pela Universidade de Brasília (1988), é Mestre (1997) e Doutora (2003) pela Universidade Técnica de Lisboa. A tese de doutorado Os Espaços do Habitar Moderno: Evolução e Significados foi publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian/FCT (2006). Recebeu um prémio na VI BIAU (2008), na categoria Projectos de Investigação, em co-autoria com Madalena Cunha Matos. Actualmente desenvolve actividades de investigação, explorando as reciprocidades nos campos urbanístico e arquitectónico entre o Brasil e Portugal

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