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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
Há mais de cem anos aconteciam duas experiências singulares com reflorestamento em zona urbana, envolvendo a questão da água: o Park Güell, em Barcelona, e a recuperação da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro

english
Over a hundred years ago happened two singular experiences with reforestation in urban areas, involving the water issue: The reforestation of the Park Güell in Barcelona and the recovery of Tijuca Forest, in Rio de Janeiro


how to quote

BASTOS, Claudio Lisias da Silva; INACIO, Marcia de Fátima. Reflorestamento urbano. Dois casos históricos para uma reflexão sobre o presente. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 127.01, Vitruvius, dez. 2010 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.127/3700>.

O período compreendido entre as últimas décadas do séc. XIX e as primeiras do séc. XX representa um momento de expansão das cidades promovido pelo rápido crescimento do setor industrial urbano. Este quadro significaria a condenação ao desaparecimento da quase totalidade das massas vegetais autóctones existentes no meio urbano ou em suas proximidades. No caso do Rio de Janeiro, a eliminação da flora nativa começara bem antes, com a invasão do Coffea arabica, cultura que iria substituir praticamente toda a cobertura vegetal original da Serra da Tijuca e de outros locais da então capital do Brasil.

Rugendas, “Desmanche de uma floresta”, c.1820-1825. [Centro de Documentação D. João VI.]

Trazida de forma clandestina em 1727, a planta do café (1) encontraria nas altitudes serranas do entorno carioca a condição ideal para se propagar e, com seus frutos, criar uma das principais ondas de desenvolvimento do Brasil pré-industrial. Tal êxito iria significar a sentença de morte para centenas de milhares de árvores que desde tempos imemoriais - salvo alguns episódios isolados de corte para uso da madeira, do carvão ou para a plantação de cana de açúcar - estiveram povoando as encostas das serras do Rio de Janeiro. O arbusto do Coffea arabica, estendido aos milhões por todo o solo aproveitável, substituiria a diversidade exuberante dos ipês, aroeiras, jequitibás, jacarandás, cedros, quaresmeiras, canelas, muricis...

Rugendas, “Colheita do café”, 1835. [NYPL Digital Gallery]

Na Europa a devastação não se limitaria ao entorno urbano, mas se estenderia por todo o território em função da demanda de lenha para combustível doméstico e industrial, assim como para outras necessidades, como a construção naval e a civil. Esse quadro seria especialmente trágico na Espanha, onde, devido à pouca disponibilidade de carvão mineral, optou-se pelo carvão vegetal (2) para alimentar as máquinas de vapor das indústrias. O desflorestamento generalizado do território espanhol iria provocar reações que seriam especialmente significativas na Catalunha, província que detinha o título de motor da expansão industrial na Espanha. Curiosamente, entre aqueles que manifestaram sua oposição ao desmatamento se encontravam, na linha de frente, personalidades do mundo dos negócios, tanto industriais como empresários agrícolas, cujos ganhos vinham em grande parte de atividades que provocavam o mesmo desmatamento que era objeto de suas críticas. Era o caso de Eusebio Güell, industrial do ramo têxtil, mecenas de artistas importantes, entre os quais o arquiteto Antonio Gaudí.

Desafios

Güell participava ativamente dos movimentos intelectuais que pregavam as virtudes do campo e da vida nas montanhas, o valor das nascentes de água e das florestas. Estivera à frente da campanha para a reativação dos Jogos Florais, festival literário que enaltecia a natureza catalã; participara da direção do IACSI, Instituto Agrícola Catalão de Santo Isidro, entidade que defendia os interesses agrários e florestais. Além disso, Eusebio Güell se notabilizara pela recuperação da área rural conhecida como “Quadra do Garraf”, região ao sul de Barcelona que sofrera uma séria degradação ambiental devido a práticas agrícolas inadequadas. Assim, não seria estranho que, alguns meses depois de criado o “Dia da Árvore” na Catalunha este mesmo Güell adquirisse (1899) um terreno degradado na periferia de Barcelona (3) e decidisse transformá-lo em um parque arborizado, tarefa para a qual iria contratar o arquiteto Gaudí. O terreno era uma encosta voltada para o mar, numa colina situada na periferia de Barcelona, conhecida, sugestivamente, pelo nome de Montanha Pelada.

Era um desafio importante, já que o terreno, acidentado e com a camada superficial de terra bastante danificada pela erosão, perdera a quase totalidade de sua vegetação e tivera seu solo revolvido para a extração de pedras e de minério de ferro, o que explicava o nome dado à colina. Além disso, não havia no local água suficiente para apoiar as tarefas de plantio e irrigação, nem se podia contar com a água do sistema urbano, cuja pressão era insuficiente para alcançar as altitudes do local de implantação do parque. Resumindo: ao arquiteto responsável pela obra só restava a captação de água da chuva.

Anos atrás outro desafio relacionado à água iria ser enfrentado por um reflorestador, a milhares de quilômetros dali. A aventura cafeicultora no Rio de Janeiro resultaria em grave dano para o ciclo hidrológico, ao suprimir o dossel amortecedor da chuva representado pela copa das árvores. O cafezal, plantado sem os cuidados elementares de acompanhar as curvas de nível e criar valas niveladas para retenção das águas, tornaria impossível a infiltração das águas de chuva, que, ao invés disso, baixavam torrencialmente pelas encostas carregando consigo o solo fértil e assoreando vales, rios e lagoas. Aos poucos, foram minguando as nascentes de água que brotavam desde sempre no seio da floresta e que eram utilizadas pela população da cidade. A riqueza do café trazia consigo um efeito colateral de difícil solução para as condições locais e a tecnologia da época (4).

A então capital do império do Brasil, o Rio de Janeiro, enfrentava, assim, mais uma crise no seu sistema de abastecimento hídrico, agravada pela recorrência das secas. O governo imperial chegaria à conclusão que reflorestar as serras seria a única solução possível.

Vivificar a Montanha Pelada

Para Gaudí o desafio de criar um sistema hídrico não implicava algo novo, pois já projetava obras hidráulicas desde os tempos de estudante de Arquitetura (5). A novidade seria conciliar estas obras com as do sistema viário e com o parcelamento da área, uma vez que Eusebio Güell pretendia implantar ali um condomínio residencial em meio ao bosque. Dessa maneira, o arquiteto optou por criar 3 vias de circulação que cortavam o terreno de um lado a outro e mantinham um perfil aproximadamente horizontal, acompanhando as curvas de nível. Com isso garantia a interrupção das enxurradas ladeira abaixo, ao serem interceptadas por tais vias.

Chegando ao piso destas vias, a água das chuvas era absorvida pelo leito poroso, constituído por camadas sucessivas de brita e terra arenosa. Em locais estratégicos foram criados largos de formato semicircular acoplados à via, os quais recolhiam as enxurradas mais fortes e as drenavam para escadarias conectadas à parte mais baixa do muro de contenção do largo. Para seu bom funcionamento, este muro de contenção apresentava a alvenaria de pedra com juntas secas alternando com juntas abertas, num desenho escalonado, de modo que a água infiltrada fosse drenando lentamente em direção à escada. Além de funcionarem como elemento drenante, as escadas serviriam também para o deslocamento de pedestres e como divisores entre os lotes, ao passo que os largos semicirculares serviriam como área de manobra das carruagens.

Mais abaixo, as águas que desciam pelas escadas seriam novamente reabsorvidas por vias porosas, e acabariam em elementos subterrâneos de retenção, como em bacias enterradas (que disponibilizavam a água para as plantas) ou em cisternas. A principal destas cisternas se encontra, ainda hoje, debaixo de uma enorme sala repleta de colunas, sala esta cuja destinação original era servir de mercado para o condomínio. Aqui Gaudí iria criar um dos elementos mais interessantes do sistema de captação de pluviais do Park Güell.

Por cima do mercado fica a praça principal do parque, conhecida como Teatro Grego, que tem uma área pouco menor que a de um campo de futebol, e cuja função original incluía precisamente servir para os moradores praticarem esportes, como o tênis ou o futebol, além das funções típicas de uma praça. Além disso, graças a seu piso permeável, igual ao das vias de circulação já citadas, a praça funcionaria como captador de água da chuva. Esta desceria pelo miolo das colunas do mercado, que seriam quase todas ocas, até o interior da grande cisterna localizada abaixo do piso do mesmo mercado. Este sistema era conhecido e perfeitamente descrito desde os primeiros cronistas do parque, como Salvador Sellés e Joan Bergós. Mas o que não se comentara era o fato de que a captação para a grande cisterna, que tinha capacidade para 1.200.000 litros, não poderia se limitar à superfície da praça, pois com essa capacidade, e com os baixos índices pluviométricos de Barcelona – aproximadamente 600 mm anuais – tal superfície de captação estaria a toda vista subdimensionada. Entendemos que grande parte da encosta acima da praça funcionaria também como área de captação da cisterna, mercê do sistema vias/largos/escadarias anteriormente descrito.

Vale notar que a parte da praça suportada pela colunata assenta-se sobre um inteligente sistema estrutural que inclui vigas em arco e pequenas cúpulas pré-fabricadas, apoiadas sobre o topo das colunas. Por cima deste conjunto viriam – hoje não é mais assim (6) – as camadas filtrantes de brita e arenoso. Ao penetrar nestes elementos de filtração, a água era direcionada – hoje não é mais – ao topo das colunas pela curvatura das cúpulas, descendo então pelo duto no interior dessas colunas.

Restauração do piso da Praça do Teatro Grego em 1973, vendo-se as cúpulas que desviavam as águas da chuva para o interior das colunas ocas. [Cátedra Gaudí]

As mesmas cúpulas pré-fabricadas utilizadas na estrutura de sustentação da praça seriam enterradas, de forma invertida, ou seja, com a boca para cima, em locais estratégicos das vias mais baixas, para reter a água infiltrada. São as bacias subterrâneas a que nos referimos antes, sobre as quais foram plantadas palmeiras e arbustos para que suas raízes se aproveitassem desse freático artificial.

Palmeiras plantadas sobre cúpulas invertidas, à avenida principal (Passeio das Palmeiras), em detalhe de um cartão- postal de 1905. Notar o desenvolvimento da vegetação ao fundo. [Cátedra Gaudí]

As bacias subterrâneas, tal como a cisterna sob o mercado, já haviam sido descritas desde o início do parque, mas nada se havia comentado até então sobre outros elementos de retenção hídrica criados por Gaudí. Através de moradores antigos das vizinhanças do parque (7) chegamos à constatação da existência de outras seis cisternas, bem menores que a já citada, mas que em seu conjunto representariam um importante volume de água armazenada. Tais depósitos, parte deles inacabados, foram inteligentemente criados nas cabeceiras de 3 viadutos existentes no lado leste do parque. Estes viadutos fazem parte de um caminho sinuoso que conecta a via mais alta do parque às duas vias mais baixas, de modo que, com eles, se mantém uma inclinação suave e constante no leito da estrada, facilitando o deslocamento das pessoas e evitando a descida violenta das enxurradas. No encontro do extradorso do viaduto com o terreno sobra um espaço de perfil triangular, o qual comumente se preenche com aterro entre muros de contenção. Ao invés de preenchê-los com terra, Gaudí aproveitou os espaços vazios para transformá-los em depósitos de água, os quais, depois de concluídos, fariam parte do sistema de captação de pluviais do parque.

Com o apoio desse sistema hídrico, ainda que incompleto, foi possível ao arquiteto enfrentar as tarefas de reflorestamento do local, distribuindo as mudas em grupos da mesma espécie, de forma mais ou menos aleatória, e elegendo espécies autóctones, “seguindo os ensinamentos da natureza”, como sugeria o engenheiro florestal E. Thiéry (8) em um texto sobre reflorestamento contemporâneo ao projeto do parque de Gaudí. Caso a ideia do condomínio residencial vingasse, o sistema seria utilizado para fornecer água de serviço aos condôminos. Mas, com o fracasso do empreendimento, as obras foram interrompidas (9) e os elementos hídricos que haviam sido construídos foram aos poucos sendo desativados. Hoje as cisternas encontram-se vazias, as vias que deveriam ser porosas estão impermeabilizadas, e o sistema das colunas ocas da praça já não funciona mais. Entretanto, a proposta de utilizar água da chuva para apoiar o reflorestamento foi bem sucedida, a julgar pela vegetação que Güell e Gaudí legaram ao futuro, apesar dos episódios de corte e queima de árvores ocorridos em momentos conflituosos, como durante as guerras. Tampouco foi mantida a ideia original de cobrirem-se as estruturas externas de pedra – colunas, muros de contenção - com plantas trepadeiras e pendulares (bougainville, jasmim, hera, bela-emília, ipoméia), fato comprovado no exame de fotografias de época e citado por biógrafos importantes como Joan Bergós e Enric Casanelles (apesar de que, em alguns setores, ainda ocorre o recobrimento da pedra pela vegetação).

Mudas de trepadeiras plantadas ao pé das colunas de um dos viadutos, em detalhe de um cartão-postal de 1914. Atualmente as colunas dos viadutos estão desprovidas de vegetação. [Cátedra Gaudí]

Trecho de muro de contenção ao longo do Passeio das Palmeiras, em foto do início do século XX. [Cátedra Gaudí]

Trepadeiras sobre pedras no Passeio das Palmeiras.
Foto MFI

Hera sobre muro de contenção na rua mais baixa do parque, próximo à entrada pela Calle Olot.
Foto MFI

Outro aspecto a considerar é o fato de que Gaudí optou por plantar majoritariamente mudas de pinheiros (Pinus halepensis e Pinus pinea), embora tenha utilizado também, em menor quantidade, amendoeiras, avelaneiros, cedros, carvalhos, etc., e até espécies exóticas, como o eucalipto. Ao parecer, estaria seguindo os ensinamentos de engenheiros florestais franceses, como o citado Thiéry, no sentido de que a recuperação de encostas erodidas deveria começar com a plantação de espécies rústicas como o Pinheiro-de-Alepo (Pinus halepensis), as quais recuperam o terreno e o preparam para o advento de espécies próprias da vegetação original. Ou seja, propiciando a deflagração da sucessão vegetal, embora esta noção ainda não estivesse cientificamente desenvolvida. Se assim foi, o manejo do parque deveria levar em consideração a eclosão de exemplares de outras espécies, como os carvalhos e outros Quercus, frondosas características da vegetação clímax daquela zona mediterrânea, fato que não acontece nos dias atuais. Como resultado, ao invés de uma massa vegetal mais próxima da clímax, o que se tem hoje no Park Güell é um pinheiral no meio do qual ocorrem outras espécies arbóreas.

Exemplares de Pinus halepensis.
Foto MFI

Assim, a paisagem atual do Park Güell (hoje um parque municipal) não é, no todo, fiel às ideias originais dos seus criadores, que a imaginavam mais verde e mais exuberante. Mas, apesar disso, aquela vertente de cara ao mar hoje se apresenta forrada por uma vegetação abundante, com predomínio de pinheiros e ocorrência de outras árvores da flora mediterrânea – alfarrobeiras, oliveiras, carvalhos –, contrastando com os terrenos vizinhos desta elevação que já não é mais conhecida como “Montanha Pelada”.

Velho exemplar de alfarrobeira (Ceratonia siliqua), entre as colunas de um viaduto, encontrado no local das obras e preservado por Gaudí.
Foto MFI

Exemplar de oliveira (Olea europaea) na parte alta do parque, provável remanescente da antiga exploração agrícola “Can Muntaner”.
Foto MFI

Coberturas dos pórticos da entrada principal do Park Güell, adornadas com elementos da natureza (musgo, troncos, cogumelos). Notar a pujança da vegetação ao redor, onde predominam os pinheiros.
Foto MFI

Tijuca: entre a nuvem e o pântano

O reflorestamento promovido por Güell foi um episódio pouco comum nas grandes cidades da época, com poucas exceções, como seria o caso do Central Park de Nova York, projetado por Olmsted em 1858. Poucos anos depois disso, em 1861, inicia-se o plantio de mudas de árvores para o reflorestamento da Tijuca, no Rio de Janeiro, ação que iria abarcar uma área de mais de 30 km2, dez vezes a superfície do Central Park. Hoje a floresta faz parte do PNT – Parque Nacional da Tijuca (ver nota 24), incluindo morros e montanhas com altitudes que vão de 400 a 700 metros sobre o nível do mar (10).

As encostas da Serra da Carioca, uma das elevações que compunham o complexo florestal da Tijuca, mostravam, em meados do século XIX, as marcas da passagem da cafeicultura: “[...] encostas nuas, devastadas, erodidas, por vezes cobertas com capins e samambaias [...] a flora e a fauna originais [...] virtualmente destruídas” (11). Explica Drummond que o mais importante para a vida urbana, nessa paisagem devastada, eram os riachos (12), cujas águas poucas e turvas não mais saciavam a sede dos cariocas. É verdade que a alguns quilômetros de distância havia outros mananciais com volume suficiente para abastecer a cidade, mas as dificuldades técnicas que envolviam sua condução faziam com que seguissem sendo valorizadas as águas da zona serrana da Tijuca.

Coindet, “Fábrica Meuron no Andaraí”, séc. XIX. [SECOM/ES]

Ressalta Heynemann que a questão da água não responderia por si só à empreitada levada a cabo naquele meio de século, senão que o reflorestamento agradava também aos ideais estéticos e urbanísticos da aristocracia europeia recentemente transplantada para terras brasileiras no episódio da vinda da família imperial portuguesa. Neste sentido, a “estética do sublime” em vigor no meio aristocrático, valorizando o selvagem, o montanhoso, o íngreme, aliada às novas tendências de um urbanismo higiênico e limpo, seriam elementos de peso a serem considerados na decisão governamental de desapropriar as fazendas de café e empreender a recuperação da floresta. E ela, a floresta, representaria nesse pensar estético da aristocracia a pureza e a higiene de um jardim natural, em contraste com a cidade suja, orientalizada e demasiado cálida que encontraram ao pé das montanhas. As massas vegetais replantadas, associadas a uma intensa arborização urbana, poderiam amenizar a “cuba escaldante” de que falava Ribeyrolles (13) em meados do XIX. Esta cidade seria o “pântano” de miasmas e moléstias, na visão de José de Alencar, ao falar da Floresta da Tijuca como um prazeroso lugar entre a nuvem e o pântano:

“Felizmente estava eu na Tijuca. O senhor conhece esta montanha encantadora. A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. – Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez deste céu azul. – Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade do berço. – Elevando-se a estas eminências, o homem aproxima-se de Deus. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu” (14).

É evidente que Alencar se refere a uma Tijuca já em recuperação, sete anos após o início do plantio de mudas empreendido pelo major Gomes Archer, responsável pelo reflorestamento, com o apoio fundamental do Visconde do Bom Retiro:

“Em 1853, a Serra da Tijuca ganhou um ‘aliado estratégico’ dentro do ministério de Pedro II: Luis Pedreira do Couto Ferraz, mais tarde Visconde de Bom Retiro. Morador da ‘Tijuca Imperial’ e amigo pessoal do imperador, foi na sua gestão de ministro do Império que foram feitas as avaliações de terras particulares a serem adquiridas. As propriedades ficavam nas encostas dos picos da Tijuca e do Papagaio, entre o Alto da Boa Vista, a Pedra do Conde e o Açude da Solidão” (15).

Auxiliado por 6 escravos (16) o major Archer iria plantar, até o fim da sua gestão em 1872, mais de 70 mil árvores nas encostas erodidas da Tijuca (cálculos de Drummond). Destas, 61.852 teriam sobrevivido, segundo o relatório final da gestão Archer. A maioria era de espécies nativas da Mata Atlântica: aroeira, angelim-rosa, bicuíba, canela-batalha, canela-limão, cedro-rosa, guaraúna, guarajuba, goiabeira cascuda, guaretá, guarapiapunha, jacarandá, pau-ferro, peroba, pau-brasil branco, entre outras (17). Mas introduziu exemplares de espécies exóticas, cujas mudas vieram principalmente do horto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Entre elas, a jaqueira (Artocarpus heterophyllus), embora suas mudas, ao parecer, não tenham vindo do JBRJ, mas da fazenda do próprio Archer, em Guaratiba. Em que pese seu importante papel no início do reflorestamento, por ser capaz de prosperar em áreas muito danificadas, a proliferação da jaqueira no interior da mata, chegando a formar sub-bosques homogêneos e deslocar outras espécies, tem sido objeto de preocupação por parte da administração do parque. Em vista disso, se está promovendo seu controle através da técnica de anelação (supressão anular de parte da casca do tronco, promovendo a morte da árvore por estancamento da seiva), o que tem provocado uma reação acalorada de alguns setores (18).

No entanto, o controle é necessário, não só das jaqueiras, mas de qualquer espécie que ameace a diversidade vegetal. E a diversidade parece ter sido um conceito importante na filosofia do reflorestador da Tijuca, considerando-se sua preocupação em plantar uma grande variedade de árvores, chegando a incluir exóticas como a própria jaqueira e o eucalipto. Mas a grande maioria das árvores plantadas foi realmente de espécies nativas da Mata Atlântica, levando ao quadro atual de uma floresta artificial com feição de nativa.

Segundo parece, Archer concentrava esforços nas encostas mais erodidas, cobrindo-as, como explica Drummond, com certas combinações de espécies arbóreas:

“Embora isso não seja mencionado nas fontes disponíveis, a distribuição das espécies plantadas talvez refletisse o seu conhecimento da distribuição natural das espécies nos diversos estágios de sucessão e de maturidade da floresta tropical nativa. Se isso ocorreu, teria sido uma tentativa pioneira de reflorestamento com base na imitação da complexidade biológica dessas florestas, técnica ainda hoje [1997] pouco desenvolvida e menos ainda aplicada em projetos de reflorestamento tropicais. A própria ideia de ‘sucessão vegetal’ ainda era pouco compreendida pela ciência botânica” (19).

Informações da época mostram que o plantio das espécies foi feito de modo aleatório, e não por grupos, criando assim uma aparência mais natural. O planejamento adotado por Archer levava em consideração “o tipo de solo, a conservação dos mananciais, a qualidade das madeiras (arvoredo do país), a harmonia da paisagem” (20). Drummond destaca como aspectos pioneiros neste projeto o alto índice de sobrevivência das mudas plantadas e o emprego preferencial de espécies nativas. O resultado pode ser observado por qualquer um que percorra as estradas e caminhos do Parque da Tijuca, com sua vegetação espessa, suas sombras refrescantes, seus riachos e cachoeiras. Sim, suas águas, porque aquele objetivo primordial, a recuperação dos mananciais, seria alcançado já em 1874, conforme o relatório do Major Archer datado daquele ano: “[...] todas as nascentes de rios que foram cobertas com árvores verteram mais água ou permaneceram num nível estável [em comparação com os níveis anteriores a 1862]” (21). Com isso, refutava na prática opiniões contrárias, as quais chegavam a afirmar que, ao invés de beneficiarem as águas, as árvores secavam o solo (22). A inacreditável paisagem florestal em pleno centro de uma grande cidade iria impressionar um cidadão português que se transferira para o Rio em 1939:

“Lembro-me de ter lido que foi nestas paisagens que se fizeram as primeiras plantações de café. Os fazendeiros saciaram-se até esgotar a terra. Então o conde do Bom Retiro, já no Segundo Império, começou a desapropriar as fazendas visando ao virginal reflorestamento das matas. [...] Não sei o que Mestre Lúcio Costa vai determinar no seu plano de actualização urbana e turística destes esquecidos pedaços do Paraíso. Por mim, deixava-os como estão. Isolava-os, apenas. Seriam, de futuro, a terra proibida. Proibida a toda a série de conspurcadores. O homem é o pior inimigo do natural. Se ainda houvesse poetas só eles aqui teriam entrada” (23).

Situação atual das encostas da floresta em direção ao bairro da Tijuca.
Foto CLSB

Estrada no interior do PNT.
Foto CLSB

Rio da Solidão, que abastece o açude do mesmo nome.
Foto CLSB

Semelhanças e desdobramentos

A proposta de reflorestamento da Montanha Pelada pode ter sido o primeiro movimento no sentido de recuperar-se a vegetação da serra de Collserola, e se o foi, representou um importantíssimo passo para a melhoria ambiental de Barcelona e seu entorno. Pode-se avaliar melhor a importância disso comparando a foto da serra devastada e sua atual configuração. A mesma comparação pode ser feita em relação à Floresta da Tijuca.

Vista de um bairro de Barcelona em 1888, com a serra de Collserola quase totalmente desmatada ao fundo. [Cátedra Gaudí.]

Vista da vegetação nas encostas da serra de Collserola e em alguns morros no interior da cidade. Em um destes morros localiza-se o Park Güell.
Foto MFI

Detalhe da litografia de Alfred Martinet “Serra da Tijuca, Bella Vista”, de 1849. [Fundação Biblioteca Nacional]

Encostas da floresta da Tijuca.
Foto CLSB

A recuperação da Floresta da Tijuca (24) principiara quarenta anos antes das obras do Park Güell, e por esta ocasião os resultados da empreitada já poderiam ter adquirido uma grande visibilidade para o mundo da época. Teria Gaudí ouvido falar desse reflorestamento tropical? Parece pouco provável. Muito mais plausível seria que tivesse tomado conhecimento da criação do Central Park de Nova York pelo consagrado Olmsted, muito mais divulgada nos meios internacionais que a saga do obscuro Major Archer. Entretanto, pode-se levantar a suspeita de que as duas obras de reflorestamento poderiam estar mais próximas do que parece. Talvez pelo fato de que os mentores originais do reflorestamento carioca estivessem próximos de personalidades de uma família real europeia, a partir das quais o evento pode haver sido noticiado no reino da Espanha, podendo assim haver chegado ao conhecimento de Eusebio Güell, um burguês com pretensões aristocráticas. Vale citar que no palácio Güell, projetado também por Gaudí, encenara-se uma peça teatral contando a façanha revitalizadora de Güell no Garraf, estando presentes ao evento pessoas da família real espanhola (neste palácio, alguns móveis foram executados com madeira brasileira, especialmente o jacarandá). Estivessem ou não diretamente ligadas as duas ideias, o certo é que respondiam aos anseios de uma aristocracia europeia que procurava resgatar o montanhoso, o íngreme, o nemoral, como elementos estéticos e ideológicos vinculados a um passado glorioso (“estética do sublime”), em contraposição às ideias vigentes até então (final do século XIX), que associavam montanhas e florestas ao perigo e ao atraso social. Estranhos caminhos do ambientalismo!

Outro aspecto que aproxima os dois eventos é o fato de os personagens principais não serem, do ponto de vista acadêmico, especialistas no tema. Nem Güell nem o ministro brasileiro da Agricultura convidaram engenheiros florestais ou agrônomos para levarem a cabo seus respectivos planos de reflorestamento. Archer era fazendeiro, e Gaudí um filho de fazendeiro (25) que passara a infância em contato com as lidas do campo. Isto é, ambos tinham o conhecimento prático, e muito provavelmente não imaginavam as dificuldades que os esperavam. Certamente não sabiam que era “impossível”, e o fizeram.

Por outro lado, a tentativa de aproximação dos dois eventos é meramente episódica respeito aos objetivos desse artigo, pois o que nos interessa é o fato de que ambos decorrem de respostas inusitadas a ações de degradação ambiental no meio urbano em um mundo ainda distante da problemática atual de mudança climática de caráter planetário. Nos dois casos, a proposta parecia desmedida em face das dificuldades, e nos dois casos os resultados foram satisfatórios e permanentes.

Atualmente, os dois espaços estão na ordem do dia para sofrerem intervenções por parte do poder público. Em Barcelona discute-se um plano de recuperação do Park Güell que talvez inclua uma revisão do manejo florestal, embora o que mais se comente seja a possível cobrança de ingresso para entrada no parque, forma encontrada por técnicos municipais para controlar as depredações e custear a manutenção. No outro lado do mundo, a comissão encarregada de organizar os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro acena com a possibilidade de recuperação de áreas degradadas da Floresta da Tijuca (atualmente PNT – Parque Nacional da Tijuca), prometendo replantas árvores aos milhões e controlar a expansão das favelas sobre o parque. Iniciativas polêmicas, que certamente demandarão muito debate antes que seja dado o primeiro passo. Enquanto isso, as árvores de Gaudí e de Archer esperam pacientemente.

notas

1
Como muitas outras plantas exóticas, as sementes do Coffea arabica chegariam clandestinamente ao Brasil. Ocultas na bagagem do oficial Palheta, foram trazidas da Guiana Francesa ao Pará em 1727, onde se iniciou o cultivo. Daí a cultura passou ao Maranhão, sendo trazida por volta de 1760 para o Rio de Janeiro através de João Alberto Castelo Branco, disseminando-se pela Baixada Fluminense e depois pelo Vale do Paraíba. (www.planetaorganico.com.br). A partir de 1780 os cafezais começam a dominar as encostas mais suaves da Serra da Carioca. “Dezenas de quilômetros quadrados de densas florestas nativas e secundárias da Serra da Carioca foram devastadas, em cerca de uma década. Em 1800, o café das montanhas do Rio era considerado o melhor produzido no Brasil”. DRUMMOND, J. A. Devastação e preservação ambiental no Rio de Janeiro. Niterói, EDUFF, 1997.

2
No século XIX, com o surgimento do transporte ferroviário e a expansão industrial, acentua-se na Espanha o comércio de madeira para lenha, carvão (consumo industrial e doméstico), dormentes, postes de iluminação e de telégrafo. Será nesse período que ocorrerão os mais altos níveis de redução das paisagens florestais espanholas. MONTANYA, E. “La deforestació a Catalunya”. Disponível em http://uniwiki.ourproject.org, acesso junho de 2007. A espécie mais procurada para carvão era um tipo de carvalho chamado azinheira - em castelhano, encina - (Quercus ilex), árvore de crescimento lento e madeira dura, predominante nos bosques espanhóis, incluindo aqueles das montanhas do entorno de Barcelona. FOLCH, R. La vegetació dels països catalans. Barcelona, Ketres, 1981.

3
O terreno em questão era uma pequena fazenda de cultivo de cereais, azeitonas, vinhas e de criação de animais de pequeno porte, nomeada Can Muntaner de Dalt, situada entre os bairros de La Salut e Vallcarca, no distrito de Gracia. O industrial Eusebio Güell adquire a fazenda, já decadente, em 29 de julho de 1899. BASTOS, C. L. S. Park Güell, arquitectura conformada por el agua. Gestión hídrica para la reforestación de la Montaña Pelada. Tese doutoral. Barcelona, ETSAB/UPC, 2008.

4
“A alternativa de buscar água para o Rio de Janeiro numa fonte mais distante e abundante, só parece ter sido cogitada seriamente depois de 1870. É oportuno lembrar que a face atlântica da Serra do Mar oferecia vários rios que, embora pequenos em termos absolutos, eram muito maiores e tinham muito mais volume de água que os riachos oriundos da Serra da Carioca. No entanto, os trechos montanhosos desses rios, de onde a água potável poderia ser conduzida através de dutos para a cidade, ficavam a algumas dezenas de quilômetros. Ficavam além do chamado ‘sertão carioca’, o largo trecho de Planície Costeira que separa o centro da cidade da Serra do Mar. Buscar água tão longe assim não era uma solução simples ou imediata.” DRUMMOND, Op.cit.

5
Em 1878, ano de sua formatura como arquiteto, Antonio Gaudí iria projetar um complexo sistema de irrigação para os agricultores de Palau de Plegamans, no Vallés Ocidental. Este projeto, preservado na íntegra até os dias atuais, demonstra a capacidade do arquiteto no campo hidrológico. BASTOS, Op. cit., 2008.

6
Depois de adquirido pela Prefeitura de Barcelona, em 1921, o Park Güell sofreu algumas restaurações, no decorrer das quais optou-se por vedar o sistema de captação de pluviais da cisterna principal, devido a infiltrações que, em função dos muitos anos sem a devida manutenção, poderiam colocar todo o sistema estrutural da praça em risco de desabar. O mesmo iria ser feito em relação às vias de circulação. BASTOS, C. L. S. “Gaudí e a água” Arquitextos (São Paulo. Online), v. 114, p. 1-6, 2009.

7
Foram ouvidos os irmãos Andreu e Martí Vergés Trias, moradores da única casa residencial do parque, construída por um antepassado, o advogado Trias, e também o geólogo Enrich Sunyer Coma, morador das vizinhanças do parque, estudioso da geologia local.

8
E. Thiéry foi professor da Escola Nacional Florestal da França, tendo publicado em 1891 o livro “Restauração de montanhas, correção de torrentes e reflorestamento”. A obra trata dos trabalhos de estabilização de encostas e recuperação de zonas montanhosas afetadas pela erosão, o desmatamento e a perda de solo fértil. THIÉRY, E. Restauration des Montagnes. Correction des Torrents. Paris, Reboisement. Librairie Polytechnique, Baudry et Cie, Librairie-éditeurs, 1891. Exemplar do Fons Històric da ETSEIB - Escola Técnica Superior de Engenharia Industrial de Barcelona / UPC.

9
O fracasso nas vendas de lotes levou o empreendedor a dar por concluídas as obras do parque em 1914, ficando sem concluir-se mais da metade das obras de parcelamento (escadas, caminhos, largos, etc.). BASTOS, Op. cit., 2008.

10
DRUMMOND, Op. cit..

11
Idem.

12
Drummond cita alguns destes rios e riachos: Trapicheiro, Comprido, Carioca, Cabeça, Rainha, Macacos, Maracanã, Anil, Panela, Retiro e Cachoeira, e outros de menor importância.

13
“Essas negligências, um pouco portuguesas, essas infecções que invadem as habitações, esse desprezo pela água lustral são tanto mais dignos de censura quanto é sabido que no Rio falta água. [...] às vezes, nos dias tórridos de estio, a cidade é como uma cuba escaldante e o próprio negro busca abrigo.” Charles Ribeyrolles, jornalista francês radicado no Rio em meados do século XIX. HEYNEMANN, C. Floresta da Tijuca. Natureza e civilização. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura / PCRJ, 1995.

14
Carta de José de Alencar a Machado de Assis em 1868. Site “Jornal da Poesia”: http://www.revista.agulha.nom.br/calves23.html. Acesso fevereiro/2010.

15
DRUMMOND, Op. cit.

16
“Manuel Gomes Archer (1821-1905) foi nomeado ‘administrador da Floresta da Tijuca’ em 18 de dezembro de 1861. Seis escravos negros foram designados para trabalhar com ele: Eleutério, Constantino, Manuel, Mateus, Leopoldo e Maria. Um feitor completava a equipe. Esses escravos podem ter sido cedidos por particulares, mas o governo imperial tinha a guarda de muitos escravos, apreendidos na repressão ao tráfico ilegal e mantidos fora do mercado regular, com um status jurídico infefinido. Era relativamente comum empregá-los em obras públicas, principalmente na capital. Pode ter sido o caso dos trabalhadores de Archer.” DRUMMOND, Op. cit.

17
HEYNEMANN, Op. cit.

18
Sobre o tema do controle das jaqueiras no PNT – e as reações despertadas – existe informação em diversos sites, como:
<http://www.terrabrasil.org.br/ecosistema/ecosist_jaqueira.htm>;
<http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/conteudo_231827.shtml>;
<http://www.oeco.com.br/pedro-da-cunha-e-menezes/46-pedro-da-cunha-e-menezes/17031-oeco_18987>;
<http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/1705-oeco_18365?tmpl=component&print=1&page>;
<http://flaviadt.multiply.com/photos/album/7>;

(Acessos em fevereiro de 2010)

19
DRUMMOND, Op.cit.

20
HEYNEMANN, Op. cit.

21
DRUMMOND, Op.cit.

22
HEYNEMANN, Op. cit.

23
Eduardo Chianca de Garcia, crônica publicada no Diário de Lisboa em 5 de janeiro de 1969, In: CHIANCA DE GARCIA, E. Cartas do Brasil. Lisboa, O Independente, 2004.

24
Em 1961 a Floresta da Tijuca foi elevada à categoria de Parque. “Inicialmente chamou-se Parque Nacional do Rio de Janeiro, já que, além da Tijuca, abarcava as Pedras da Gávea e Bonita, a Serra da Carioca e as chamadas florestas do Andaraí e da Covanca. [...] Oficialmente, a Floresta é apenas uma das três partes que compõem o Parque. Para a população, ela é tudo. Com efeito, a força da Floresta é tanta que, não pela primeira vez, seu nome coloniza outras áreas do Rio de Janeiro. O bairro que hoje chamamos de Tijuca era antes conhecido por Andaraí. No início do século XX, a Floresta derramou seu nome serra abaixo, para dominar aquela área urbana com a mesma desfaçatez com que, a partir de 1967, anexou as Paineiras, a Vista Chinesa e o Sumaré, entre outras florestas cariocas.” Texto de Gustavo Martinelli in: CORRÊA, M. S.; MARTINELLI, G.; da CUNHA E MENEZEES, P. Parque Nacional da Tijuca: 140 anos da reconstrução de uma floresta. Rio de Janeiro, Ed. Ouro sobre Azul, 2001.

25
“O ‘major’ Archer, como era e ficou conhecido, não era oficial do Exército brasileiro. É provável que sua graduação traduzisse sua participação na Guarda Nacional, embora essa possibilidade não seja mencionada nas fontes que usei. Archer nasceu na província do Rio de Janeiro e era fazendeiro da localidade de Cabuçu, em Guaratiba, ou seja, a cerca de 80 quilômetros ao sul da cidade. Aparentemente não tinha qualquer treinamento formal em botânica ou engenharia florestal, mas em 1861 já era um reconhecido especialista na flora regional, especialmente no tocante a árvores.” Drummond, J. A. “O jardim dentro da máquina: breve história ambiental da Floresta da Tijuca”, Estudos Históricos, v. 1, n. 2, p. 276-298, Rio de Janeiro, 1998.

Antonio Gaudí y Cornet (1852 – 1926) era filho do agricultor e caldereiro Francisco Gaudí Serra, havendo passado a infância na fazenda do pai, no município de Riudoms, localizado na ressequida região do Baix Camp de Tarragona, ao sul de Barcelona. Convivera durante esse tempo com os trabalhos do pai na lavoura, em especial nas tarefas de irrigação, as quais demandavam uma dedicação cotidiana no gerenciamento das “horas de água” a que tinha direito, dentro do sistema tradicional de distribuição de água utilizado pelos fazendeiros locais. BASTOS, Op. cit., 2008.

sobre os autores

Claudio Lisias da Silva Bastos é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (FAUFBA) na área de Projetos, atualmente cedido ao Departamento de Arquitetura da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (DAU/UFRRJ) para colaborar na montagem do Mestrado em Arquitetura Sustentável dessa instituição. Doutor em Construções Arquitetônicas (Programa de Meio-Ambiente) pela Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona da Universidade Politécnica da Catalunha (ETSAB/UPC) em 2008, e Mestre em Estruturas Ambientais Urbanas pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) em 1991. Arquiteto graduado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFBA em 1978. Desenvolve pesquisas nas áreas de História do Paisagismo, Arquitetura Sustentável e Ecopaisagismo.

Marcia de Fatima Inacio é Pós-doutora pela University of Idaho-USA em 2002, onde desenvolveu, junto com a equipe do Dr. Matthew J. Morra, bio-produtos para controle de pragas e doenças vegetais. PhD em Agronomia pelo Departamento de Solos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em 2000 e Mestre em Ciências Ambientais e Florestais pelo Instituto de Florestas da UFRRJ em 1995. Engenheira Florestal graduada em 1988 pela mesma universidade. Atualmente é pesquisadora do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, atuando em duas principais linhas de pesquisa relacionadas a problemas ambientais e conhecimento da biodiversidade. É líder do Grupo de Pesquisa “Saúde vegetal: nutrição e controle de pragas e doenças” junto ao CNPq. Orienta alunos de graduação e pós, além de atuar como docente no Programa de Extensão da instituição.

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