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arquitextos ISSN 1809-6298

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Este artigo examina o processo de transformação da paisagem urbana da capital paraibana entre 1915 e 1940, marcado por edifícios públicos inovadores, estrategicamente situados, com fachadas voltadas para as principais praças e ruas da área central


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SOUSA, Alberto; ARAÚJO, Darlene. A arquitetura do poder público e a transformação da paisagem na capital paraibana, 1915-1940. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 128.02, Vitruvius, jan. 2011 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/11.128/3719>.

Panorama da Cidade Baixa (a partir da Cidade Alta) por volta de 1910 [Gerodetti & Cornejo]

Este artigo objetiva divulgar nacionalmente um relevante mas quase desconhecido episódio da reforma urbanística brasileira das primeiras décadas do século XX: a modernização e o embelezamento da paisagem edificada da capital do estado da Paraíba levados a cabo, de forma deliberada, através da construção ou reforma de edificações do poder público.

A historiografia já mostrou como nas principais cidades brasileiras a modernização e o embelezamento da paisagem edificada foram, no mesmo período, efetuados através da abertura ou alargamento de vias das áreas centrais. Mas como a maioria dos estudos que evidenciaram essas transformações referia-se às grandes capitais, a exemplo do Rio de Janeiro e o Recife, tende-se a achar que só nelas é que tais mudanças ocorreram. Bem poucos devem ser os analistas que são conhecedores do fato que a reforma cirúrgica levada a cabo no centro da pequena capital paraibana foi proporcionalmente quase tão intensa quanto as realizadas nessas duas grandes cidades.

Ademais, devem ser raras, se existirem, análises que tratem isoladamente o aspecto da reforma urbanística em pauta a ser aqui estudado: a contribuição da arquitetura do poder público à modificação intencional da paisagem urbana. É esta circunstância que dá relevância a este trabalho e foi ela um dos fatores que o geraram.

Esperamos que este artigo estimule outros estudiosos a fazer trabalhos semelhantes enfocando outras cidades brasileiras, para revelar as formas e intensidades exibidas em diferentes meios pelo tipo de intervenção aqui analisado.

É comum que a arquitetura do poder público tenda a exercer um papel importante na conformação da paisagem das cidades que são sede de governo.

Camilo Sitte, para quem a maior parte da qualidade estética de uma cidade estava nas suas praças, dizia, em fins do século XIX, que a beleza destas residia nas suas proporções e na relação harmoniosa entre seu traçado e os prédios públicos nelas localizados – o que tornava estes peças-chave da paisagem urbana. Ele achava que esses edifícios eram tão importantes para a estética das praças que preconizava que ao se projetar uma cidade se deveria repartir em grupos as edificações públicas previstas para ela e localizá-los nas diferentes praças a serem nela implantadas. Para ele, praças e prédios públicos se complementavam e juntos eram responsáveis pela maior parte da beleza de uma urbe (1).

Já o francês Marcel Poete escreveu nos anos 1920: “O edifício público ou o monumento como individualidade e como localização devem intervir em primeira mão na composição da cidade. Não se localizam em qualquer ponto. Têm o seu lugar marcado. Servem para compor a fisionomia urbana” (2).

A nova arquitetura do poder público teve um papel fundamental no forte processo de modificação da paisagem urbana ocorrido na capital paraibana nas quatro primeiras décadas do século XX.

Além de agregar novos componentes à paisagem, ela influenciou outras arquiteturas da cidade, que terminaram por se modificar também, reforçando a transformação da paisagem – seguindo a tendência sobre a qual Mariz assim se pronunciou em 1939:

“Os governos, quando contam com recursos maiores, dão feição mais rica e melhor a suas construções. Dessa forma, influem no gosto e expressão das edificações particulares. Um prédio novo, com disposições, fachada, pavimentação, material diferente, é um estimulo, uma lição viva numa cidade” (3).

A paisagem antes da transformação

Por volta de 1910, a arquitetura da capital paraibana ainda era predominantemente térrea, e a paisagem por ela formada era dominada pelos planos inclinados dos telhados das épocas colonial e imperial. Sobressaía nela as igrejas, alguns sobrados com mais de dois andares e uns poucos prédios públicos de maior porte, mas com apenas dois pisos.

Panorama da Cidade Alta (do norte para o sul) por volta de 1910 [Gerodetti & Cornejo]

Panorama da Cidade Alta (do sul para o norte) por volta de 1910 [Gerodetti & Cornejo]

Praça e Igreja das Mercês por volta de 1910 [Gerodetti & Cornejo]

As poucas edificações “singulares”, conforme a terminologia de Lamas (4), eram os elementos que mais se destacavam na paisagem, em contraste com o casario que formava a maior parte dela. Na Cidade Baixa, havia doze edifícios públicos e duas igrejas, enquanto na Cidade Alta, existiam onze igrejas, três conventos e nove prédios do poder público; em ambas havia alguns sobrados com mais de dois pavimentos. Essas edificações singulares constituíam marcos na paisagem – os landmarks de Lynch (5) – e se distinguiam pelos seguintes atributos: altura, extensão da massa horizontal e qualidade das fachadas.

Afora as igrejas, as edificações mais altas eram estreitas, restringindo-se a alguns sobrados de três ou quatro pisos. Fachadas frontais de extensão significativa eram muito poucas, a maior delas sendo a do prédio que em 1889 abrigava o Quartel de Linha e a Enfermaria Militar, com pouco mais de 40 m de comprimento. Quase todos os edifícios principais do poder público exibiam no exterior aquele estilo classicista simplificado que Sousa (6) denominou classicismo imperial, enquanto a maior parte do casario afiliava-se a modelos de nossa arquitetura colonial.

As casas eram estreitas, contíguas, térreas e baixas em geral, desalinhadas com freqüência e providas de poucas aberturas. Mesmo nos sobrados, predominava a simplicidade. Sobressaíam nas edificações empenas triangulares e altos telhados em duas águas com beirais sobre as ruas. O casario era dominado por um jogo diversificado de planos inclinados, cuja dramaticidade acentuava-se nos locais de topografia movimentada e que produziam um efeito interessante quando vistos de longe.

Segundo levantamento feito em 1889 por Gomes Jardim (7), havia então na cidade 2.230 edificações de alvenaria, das quais 94 eram sobrados com até quatro pisos, situados principalmente na Cidade Alta e nas imediações do porto.

Em 1915 o poder público deu início a um duradouro processo de produção de edificações governamentais bem diferentes das existentes, que aos poucos foram alterando o panorama atrás descrito.

Elas refletiam o ideário de sanear e embelezar vigente na época. Seriam erigidas com novas técnicas construtivas e linguagens arquitetônicas e, por vezes, com dimensões imponentes, que inseririam uma nova escala no espaço urbano. Muitas seriam erguidas em frente a praças, ou tinham três fachadas, o que lhes valorizava a perspectiva. Algumas delas foram projetadas por profissionais vindos da Europa. Diferindo bastante dos edifícios do passado, elas contribuiriam fortemente para a transformação da paisagem da cidade.

O embelezamento como política governamental: 1915-1940

Em 1915 governava a Paraíba o vice-presidente Antônio Pessoa, que naquele ano assumira o posto deixado vago pela renúncia do presidente. Foi ele quem principiou o processo de renovação que está sendo aqui tratado.

Os edifícios que marcaram o início desse processo foram o novo Palácio do Governo e o Grupo Escolar Tomás Mindelo.

O primeiro foi o resultado de uma reforma do velho palácio existente, construído no Setecentos e melhorado no século seguinte. As obras, dirigidas por Miguel Raposo, tinham sido começadas em 1913. Depois elas foram entregues ao arquiteto italiano Fiorillo, que deu ao prédio esmeradas fachadas em linguagem neobarroca. O novo palácio foi inaugurado em 1916.

Palácio do Governo
Foto Alberto Sousa

O segundo estava sendo construído pelo mesmo Fiorillo e foi comprado pelo governo estadual para abrigar uma escola primária. Inaugurado em 1916, ele foi inovador, apesar de suas dimensões modestas, por ter sido o primeiro prédio público local com exterior no estilo classicista acadêmico, que nos principais centros do país vinha sendo utilizado desde fins do Império.

Mas foi na gestão seguinte, de Camilo de Holanda (1916-20), que a política de embelezamento da cidade através da arquitetura pública tornou-se explícita. Ele deixou claro o motivo que o levou a adotá-la: “A remodelação da capital preocupou-nos fortemente, dadas as lacunas da cidade, cuja feição ainda colonial contrastava com os nossos anseios de progresso” (8).

A ele devemos dois belos prédios que transformaram a paisagem da praça onde ficava o palácio do governo: a imponente Escola Normal, com sua alta fachada de mais de 70 m de extensão, e a Imprensa Oficial, no estilo classicista acadêmico, como essa escola, mas coroado por uma marcante cúpula neobarroca. Ambos foram projetados por um arquiteto paraibano formado em Paris: Otávio Freire. A respeito deles, um viajante que esteve na cidade em 1924, Joaquim Inácio, disse que eles “honrariam qualquer capital” que os possuísse (9).

Antiga Escola Normal
Foto Alberto Sousa

Imprensa Oficial [Era Nova, ano 1, nº 3, 01/05/1921]

Camilo de Holanda legou à cidade três outros modernos prédios públicos, todos, grupos escolares. Dois deles deram contribuição pouco expressiva à transformação da paisagem urbana, pela sua arquitetura discreta e por estarem situadas em locais um tanto periféricos: as escolas Epitácio Pessoa e Isabel Maria das Neves. Contudo, a outra, o Grupo Antônio Pessoa – uma elegante construção em estilo classicista acadêmico, com colunas in antis na frontaria – ajudou a melhorar a aparência acanhada da Rua Beaurepaire Rohan, onde ela foi erigida.

Na gestão seguinte, de Solon de Lucena (1920-24), as principais preocupações urbanísticas foram a implantação da rede de esgotos, a execução de cirurgias urbanas e a expansão planejada do tecido urbano. Nela só dois prédios de destaque foram agregados à arquitetura pública da cidade, ambos no estilo classicista acadêmico: o novo edifício da Prefeitura Municipal, resultante de uma reforma, e um pavilhão, com a função de estação de bondes, que foi erguido numa praça que se abriu, em 1924, no coração da Cidade Alta (batizada Vidal de Negreiros), à custa da demolição de várias casas e uma igreja seiscentista.

Compensando a contribuição modesta de tal gestão, o governo federal deu à cidade dois notáveis prédios públicos: a nova Delegacia Fiscal, que com a citada Prefeitura transformou a paisagem da Praça Rio Branco, e o magnífico prédio dos Correios (iniciado em 1921, mas só concluído cinco anos depois), uma obra sem precedentes na cidade, por seu porte monumental, sua inusitada volumetria e o refinamento do seu exterior.

Antigo edifício dos Correios
Foto Alberto Sousa

A administração seguinte (1924-28) não aportou nenhuma contribuição significativa à arquitetura pública da capital. Contudo, em 1928, o novo presidente estadual, João Pessoa, retomou a política de embelezar a cidade através de edificações públicas. Em sua curta gestão (abreviada por sua morte, em 1930) ele contribuiu para mudar a paisagem da capital através de demolições, alargamentos de ruas, novas construções e reconstruções – e também através da introdução dos estilos neocolonial e art déco na arquitetura pública local.

Foram de sua iniciativa as seguintes obras: o Palácio das Secretarias, de quatro pavimentos e em estilo neocolonial, inaugurado como o edifício mais alto da cidade; a reforma do Liceu Paraibano, que vestiu as fachadas deste com esse mesmo estilo novo; e o imponente Paraíba Hotel, com três pisos, inovador por sua linguagem art déco.

Antigo Palácio das Secretarias
Foto Alberto Sousa

Paraíba Hotel
Alberto Sousa e Darlene Araújo

A primeira intensificou a modificação da paisagem da Praça Pedro Américo – a mais importante da Cidade Baixa – iniciada com a construção do prédio dos Correios. Esses dois prédios e outro reformado na gestão seguinte (o Quartel de Polícia) deram a esse espaço público uma nova arquitetura e uma escala engrandecida, proporcionada pela altura deles (três ou quatro pavimentos). Já o Liceu e a demolição (outra ação de João Pessoa) da contígua igreja da Conceição completaram a mudança – principiada com a Escola Normal e a Imprensa Oficial – da aparência da praça principal da cidade. E o Paraíba Hotel modificou a paisagem da Praça Vidal de Negreiros.

Essas obras foram continuadas por Antenor Navarro, que dirigiu o estado, como interventor, entre 1930 e 1932. A ele deve-se a reforma do Quartel de Polícia, que acrescentou um terceiro pavimento aos dois que este possuía, e externamente substituiu o estilo classicista imperial pelo art déco, então uma novidade.

Quartel de Polícia
Foto Alberto Sousa

Sucedeu-lhe Gratuliano Brito (1932-1934), cuja principal contribuição ao processo em foco foi a construção do prédio da Secretaria da Fazenda, por ele iniciada, mas só concluída na gestão seguinte. Esta edificação pioneira introduziu a linguagem modernista na arquitetura oficial da capital e foi a primeira desta a ter cinco pavimentos. Ao ser inaugurada em 1935, eram em número reduzido os prédios públicos modernistas existentes no Brasil. Outro prédio público inaugurado durante a gestão de Brito foi o Hospital de Pronto Socorro, também em linguagem modernista.

Antiga Secretaria da Fazenda
Foto Darlene Araújo

Ao final de sua gestão eram claramente visíveis as transformações que a arquitetura da cidade tinha experimentado nas duas décadas precedentes:

“É notável o sopro renovador nas construções públicas e particulares dos últimos anos, transformação que se veio acentuando ao influxo da riqueza coletiva, pela ação de administradores de mais gosto e com o aparecimento de arquitetos de modernas escolas” (10).

Argemiro de Figueiredo assumiu o governo da Paraíba em 1935, ano em que as finanças estaduais melhoraram bastante, permitindo-lhe realizar muitas obras na capital. Logo ele deixou claro que era sua intenção construir vários prédios públicos.

“Precisamos levantar um edifício para a instalação da justiça. Precisamos construir uma penitenciária moderna [...]. Precisamos de edifícios mais amplos e acordes com as novas crescentes necessidades, para o alojamento das novas forças policiais, do ensino secundário, do ensino normal” (11).

Ele decidiu que esses prédios deveriam afiliar-se à escola modernista, que começava a se impor no Brasil. Ele mostrara ser partidário desta já em 1935, ao se referir ao edifício da Secretaria da Fazenda, cujas obras ele estava então concluindo:

“[...] tendo sido posto de lado tudo que implicasse em falso moderno, de linhas cubistas, porém afastado da verdadeira arquitetura do nosso tempo. Foram desprezados os velhos motivos de estilos clássicos e se obteve o primado das linhas funcionais, dentro do atual espírito construtivo” (12).

Na sua gestão foram produzidos quatro notáveis prédios públicos modernistas: a Rádio Tabajara, o Escritório da Central Elétrica (ambas localizadas em áreas centrais), o Instituto de Educação, construído na pouco ocupada cidade nova, e a Estação da Rádio Tabajara – sem impacto na paisagem da cidade por situar-se fora do perímetro urbano.

Rádio Tabajara [Paraíba, 1938]

Projeto do Instituto de Educação [Paraíba, 1938]

O último exemplar da década no segmento arquitetônico aqui considerado foi produzido pelo governo federal: trata-se da Capitania dos Portos, iniciada em 1939, cujo exterior distinguia-se por mesclar a linguagem modernista com traços do art déco e por seu caráter expressionista (ele utilizava motivos da arquitetura náutica, deste modo expressando na forma a função do edifício).

Após esta apresentação cronológica dos principais edifícios do poder público surgidos entre 1915 e 1940, convém que se façam em seguida outras considerações sobre eles, que os caracterizem, informem o que havia antes nos terrenos por eles ocupados e apontem sua contribuição à modificação da paisagem.

As edificações do poder público: 1915-1940

É superior a vinte o número dos edifícios atrás apontados. Eles têm em comum a característica de se distinguirem nitidamente da arquitetura produzida na cidade antes de 1905. Contudo, eles formam um conjunto bastante heterogêneo, em razão de diferenças de estilo, de altura e de massa.

Note-se que para não chegar a um número de ilustrações superior ao razoável não mostraremos imagens de todos eles nem dos prédios que eles substituíram.

Embora tenham surgido no decorrer de um período de apenas 25 anos, entre eles há prédios de cinco linguagens diferentes (classicismo acadêmico, neobarroco, neocolonial, art déco e modernismo) por terem sido esses anos uma época de pluralidade e mudança estilística.

Alguns deles eram volumosos e imponentes; outros eram construções de apenas dois pavimentos – umas longas, outras com frontaria de extensão modesta ou mediana.

Todos eles, com diferentes intensidades, modificaram a paisagem dos logradouros onde eles se erguiam – que eram praças, na sua maioria. Fizeram isso preenchendo vazios, substituindo edificações de aparência antiquada e introduzindo no cenário local fachadas altas, extensas, elegantes e em conformidade com a estética de sua época. Alguns deles, como o Palácio das Secretarias e a Secretaria da Fazenda, tornaram-se, por sua imponência, marcos maiores da paisagem urbana.

O impacto desses edifícios se fez sentir mais fortemente em quatro praças, três das quais (as últimas citadas a seguir) eram componentes-chave da paisagem da cidade por serem seus principais pontos nodais: a Rio Branco, a Comendador Felizardo, a Pedro Américo e a Vidal de Negreiros. Em quase todas (a exceção sendo a última) o cenário edificado ficou claramente dominada por alguns desses prédios: na primeira, pela Prefeitura Municipal e Delegacia Fiscal; na segunda, pela Escola Normal, Palácio do Governo, Liceu e Imprensa Oficial; na terceira, pelo Palácio das Secretarias, Correios e Quartel. Como três dessas praças situavam-se ao longo do principal percurso da Cidade Alta (que ia do Pátio de São Francisco à Praça Venâncio Neiva), este também modificou-se em termos visuais. Já o outro percurso principal da cidade (que ligava as ruas Maciel Pinheiro e Diogo Velho, passando pela Praça Pedro Américo) teve sua paisagem alterada pelos seguintes edifícios, que o margeavam: Capitania dos Portos, Quartel, Correios, Palácio das Secretarias, Escritório da Central Elétrica, Grupo Tomás Mindello, Pavilhão da Praça Vidal de Negreiros e Paraíba Hotel.

Localização da arquitetura pública produzida na capital paraibana entre 1915 e 1940 (em cópia da planta da cidade em 1923, desenhada pela Prefeitura Municipal de João Pessoa)
Darlene Araújo

Ademais, graças à sua expressiva altura, três prédios – Palácio das Secretarias, Correios e Secretaria da Fazenda – modificaram também os panoramas da Cidade Baixa vistos da Cidade Alta, o último introduzindo neles um destacado marco vertical, sem precedentes.

De planta trapezoidal, o Grupo Tomás Mindelo foi erigido num terreno vazio de igual configuração. Com sua nova aparência classicista, ele valorizou a paisagem da Rua do Rosário, da Praça Aristides Lobo e da Rua da Medalha.

O impacto da construção da Escola Normal e da Imprensa Oficial na paisagem da Praça Comendador Felizardo foi muito forte porque elas substituíram modestas casas térreas de feição colonial. Imponente, a primeira ocupava toda a extensão da quadra e abrigava quase 900 m² em cada um dos seus dois pavimentos, com 5 m de altura e assentes sobre um porão habitável. A segunda (já demolida) tinha dois pisos, mas no seu canto sudoeste tornava-se muito mais alta, devido a sua avantajada cúpula.

Já a modificação introduzida na paisagem pelos renovados Palácio do Governo e Liceu foi sobretudo de ordem estilística (o uso da linguagem neobarroca no primeiro e da neocolonial no segundo).

O mesmo aconteceu com a Delegacia Fiscal e a Prefeitura Municipal, que ganharam alçados num estilo estão em voga: o classicismo acadêmico. A primeira, que por mais de um século exibira uma feição colonial, foi reconstruída após ter sido arruinada por um incêndio, em 1916, mas sua volumetria pouco mudou (retirou-se de sua frontaria uma escadaria dupla). Na segunda, modernizaram-se as fachadas (trocou-se o classicismo imperial pelo acadêmico) sem alterar a volumetria.

O pavilhão da Praça Vidal de Negreiros surgiu com esta em 1924. Embora não se possa dizer que ele tenha modificado a paisagem, pois foi a criação da praça que a transformou, ele introduziu no centro da cidade um interessante elemento novo, de aparência condizente com o gosto arquitetônico então dominante.

Já o Paraíba Hotel, situado no mesmo ponto nodal, substituiu uma construção escalonada, mais baixa, menos extensa e de feição basicamente colonial. Projetado por Clodoaldo Gouveia, ele ficou pronto em 1932 e impactava fortemente na paisagem da praça situada diante dele, em razão de sua imponência (resultante de sua extensão e de seus três pavimentos) e de seu estilo inovador: o art déco.

Projetado pelo Ministério da Viação e Obras Públicas, o edifício dos Correios lembrava outros prédios do órgão (a exemplo do de Niterói) (13). Com pavilhões salientes nas extremidades, coroados por cúpulas quadradas, ele era uma obra claramente influenciada pela arquitetura classicista francesa. Por seu enorme porte (ele ocupava todo um quarteirão, tinha três pisos, mais de 55 m de frente, quase 50 m de profundidade e quase 20 m de altura), ele impactou fortemente na paisagem local, pois substituiu um conjunto de pequenas casas térreas.

Concluído em 1931, o Palácio das Secretarias resultou de obras de reforma do oitocentista Tesouro do Estado (de dois pavimentos e estilo classicista imperial), que lhe deram dois pisos adicionais – dobrando-lhe a altura – e inovadoras fachadas neocoloniais. Ele foi projetado pelo italiano Giovanni Gioia, que, aparentemente, recebeu orientações do renomado arquiteto Ângelo Bruhns, experto na linguagem neocolonial, que esteve na capital paraibana, a convite de João Pessoa, para subsidiar a concepção dos dois grandes projetos neocoloniais que este realizaria.

Inaugurado em 1932, o novo Quartel de Polícia foi outro prédio resultante da reforma de um edifício existente, de dois pavimentos e com fachadas no estilo classicista imperial. Igualmente projetado por Gioia, o edifício ganhou mais um piso e um exterior inusitado em linguagem art déco, tornando-se um volume robusto de faces marcadas por uma sucessão de linhas verticais.

As três últimas edificações modificaram radicalmente a paisagem da Praça Pedro Américo, tornando-a a única da cidade margeada por três prédios públicos com três ou mais pavimentos.

Projetado por Clodoaldo Gouveia, o pioneiro edifício da Secretaria da Fazenda foi erguido num terreno trapezoidal – com três lados contíguos a ruas – onde havia uma construção térrea, que foi demolida.

O prédio, que acompanhava a forma do terreno, foi construído em concreto armado e tinha cinco pavimentos, servidos por elevador, sua altura chegando a 25 m. De paredes lisas e sem ornamentação, ele destacava-se por sua modernidade e seguia os últimos avanços da arquitetura europeia, o que levou Argemiro de Figueiredo a emitir a seguinte opinião sobre ele: “O edifício da Secretaria da Fazenda é um índice bem acentuado de progresso e certamente introduziu entre nós a verdadeira arquitetura moderna” (14).

O prédio da Rádio Tabajara, emissora do estado, foi inaugurado em 1937. Ele ocupou um terreno de esquina onde havia algumas casas térreas do século XIX, que foram removidas. Traçado por Clodoaldo Gouveia, era uma elegante edificação modernista, de linhas cubistas, com dois pisos e com a entrada principal localizada na esquina. Seu porte, bem maior que o das casas que substituiu, e sua linguagem inovadora alteraram a paisagem do ponto nodal onde ele foi erguido e do seu entorno.

Também com dois pisos, o Escritório da Central Elétrica resultou da reforma de um prédio térreo existente, de igual função e com fachadas no estilo classicista imperial. Foi através de seu porte ampliado e de seu exterior modernista – sem ornamentação e animado por faixas verticais separando as prumadas dos vãos externos – que ele modificou a paisagem do ponto nodal e do percurso onde se situava.

O Instituto de Educação, hoje chamado Liceu Paraibano, era um grande prédio moderno, de ótima arquitetura. Ademais fora muito bem construído, como ressaltou o renomado Nestor de Figueiredo em depoimento dado ao jornal A União: “O Instituto de Educação da Paraíba entra sem favor nenhum para a classe dos edifícios bem construídos da nossa pátria” (15). No nosso entender, ele era, em fins dos anos 1930, um dos melhores edifícios modernistas existentes no Brasil.

Ele impactou fortemente na paisagem – ainda pouco edificada – da cidade nova em formação e alterou radicalmente os panoramas desta vistos da cidade consolidada.

A Capitania dos Portos foi edificada em terrenos cujas construções haviam sido removidas pelas demolições exigidas pelo alargamento da Rua Barão de Triunfo, realizado nos anos 1930. Portanto, ela veio agregar mais um componente à nova fachada do lado sul desse logradouro, que vinha sendo gradualmente construída.

Com dois pisos e volumetria fragmentada, o prédio foi projetado e construído pelo arquiteto italiano Hermenegildo di Lascio. Pouco antes do início de sua construção, a imprensa local disse que o edifício colocava-se “a par do movimento de renovação que está experimentando nossa metrópole” (16).

Ressalte-se que no processo aqui estudado o poder público exerceu o papel de agente difusor de inovações arquitetônicas, tendo trazido para a cidade novidades como a arquitetura modernista e os estilos neocolonial e art déco.

Em 1940, a paisagem da capital paraibana era bem diferente daquela existente três décadas antes. A meta, do poder público, de embelezá-la e modernizá-la fora atingida, graças, em parte, à sua bem-sucedida estratégia de implantar no centro urbano um bom número de novos prédios governamentais, marcantes e modernos (a outra estratégia que permitiu que tal meta fosse atingida foi o alargamento ou abertura de ruas nas áreas centrais, ações que haviam sido amplamente utilizadas no Rio de Janeiro).

Está claro – e é preciso que o Brasil saiba disto – que uma página da reforma urbanística da cidade brasileira das primeiras décadas do século XX ocorreu na pequena e periférica capital paraibana. Dá especial interesse a tal página o fato, aqui evidenciado, de que nessa cidade a modernização e o embelezamento em questão foram obtidos, em grande parte, através da produção de uma nova arquitetura do poder público.

notas

[Este artigo foi elaborado a partir de uma dissertação da autoria de Darlene Araújo, orientada por Alberto Sousa e defendida em 2008 no Mestrado em Engenharia Urbana da Universidade Federal da Paraíba]

1
SITTE, Camilo. A construção das cidades segundo seus princípios artísticos. São Paulo, Ática, 1992.

2
Apud LAMAS, José M. Ressano Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. 3ª ed., Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, p. 104.

3
MARIZ, Celso. Evolução econômica da Paraíba. João Pessoa, A União, 1939, p. 122.

4
LAMAS, José M. Ressano Garcia. Op. cit.

5
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 1997.

6
SOUSA, Alberto. Arquitetura neoclássica brasileira: um reexame. São Paulo, Pini, 1994, p. 34.

7
JARDIM, Vicente Gomes. “Monographia da cidade da Parahyba do Norte”. Revista do IHGP. Parahyba, v. 2, p. 85-111, 1910.

8
A UNIÃO. “Exposição de motivos e occorrencias do quadriennio administrativo de 1916-1920, do estado da Parahyba, apresentada pelo dr. Francisco Camillo de Hollanda ao exmo. sr. dr. Solon de Lucena”. Parahyba, 24 outubro 1920, p. 4.

9
INÁCIO, Joaquim. Notícias de uma viagem à Paraíba. Mossoró, 1987, p. 6.

10
MARIZ, Celso. “A cidade de João Pessoa”, Annuario da Parahyba 1935. João Pessoa, Imprensa Official, 1935, p. 7.

11
PARAÍBA, Mensagem Apresentada á Assembléa Legislativa do Estado da Parahyba, na Abertura da Sessão Ordinária de 1935 pelo Governador Argemiro de Figueirêdo. João Pessoa, Imprensa Official, 1935, p. 18.

12
Idem, p. 33.

13
RODRIGUES, Francisco Rosendo. Edifício dos Correios: apontamentos históricos. João Pessoa, Textoarte Editora, 2000.

14
PARAÍBA. Op. cit., p. 34.

15
A UNIÃO. João Pessoa, 30 de abril de 1938, p. 1.

16
A UNIÃO. João Pessoa, 7 de maio de 1939, p. 1.

outras referências bibliográfica

GERODETTI, João Emílio; CORNEJO, Carlos. Lembranças do Brasil: as capitais brasileiras nos cartões postais e álbuns de lembranças. São Paulo, Solaris Edições Culturais, 2004.

PARAÍBA. Realizações do govêrno Argemiro de Figuerêdo. João Pessoa, Departamento Estadual de Publicidade, 1938.

sobre os autores

Alberto Sousa é arquiteto, doutor e professor-associado da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa. É autor de vários livros, o mais recente dos quais se intitula ‘A variante portuguesa do classicismo imperial brasileiro’ (Editora Universitária-UFPB, 2007).

Darlene Araújo é arquiteta e mestre em Engenharia Urbana pela Universidade Federal da Paraíba. Trabalha no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP).

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