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architexts ISSN 1809-6298


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português
O artigo analisa a evolução dos sistemas de fortificação portugueses das ilhas de Tiswadi (Goa) e de Diu (Guzerate), na costa do Oceano Índico; a primeira à escala territorial, e a segunda ao nível arquitectónico, reflexo de diferentes circunstâncias


how to quote

SANTOS, Joaquim Rodrigues dos; MENDIRATTA, Sidh Losa. Sistemas defensivos das Ilhas de Tiswadi e Diu. Ocupação e fortificação de dois territórios insulares da Índia portuguesa (Séc. XVI-XVIII). Arquitextos, São Paulo, ano 12, n. 143.01, Vitruvius, abr. 2012 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.143/4323>.

Introdução

A apropriação e consolidação de territórios insulares próximos da terra firme constituiu um processo de ocupação colonial repetido por diversas vezes na fase inicial da presença portuguesa na Índia. Desde Angediva até Salcete do Norte, desde a ilha de Tiswadi até à ilha de Diu, foram vários os cenários de ocupação insular e respectivos sistemas defensivos edificados pelo Estado da Índia. De forma pragmática – nem sempre planeada a longo prazo – os portugueses construíam os seus sistemas defensivos territoriais em função de um conjunto complexo de necessidades, face a ameaças quase sempre constantes. À falta de meios humanos, contrapunham os portugueses a sua superioridade naval, balística ou, simplesmente, os efeitos da surpresa táctica. E, à medida que a sua posição no Índico se tornava cada vez mais delicada e defensiva, os portugueses tentaram – e por vezes conseguiram – resistir, graças à complexidade dos seus sistemas defensivos territoriais e da experiência e arte dos seus engenheiros militares. Escolhendo como exemplos as ilhas de Tiswadi e de Diu – duas ilhas e situações defensivas bastante distintas –, propomos uma breve análise da evolução dos seus sistemas de fortificação. A análise tenderá mais para a escala territorial no caso de Tiswadi, e mais para o nível arquitectónico no caso de Diu, reflexo das diferentes escalas e características de cada território insular.

Evolução do sistema defensivo da ilha de Tiswadi

1 - Situação antes dos portugueses

À data da sua conquista pelos portugueses, em Novembro de 1510, a ilha de Tiswadi detinha pelo menos duas importantes fortificações, para além do forte e cerca amuralhada da cidade de Goa: tanto em Pangim (1) como em Benasterim (2), existiam sólidas posições defensivas providas de artilharia. Enquanto que Benasterim constituía o principal passo (ou local de atravessamento) da ilha para a terra firme, Pangim era o local mais estreito da barra do rio Mandovi, pelo qual escoavam as embarcações que demandavam a ribeira de Goa. Para além destas fortificações, existiam provavelmente duas casas-forte em outros dois passos no lado leste da ilha: o Passo Seco de Gandaulim e o Passo de Daugim (3). Exteriores à ilha mas cruciais à sua defesa, existiam outras duas estruturas defensivas: numa elevação defronte de Pangim, na margem oposta do rio Mandovi (onde mais tarde viria a ser construído o forte dos Reis Magos) (4); e outra em Naroá, no extremo oeste da ilha de Divar (5). Na costa sul de Tiswadi localizavam-se ainda as arruinadas defesas de Goa Velha, antiga e abandonada capital Hindu.

Fortificações pré-portuguesas no sistema de fortificações da ilha de Tiswadi (Goa)
autores, sobre base do Google Earth

2 - Primeiras iniciativas defensivas

Este conjunto de estruturas constituía o proto-sistema defensivo da ilha de Tiswadi sobre o qual os portugueses operaram, em função das diversas necessidades e estratégias, desde o início do séc. XVI até meados do séc. XVIII – altura em que o alargamento do território goês às Novas Conquistas determinou a perda de valor estratégico de quase todas as estruturas que compunham o sistema defensivo da ilha. Naturalmente, as primeiras medidas tomadas pelos portugueses a seguir à conquista de Goa centraram-se na própria cidade. Aqui, procedeu-se à reestruturação aprofundada do forte de origem muçulmana (localizado na zona ribeirinha, onde mais tarde viria a estar o palácio dos Vice-reis) e também a reparos no perímetro amuralhado da cidade.

Contudo, ainda antes da conquista definitiva da cidade, os portugueses tinham ocupado a fortificação de Pangim. Segundo Sylva y Figueroa, esta consistia numa torre de dois sobrados, com cerca de 6m de diâmetro. O nível inferior era de forma cilíndrica e o superior de forma hexagonal; este último era guarnecido de um balcão que contornava grande parte da estrutura, defendendo também a sua porta. Em redor da torre existia uma barbacã ou cerca amuralhada, de reduzido circuito mas fortemente artilhada (6).

Primeiras iniciativas defensivas portuguesas no sistema de fortificações da ilha de Tiswadi (Goa)
autores, sobre base do Google Earth

Após 1512, quando as obras no forte e muralha da cidade de Goa estavam já avançadas, Afonso de Albuquerque ordenou intervenções nas fortificações pré-portuguesas de Benasterim e Naroá. Em Benasterim, considerado por Albuquerque a chave da cidade de Goa, os portugueses construíram novas estruturas, integrando também partes da fortificação de origem indiana. As obras foram dirigidas pelo mestre Tomaz Fernandes, tendo-se edificado uma poderosa torre com uma barbacã em redor e um poço no interior do recinto. Terminada em fins de 1513, dela dizia Afonso de Albuquerque tratar-se de uma torre enorme “muito obrada de suas guaritas em cada quadra, de cantaria e de muito formosa pedraria. A torre é de quatro sobrados de altura, que se vê dos muros de Goa; ficou no primeiro sobrado uma torre pegada nesta, sobre a ribeira do rio, de madeira sobre pilares e coberta ao modo de terraço” (7).

Naroá seria uma posição menos sólida. Teria duas torres rodeadas por uma barbacã de reduzida dimensão e circuito. À semelhança de Benasterim, os portugueses edificaram uma pequena posição sobre o rio, unida à fortificação pré-existente (8). No Passo Seco de Gandaulim edificou-se um baluarte de forma cilíndrica e provido de alguma artilharia. O Passo de Daugim também se desenvolveu, embora sem receber artilharia; de igual modo se implantaram casas-forte nos passos de Ribandar, Carambolim e Agaçaim (9).

Por volta de 1548, devido à necessidade de defender as terras de Salcete, iniciou-se a fortificação de Rachol. Três anos depois determinava-se a construção do forte de Reis Magos sobre as ruínas da posição pré-portuguesa defronte Pangim, de modo a controlar melhor a barra do rio Mandovi. (10) Estas duas posições serviam também como primeira linha de defesa da ilha de Tiswadi. Alguns anos mais tarde, iniciou-se uma fortificação perto do convento franciscano de N. Sra. do Cabo (11).

3 - Queda de Vijayanagra e medidas decorrentes

No tempo da primeira governação de D. Antão de Noronha, a queda do império de Vijayanagar às mãos de uma poderosa aliança de reis Muçulmanos levou a que o Estado da Índia procurasse remediar a situação defensiva da cidade Goa. Com o rápido crescimento da malha urbana extramuros, a cerca amuralhada de origem Muçulmana tinha sido desmantelada em alguns sectores e estava arruinada noutros; o seu fosso estava atolado e, em seu lugar, erguia-se um extenso casario que encostava aos muros pela face exterior. A cidade necessitava de uma nova muralha de maior circuito; contudo, dado o carácter iminente da ameaça militar, não era viável começar esta nova fortificação. O vice-rei D. Antão de Noronha optou antes por fortalecer os passos a leste da ilha de Tiswadi (Benasterim, Passo Seco e Daugim) e uni-los através de uma muralha ao longo do canal de Cumbarjua (12). Esta porção de muralha insular, edificada entre 1566 e 1581, media aproximadamente 5,5 km.

Entre esta última data e o início do séc. XVII, construiu-se um trecho de aproximadamente 4 km, até perto da aldeia de Assozim. Neste local estacou durante vários anos, embora existisse a ambição de continuar a muralha insular até ao Passo de Agaçaim (cerca de 7 km mais a sul), defendendo assim todo o canal de Cumbarjua.

Medidas de fortificação tomadas após 1565 no sistema de fortificações da ilha de Tiswadi (Goa)
autores, sobre base do Google Earth

4 - Ataques Holandeses

Nos últimos anos do séc. XVI surge no Índico o novo inimigo “da Europa” – as naus holandesas. Em 1596 o Senado de Goa aprovava o projecto de uma extensa muralha ao longo das praias do flanco sul da ilha, ligando N. Sra. do Cabo até o passo de Agaçaim. Ambicionava-se fechar este flanco com a muralha insular em Agaçaim, fechando “uma obra com a outra de forma a assegurar a desembarcação deste rio de Goa Velha, que é capaz e de tanto fundo” (13). Este projecto, que não teve seguimento, visava impedir os ataques anfíbios dos holandeses nas praias mais expostas da ilha. Apenas se edificaram alguns muros na zona da praia de Dona Paula, a sul de N. Sra. do Cabo – que também beneficiou de melhoramentos defensivos. Pela mesma altura, iniciou-se nas praias a norte de N. Sra. do Cabo o forte de Gaspar Dias (14).

Em 1600, Goa viu-se sujeita pela primeira vez a um bloqueio naval. Ao distenderem-se pelas barras do Mandovi do Zuari, os barcos holandeses impediam efectivamente o tráfego marítimo para a capital do Estado da Índia, bloqueio que acarretava repercussões pesadas para todo o Império. Constatada a superioridade militar dos holandeses no mar, os portugueses procuraram recuperar a vantagem táctica através de artilharia em posições terrestres. Neste contexto, inicia-se a edificação do forte de Aguada (1606) e do forte de Mormugão (c.1618), para além de outras intervenções nas zonas das barras respectivas. Ao abrigo do varejar da artilharia nestas posições, as embarcações portuguesas tinham mais probabilidades de manter abertas as comunicações vitais marítimas da capital.

De notar também que, à medida que se edificavam novas e maiores estruturas defensivas (adequadas aos diversos desafios militares e de acordo com as regras de engenharia), muitas das posições mais obsoletas perdiam o seu valor estratégico e, também, a sua aparência bélica. Algumas, como a torre de Pangim ou o forte da cidade de Goa, acabaram incorporadas em edifícios de cariz residencial ou de equipamento público.

Ataques holandeses e medidas defensivas no sistema de fortificações da ilha de Tiswadi (Goa)
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5 - A conclusão da Muralha Insular

Em 1610, a muralha insular não tinha sido continuada para além de Assozim. Contudo, no seu desenho da ilha de Tiswadi, datável daquele ano, Godinho de Herédia sugere uma conclusão no mínimo surpreendente para a obra, em detrimento da ligação a Agaçaim: a inflexão da sua direcção para o noroeste, de modo a atravessar a totalidade do interior da ilha, até terminar em Panelim, subúrbio ribeirinho a oeste de Goa (15). Este novo perímetro amuralhado encerrava uma extensa parte do nordeste da ilha: sensivelmente um quarto dessa área era ocupada pela cidade de Goa, e o resto constituía terrenos agrícolas ou mato. No fundo, esta solução “fundia” o projecto inacabado da muralha insular com o projecto sempre adiado da nova muralha para a cidade de Goa. Ainda não está aclarado o contexto em que esta decisão foi tomada nem qual a influência de Herédia no seu desenho. Contudo, conhecemos os seus resultados práticos.

Entre 1615 e meados do séc. XVII, edificou-se um novo segmento da muralha “insular” (aproximadamente 15 km), desta feita atravessando o interior da ilha, sobre maciços rochosos e matagal cerrado, unindo Assozim a Panelim (16). Na sua extensão total, desde Daugim até Panelim, a muralha media cerca de 25km de circuito – com toda a probabilidade, a maior jamais edificada por portugueses.

Vários baluartes, de dimensões modestas, pontuavam o perímetro, tendo sido rasgadas algumas portas, nomeadamente nas vias que partiam de Goa para Neura, Goa Velha, Moulá e Talaulim. A oeste, o circuito abraçava ainda a fonte de Banguinim, indo terminar sobre a margem do rio Mandovi, num arco-torre conhecido como a porta de Panelim. Não será de espantar que, quando se trabalhava na zona oeste da muralha, já algumas partes das zonas mais antigas, a leste, estavam em eminente ruína. O guarnecimento e defesa efectiva de uma muralha com tal dimensão constituíam tarefa difícil para o Estado da Índia, não apenas devido ao número reduzido de soldados disponíveis na época, mas também em virtude das características da própria muralha, que tinha em média cerca de 3m de altura por 2,5m de espessura. Pode-se, assim, resumir a nova muralha da cidade de Goa como um desastre de engenharia militar – uma construção de pouco valor estratégico para a defesa da cidade e de altos encargos financeiros para o Estado da Índia.

Conclusão da muralha insular no sistema de fortificações da ilha de Tiswadi (Goa)
autores, sobre base do Google Earth

6 - Ataques Maratas de 1683 e 1739

Na segunda metade do séc. XVII, a ilha de Tiswadi voltou a ser ameaçada por um poderoso inimigo – os exércitos maratas. A situação defensiva da capital do Estado da Índia continuava precária, visto que a “nova” muralha já estava, em certas partes, arruinada, sendo de qualquer modo demasiado extensa para ser guarnecida, tendo em conta a forte diminuição populacional da cidade. No contexto do alarme de invasão marata de Novembro de 1683, enquanto o vice-rei Francisco de Távora se entrincheirava no centro da cidade – procurando aproveitar o que ainda restava da muralha Muçulmana –, grande parte dos seus habitantes preferira abandonar as suas casas, mudando-se para outras zonas da ilha (17). Após o conflito, o vice-rei determinou mudar a própria capital para o planalto de Mormugão; contudo, o projecto não foi levado a bom termo. A situação repetiu-se em 1739, com a mesma gravidade. Embora a cidade tivesse escapado novamente à espada marata, as duas guerras no espaço de meio século determinaram em boa medida o abandono da cidade.

7 - Expansão do território Goês

A partir desta altura, e perdida a rica Província do Norte, os portugueses procuraram expandir o território goês até encontrar as suas barreiras naturais, junto à cordilheira dos Gates. À medida em que se fortificavam as zonas limítrofes de Bardez e Salcete e as novas áreas recém-conquistadas, as defesas da ilha de Tiswadi perdiam o seu valor estratégico. A inglória muralha insular arruinava-se e escondia-se cada vez mais debaixo da selva e, nas zonas menos agrestes, servia de fonte de material para outras construções. Algumas secções foram posteriormente convertidas em estradas ou em diques para várzeas; noutras áreas, permaneceram como limites de terrenos agrícolas.

Exceptuando o forte de Benasterim e o forte de N. Sra. do Cabo, todas as estruturas defensivas se arruinaram na ilha de Tiswadi no decorrer do séc. XIX. Posteriormente, o forte de Benasterim foi desmantelado para se edificar uma ponte e N. Sra. do Cabo perdeu igualmente o seu carácter defensivo.

Evolução do sistema defensivo da ilha de Diu

1 - Situação antes dos portugueses

Quando os portugueses iniciaram, em 1535, a sua fortificação em Diu, existiam já diversas estruturas defensivas. Com efeito, na ponta oriental da ilha situava-se a cidade de Diu, a qual estava cercada por uma extensa cerca amuralhada aproximadamente na forma de um triângulo; em cada vértice situava-se um baluarte. No extremo oriental, à entrada da barra do rio, situava-se uma fortificação assente numa elevação rochosa sobre o mar (também chamado baluarte da Barra); deste baluarte partiria um lanço amuralhado acompanhando a orla marítima até encontrar outro baluarte (mais tarde denominado baluarte de Diogo Lopes de Sequeira); neste ponto, a cerca inflectia para norte, apresentando-se mais forte, robustecida por baluartes (18) e por um fosso que ia do mar ao rio Chassis; este lanço amuralhado – virado a terra – finalizava num baluarte na margem do rio (e perto da primitiva alfândega guzerate); aqui se iniciava o último trecho amuralhado, o qual acompanhava a margem ribeirinha até fechar o perímetro no baluarte da Barra. Na cerca guzerate existiriam duas portas, sendo que a primeira dividia sensivelmente a meio a muralha da banda de terra, e a segunda porta estaria localizada na muralha ribeirinha, na área portuária (19).

Fronteiro à cidade e da parte de terra firme, numa estreita península arenosa, situava-se a aldeia de Gogolá (chamada pelos portugueses como Vila dos Rumes), a qual comunicava com a ilha através de uma ponte; esta península possuía uma muralha defensiva que protegia a aldeia e dificultava igualmente o acesso à ilha (20). Segundo o desenho da Távoa de Dio, presente no Roteiro de Goa a Dio de D. João de Castro (21), a muralha cingiria a península pelo seu istmo e seguiria ao longo das duas margens, sem contudo fechar o seu perímetro, deixando a aldeia protegida por uma cortina de muralhas.

Fortificações pré-portuguesas no sistema de fortificações da ilha de Diu
autores, sobre base do Google Earth

Sensivelmente a meio da entrada do rio, sobre um penedo rochoso na boca da barra, erguia-se um pequeno fortim, denominado baluarte do Mar, que fazia parte do complexo de protecção da entrada do rio. Complementando este sistema defensivo, existia uma grossa corrente metálica sobre o rio, unindo o baluarte do Mar ao baluarte da Barra; esta baixava e levantava, impedindo a entrada de embarcações hostis. Entre o baluarte do mar e a península de Gogolá existia uma estacada de madeira que impedia a navegação por essa banda do rio.

Para além das fortificações em torno da cidade de Diu e da sua barra, existiriam duas posições defensivas localizadas no Passo Seco e no Passo Covo, os dois pontos onde, na baixa-mar, se poderia passar a pé para a ilha (22); de referir também a menção feita por Diogo do Couto a uma fortaleza velha que se situaria num morro fora da cidade (23) e que, aparentemente, D. João de Castro reproduz na sua Távoa de Dio.

Fortificações pré-portuguesas no sistema fortificado da cidade de Diu
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2 - Primeiras fortificações portuguesas

Após a celebração, em 1535, do tratado que permitiu a construção da desejada fortificação portuguesa na ilha de Diu (assim como a posse do fortim do Mar), logo se iniciou a sua construção, impulsionada pelo governador Nuno da Cunha (24). Em primeiro lugar, foi aberto um fosso “de mar a mar” (25), para isolar a fortaleza projectada do resto da ilha; a 21 de Dezembro de 1535 iniciou-se a construção da fortaleza, a que foi dado o nome de S. Tomé, e em finais de Fevereiro do ano seguinte, a sua construção foi dada como finalizada (26).

Primeiras iniciativas defensivas portuguesas no sistema fortificado da cidade de Diu
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Apoiando-nos na imagem de D. João de Castro, assim como nas descrições de Fernão Lopes de Castanheda e de Lopo de Sousa Coutinho, é possível traçar a forma geral da primitiva fortificação portuguesa (27): a fortaleza possuía uma planta triangular (28), com o vértice mais oriental marcado pelo baluarte da Barra (possivelmente, teria sido aproveitado o baluarte pré-português aí existente), começando aí um lanço amuralhado sobre a falésia no lado marítimo, a sudeste; ao encontrar o fosso, a muralha invertia a sua direcção para norte até um baluarte redondo sobre um promontório, denominado baluarte de S. Tomé; deste baluarte, a muralha prosseguia até ao baluarte de Santiago (também chamado de baluarte de Garcia de Sá), já na margem do rio; e daqui mudava novamente a orientação das muralhas, afim de acompanhar a margem ribeirinha até ser fechado o perímetro cercado, no baluarte da Barra. A meio da muralha ribeirinha situar-se-ia uma torre que defenderia a couraça pequena (existia também a couraça grande) e a casa do capitão (29), possivelmente assemelhando-se a um pequeno castelejo medieval com torre de menagem. Na cortina amuralhada do lado de terra, junto ao baluarte de Santiago, situava-se a porta principal da fortificação (existiria uma porta secundária na muralha entre o baluarte de S. Tomé e a falésia, com acesso por uma ponte de madeira sobre o fosso).

O fortim do Mar pode eventualmente ter sofrido melhoramentos após a passagem para o domínio português, tendo adoptado também o nome de forte de Sto. António do Mar. A sua forma constava de um baluarte arredondado do lado do mar, a leste (possível reminiscência pré-portuguesa), seguindo-se uma torre defensiva de feição arcaizante (30); por fim, do lado ocidental, encontrava-se uma secção abaluartada alongada (31). Outra intervenção realizada foi a construção de um fortim redondo no extremo sul da península de Gogolá, denominado baluarte da Vila dos Rumes, depois da intenção – aparentemente não concretizada (32) – de se derrubar a muralha que protegia a povoação (33); este fortim também pode ser observado na representação de D. João de Castro.

Estrutura fortificada inicial da fortaleza de S. Tomé em Diu
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3 - As fortificações no período entre cercos

Em 1538, três anos após o estabelecimento dos portugueses em Diu, deu-se o primeiro cerco da fortificação por parte de um exército guzerate, apoiado por uma armada turca; deste episódio resultou a ruína de grande parte da primeira fortaleza portuguesa, a qual, apesar da precariedade em alguns pontos e das feições arcaicas, resistiu ao cerco. Terminado o cerco, o novo vice-rei D. Garcia de Noronha mandou imediatamente reconstruir e renovar a fortificação, robustecendo-a.

Para averiguar como seria a segunda fortificação portuguesa, baseámo-nos nas descrições de Diogo do Couto e de Gaspar Correia (34), assim como na imagem de Diu patente nas Lendas da India (também de Gaspar Correia) (35). Assim, as muralhas foram ampliadas na sua espessura e foram inseridos, em pontos estratégicos, novos baluartes melhor adaptados à pirobalística. Para além da reconstrução de forma mais possante dos antigos baluartes de Santiago e de S. Tomé, foram acrescentados, no pano amuralhado da parte de terra, o baluarte redondo de S. João (36) e duas torres rectangulares – uma no ângulo de inflexão da muralha entre os panos terrestre e marítimo (que mais tarde seria denominada como baluarte de Santiago), e outra entre os baluartes de S. João e de Santiago, mais próximo a este último (denominada torre de Menagem). Também a porta principal foi mudada para o lanço amuralhado ribeirinho, junto à casa do capitão; o acesso a esta porta era feito mediante um caminho fortificado com duas muralhas laterais. Perto desta entrada construiu-se, em 1542, um poderoso baluarte redondo denominado baluarte de S. Jorge, o qual a protegia, bem como à couraça pequena (37).

A imagem de Gaspar Correia permite-nos observar que, nos anos subsequentes ao primeiro cerco da fortaleza, se desenvolveu no seu interior um pequeno povoado português (38), donde se destacava a igreja matriz de S. Tomé – ou Sé primitiva –, reconstruída em 1544 junto ao baluarte da Barra (onde antes se erguia a primitiva igreja da mesma invocação, construída em 1536), a misericórdia (erigida em 1542) e o complexo da casa do capitão que ladeavam a entrada principal, e a extensa pedreira situada no central da fortificação.

Estrutura fortificada da fortaleza de S. Tomé em Diu no período entre cercos [autores, sobre base do Google Earth]

4 - A fortaleza abaluartada após o segundo cerco

Em 1546, oito anos após o primeiro cerco, a fortaleza voltou a sofrer um novo cerco por parte de um exército guzerate, apoiado por alguns mercenários europeus; estes vieram dotar esse exército com tecnologias de assédio mais sofisticadas. Uma vez mais, os portugueses sitiados prevaleceram, mas o estado ruinoso da fortificação demonstrou novamente a sua vulnerabilidade face aos desenvolvimentos da pirobalística.

Assim, e no seguimento das experiências anteriormente feitas noutros pontos do império português (39), D. João de Castro incumbiu o mestre Francisco Pires de dirigir as obras de renovação da fortificação (40); o resultado final possui claras afinidades com a grande muralha de Ceuta, mas também com a fortaleza de S. Sebastião de Moçambique – com as quais os intervenientes possuiriam, aliás ligações. Logo depois de terminado o cerco, foram reedificados em 1542 o baluarte de S. Jorge e o fosso velho; em 1550 iniciou-se a construção do fosso novo, assim como a reconstrução do baluarte de S. Tomé (que se passaria a chamar baluarte Cavaleiro) (41).

Estrutura fortificada da fortaleza de S. Tomé em Diu após os cercos
autores, sobre base do Google Earth

Entretanto, ia sendo construída uma nova cortina amuralhada entre os dois fossos, mais espessa e adaptada às tecnologias da pirobalística, a qual possuía dois baluartes em orelhão, um no extremo ribeirinho da muralha (baluarte de S. Domingos), outro no seu centro (baluarte de S. Nicolau) e um meio baluarte de orelhão no extremo marítimo (baluarte de S. Filipe). Em 1594 foi finalizado o meio baluarte de S. Filipe; entre os anos de 1639 e 1641 foi finalizado o baluarte de S. Domingos, depois de ter sido reformado, em 1636, o primitivo baluarte de Santiago (42), localizado na sua vizinhança. Podemos observar uma evolução nas obras da fortaleza analisando dois desenhos, respectivamente de Manuel Godinho de Herédia (43) e de Pedro Barreto de Resende (44), pois consegue-se distinguir perfeitamente os diversos elementos representados, nomeadamente os baluartes, os principais edifícios e a pedreira, assim como o caminho murado de acesso à fortaleza (45). Já depois das representações de Herédia e de Resende, foi reconstruído o baluarte de Menagem em 1642, e foram construídos os baluartes de Sta. Luzia (46) (1650) e de Sta. Teresa (1652). Apesar de tudo, durante os séculos seguintes a fortaleza foi sempre sofrendo obras de reparação que, no entanto, não impediram a ruína de parte das construções no seu interior.

De referir ainda, num contexto dominado pela fortificação abaluartada, da importância atribuída à esplanada exterior da fortaleza: numa visita de inspecção às praças da província do Norte, ordenada pelo vice-rei D. António de Noronha, os inspectores mandaram derrubar diversas edificações vizinhas à fortaleza – entre as quais diversos edifícios pertencentes a ordens religiosas –, devido ao facto de prejudicarem a sua defesa com a existência de obstáculos no campo de tiro (47). Essas demolições foram, aliás, referidas por António Bocarro (48).

5 – Fortificação do território insular

Mas as obras de melhoramento das fortificações de Diu não se limitaram à fortaleza: a muralha da cidade também recebeu diversas obras de melhoria ao longo dos tempos, destacando-se a abertura de duas novas portas de terra, e a construção de novos baluartes ou remodelação dos existentes (49); porém, consultando a cartografia existente a partir do séc. XIX, damos conta que a integralidade da cerca em torno da cidade já não se mantinha, uma vez que o seu trecho marítimo estava confinado à defesa da praia de Jallandhar (50). Também as defesas da barra de Diu sofreram obras: o fortim do Mar em 1588, e as fortificações de Gogolá em 1788.

Porém, importava assegurar a defesa de toda a ilha em si como forma de apropriação e domínio do território insular – já não apenas de invasores, mas também de piratas e contrabandistas (51). Desse modo, em 1744 foi construído o forte de S. Tiago junto à praia de Nagoá, uma zona de fácil desembarque; em 1774 foi construído o forte de Sta. Rita de Brancavará, para proteger a outra barra de entrada do rio e a segundo povoação mais importante da ilha; em 1809 foram reedificados os antigos fortes de Passo Seco e de Passo Covo, defendendo assim as duas zonas que possibilitariam uma entrada a pé, durante a baixa-mar; e em 1840 Bragança Pereira refere um documento onde se orçavam obras em diversas fortificações que seriam, no total, cerca de 13 estruturas, a saber: a fortaleza de S. Tomé, a muralha da cidade, o forte de Sto. António do Mar (fortim do Mar), a muralha da Vila dos Rumes (Gogolá), o fortim de Gogolá, o forte de Sto. Inácio (em Passo Seco), o forte de Derame (em Patel-Wadi), o forte de Passo Covo, os fortes de Sta. Rita, de Sto. António da Barra e de N. Sra. da Graça (os três em Brancavará), e o forte de S. Tiago (em Nagoá) (52).

Sistema de fortificações para a defesa insular da ilha de Diu
autores, sobre base do Google Earth

Notas Finais

As diferenças entre os sistemas defensivos das ilhas de Diu e de Tiswadi reflectem não apenas as suas distintas realidades e dimensões territoriais, mas também os modos diversos como os portugueses se adaptaram às constantes ameaças militares. Enquanto que em Diu, até meados do séc. XVIII, existiram praticamente apenas as estruturas essenciais à defesa da cidade e da sua barra, na ilha de Tiswadi desde cedo surgiu a necessidade de defender todo o território insular. Por outro lado, é curioso notar que a cidade de Diu, após o seu segundo cerco em 1546, sempre esteve bem defendida – demasiadamente bem defendida, tendo em conta o seu precoce declínio económico e estratégico; pelo contrário, a cidade de Goa nunca teve uma fortificação minimamente eficaz, desde o momento em que se tornou capital do Estado da Índia. E isto apesar de ter sido dotada com a muralha mais extensa jamais construída pelos portugueses.

notas

NE
Apresentado no Seminário Internacional: A Fortificação Abaluartada como Património de Valor Universal, organizado pelo Centro de Estudos de Arquitectura Militar de Almeida, Almeida, 28 - 30 Agosto 2009.

1
BARROS, João de. “Década Segunda”. In BARROS, João de. Décadas da Ásia. Lisboa, Regia Officina Typografica, 1777, livro V, cap.3, p.459.

2
BARROS, João de. Op. Cit., livro V, cap.5, p.485.

3
BARROS, João de. Op. Cit., livro V, cap.4, p.479.

4
BARROS, João de. Op. Cit., cap.3, p.461.

5
FIGUEROA, Garcia de Sylva. Comentarios de D. Garcia de Silva y Figueroa de la Embajada que de Parte del Rey de España Don Felipe III hizo al Rey Xa Abas de Persia. Madrid, Sociedad de Bibliófilos Españoles, 1903, tomo I, p.129.

6
BARROS, João de. Op. Cit., livro V, cap.3, p.459; FIGUEROA, Op. Cit., pp.131-132.

7
ALBUQUERQUE, Afonso de. Carta datada de 4 de Dezembro de 1513. In ALBUQUERQUE, Afonso de, Comentários de Afonso de Albuquerque. Lisboa, 1973, vol.1, p.201.

8
BARROS, João de. Op. Cit., livro V, cap.3, p.461.

9
FIGUEROA, Garcia de Sylva. Op. Cit., p.129; (Anónimo). Livro das Cidades, e Fortalezas, que a Coroa de Portugal tem nas Partes da Índia, e das Capitanias, e mais Cargos que Nelas ha e da Importancia Delles. In Studia. Lisboa, 1960, vol.6, pp.15-16.

10
RODRIGUES, Vítor, MENDIRATTA, Sidh. “Forte de Reis Magos”. In MATTOSO, José (coord.) Património de Origem Portuguesa no Mundo: Arquitetura e Urbanismo (Ásia, Oceania). Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p.318.

11
DIAS, Pedro. “Índia: Urbanização e Fortificação”. In DIAS, Pedro. Arte de Portugal no Mundo. Lisboa, Público - Comunicação Social, 2009, pp.40-41.

12
FIGUEROA, Garcia de Sylva. Op. Cit., p.134-135.

13
(Anónimo). Carta do Senado de Goa ao Rei. In Arquivo Português Oriental. Nova Goa, 1857, fasc.I, parte II, p.31.

14
DIAS, Pedro. Op. Cit., pp.35-36.

15
Esta informação está presente no desenho de Manuel Godinho de Herédia: [Mapa da ilha de Tiswadi], (c.1615), carta inserida entre os livros 1 e 2 do códice de Figueroa (cota MSS 18217) existente na Biblioteca Nacional de Madrid.

16
Compare-se o desenho mencionado supra com a vista da ilha de Goa de Pedro Barreto de Resende.

17
RODRIGUES, Vítor, MENDIRATTA, Sidh. “Fortificação de Goa”. In MATTOSO, José (coord.). Op. Cit., pp.241-244.

18
Na verdade, não se poderiam considerar estes elementos defensivos como baluartes modernos, no sentido em que estariam adaptados à pirobalística; seriam mais uma espécie de grandes cubelos de forma cilíndrica ou poligonal, ainda de cariz medieval, semelhantes aos existentes em fortificações de outras regiões da Índia – nomeadamente as que sofreram maior influência muçulmana.

19
CASTRO, D. João de. Roteiro de Goa a Dio. Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1940, pp.154-155.

20
Essa muralha está representada na Távoa de Dio elaborada por D. João de Castro.

21
CASTRO, D. João de. Roteiro de Goa a Dio. Códice Col. S. Vicente, Tomo XV existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa, c.1588 (baseado no original perdido de 1538-39).

22
BARROS, João de. “Década Quarta – Segunda Parte”. In BARROS, João de. Décadas da Ásia. Lisboa, Regia Officina Typografica, 1777, livro VI, cap.10, p.57; COUTO, Diogo de. “Década Quinta – Primeira Parte”. In COUTO, Diogo de. Décadas da Ásia, Lisboa, Regia Officina Typografica, 1779, livro III, cap.2, p.224.

23
COUTO, Diogo de. “Década Sexta – Segunda Parte”. In COUTO, Diogo de. Décadas da Ásia. Lisboa, Regia Officina Typografica, 1781, livro X, cap.15, p.515.

24
Segundo Rafael Moreira, a direcção da fortificação estaria a cargo do mestre-de-obras de Goa, Jorge Gomes (MOUREIRA, Rafael. “A Fortaleza de Diu e a Arquitectura Militar no Índico”. In CUNHA, Mafalda Soares da (coord.). Os Espaços de um Império: Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999, p.141).

25
CORREIA, Gaspar. Lendas da Índia. Porto, Lello & Irmão Editores, 1975, vol.2, cap.61, p.617.

26
BARROS, João de. “Década Quarta – Segunda Parte”. In BARROS, João de. Op. Cit., pp.84-85.

27
Com efeito, Castanheda acompanhou o governador Nuno da Cunha a Diu; Coutinho foi um dos defensores da fortaleza durante o primeiro cerco; e Castro participou na armada enviada em socorro da praça portuguesa.

28
CASTANHEDA, Fernão Lopes de. História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1924, vol.3, livro 5, cap.47, p.79.

29
COUTINHO, Lopo de Sousa. Historia do Cerco de Diu. Lisboa, Mello d'Azevedo, 1890, pp.58-59.

30
Este tipo de torres encontrava-se em diversas partes do império português, como por exemplo a torre de Belém em Lisboa, a torre da feitoria da Mina, ou as torres principais de Ormuz, Cananor e Malaca.

31
CASTRO, D. João de. Op. Cit., pp.157-158.

32
Bragança Pereira refere um ofício de 1810 em que se dá conta da existência de três baluartes que necessitavam de reparações na aldeia de Gogola (PEREIRA, A. B. de Bragança. Os Portugueses em Diu. Bastorá, Tipografia Rangel, 1938, pp.186-187), e Jerónimo Quadros, menciona um fortim que existia no centro da muralha que confinava a aldeia de Gogolá pelo norte, e nas suas proximidades estaria a porta de Gogolá, ainda hoje existente (QUADROS, Jerónimo. Diu: Apontamentos para a sua Historia e Chorographia. Pangim, Tipographia Fontainhas, 1899, pp.49-50).

33
CASTRO, D. Op. Cit., pp.154-158; COUTINHO, Lopo de Sousa. Op. Cit., pp.184-188.

34
Gaspar Correia teria visitado Diu em vésperas do segundo cerco da fortificação. Pensamos que a descrição da fortaleza efectuada pelo autor (pretensamente, a primitiva fortificação portuguesa) menciona os elementos arquitectónicos da segunda fortificação – precisamente a que ele conheceu. Tal suspeição é fundamentada pelo facto da sua descrição não se coadunar com outras existentes, realizadas por autores que efectivamente conheceram a primitiva fortificação; além disso, a conjugação entre a sua descrição, o desenho por si efectuado da segunda fortificação portuguesa, e o remanescente na actualidade, combinam perfeitamente.

35
CORREIA, Gaspar. Lendas da Índia. Códice PT-TT-CF040/43 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa, meados do séc. XVI.

36
Gaspar Correia, no seu desenho, chama erradamente a este baluarte de “Gracia de Saa” visto que, como vimos anteriormente, o baluarte que (também) tinha esse nome era o baluarte de Santiago, no vértice junto ao rio.

37
No seu desenho de Gaspar Correia pode-se ainda observar a corrente metálica que ligava o fortim do Mar ao baluarte da Barra (que aparentemente os portugueses deixaram de usar, pois não volta a ser mencionada ou representada posteriormente). Paradoxalmente, pensamos que esta seria a forma aproximada do fortim pré-português, o qual teria sofrido uma remodelação que o aproximou da forma actual.

38
A imagem, no entanto, peca por exagero na dimensão do povoado, pois o recinto da fortaleza é demasiado exíguo para albergar o número de casas que Gaspar Correia representou.

39
Nomeadamente no Magreb: com efeito, após a queda de Safim, D. João III havia solicitado a cedência dos serviços de Benedetto de Ravena ao imperador Carlos V, de modo a reformar as defesas portuguesas; em 1541, o engenheiro militar italiano esteve então no norte de África com os mestres portugueses Miguel de Arruda, Diogo de Torralva e João de Castilho, onde desenvolveram os projectos para a fortificação de Mazagão e de Ceuta, onde se utilizaram os baluartes angulares adaptados à pirobalística.

40
Segundo Carlos de Azevedo, foi Francisco Pires quem introduziu os preceitos da fortificação abaluartada renascentista no Oriente português (AZEVEDO, Carlos de. A Arte de Goa, Damão e Diu. Lisboa, Pedro de Azevedo Leiloeiro-Livreiro, 1992, p.30); mas também D. João de Castro poderia ter influenciado o desenrolar do projecto, pois possuía conhecimentos adquiridos no decorrer das suas comissões militares no Magreb e ao serviço do imperador Carlos V.

41
O baluarte de S. João foi o único que não voltou a ser reconstruído.

42
Com a construção da ermida de Santiago, em 1623, junto à torre rectangular situada no extremo marítimo da primeira cortina de muralhas, esta adoptou também a denominação de baluarte de Santiago; por outro lado, o primitivo baluarte de Santiago, que se localizava no extremo ribeirinho da mesma cortina, aquando a sua reforma, perdeu importância com a construção do poderoso baluarte de S. Domingos nas suas proximidades e, aquando a sua remodelação, acabou por se tornar um simples terraço de tiro inserido na muralha ribeirinha entretanto reformada.

43
A imagem, que inicialmente pertenceria a um Atlas Miscelânea datado de c.1615-1622, foi consultada através da obra Portugaliae Monumenta Cartographica.

44
A imagem está inserida num códice da autoria de António Bocarro (códice COD. CXV/2-X da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora, 1635).

45
A imagem de Herédia mostra o baluarte de S. Domingos com uma forma estranha, aparentemente devido ao facto de ainda estar em construção e que, consequentemente, mantém a importância do primitivo baluarte de Santiago; já na imagem de Resende, o baluarte de S. Domingos encontra-se finalizado e, por isso, o primitivo baluarte de Santiago já nem sequer foi representado, devido à perda de importância. Também se pode verificar que no desenho de Resende já existe o caminho amuralhado de acesso à fortaleza, o qual, depois de destruído durante o segundo cerco, somente nessa altura se teria reconstruído.

46
Este baluarte poderá ter sido a reformulação do primitivo baluarte da Barra, parecendo-nos que mantém a primitiva forma na sua parte oriental.

47
Pedro Dias transcreve o documento (manuscrito MNS. 459, fl. 146-149 existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra) elaborado em 1634 pelos inspectores (DIAS, Pedro. Diu em 1634: Documentos e Notas para um Retrato de uma Praça Portuguesa no Guzarate. Lisboa: Academia de Marinha, 2002, pp.46-48).

48
BOCARRO, António. O Livro das Plantas de Todas as Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental (fac símile com estudo histórico e transcrição de Isabel Cid). Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1992, p.76.

49
Bragança Pereira menciona obras na muralha entre 1570-75, e nos baluartes de S. Sebastião (antigo baluarte de Diogo Lopes de Sequeira) em 1584, de N. Sra. do Socorro em 1676, de Sta. Catarina em 1712, de S. João em 1723, da Mãe de Deus (ou Madredeus) em 1725-27, e de N. Sra. da Esperança em 1758 (PEREIRA, A. B. de Bragança. Os Portugueses em Diu. Bastorá, Tipografia Rangel, 1938, pp.169-184).

50
As falésias entre a fortaleza e a praia seriam por si só uma defesa natural. Actualmente apenas subsistem alguns vestígios da muralha na praia de Jallandhar. No século XIX, durante a renovação urbana de Diu foi decidido abrir a frente ribeirinha, tendo sido derrubada essa parte da muralha.

51
A existência de piratas nestas águas está documentada: a título de exemplo, pode-se mencionar a fundação da fortaleza de Sto. António de Simbor (também conhecido como forte de Pani-Kota) numa pequena ilhota a 25km de Diu, para evitar os constantes ataques de piratas que aí se encontravam.

52
De todas estas fortificações, apenas subsistem a fortaleza de S. Tomé, o fortim do Mar, as muralhas da cidade, o forte de Derame, e a porta da muralha da Vila dos Rumes; possivelmente, poderão existir ainda vestígios das fundações das outras estruturas.

bibliografia complementar e referências iconográficas

Livro de Acórdãos do Senado de Goa. In Historical Arquives of Goa, nr.7737

Reedificação da cidade de Goa. In Historical Arquives of Goa, nr.858

(Anónimo). Livro das Cidades, e Fortalezas, que a Coroa de Portugal tem nas Partes da Índia, e das Capitanias, e mais Cargos que Nelas ha e da Importancia Delles. In Studia. Lisboa, 1960, vol.6 [códice de 1582]

(Anónimo). O Lyvro de Plantaforma das Fortalezas da Índia. Lisboa, Edições Inapa, 1999 [códice de c.1620-1640]

ALBUQUERQUE, Afonso de. Carta datada de 4 de Dezembro de 1513. In ALBUQUERQUE, Afonso de. Comentários de Afonso de Albuquerque. Lisboa, 1973, vol.1, p.201 [códice de 1513]

BAIÃO, António, História Quinhentista (Inédita) do Segundo Cêrco de Dio, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1925

BOCARRO, António. Livro das Plantas de todas as Fortalezas, Cidades e Povoaçoens do Estado da Índia Oriental com as Descripçoens da Altura em que Estão, e de Tudo que ha Nellas, Artilharia, Presidio, Gente de Armas, e Vassalos, Rendimento, e Despeza, Fundos, e Baxos das Barras, Reys da Terra Dentro, o Poder que tem, e a Paz, e Guerra, que Guardão, e Tudo que Esta Debaxo da Coroa de Espanha (fac símile com estudo histórico e transcrição de Isabel Cid). Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 3 vols., 1992 [códice de 1635]

CHERMONT, João Gabriel de. Carta Tipografica da Ilha de Diu. Mapa pertencente à Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1788-1790

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DIAS, Pedro. De Goa a Pangim, Memórias Tangíveis da Capital do Estado Português da Índia. Lisboa, Santander Totta, 2005

DIAS, Pedro. Diu em 1634: Documentos e Notas para um Retrato de uma Praça Portuguesa no Guzarate. Lisboa, Academia de Marinha, 2002

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SOUSA, Manuel de Faria e. Ásia Portuguesa. Porto, Livraria Civilização, 6 vols., 1945-1947 [1º ed. 1666-1675]

TELLES, Ricardo Michael. Fortalezas de Goa e suas Legendas. In O Oriente Português. Bastorá, 1937, nr.18-19

sobre os autores

Joaquim Rodrigues dos Santos é arquitecto (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra), especialista em Conservação e Restauração de Monumentos e Conjuntos Históricos (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia), mestre em Arquitectura, Território e Memória (Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra) e doutorando em Arquitectura (Escuela Superior de Arquitectura y Geodesia de la Universidad de Alcalá de Henares [Madrid]).

Sidh Losa Mendirata é Arquitecto (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto), bolseiro de Investigação no projecto “Bombaim Antes dos Ingleses”, doutorando em Teoria e História da Arquitectura (Núcleo de Estudos sobre Cidades, Culturas e Arquitectura do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra).

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