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research

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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Criou-se uma metodologia para comparar efeitos da morfologia arquitetônica sobre fatores de vitalidade urbana em Florianópolis, SC. Os resultados confirmam parte da literatura; entretanto, há diferenças nessas variáveis dependendo da acessibilidade local.

english
A method is presented to compare the effects of different building types on urban vitality in Florianópolis – SC – Brazil. Results corroborate part of the literature; however, differences in performance were found among different accessibility levels.

español
Creamos un método para comparar efectos de tipos de edificios en la vitalidad urbana en Florianópolis. Resultados corroboran parte de la literatura; pero hay diferencias en el comportamiento de las variables de interés entre los niveles de accesibilidad.


how to quote

SABOYA, Renato T. de; NETTO, Vinicius M.; CELSO VARGAS, Júlio. Fatores morfológicos da vitalidade urbana. Uma investigação sobre o tipo arquitetônico e seus efeitos. Arquitextos, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, maio 2015 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/15.180/5554>.

A crescente tendência de introversão da vida espacial – em grande parte ancorada em preocupações relacionadas à segurança –, combinada com a ênfase essencialmente quantitativa dos parâmetros urbanísticos constantes nos zoneamentos de uso e ocupação do solo, têm resultado na adoção cada vez mais proliferada de tipos arquitetônicos caracterizados por edificações distanciadas da rua, com poucos acessos diretos a ela, grandes afastamentos laterais e frontais e alta ocorrência de fachadas com baixa permeabilidade visual ou mesmo totalmente cegas. Entretanto, desde pelo menos a década de 1960, com o trabalho de Jane Jacobs, há um crescente acúmulo de argumentos segundo os quais tais tipos produziriam impactos negativos sobre as possibilidades de interação social oferecidas pelos arranjos espaciais. Diferentes autores sugerem, com ênfases bastante distintas, que formas arquitetônicos mais contínuas no quarteirão (1), com fachadas mais porosas/permeáveis (2) e mais próximas da rua (3) incentivariam a vitalidade microeconômica local e a apropriação dos espaços públicos por proporcionarem maior contato e proximidade com o espaço público (4), menores distâncias a serem percorridas (5), maior densidade de atrativos e presença de atividades (6), e maximização da superfície de contato da edificação com a rua (7).

Se essas observações forem verdadeiras, há uma necessidade urgente de repensar nossos instrumentos urbanísticos que, em larga medida, têm induzido a forma urbana e das edificações justamente na direção de tipos isolados que, supostamente, acarretariam em espaços desvitalizados e inseguros (8), por sua vez dando pouco suporte à interação social e à comunicação entre grupos sociais diversos. Tais consequências podem agravar as clivagens socioespaciais já existentes atualmente, tornando ainda mais difíceis e raras as interações no espaço público, bem como a mistura e o encontro de pessoas com perfis, valores e interesses diversos. Essa revisão, entretanto, esbarra em uma fragilidade do Desenho Urbano, ao menos no contexto institucional brasileiro, que é a profunda desconfiança da população e dos tomadores de decisão formalmente eleitos com respeito às soluções apresentadas pelos técnicos. A capacidade destes últimos de efetivamente influenciar a opinião pública e as políticas de desenvolvimento têm sido, para dizer o mínimo, muito aquém do desejado (9), bastando para isso notar que, após mais de 5 décadas de produção teórica nacional e internacional sobre o tema, tais prescrições ainda não tenham encontrado rebatimento em nosso sistema normativo. Entendemos que uma retomada da confiança no Desenho Urbano inclui, entre outras coisas, uma avaliação constante de seus postulados e um exame permanente sobre a validade de suas evidências. É para esse ponto que este artigo pretende contribuir.

Considerações acerca da literatura sobre o tema

Apesar de amplamente aceitos na literatura, um exame mais cuidados nos mostra que, na realidade, os trabalhos que tratam dos fatores morfológicos e tipológicos da vitalidade limitam-se, em larga medida, a fazê-lo apenas ao nível discursivo.

Jacobs (10), por exemplo, baseou todo um conjunto analítico e prescritivo acerca da vitalidade urbana sobre observações feitas em alguns bairros de Nova Iorque, indicando contrastes, buscando explicações e defendendo estratégias que considerava as mais adequadas para criar “vizinhanças bem sucedidas”. Contudo, essas observações não foram feitas de forma sistemática: não há, por exemplo, aleatoriedade da amostra, nem preocupação em torná-la representativa a partir de um número suficiente de bairros ou de uma distribuição proporcional à população. Houve, é verdade, uma certa preocupação em controlar por fatores como renda e densidade, mas apenas ao nível discursivo (11). Sintomático também é o fato de que seu livro não apresenta uma seção dedicada à metodologia adotada ou uma lista de referências bibliográficas. Estudos feitos com maior rigor metodológico sobre os princípios defendidos por Jacobs falharam em encontrar suporte empírico para suas afirmações a respeito das causas de vizinhanças bem sucedidas – representadas no estudo pela ausência de crimes – (12), o que é um claro indicador de que estas estão longe de poderem ser consideradas demonstradas empiricamente.

Outros estudos clássicos sobre Desenho Urbano (13) seguem em direções parecidas com as de Jacobs (2000), apesar de basearem-se de forma mais evidente em estudos empíricos para apoiar parte de suas afirmações. Alexander et al, por exemplo, citam Fanning e Cappon (14) para defender os supostos malefícios que edifícios em altura podem trazer para seus residentes. Gehl, por sua vez, cita Appleyard e Lintel (15) para embasar as relações entre contatos sociais e tráfego de veículos em ruas residenciais. Ambos citam estudos empíricos próprios como fundamentos para seus argumentos. Entretanto, nenhum dos cinco trabalhos apoia-se em estudos empíricos específicos sobre o papel da forma dos edifícios (e seus aspectos constituintes) sobre a vitalidade. Com relação aos recuos frontais, por exemplo, Christopher Alexander Sara Ishikawa e Murray Silverstein não oferecem nenhuma evidência empírica quando afirmam que “os afastamentos destruíram as cidades” (16), ao defender que os edifícios devem ser colados à rua. Da mesma forma, quando Jan Gehl afirma que contato através de janelas entre edificação e a rua pode “proporcionar uma evidente extensão e enriquecimento das possibilidades de experiências” (17), tampouco oferece evidências empíricas (18).

Não se trata aqui, obviamente, de menosprezar a contribuição desses autores aos estudos urbanos, nem de defender uma primazia dos estudos empíricos sobre outros tipos de métodos para a geração de conhecimento. Trata-se, antes, de reconhecer as limitações desses métodos e contribuir para superá-los através da crítica e teste de suas conclusões em outros contextos e através de metodologias mais rigorosas do ponto de vista científico. Como Weicher (19) comentou acerca do trabalho de Jacobs, suas hipóteses têm o mérito de serem suficientemente detalhadas a ponto de permitir o teste empírico com relativa facilidade. Acrescentamos que seus argumentos, assim como dos demais autores mencionados acima, não surgiram de um vácuo teórico; a maioria deles constroi cuidadosamente seus argumentos, preocupam-se com fundamentos, com a coerência interna do sistema teórico e com a lógica dedutiva que levou às suas conclusões principais. Então, quais seriam os riscos desse modo de proceder?

Em primeiro lugar, é possível que o sistema teórico esteja negligenciando aspectos importantes, deixando de fora variáveis que poderiam modificar as conclusões obtidas. Ou talvez que a intensidade dos efeitos das variáveis consideradas mais importantes sejam, na verdade, menores do que os efeitos de outras variáveis. Tais falhas seriam mais facilmente detectadas através de uma observação sistemática da realidade proporcionada por um estudo empírico rigoroso. É possível também que as conclusões sejam válidas para um contexto específico, mas não para outros, o que é especialmente problemático se considerarmos que esses autores clássicos raramente circunscrevem suas conclusões a contextos específicos, deixando implícito que seriam válidas para todos os lugares.

Relacionado de certa forma a esse problema, há também o risco de que, não usando uma amostra aleatória, o conjunto de casos analisados reflita uma certa preferência do autor, ou até mesmo que ele tenha selecionado (consciente ou inconscientemente) apenas aqueles casos que confirmem hipóteses definidas a priori – prática conhecida, em inglês, como cherry picking (20). Sobre isso, concordamos com Durkheim quando este diz que:

“Provar uma hipótese não é mostrar que ela explica convenientemente alguns fatos lembrados a seu propósito, é constituir experiências metódicas. [...] Mas alguns exemplos expostos sem ordem não constituem uma demonstração” (21).

Uma parte importante de uma experiência metódica é controlar as variáveis irrelevantes (para o estudo) para que elas não introduzam distorções sistemáticas que invalidem as conclusões alcançadas. Esse cuidado é importante para minimizar os três problemas citados acima e consiste, basicamente, em dois procedimentos complementares (22): manter as variáveis irrelevantes constantes ou aleatorizá-las. O modo como esses princípios foram aplicados no presente estudo será explicado mais adiante.

À luz dessas considerações, vemos que a literatura do Desenho Urbano tem, em larga medida, se preocupado com a lógica interna das argumentações sem, entretanto, apoiar-se em evidências empíricas sistemáticas e obtidas a partir do controle de variáveis extrínsecas. Seus resultados tendem a concentrar-se em oferecer prescrições normativas (23) mais do que em gerar conhecimento confiável sobre hipóteses, via de regra baseando-se em evidências com diferentes níveis de qualidade de observação e em corroboração frágil ou insuficiente. Sobre isso, Marshall (24) afirma que o Desenho Urbano é, em parte, pseudocientífico, pelo fato de que seus fundamentos são baseados em “hipóteses não testadas”. Mesmo que algumas das conclusões alcançadas pelos autores clássicos pareçam autoevidentes a partir de nossas experiências cotidianas ou de afirmações comuns em nossa área de atuação, consideramos que a falta de comprovação empírica na literatura, por si só, já justificaria a realização de um estudo rigoroso sobre o tema.

É importante, todavia, fazer a ressalva de que por certo há numerosos trabalhos no campo do Desenho Urbano que adotam métodos rigorosos e que se utilizam de estudos empíricos sistemáticos para testar suas hipóteses. Entretanto, nenhum deles trata diretamente da questão da relação entre forma arquitetônica (e seus componentes) e aspectos de vitalidade urbana. Alguns dos trabalhos que mais se aproximam desses temas são aqueles relacionados à ocorrência de crimes (25), mas que não tratam diretamente da vitalidade urbana. Outros tratam indiretamente da vitalidade e/ ou dos tipos arquitetônicos (26). Desconhecemos estudos empíricos que estudem especificamente as relações entre as características arquitetônicas das edificações e suas possíveis influências sobre a vitalidade urbana de seus espaços adjacentes de forma metódica e controlada (27).

A pesquisa em Florianópolis

Para a realização do estudo de caso, foi selecionada a cidade de Florianópolis, mais especificamente sua porção insular. Isso aconteceu como parte de uma iniciativa mais ampla que aplicou metodologias semelhantes no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, tendo em vista analisar contextos distintos e, assim, obter maior robustez nas conclusões a partir da possibilidade (ou impossibilidade) de reprodução dos resultados.

Vitalidade urbana aqui é entendida como: socialidade, representada pelo movimento de pedestres, copresença e potencial de interação nos espaços públicos; e vida microeconômica, representada pela presença de atividades não-residenciais nos edifícios. Por sua vez, o conceito de tipo adotado alinha-se com o definido por Gregotti, na acepção delineada em “b” abaixo:

“Num sentido bem genérico, podemos definir o tipo: a) como modelo de onde extrair cópias e esquemas de comportamento (enquanto resume os traços característicos de um grupo de fenômenos); b) como um conjunto de traços característicos, cuja descoberta, num fenômeno determinado, nos permite sua classificação” (28).

Entendemos “tipo”, portanto, como um conjunto de características fundamentais de um grupo de elementos, que nos permite diferenciá-los e classificá-los para propósitos específicos. Os tipos 1 (isolado/torre) e 3 (compacto/contínuo) estão descritos no Quadro 1 e ilustrados na Figura 1.

Quadro 1 - Características dos tipos 1 e 3

Entre esses extremos, há inúmeras combinações intermediárias, que também serão levadas em consideração na análise desagregada dessas características e suas intensidades. Entretanto, há uma que julgamos qualitativamente diferente e que, por esse motivo, merece uma classificação própria. O tipo 2 – híbrido caracteriza-se por uma base colada nas divisas frontal e laterais do terreno, e uma torre isolada sobreposta a essa base mais ampla (Figura 2). Em Florianópolis esse modelo vem se tornando cada vez mais comum, por explorar ao máximo os limites de ocupação permitidos pelo Plano Diretor.

Figura 1 – Mesmo volume construído em diferentes posições dentro do lote e com diferentes relações com a rua desencadeariam efeitos diferenciados sobre a vitalidade da rua?

Figura 2 - Tipo híbrido

Neste estudo investigamos a relação entre as características tipológicas das edificações e a vitalidade dos espaços públicos adjacentes a elas, testando se a presença de edificações do tipo isolado/torre está de fato negativamente correlacionada à vitalidade e se, por outro lado, a presença de edificações do tipo compacto/contínuo está positivamente correlacionada à vitalidade dos espaços urbanos. Mais especificamente, buscamos verificar quais características tipológicas possuem influência sobre a vitalidade, e com qual nível de intensidade. Assim, foram testadas também as seguintes variáveis desagregadas: recuos frontais, continuidade das fachadas, permeabilidade física entre público e privado e permeabilidade visual (janelas e tipo de fechamento do lote).

Para testar as hipóteses, foram levantadas características tipológicas das edificações de 169 trechos de logradouros em Florianópolis SC, divididos em três faixas de acessibilidade e três classes de densidade populacional (que atuaram como variáveis de controle). Em cada faixa de acessibilidade foram correlacionadas as medidas dos tipos com a quantidade média de pedestres observadas em cada trecho. Os resultados indicam a existência de relações consistentes entre algumas características da forma arquitetônica e o movimento de pedestres; entretanto, indicam também que algumas das principais suposições dos estudos clássicos não são corroboradas pelos dados empíricos, ou foram corroboradas apenas em parte.

Metodologia

A pesquisa aqui apresentada se insere no campo das abordagens quantitativas. Lida com a mensuração de variáveis buscando compreender o comportamento de um sistema de interesse através do relacionamento entre características relevantes desse sistema. Mais especificamente, trabalha com a Estatística como meio para identificar se as relações entre as variáveis presentes nos dados levantados são significantes ou se, ao contrário, é mais provável que tenham acontecido simplesmente como fruto do acaso.

O trabalho possui também um caráter hipotético-dedutivo, pois parte da constatação da existência de lacunas no corpo de conhecimentos (neste caso relacionadas primordialmente à escassez de comprovação empírica), buscando formular hipóteses para os problemas teóricos, representá-los sob a forma de modelos e testá-los a partir de observações da realidade. O objetivo é proporcionar maior familiaridade com o problema, deixando-o mais explícito e acumulando evidências a favor ou contra hipóteses levantadas. Possui, além disso, um caráter exploratório, tendo em vista que foram incluídas variáveis não diretamente relacionadas às hipóteses com o objetivo de monitorar seus possíveis efeitos (em especial aquelas relacionadas à acessibilidade, mas também o tamanho do quarteirão e a presença de garagens).

O principal desafio da metodologia foi controlar a influência da densidade populacional e da acessibilidade (29) proporcionada pelo sistema viário sobre o movimento de pedestres em uma área. Caso isso não fosse feito, áreas com diferentes predominâncias tipológicas poderiam ter vitalidades diferentes como resultado não das diferenças entre os tipos arquitetônicos em si, mas da diferença de sua posição na malha (mais ou menos acessível em relação ao resto do sistema urbano), ou ainda das diferenças de densidade. Em outra palavras, poderíamos atribuir as variações na quantidade de pedestres às diferenças nos tipos arquitetônicos do trecho, quando na verdade elas estariam mais relacionadas à acessibilidade ou à densidade.

a) variáveis de controle e seleção da amostra

Para minimizar esse risco, desenvolvemos uma metodologia para selecionar a amostra baseada em níveis similares de acessibilidade e densidade. A Figura 3 a seguir ilustra esse princípio: supondo que haja uma relação linear entre acessibilidade e movimento de pedestres (30), se definirmos faixas estreitas de acessibilidade podemos notar que ela corresponde a uma faixa nem tão estreita de intensidade de movimento. Isso acontece porque não há correlação perfeita entre as duas variáveis, o que sugere que há outras variáveis atuando em conjunto com a acessibilidade, além da possibilidade de não-causalidade e, portanto, de distribuições meramente contingenciais. Nossas hipóteses sugerem, entretanto, que entre esses fatores estariam ativos os diferentes tipos arquitetônicos.

Figura 3 - Esquema das faixas de acessibilidade

Entretanto, capturar os níveis de acessibilidade de diferentes espaços dentro da cidade não é algo metodologicamente simples. Neste trabalho, optamos pelo uso da abordagem configuracional de Hillier e Hanson (31), conhecida como Teoria da Sintaxe Espacial, pelo fato de que suas principais medidas (Integração e Escolha) têm demonstrado boa capacidade de correlacionar-se com padrões de movimento de pedestres (32) e por permitir uma diferenciação com bom nível de desagregação espacial, diferenciando por ruas (em oposição a modelos de acessibilidade que fazem uma diferenciação de forma mais agregada, por zonas ou bairros da cidade).

Tendo optado pela abordagem configuracional para definir e capturar a acessibilidade, a principal decisão concentrou-se na medida a ser adotada. Suas principais medidas capturam a acessibilidade proporcionado pelo sistema viário de formas fundamentalmente diferentes. A integração captura aspectos de proximidade entre os espaços e é obtida a partir da profundidade média de uma linha para todas as outras. Profundidade, nesse contexto, nada mais é do que o número de mudanças de direção necessárias para ir de um espaço a outro. Uma segunda medida configuracional (escolha) baseia-se na noção de centralidade de Freeman, segundo a qual as linhas mais centrais são aquelas que fazem parte com mais frequência dos caminhos mínimos entre outros pares de espaços (33). Na Sintaxe Espacial essa medida é chamada de Escolha.

Apesar de Hillier e Iida (34) encontrarem boas correlações para ambas as medidas, as melhores correlações para a Integração foram encontradas para diferentes raios de análise (35), condição possível de ser determinada apenas depois de o estudo estar pronto e o levantamento de campo já realizado. Por isso, optamos pela Escolha com raio global que, além disso, mostrou-se mais adequada a uma malha altamente segregada como a de Florianópolis, que apresenta grandes diferenças entre ruas muito próximas entre si por conta das severas descontinuidades do tecido. Essas diferenças de continuidade entre vias adjacentes são melhor captadas pela medida de Escolha do que pela Integração. Uma vez que há várias maneiras possíveis de medir a acessibilidade, nenhuma delas considerada perfeita, outras medidas configuracionais e outros raios também foram incluídos nas análises, para fins de monitoramento de sua possível influência sobre as variáveis sociais e microeconômicas.

Dessa forma, os níveis de acessibilidade foram divididos em 20 faixas (medidas pela Escolha), das quais foram selecionadas a Faixa 4 (acessibilidade baixa), 11 (média) e 16 (alta). Cada faixa, portanto, apresentava espaços (trechos de logradouro) com valores de acessibilidade aproximadamente constantes, ou muito semelhantes. Seguindo a mesma lógica, os setores do Censo do IBGE de 2012 foram divididos em três grandes classes de densidade (baixa, média e alta). Dessa forma, todos os trechos de logradouros contidos nas três faixas de acessibilidade selecionadas estavam contemplados em uma das três faixas de densidade, totalizando nove combinações de acessibilidade + densidade.

Para cada um dos trechos selecionados para a amostra, em cada uma das faixas de acessibilidade, foram levantadas as características dos tipos arquitetônicos, agregadas em cada trecho através de suas médias ou da proporção (em porcentagem) de ocorrência, conforme o caso. Em cada trecho foram realizadas contagens de pedestres em quatro horários distintos, dois pela manhã e dois à tarde, em dias de semana. A média das contagens para cada trecho foi então correlacionada com as diversas características dos tipos, assim como com as medidas de acessibilidade e densidade, para verificar até que ponto estas últimas poderiam exercer influência sobre o movimento de pedestres.

b) definição das variáveis

O Quadro 2 abaixo lista as variáveis levantadas neste estudo.

Quadro 2 – Lista das variáveis consideradas na pesquisa

Resultados e discussão

No total, foram levantados 169 trechos, distribuídos conforme a Tabela 1. As médias das principais características levantadas estão na Tabela 2.

 

Tabela 1 - Distribuição da amostra final levantada, dividida por faixas de acessibilidade e densidade

 

Tabela 2 – Médias das principais variáveis levantadas, por faixa de acessibilidade

 

Os resultados mostrados abaixo concentram-se na relação com o Movimento de Pedestres (MP) como principal descritor da Vitalidade. Devido às baixas correlações encontradas para a Faixa 11, provavelmente devidas ao menor tamanho da amostra para essa faixa, discutimos com maior ênfase os resultados para as faixas 4 e 16.

a) tipos arquitetônicos

Com relação à classificação nominal dos tipos, todos os resultados das duas situações extremas (tipo 1 e tipo 3) apresentaram sinais coerentes com os previstos pelas hipóteses, ou seja, tipo 1 com correlação negativa e tipo 3 com correlação positiva com movimento de pedestres (Tabela 3). Entretanto, o nível de confiança apresentou variações importantes, com apenas 4 das 6 combinações possíveis possuindo nível de significância de 95%.

 

Tabela 3 – Correlações dos tipos com o movimento de pedestres (valores em negrito indicam nível de confiança de no mínimo 95%)

A faixa 4 foi a que apresentou maior confiança para os três tipos, com correlação -0,66 para o tipo 1 isolado/torre, 0,45 para o tipo 2 híbrido e 0,58 para o tipo 3 compacto-contínuo. Ambos os tipos extremos mostram fortes correlações com o movimento de pedestres nessa faixa, negativa para o tipo isolado e positiva para o tipo compacto. Chama a atenção também a alta correlação positiva do tipo 2 híbrido. Isso provavelmente deve-se ao fato de os edifícios híbridos nessa faixa de acessibilidade representarem edifícios verticais, em sua maioria com 8 andares ou mais, o que contribui para aumentar a densidade desses trechos. Entretanto, consideramos os resultados sobre o tipo híbrido inconclusivos em função de sua pequena representatividade na amostra, conforme pode ser visto na Tabela 2.

Com relação ao desmembramento dos parâmetros tipológicos em variáveis independentes e análise de sua correlação com o movimento de pedestres, a Tabela 4 mostra os resultados obtidos.

 

Tabela 4 – Correlações dos parâmetros tipológicos com o movimento de pedestres (valores em negrito indicam nível de confiança de no mínimo 95%)

 

Os afastamentos frontais mostraram correlações moderadas com o movimento de pedestres, tanto os frontais quanto os laterais. A faixa de baixa acessibilidade foi a única que obteve resultado significativo (r=-0,33, p<0,05), provavelmente porque o MP passa a depender mais da influência dos fatores arquitetônicos. Já para os afastamentos laterais, apesar de os sinais das correlações serem quase todos negativos, portanto compatíveis com as hipóteses, os resultados não foram significativos estatisticamente. Portanto, os tamanhos absolutos médios dos afastamentos laterais não foram, nesse contexto, importantes para o MP.

Com relação à fachada, o mesmo vale para o seu tamanho absoluto médio, que obteve nível de confiança apenas para a Faixa 16. Entretanto, o grau de continuidade das fachadas mostrou-se relevante tanto na Faixa 4 quanto na Faixa 16 (r=0,30 e 0, 29, respectivamente), com sinais positivos que confirmam a hipótese. Portanto, quanto maior a proporção entre comprimento de fachada e o comprimento total do trecho, maior tende a ser o movimento de pedestres no mesmo. Isso quer dizer que, apesar de o tamanho dos afastamentos em si não serem relevantes para o movimento de pedestres, a proporção entre a fachada, os afastamentos laterais e o tamanho da testada do lote é relevante. Portanto, trechos com maior continuidade das fachadas, isto é, maior proporção de bordas edificadas em relação aos vazios intersticiais das edificações, tendem a ter maior vitalidade.

No que diz respeito à permeabilidade da edificação, os resultados indicam que essa variável é significativa apenas para a faixa de alta acessibilidade, sendo quase inexistentes para a faixa de baixa acessibilidade. Cabe destacar que essa variável e seus supostos efeitos podem estar sendo influenciados pelo fator Densidade, conforme será discutido mais adiante.

Antes de passar ao próximo grupo de variáveis, é importante problematizar essa correlação encontrada entre tipos arquitetônicos e movimento de pedestres. Nunca é demais lembrar que correlação não significa necessariamente causalidade e, mesmo que esta exista, ela pode ser a) unidirecional, em qualquer dos dois sentidos; ou b) interativa, de forma que as variáveis se influenciem mutuamente. Portanto, qual das relações mostradas na Figura 5 pode ser considerada a mais correta?

Figura 4 - a) Tipos arquitetônicos como variável independente; b) Movimento de pedestres como variável independente; c) Tipos arquitetônicos e movimento de pedestres como variáveis interativas

A Figura 4a representa a hipótese testada neste trabalho. A Figura 4b representa uma inversão na direção da causalidade, segundo a qual o tipo arquitetônico é que seria influenciado pelo movimento de pedestres. Isso poderia acontecer porque, tendo em vista que o tipo compacto, por exemplo, maximiza a superfície de contato com o espaço público, ele poderia emergir com maior frequência nas áreas mais movimentadas como forma de abrigar atividades comerciais e de serviços que buscam aproveitar-se do fluxo de pedestres.

A Figura 4c mostra uma relação interativa entre as duas variáveis, que são ao mesmo tempo causa e efeito uma da outra. Nesse ponto, parece ser a explicação mais correta, uma vez que existem argumentos teóricos suficientes para explicar tanto uma quanto outra direção de causalidade. Se considerarmos a natureza dinâmica dos sistemas urbanos, essa possibilidade é reforçada. Teríamos, assim, uma sequência do tipo: maior MP → maior quantidade de tipo compacto → maior MP → maior quantidade de tipo compacto → ... e assim por diante.

Contudo, se isso for correto, poderíamos esperar maior proporção de tipo compacto/contínuo nas faixas de maior acessibilidade, uma vez que estas correspondem a maior movimento de pedestres (37) (Tabela 2). Entretanto, essa possibilidade (maior proporção de tipo compacto na faixa de alta acessibilidade) não se confirma quando analisamos a quantidade média desse tipo nas três faixas, conforme pode ser visto na Tabela 2. Uma análise de variância (anova) mostra que não há diferenças estatisticamente significativas entre a proporção do tipo contínuo em cada uma das faixas de acessibilidade (p=0.773), o que indica que há uma certa independência entre tipos arquitetônicos e níveis de acessibilidade, ou seja, não encontramos maior quantidade de um determinado tipo arquitetônico de acordo com o nível de acessibilidade considerado. Portanto, os resultados para Florianópolis indicam que a variação na quantidade de movimento de pedestres não pode explicar a proporção de tipo contínuo.

Assim sendo, temos razões para rejeitar as hipóteses da Figura 4b e da Figura 4c, ou seja, aceitamos a hipótese da Figura 4a de que a relação entre tipos arquitetônicos e movimento de pedestres é predominantemente unidirecional, sendo a primeira o fator causal e a segunda, seu efeito.

b) densidade

As correlações obtidas com a densidade, via de regra, comportaram-se como esperado (Tabela 5). Tanto na faixa 4 quanto na faixa 16, praticamente todas as variáveis mostraram alta correlação com MP, com exceção do número de economias para a Faixa 4 (r=0,24) e da área do pavimento tipo para a Faixa 4 (r=0,16).

 

Tabela 5 – Correlações das densidades com o movimento de pedestres (valores em negrito indicam nível de confiança de no mínimo 95%)

 

Essas altas correlações podem indicar uma falha metodológica em controlar a variável densidade, uma vez que, com relação às características tipológicas, existe uma relação direta entre densidade (populacional ou construída) e densidade de aberturas. Se for esse o caso, ao invés de termos uma sequência de relações como a da Figura 5a, como previsto pela hipótese, teríamos uma variável extrínseca atuando como causa das duas variáveis, que não possuiriam necessariamente relação entre si (Figura 5b).

Figura 5 - a) relação causal hipotética entre densidade de aberturas e MP; b) variável extrínseca atuando sobre densidade de aberturas e MP

Entretanto, ao menos para a Faixa 16, comparando os valores de correlação obtidos vemos que, no mínimo, a densidade de aberturas funciona como uma potencializadora dos efeitos da densidade, uma vez que seus índices são todos maiores que os índices dos diversos indicadores de densidade e, portanto, não são apenas um “subproduto” desta.

Portanto, apesar de a densidade ser um aspecto importante para explicar o movimento de pedestres, em áreas de alta acessibilidade uma maior densidade de aberturas tende a estar associada a maiores taxas de movimento de pedestres, provavelmente pelo aumento das oportunidades de interação entre espaços edificados e abertos e pela promoção da sensação de segurança.

Por outro lado, para a Faixa 4 os efeitos da densidade são muito mais altos que os da densidade de aberturas, tendo em vista que estes últimos mostraram-se insignificantes estatisticamente. Aparentemente, em áreas de baixa acessibilidade o número de aberturas não influencia significativamente na quantidade de pedestres que por ali circulam, ao menos para Florianópolis, contrariando o que defendem alguns autores clássicos do Desenho Urbano.

c) uso do solo

Os usos do solo mostraram comportamentos diferenciados nas diferentes faixas de acessibilidade (Tabela 6). Dois aspectos, entretanto, apresentaram comportamento semelhante em todas elas: o primeiro é a alta correlação negativa entre usos residenciais e MP. Quanto maior a proporção de usos residenciais em um trecho, menor a quantidade de movimento de pedestres.

 

Tabela 6 – Correlações dos usos do solo com o movimento de pedestres ( valores em negrito indicam nível de confiança de no mínimo 95%)

 

O segundo aspecto é a alta correlação positiva entre diversidade de usos e MP: em todas as faixas houve confiança estatística. Na faixa 16 a correlação é bastante alta, chegando a 0,68. Os dados, portanto, corroboram uma das hipóteses básicas de Jacobs, segundo a qual a mistura de usos é um dos componentes principais de áreas urbanas “bem-sucedidas”. Cabe notar, entretanto, que parece haver uma diferença na intensidade da influência desse fator na vitalidade (e que não foi citada por Jacobs), pelo menos quando esta é entendida como movimento de pedestres, sendo que em faixas de maior acessibilidade esse efeito parece ser maior do que em faixas de baixa acessibilidade.

Sendo assim, na Faixa 4 o que parece importar mais são os usos não residenciais, que apresentaram correlações de moderadas a altas com o MP. Os usos comerciais (r=0,23) e de serviços (r=0,33) apresentaram correlações moderadas; já os usos institucionais apresentaram alta correlação com movimento de pedestres (r=0,73), um fenômeno que talvez possa ser explicado pelos fluxos gerados por escolas e equipamentos comunitários de saúde. Isso aponta para o potencial que esses equipamentos possuem de animar os espaços públicos, assim como para a necessidade de que sua localização seja cuidadosamente estudada para aproveitar esse potencial de maneira adequada.

d) acessibilidade

A análise da correlação de variáveis descritivas da acessibilidade proporcionada pela configuração do sistema viário (Tabela 7) foi feita apenas com o intuito de monitorar sua possível influência sobre o movimento de pedestres, uma vez que não é o interesse principal deste estudo e, conforme dito acima, seus efeitos sobre MP são múltiplos e atuam sob diferentes escalas e raios de abrangência, o que os torna difíceis de serem perfeitamente controlados em um estudo empírico.

Tabela 7 – Correlações de medidas sintáticas com o movimento de pedestres (valores em negrito indicam nível de confiança de no mínimo 95%)

Este aspecto revelou-se o de interpretação mais difícil, tendo em vista a grande variabilidade dos índices de correlação, incluindo aí sinais positivos e negativos. Isso pode ser explicado, em parte:

  • pela diferença nas amplitudes de valores máximo e mínimo das faixas, quando comparadas com a amplitude total do sistema;
  • pelo uso de duas medidas sintáticas de naturezas diferentes (integração e escolha), que descrevem a acessibilidade da malha por meios diferentes, conforme explicado anteriormente;
  • pelo fato do método de seleção da amostra ser baseado em apenas uma dessas duas medidas, o que faz com que o agrupamento de trechos em níveis de acessibilidade faça sentido sob um método de medição, mas não necessariamente sob o outro.

Uma primeira observação geral, diretamente relacionada a esses dois últimos fatores, é que a única medida que mostrou correlações com sinal positivo em todas as faixas foi a Escolha R55 (apesar de na Faixa 4 não haver significância estatística). Isso deve-se provavelmente ao fato de a divisão em níveis de acessibilidade ter sido feita justamente através dessa medida. Uma análise dos índices de correlação mostra que quatro deles apresentam sinais negativos para as medidas de integração, sendo dois com alto nível de confiança, enquanto que para as medidas de escolha são apenas três índices com sinais negativos, todos eles sem significância estatística. Isso reforça a hipótese de que essas diferenças devam-se à natureza da medida adotada para a seleção da amostra e divisão de níveis de acessibilidade.

A faixa 16 foi a que obteve maiores correlações com medidas configuracionais. Isso pode ser explicado pelo fato de a Faixa 16 possuir a maior amplitude de valores em relação à amplitude geral do sistema (4,06%). Isso permitiu uma variação mais significativa dos valores das medidas sintáticas dentro da faixa, favorecendo a emergência das correlações. Seguindo a mesma lógica, os trechos de baixa acessibilidade (Faixa 4) possuem menores correlações com MP. Isso é explicado pelo fato de essa faixa de acessibilidade possuir a menor amplitude em relação à amplitude total dos valores de escolha R55 do sistema (apenas 0,193%), mantendo os valores de Escolha R55 praticamente constantes. Portanto, as variações de MP não são explicadas por essa medida, o que indica relativo sucesso no controle da variável, como era o objetivo da metodologia adotada.

Conclusões

Retomando as hipóteses, vejamos quais podem ser consideradas corroboradas e quais foram falsificadas pelos dados.

Presença de edificações do tipo 1 – isolado/torre está negativamente correlacionado à vitalidade, enquanto que presença de edificações do tipo 3 – compacto/contínuo está positivamente correlacionado à vitalidade dos espaços urbanos.

Essa hipótese, testada pela utilização da classificação nominal dos tipos arquitetônicos, foi corroborada apenas na Faixa 4, de baixa acessibilidade (Tabela 3). Tanto na Faixa 11 como na 16 os resultados foram inconclusivos, apesar de possuírem os sinais da correlação no sentido previsto pela hipótese. Entretanto, vale chamar a atenção para o fato de que, na Faixa 16, praticamente todos os parâmetros desagregados do tipo compacto apresentaram alta correlação com o MP, conforme será visto a seguir.

Recuos frontais estão negativamente correlacionados com a vitalidade dos espaços urbanos.

Mais uma vez, apenas na Faixa 4 essa hipótese foi corroborada. Nas demais faixas, os valores de correlação, apesar de possuírem o sinal negativo previsto na hipótese, não foram estatisticamente significativos (Tabela 4).

A continuidade das fachadas, entendida como a proporção entre o tamanho da fachada e o tamanho da testada do lote, está positivamente correlacionada com a vitalidade.

Das hipóteses relacionadas às características da edificação em si, esse aspecto foi o que apresentou maior consistência em corroborar a hipótese. Tanto para a Faixa 4 quanto para a Faixa 16 as correlações obtidas foram significativas (Tabela 4).

A permeabilidade entre público e privado ao nível térreo, ou seja, a possibilidade de entrar e sair da edificação diretamente a partir do espaço público, está positivamente correlacionada com a vitalidade.

Esse aspecto mostrou comportamentos diferentes nas faixas de baixa e alta acessibilidade. Enquanto na Faixa 4 a correlação foi próxima de zero, na Faixa 16 obteve o valor de +0,83 (p<0,05) (Tabela 4). Portanto, a densidade de portas parece importar mais em áreas com alta acessibilidade, provavelmente para aproveitar e viabilizar o potencial para usos comerciais.

A permeabilidade visual entre o interior da edificação e os espaços públicos, estão positivamente correlacionados com a vitalidade.

Assim como a densidade de portas, esse aspecto mostrou comportamentos diferentes nas faixas de baixa e alta acessibilidade. Enquanto na Faixa 4 as correlações foram próximas de zero, na Faixa 16 foram bastante altas, em torno de +0,90 (p<0,05) (Tabela 4), indicando que:

  • para a Faixa 4, a correlação entre densidade de aberturas e MP não é significativa;
  • para a Faixa 16, a densidade de aberturas atua como um complemento ou amplificador dos efeitos da densidade populacional, uma vez que os valores de correlação da primeira com MP são mais altos do que os da segunda.

Considerações finais

Os resultados alcançados nesta pesquisa reforçam os argumentos, já presentes na literatura, de que é urgente uma revisão dos instrumentos de planejamento que tratam de orientar e controlar o uso e a ocupação urbanos. Nossos planos diretores e zoneamentos têm, via de regra, incentivado justamente aquelas tipologias mais nocivas à vitalidade dos espaços públicos (38).

O estudo empírico mostrou que os tipos compactos e contínuos estão mais associados à vitalidade urbana do que tipos isolados. Mais importante do que isso, mostrou que há fortes indícios de uma relação causal entre tipos e vitalidade urbana, com os primeiros exercendo influência sobre esta última. Esse argumento, apesar de não ser novo, carecia de comprovação empírica sólida e, talvez por esse motivo, é muito superficialmente tratado em discussões sobre mecanismos para a orientação da forma edificada, ao menos no Brasil. Em outros países os instrumentos são mais sensíveis a esses efeitos, bastando verificar os form-based codes americanos (39) e outros zoneamentos europeus (40), que se preocupam de forma mais cuidadosa com as características tipológicas das edificações.

Obviamente, isso não significa que devemos súbita e acriticamente adotar legislações que impeçam a adoção de tipos isolados e prescrevam a obrigatoriedade de tipos compactos e contínuos. Entendemos que essa é uma questão complexa, que envolve outras variáveis que não foram contempladas neste estudo e por isso deve ser objeto de discussão aberta e cuidadosa, com participação de todos os setores da sociedade interessados no tema.

Entretanto, o que foi revelado nesta pesquisa sugere que o debate vem sendo feito de forma incompleta e superficial, e merece ser revisto sob pena de continuarmos a reproduzir modelos que desvitalizam e esvaziam nossas cidades, com consequências potencialmente sérias sobre a rarefação das trocas sociais e microeconômicas no espaço público urbano.

notas

1
MARTIN, Leslie. The grid as generator. Architectural Research Quarterly, v. 4, 2000, p. 309-322; HOLANDA, Frederico de. O espaço de exceção. Brasília, Editora UNB, 2002; GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington DC, Island Press, 2011.

2
BENTLEY, Ian et al. Responsive environments: a manual for designers. London, Architectural Press, 1985; NEWMAN, Oscar. Creating defensible spaces. Washington, DC: U.S. Department of Housing and Urban Development, 1996.

3
ALEXANDER, Christopher; ISHIKAWA, Sara; SILVERSTEIN, Murray. A pattern language. New York, Oxford University Press, 1977; SANTOS, Carlos Nelson F. dos; VOGEL, Arno. Quando a rua vira casa. São Paulo: Projeto, 1985; BENTLEY, Ian et al. Responsive environments: a manual for designers. London, Architectural Press, 1985.

4
JACOBS, Jane (1961). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

5
GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington DC, Island Press, 2011; HOLANDA, Frederico de. O espaço de exceção. Brasília, Editora UNB, 2002.

6
MARTIN, Leslie. The grid as generator. Architectural Research Quarterly, v. 4, 2000, p. 309-322.

7
GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington DC, Island Press, 2011; HOLANDA, Frederico de. O espaço de exceção. Brasília, Editora UNB, 2002.

8
NETTO, Vinicius M.; SABOYA, Renato T. de. A urgência do planejamento. A revisão dos instrumentos normativos de ocupação urbana. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 125.02, Vitruvius, out. 2010 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.125/3624>.

9
MAHFUZ, Edson. Reflexões sobre a construção da forma pertinente. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 045.02, Vitruvius, fev. 2004 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.045/606>.

10
JACOBS, Jane (1961). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2000.

11
Observa-se o cuidado, por exemplo, de comparar bairros mais afluentes entre si, acontecendo o mesmo quando comparava conjuntos habitacionais ou bairros mais pobres.

12
WEICHER, John. A test of Jane Jacobs’ theory of successful neighborhoods. Journal of Regional Science, v. 13, n. 1, 1973; SCHMIDT, Charles. Influence of land use diversity upon neighborhood success: An analysis of Jacobs’ theory. The Annals of Regional Science, v. 11, n. 1, 1977, p. 53-65; MARSHALL, Stephen. Science, pseudo-science and urban design. Urban Design International, v. 17, n. 4, dez. 2012, p. 257-271; CARMONA, Matthew. The Place-shaping Continuum: A Theory of Urban Design Process. Journal of Urban Design, v. 19, n. 1, jan. 2014, p. 2-36.

13
GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington DC, Island Press, 2011; ALEXANDER, Christopher; ISHIKAWA, Sara; SILVERSTEIN, Murray. A pattern language. New York, Oxford University Press, 1977; LYNCH, Kevin. Good city form. Cambridge, The MIT Press, 1984; BENTLEY, Ian et al. Responsive environments: a manual for designers. London, Architectural Press, 1985; ALEXANDER, Christopher et al. A New theory of urban design. New York, Oxford University Press, 1987.

14
ALEXANDER, Christopher; ISHIKAWA, Sara; SILVERSTEIN, Murray. A pattern language. New York, Oxford University Press, 1977; FANNING, Dion. Families in flats. The British Medical Journal, v. 4, n. 5576, 1967, p. 382-386; CAPPON, D. Mental health in the high-rise. Canadian journal of public health = Revue canadienne de santé publique, v. 62, n. 5, out. 1971, p. 426-431.

15
GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington DC, Island Press, 2011; APPLEYARD, Donald; LINTELL, Mark. The Environmental Quality of City Streets: The Residents’ Viewpoint. Journal of the American Institute of Planners, v. 38, n. 2, 1972, p. 84-101.

16
ALEXANDER, Christopher; ISHIKAWA, Sara; SILVERSTEIN, Murray. A pattern language. New York, Oxford University Press, 1977, p. 593.

17
GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington DC, Island Press, 2011, p. 121.

18
Para uma análise de outras teorias clássicas do Desenho Urbano e de como elas falham do ponto de vista científico, veja MARSHALL, Stephen. Science, pseudo-science and urban design. Urban Design International, v. 17, n. 4, dez. 2012, p. 257-271.

19
WEICHER, John. A test of Jane Jacobs’ theory of successful neighborhoods. Journal of Regional Science, v. 13, n. 1, 1973.

20
GOLDACRE, Ben. Bad science. London, Fourth estate, 2009; BARON, Jonathan. Thinking and deciding. New York, Cambridge University Press, 2008.

21
DURKHEIM, Emile. Da divisão do trabalho social. São Paulo, Martins Fontes, 1995, p. 208.

22
MILLER, Steve. Experimental design and statistics. London, Routledge, 2005.

23
Ver, por exemplo, alguns dos trabalhos clássicos da área, tais como: JACOBS, Jane (1961). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2000; GEHL, Jan (1971). Life between buildings: using public space. Washington, DC: Island Press, 2011; ALEXANDER, Christopher; ISHIKAWA, Sara; SILVERSTEIN, Murray. A pattern language. New York, Oxford University Press, 1977; BENTLEY, Ian et al. Responsive environments: a manual for designers. London, Architectural Press, 1985. Uma notável exceção é: WHYTE, William H. The Social Life of Small Urban Spaces. New York, Project for Public Spaces Inc, 2001.

24
MARSHALL, S. Science, pseudo-science and urban design. Urban Design International, v. 17, n. 4, dez. 2012, p. 267.

25
NEWMAN, Oscar. Creating defensible spaces. Washington, DC: U.S. Department of Housing and Urban Development, 1996; HILLIER, Bill. Can streets be made safe? Urban Design International, v. 9, n. 1, abr. 2004, p. 31-45; HANSON, Julienne; ZAKO, Reem. Communities of co-presence and surveillance: how public open space shapes awareness and behaviour in residential developments. Proceedings of the 6th International Space Syntax Symposium. Istambul, 2007.

26
WHYTE, William H. The Social Life of Small Urban Spaces. New York, Project for Public Spaces Inc, 2001; RAVENSCROFT, Neil. The Vitality and Viability of Town Centres. Urban Studies, v. 37, n. 13, p. 2533–2549, 1 dez. 2000; HOLANDA, Frederico de. O espaço de exceção. Brasília, Editora UNB, 2002; MEHTA, Vikas. Look Closely and You Will See, Listen Carefully and You Will Hear: Urban Design and Social Interaction on Streets. Journal of Urban Design, v. 14, n. 1, 2009, p. 29-64; LEWIS, Paul; BALDASSERE, Mark. The Complexity of Public Attitudes Toward Compact Development. Journal of the American Planning Association, v. 76, n. 2, 2010, p. 219-237. É Importante destacar também que os trabalhos da Teoria da Sintaxe Espacial não tratam especificamente da tipologia arquitetônica, limitando-se a citá-la de forma marginal em seus estudos e sem quantificação rigorosa como a realizada neste trabalho. Seus estudos focam-se com muito mais ênfase na rede de espaços abertos configurados por barreiras e permeabilidades e nas relações com a apropriação desses espaços.

27
Com exceção de outros trabalhos produzidos pelos autores deste artigo para outras cidades.

28
GREGOTTI, Vittorio. Território da arquitetura. São Paulo, Perspectiva, 1975, p. 147-148.

29
Apesar de este termo ter sido apropriado, recentemente, pelos estudos da área de Ergonomia, denotando aspectos específicos tais como a acessibilidade a cadeirantes, neste trabalho ele é entendido em seu sentido tradicional, como a proximidade de uma pessoa ou lugar em relação a todas as outras pessoas ou lugares, ou ainda como o inverso do custo para acessar outras pessoas e lugares. BATTY, Michael. Accessibility: in search of a unified theory. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 36, n. 2, p. 191–194, 2009.

30
Amplamente corroborada pela literatura, como em Hillier et al (1993), Penn et al (1998) e Hillier; Iida, (2005); HILLIER, Bill et al. Natural movement: or, configuration and attraction in urban pedestrian movement. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 20, n. 1, 1993, p. 29-66; PENN, Alan et al. Configurational modelling of urban movement networks. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 25, n. 1, 1998, p. 59-84; HILLIER, Bill; IIDA, Shinichi. Network effects and psychological effects: a theory of urban movement. Proceedings of the 5th Space Syntax Symposium. Delft: TU Delft, Faculty of Architecture, Section of Urban Renewal and Management, 2005.

31
HILLIER, Bill; HANSON, Julienne. The social logic of space. Cambridge, Cambridge University Press, 1984.

32
HILLIER, Bill et al. Natural movement: or, configuration and attraction in urban pedestrian movement. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 20, n. 1, 1993, p. 29-66; PENN, Alan et al. Configurational modelling of urban movement networks. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 25, n. 1, 1998, p. 59-84; HILLIER, Bill; IIDA, Shinichi. Network effects and psychological effects: a theory of urban movement. Proceedings of the 5th Space Syntax Symposium. Delft: TU Delft, Faculty of Architecture, Section of Urban Renewal and Management, 2005.

33
HILLIER, Bill. et al. Creating life: or, does Architecture determine anything? Architecture et Comportement/Architecture and Behaviour, v. 3, n. 3, 1987, p. 233- 250; KRAFTA, Romulo. Modelling intraurban configurational development. Environment and Planning B: Planning and Design, v. 21, n. 1, 1994, p. 67-82.

34
HILLIER, Bill; IIDA, Shinichi. Network effects and psychological effects: a theory of urban movement. Proceedings of the 5th Space Syntax Symposium. Delft: TU Delft, Faculty of Architecture, Section of Urban Renewal and Management, 2005.

35
As análises sintáticas podem ser realizadas considerando raios restritos a partir de cada espaço, ao invés de considerar a totalidade dos espaços do sistema (este último chamado de Raio Global). Para a integração Raio 3, por exemplo, a profundidade média de um espaço é medida considerando sua profundidade até todos os espaços posicionados a até, no máximo, três mudanças de direção.

36
Essa diferenciação busca levar em consideração e testar o argumento de Alexander et al (1977) segundo o qual até esse limite de altura é possível haver interação entre pessoas dentro da edificação e nas calçadas.

37
Uma análise de variância (anova) mostrou que existem diferenças estatisticamente significativas entre a quantidade de movimento de pedestres nas diferentes faixas de acessibilidade, pelo menos se considerarmos as Faixas 4 e 16.

38
NETTO, Vinicius M.; SABOYA, Renato T. de. A urgência do planejamento. A revisão dos instrumentos normativos de ocupação urbana. Arquitextos, São Paulo, ano 11, n. 125.02, Vitruvius, out. 2010 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.125/3624>.

39
PAROLEK, Daniel G.; PAROLEK, Karen; CRAWFORD, Paul C. Form-based codes: a guide for planners, urban designers, municipalities and developers. Hoboken (N.J.): John Wiley & Sons, 2008; TALEN, E. Design by the Rules: The Historical Underpinnings of Form-Based Codes. Journal of the American Planning Association, v. 75, n. 2, 2009, p. 144-160.

40
CARMONA, Matthew; MARSHALL, Stephen; STEVENS, Quentin. Design codes: their use and potential. Progress in Planning, v. 65, n. 4, maio 2006, p. 209-289.

sobre os autores

Renato T. de Saboya é Professor Adjunto do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC e docente do quadro permanente do PósARQ - UFSC. Desenvolve pesquisa na área de Planejamento e Desenho Urbanos, com ênfase em análises morfológicas e configuracionais urbanas aplicadas ao planejamento e ao projeto urbanos e em modelos descritivos e normativos do planejamento urbano.

Vinicius de Moraes Netto é Doutor em Advanced Architectural Studies (University College London, 2007), com Pós-Doutorado ligado ao Projeto de Desenvolvimento em Áreas Estratégicas do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD/CAPES, 2009). É Professor Adjunto da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Estuda as relações entre Sociedade e Espaço em três níveis: (i) Sociedades como sistemas de encontro; (ii) Sociedades como sistemas de comunicação; (iii) Sociedades como sistemas de interação material.

Júlio Celso Borello Vargas é Mestre em Planejamento Urbano e Regional (2004) e doutorando em Sistemas de Transporte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS – onde também é Professor e pesquisador. Atua no planejamento e no desenho urbano (e regional) com ênfase nos métodos e técnicas de análise, prospecção e avaliação do sistema urbano, lidando com temas ambientais, sócio-políticos, habitacionais e de infraestrutura. Enfatiza a interação do planejamento urbano com a mobilidade, utilizando tecnologias de geocomputação, sistemas de informação geográfica e modelagem espacial.

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