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arquitextos ISSN 1809-6298


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Este texto centra-se nas particularidades do pátio na produção residencial de oito escritórios brasileiros, eleitos em 2010, por um grupo de críticos, como sendo a “nova geração da arquitetura brasileira”.


como citar

COSTA, Ana Elísia da; COTRIM, Marcio. O pátio no Brasil. Da casa moderna à contemporânea. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 181.07, Vitruvius, jun. 2015 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.181/5560>.

O lote estreito, alongado e de meio de quadra é parte integrante do tecido urbano ordinário da maioria das cidades brasileiras. O desafio projetual de ocupar estes lotes define alguns tipos recorrentes, entre os quais destacam-se aqueles cujo pátio assume um papel fundamental. Na arquitetura contemporânea brasileira, este arranjo tipológico vem assumindo diversos modelos, condicionados principalmente: pela topografia do lote, se plana ou íngreme; pela largura do lote, impondo que o edifício seja colado em uma ou mais divisas laterais; e pela extensão do programa de necessidades, decisivo na definição do número de pavimentos. 

Apesar da casa com pátio não fazer parte da tradição luso-brasileira, as suas possibilidades de uso não são novas no cenário nacional. As discussões sobre o uso do pátio na arquitetura residencial ganharam força no Brasil a partir do século XX, com as possibilidades abertas pelo ecletismo e a aceitação de arquiteturas de inspiração hispano-americanas, como servem de exemplo casas paulistanas dos anos 30 de Bratke e Botti ou Moya e Malfatti, construídas nos bairros jardins que se proliferavam pela cidade. Entretanto, em Sāo Paulo, as possibilidades foram ampliadas – em meio a uma discussão menos estilística e mais espacial – com a arquitetura moderna e esteve profundamente ligada à tradição italiana. Cabe lembrar que o pátio foi recorrente no cenário moderno italiano, que buscava conciliar o vocabulário vernáculo-mediterrâneo com o clássico e o moderno. Ilustra este argumento o artigo que Gio Ponti publicou em 1953 na revista Dommus, intitulado “Idea per la Casa dell dottor T a San Paolo”, em que aborda as dificuldades de consolidar casas com pátios em lotes estreitos e profundos e com edifícios colados nas divisas.

Casa de Moya e Malfatti, São Paulo, 1939
Fotos divulgação [WOLFF, Silvia. Jardim América. São Paulo, Edusp/IOESP, 2001]

Segundo Ponti, a configuração comum do lote paulistano condicionava duas tipologias: a ocupação de toda a largura do terreno, configurando dois jardins, um interno e um voltado para a rua; e a ocupação do inverso da fachada, com um jardim interno único. Como alternativa, propunha estabelecer dois grandes muros de divisa, um para apoiar diretamente a casa e outro para apoiar um jardim interno, como faz Barragan: “este espaço formado só de muro e de céu não é uma segregação, é um encanto” (1). A partir desta soluçāo, lançou volumes perpendiculares, estruturando duas alternativas: um volume que cria dois jardins ou dois volumes que criam três jardins. Em todas as soluções, os jardins são visíveis entre si através do fechamento da sala no térreo, feito por meio de grandes janelas ou da criação de pórticos e pilotis.

Propostas elaboradas por Gio Ponti publicadas na revista Dommus [Dommus, Milão, n. 282, maio 1953.]

O projeto de Ponti vinha ao encontro de experiências que outros arquitetos italianos vinham desenvolvendo em São Paulo naqueles anos, como as casas de Daniele Calabi e Giancarlo Palanti, das décadas de 1940 e 1950. Na produção de Calabi destacam-se três casas, o pavilhão Médici (1946), Calabi (1945-46) e Cremisini (1947). Em terreno plano, merece menção o pavilhão Médici (1946), nitidamente inspirada no pátio tradicional, com átrio e peristilo. Calabi organiza a casa em duas alas principais orientadas para dois pátios de natureza distintas, uma mais social e outra mais íntima. Há na casa uma evidente ambiguidade marcada por um eixo de acesso assimétrico e circulações internas tratadas simetricamente. Em terrenos íngremes, Calabi cria um pódio que apoia as alas das casas Calabi e Cremisini, tratadas de como se fossem térreas. Na primeira, duas alas conectadas por um pequeno hall definem a forma de um “L”, configurando assim um pátio, que é fechado artificialmente por um muro. Na segunda, duas alas paralelas são conectadas por um hall/circulação, que se abre para o pátio central. Em ambas, há uma ambiguidade entre a introspecção determinada pelo pátio e a extroversão com a qual o pátio e/ou a sala se ampliam com as visuais proporcionadas pela paisagem.

Pavilhão Médici, São Paulo, 1946, arquiteto Daniele Calabi [Costa, 2011]

Casa Calabi, São Paulo, 1945-46, arquiteto Daniele Calabi [Costa, 2011]

Casa Cremisini, São Paulo, 1947, arquiteto Daniele Calabi [Costa, 2011]

As experiências de Daniele Calabi no Brasil durante a década de 1940 tiveram continuidade com Giancarlo Palanti na década de 1950. Em terrenos planos, destacam-se duas casas desenvolvidas para uma construtora (1950) e, em terreno íngreme, a Residência Fontana (1955). Nos três casos observam-se alas em forma de “U”, que configuram pequenos pátios centrais e o descolamento dos recuos laterais, um dos quais destinado à garagem. As alas principais – social e íntima – são paralelas à rua e conectadas pela ala de serviço, cuja circulação se volta para o pátio interno. A casa Fontana, assim como em algumas das casas de Calabi, se apoia em um pódio que abriga elementos secundários do programa(2).

Simultaneamente às experimentações realizadas em solo brasileiro por arquitetos italianos, o pátio se fez também presente na produção residencial de arquitetos brasileiros em São Paulo, podendo ser destacados Rino Levi e Vilanova Artigas. Em lotes estreitos, Rino Levi projetou três casas que merecem menção: Rodrigues Alves (1950), Yara Bernedette (1954) e Castor Delgado Perez (1957). A casa Alves, implantada em um terreno íngreme, foi organizada em três alas: de serviço, que é disposta em paralela à rua e apoia-se sobre pilotis, permitindo o acesso às outras duas alas, que ocupam uma cota de nível mais elevada; social e íntima, que são perpendiculares entre si, gerando pequenos pátios residuais e laterais. Esta proposta resulta de um longo estudo, no qual o arquiteto explora diversos arranjos das alas sobre o lote (3). Nas casas Bernedette e Perez, em lotes planos, Levi dispõe duas alas paralelas à rua, articuladas ao redor de um pátio central. Na primeira, apenas uma circulação conecta as alas, estando esta colada em uma das divisas do lote. Na segunda, Levi promove grandes transgressões com relação ao arranjo mais tradicional: migra o setor de serviços para uma das alas laterais e para um volume sobre pilotis, disposto na parte frontal do terreno; a circulação principal ocupa a outra ala lateral; desenha-se um grande pátio central, que é invadido pelo setor social, fragmentando–o em dois pátios menores.

Desenho esquemáticos das plantas das “Duas casas desenvolvidas para uma construtora”, São Paulo, 1950, arquiteto Giancarlo Palanti
Marcio Cotrim

esenho esquemático da casa Fontana, São Paulo, 1955, arquiteto Giancarlo Palanti
Marcio Cotrim

Desenho esquemático da planta baixa e perspectiva da casa Rodrigues Alves, São Paulo, 1950, arquiteto Rino Levi
desenho - Marcio Cotrim, perspectiva - Costa, 2011

Desenho esquemático da planta baixa e perspectiva externa da casa Yara Bernedette, São Paulo, 1954, arquiteto Rino Levi
desenho - Marcio Cotrim, perspectiva - Costa, 2011

planta baixa da casa Castor Delgado Perez, São Paulo, 1954, arquiteto Rino Levi [Costa, 2011]

No caso de Artigas, dentre muitas outras, duas casas merecem destaque: a Geraldo D’Estefani (1950) e a Mario Taques Bitencourt II (1959). Em ambas, duas alas paralelas à rua e em diferentes níveis são conectadas por um conjunto de rampas. Na primeira, a natureza aditiva da composição se faz mais explícita, ao passo que, na segunda, as alas são articuladas por duas empenas cegas (com função estrutural) que conferem um caráter compacto à composição. Nesta segunda ainda se observa que a ala de serviço migra para uma das laterais, como Levi veio a fazer na casa Perez (1957). Nas duas casas, a distância que separa as alas paralelas é a necessária para que a rampa vença os diferentes níveis nos quais o programa foi organizado, operação que determina um pátio delimitado por três lados definido pelas rampas e pelas duas alas. Na casa D’Estefani (1950), o fechamento completo do pátio se dá por meio do muro que separa os lotes, enquanto na casa Bitencourt II (1959), a empena que substitui as vigas e pilares assume este papel. Em termos gerais, esta solução se aproxima muito das utilizadas por Calabi, nas casas Cremisini e Fontana.

Casa Geraldo D’Estefani, São Paulo, 1950, arquiteto Vilanova Artigas [Ferraz, 1997]

Casa M. T. Bittencourt, São Paulo, 1959, arquiteto Vilanova Artigas [Ferraz, 1997]

 

Da observação destas onze casas, todas construídas nas décadas de 1940 e 1950, é possível destacar algumas soluções recorrentes: 

  • Quanto às relações das alas e os limites dos lotes: em cinco casas, as alas tocam em uma ou duas divisas laterais do lote; em outras seis são mantidos os recuos laterais. A estratégia de colar o edifício nas divisas não deriva necessariamente da largura do lote, mas também das pressões da extensão do programa de necessidades e da possibilidade de organizá-lo em um ou dois pavimentos. O afastamento lateral pode garantir a iluminação e ventilação natural dos ambientes que migram para alas laterais ou o espaço para a garagem
  • Quanto à topografia: no caso de terrenos íngremes, em três casas foram criadas plataformas que apoiam o programa principal; uma delas define uma ala em pilotis, garantindo a passagem para outro nível; e duas articulam alas em níveis intermediários.
  • Quanto ao zoneamento e arranjo espacial: com exceção dos projetos de Palanti, o zoneamento coincide com alas/volumes independentes, facilitando a geração de pátios diversos. O arranjo do setor íntimo sofre maiores variações em relação à disposição dos banheiros: entre os quartos; entre a circulação e os quartos; na periferia da circulação íntima.
  • Quanto ao acesso e circulação: em quatro casas as circulações periféricas conectam alas independentes e paralelas à rua; outras três casas possuem áreas de serviço em uma ala lateral que, juntamente com as circulação, conectam as alas principais; em duas casas, as áreas de serviço migram para uma ala lateral e outra ala paralela faz o papel de elemento conector principal entre as outras alas principais. Na maioria das casas, os acessos são assimétricos e se articulam diretamente com a ala lateral que assume papel de circulação.
  • Quanto à espacialidade: o pátio, na maioria das casas, é a extensão visual e/ou física do estar e das circulações, estando os quartos orinetados para o recuo frontal ou posterior do lote. Assim, na grande maioria dos casos, o pátio efetivamente se estabelece como centro compositivo e estruturador da forma do projeto.

Estas soluções recorrentes e os arranjos tipológicos delas derivados nos anos 1940 e 1950 sedimentaram operações nas quais o pátio assumiu papel fundamental. Como hipótese, acredita-se que essas soluções ressonem na arquitetura produzida hoje no Brasil por jovens arquitetos, tal como será discutido a seguir.

A casa (com) pátio contemporânea brasileira

A seleção em 2010, nas páginas da revista AU, de 25 escritórios brasileiros como representantes da “nova geração da arquitetura brasileira”, serviu de ponto de partida para a definição de uma amostragem possível do novo cenário da arquitetura residencial unifamiliar no país. Cabe destacar que a arquitetura residencial unifamiliar destinada às classes média-alta e alta é a pauta predominante destes escritórios. Foram destacados treze projetos elaborados após o ano 2000 para lotes de meio de quadra, estreitos e compridos.

Em terrenos com topografia plana, volume compacto e circulação periférica conectando duas alas, destacam-se as casas Bacopari (2010-2012), do grupo Una, e a JH (2007-2008), de Jacobsen Arquitetos. Em ambas, duas alas são dispostas paralelamente à rua, estando conectadas por uma ala periférica, mais estreita, na qual se localiza a circulação horizontal e vertical, arranjo que, como visto, foi bastante explorado nos anos 1950 e 1960. O conjunto volumétrico de ambas as casas é compacto, estando afastado das divisas laterais na primeira e colado na divisa, na segunda. Na casa Bacopari, o zoneamento é organizado por níveis, mantendo o setor íntimo disposto no pavimento superior das duas alas e os quartos com a mesma orientação solar. Na JH, os quartos ocupam só o pavimento superior de uma das alas. Mezaninos nas alas sociais das duas casas dilatam a relação visual da casa com o pátio central, estratégia também comum desde os anos 1950. Nas duas situações, o pátio delimitado pelas três alas define o ritmo: interior/exterior/interior, presente, muito em particular em algumas das casas de Calabi e Palanti.

Casa Bacopari, São Paulo, 2010-2012, UNA arquitetos [www.unaarquitetos.com.br]

Casa JH, São Paulo, 2007-2008, Jacobsen arquitetos
Foto Leonardo Finotti [www.jacobsenarquitetura.com]

Uma significativa variação pode ser observada nas casas AR (2002-2003), dos Arquitetos Associados e na Rubi (2006), de Frederico Zanelato. Nos dois casos, a ala de circulação horizontal e vertical, que conecta as outras duas, se desloca do alinhamento lateral (com relação à alas paralelas à rua), fragmentando o pátio central em dois vãos. Esse deslocamento compromete a integridade do pátio em favor de definição de um acesso e de uma linha circulatória mais centralizada em relação à testada frontal do lote. No entanto, esta estratégia permite, hierarquizar os usos dos dois pátios, configurando uma solução incomum quando temos como referência os exemplos dos anos 1940/1950 utilizados neste texto.

Casa AR, Barueri, SP, 2002-2003 Arquitetos Associados
Foto Paula Zasnicoff Cardoso [www.arquitetosassociados.arq.br]

Casa Rubí, Mogi das Cruzes, SP, 2006, arquiteto Frederico Zanelato [www.fredericozanelato.com]

Em situações de terrenos íngremes, observa-se, de modo recorrente, a solução do pátio configurado por duas alas paralelas em relação à rua, sendo mantida a integridade de um volume compacto. Entretanto, quando comparadas com os terrenos planos, esses arranjos sofrem três variações: a) configuração de uma plataforma regularizadora do terreno e arranjo das partes principais da casa em um único pavimento, como visto em Calabi; b) organização de blocos em níveis intermediários, como se observa nos projetos de Artigas; c) tentativa de dissimulação do volume na topografia do terreno por meio de um procedimento mimético, no qual o volume compacto é “encravado” no aclive.  Com raras exceções, essa solução foi pouco explorada na cidade de São Paulo nos anos 1940 e 1950. Também nestes casos são mantidas quase todas as estratégias observadas nos projetos anteriores. 

A Residência NB (2007-2010), dos Arquitetos Associados, e a Casa Porto do Sol (2010), do Mapa Arquitetura, representam o primeiro grupo. Na primeira, um pódio apoia a ala do setores social e de serviços, e a ala do setor íntimo se apoia diretamente sobre o terreno, com os quartos voltados para os fundos do lote. A volumetria compacta é definida por um vigamento, tal como Calabi desenvolve na Casa Cremisini. Na casa Porto do Sol, a plataforma regularizadora ocupa parte do térreo, deixando livre a passagem sob a ala frontal, que abriga o setor íntimo. Transposta essa passagem, uma escada conduz à ala social, disposta na parte posterior do lote e em uma cota de nível mais elevada, solução esta que pode remeter ao arranjo observado na casa Alves de Rino Levi. Nas duas casas, as alas periféricas que conectam os setores apresentam pequena variações: na primeira, a ala absorve apenas a circulação e, na segunda, além da circulação, os banheiros.

Com blocos em níveis diferentes merece menção as casas Yamanda (2002 - SIAA Arquitetos), Biovilla Pátio (2012 - Arquitetos Associados), e Casa Tibau (2011 - Yuri Vital). Nelas, observa-se duas alas paralelas à rua, conectadas por rampas ou escadas. Em todos os casos, as casas não se colam nas divisas laterais do lote, mesmo havendo a sugestão de um volume introspectivo e de empenas laterais cegas. Como observado nos exemplos dos anos 1940/1950, salas e circulações se relacionam visualmente com os pátios internos e os quartos se voltam para a parte posterior ou frontal do lote. Diferente da casa Bitencourt II, de Artigas, o pátio, inserido no volume primático, não é coberto, garantindo o “godere il cielo”.  Cabe observar que na Biovilla a topografia é alterada artificialmente, a fim de gerar um pequeno subsolo e, na Casa Tibau, o desnível do terreno é manipulado, gerando taludes na parte frontal e posterior do lote, a fim de implantar a casa num grande platô. Mesmo neste grande platô desta última, os meio-níveis são explorados, gerando um pé-direito mais alto na sala e dilatando o pátio através de pilotis.

Casa NB, Nova Lima, MG, 2007-2010, Arquitetos Associados
Foto Leonardo Finotti [www.arquitetosassociados.arq.br]

Casa Porto do Sol, Porto Alegre, 2010, MAPA [mapaarq.com]

Casa Yamada, Barueri, SP, 2002-2004, SIAA arquitetos [www.siaa.arq.br]

Casa Biovilla pátio, MG, 2012, Arquitetos Associados [www.arquitetosassociados.arq.br]

Casa Tibau, MG, 2011, arquiteto Yuri Vital [www.yurivital.com]

Diferente das soluções anteriores, a Casa Brasileira 2 (2011), dos Arquitetos Associados, e a Casa em Itu (2011), do Una Arquitetos buscam mimetizar seus volumes na topografia íngreme. Sem aberturas nas laterais do volume, pátios são moldados para iluminar e ventilar os ambientes e a cobertura assume o papel de um grande terraço-mirante. Na primeira casa, observa-se um volume disposto perpendicularmente à curva de nível, dois pátios dispostos na sequência longitudinal do volume e duas circulações periféricas, que conectam os pavimentos dispostos em níveis diferentes. No térreo, a configuração de um dos pátios sofre variações espaciais, derivadas da topografia íngreme e do deslocamento das lajes dos pavimentos superiores. Na segunda casa, o volume se coloca mais paralelo às curvas de nível e uma rigorosa grelha regula a disposição de quatro pátios, alguns que iluminam apenas o pavimento superior e outros que interpenetram os dois pavimentos. O arranjo espacial é dinâmico e não obedece aos esquemas tipológicos observados nos exemplos dos anos 1940/1950.

Casa Brasileira 2, MG, 2011, Arquitetos Associados [www.arquitetosassociados.arq.br]

Casa em Itú, SP, 2011, UNA arquitetos [www.unaarquitetos.com.br]

Duas casas do grupo SPBR ainda merecem menção pelo modo em que o terreno é tratado, provocando tensões tridimensionais até então pouco exploradas na arquitetura brasileira. Na Casa em Ribeirão Preto (2000-2001), o pátio é elevado em relação à rua por uma plataforma. Na Casa e Salão de beleza (2007-2012), o pátio é explorado apenas no pavimento superior, apoiando-se sob a laje do pavimento inferior, que é rebaixado em relação à rua. Nas duas casas, observa-se um arranjo em “U”, estando o setor de serviços e o hall disposto na ala que conecta a ala social e a íntima. Na primeira casa, o arranjo dos quartos obedece a uma mesma orientação solar, o que é ignorado na segunda casa.

Casa em Ribeirão Preto, SP, 2000-2001, SPBR arquitetos
Foto Nelson Kon [www.spbr.arq.br]

Casa e salão de beleza em Orlândia, SP, 2007-2012, SPBR arquitetos
Foto Nelson Kon [www.spbr.arq.br]

Da análise deste universo de treze casasprojetadas e construídas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, depois dos anos 2000, destacam-se várias soluções comuns, experimentadas nos anos 1940 e 1950, ao menos no que diz respeito às obras de Calabi, Palanti, Levi e Artigas, e desenvolvidas predominantemente na cidade de São Paulo. Dentre estas soluções podem ser agrupadas:

  • Quanto às relações das alas e os limites dos lotes: de modo recorrente, a maioria das casas (nove) não tocam os limites laterais do terreno, apesar dos volumes, em um número de  casos significativos, serem definidos lateralmente por empenas cegas ou parcialmente cegas, uma clara alusāo à solução utilizada por Artigas a partir da segunda metade dos anos 1950. Nestes casos com recuos laterais podem se justificar por diversas razões: imposições legais; necessidade de garantir a iluminação e ventilação de ambientes de permanência provisória, que migram para a periferia lateral do volume; e necessidade de criar um acesso direto ao recuo posterior do lote. Estes recuos se viabilizam também porque, na maioria dos casos, o programa se organiza em dois pavimentos, o que reduz a projeção horizontal das casas. Ocupando os limites laterais de lotes muito estreitos, destacam-se a Casa Rubi (Frederio Zanelatto - 2006) e a Casa Porto do Sol (Mapa - 2010)
  • Quanto à topografia: em terrenos íngremes, uma única casa define uma plataforma regularizadora, na qual se apoia a maior parte do programa, assim como foi visto em Calabi; em outra casa, uma ala em pilotis garante a passagem para outro nível, como na casa de Levi; e em outras três, as alas são articuladas em níveis intermediários e o programa organizado dentro de um invólucro volumétrico pré-definido, como nas soluções de Artigas. Como contraponto aos arranjos até então também explorados nos anos 1940 e 1950, merecem menção quatro casas: duas delas “mimetizadas" na paisagem e duas  nas quais os pátios resultam da manipulação de níveis no terreno, observando nestas últimas arranjos tridimensionais que transgridem aos esquemas vistos na primeira parte deste texto e que se consolidaram em torno à ideia de arquitetura moderna brasileira.   
  • Quanto ao zoneamento e arranjo espacial: apenas na casa Bacopari (2011-2012 - Una Arquitetos) e na Casa AR (2002-2003 - Arquitetos Associados), o setor íntimo ocupa todo o segundo pavimento, estabelecendo assim um zoneamento por níveis. Nas demais, o zonemento se dá por alas isoladas, seja ela organizada em um pavimento, em dois pavimentos ou em níveis intermediários. O arranjo do setor íntimo sofre maiores variações em relação aos exemplos dos anos 1940 e 1950, quando eram recorrentes as soluções com os banheiros entre os quartos. Atualmente, as soluções em que os banheiros se internalizam nas plantas, liberando circulações e quartos para as visuais do pátio, são observadas com mais frequência. Além disso, observa-se os seguintes arranjos: linha de banheiros separada dos quartos pela circulação; banheiros dispostos na sequência dos quartos, provocando circulações em suite; e banheiros dispostos nos extremos longitudinais da ala íntima. 
  • Quanto ao acesso e circulação: são identificados dois arranjos principais com relação à  circulação: 1) na periferia do lote, como circulação isolada ou associada à área de serviço, cozinha e banheiros, conectando as alas social/serviço e íntima, dispostas paralelamente em relação à rua; 2) numa posição mais centralizada no lote, fragmentando o pátio. Apenas as casas Itu e Tibau possuem conexões dinâmicas, que fogem aos padrões identificados. 

Quanto à espacialidade: assim como nas casas dos anos 1940 e 1950 expostas na primeira parte deste texto, na maioria das treze casas contemporâneas comentadas, o pátio é a extensão visual e/ou física do estar e, em alguns casos, também das circulações. Trata-se, portanto, de pátios que efetivamente se estabelecem como centros compositivos dos projetos, com exceção da Casa Itu, em que os pátios são artifícios que garantem a iluminação e ventilação necessária, definindo padrões espaciais dinâmicos e imprevisíveis.

A casa com pátio brasileira: tradição, herança, recorrência e inovação

Os esquemas e as classificações propostas sugerem que as questões colocadas no início deste texto são pertinentes, na medida que identificam na arquitetura residencial unifamiliar produzida hoje no Brasil por jovens arquitetos ressonâncias de algumas das soluções divisadas nos anos 1940, 1950 nas quais o pátio assumiu papel fundamental. Particularmente no modo de ocupar a parcela, no nexo entre as diferentes partes e setores ou ainda pela forma de relacionar interior e exterior.

De modo sintético, consolida-se um esquema com duas alas paralelas em relação à rua, conectadas por uma circulação periférica, que pode estar vinculada ao setor de serviços ou aos banheiros. Estas alas organizam os setores íntimo e social-serviços, cujos ambientes – estar e circulação – interagem física e visualmente com o pátio, formado pela disposição das três alas. O pátio, tanto nos anos 1940 e 1950, assim como nos últimos 20 anos, condicionado pelo tipo de parcela e pela extensão dos programas exigidos por determinados extratos sociais mais altos, é o centro que organiza a composição da casa, o centro que promove a privacidade doméstica e que proporciona uma vida em intensa relação com o exterior, 

Contudo, o conjunto de obras exposto revela outro escopo de soluções que podem ser muito valiosas ao ensino e prática do projeto. Certas transgressões do esquema descrito anteriormente potencializam as possibilidades visuais e espaciais: como na manipulação topográfica, observada nas casas Brasileira 2 e Itú; na articulação de níveis das casas do SPBR; no uso de mezaninos nas salas; na vinculação dos pátios com terraços; bem como através do uso de um jogo de lajes nos seus limites verticais. Finalmente, o pátio segue tendo um papel essencial na definição do projeto, no entanto, atualmente, por meio dos exemplares selecionados, pode-se afirmar que suas dimensões horizontais e verticais se multiplicaram e os seus limites se tornaram imprecisos.

Notas

1
PONTI, Gio. “Idea per la Casa dell dottor T a San Paolo”, In Revista Dommus, Milão, n. 282, maio de 1953.

2
CORATO, Aline Coelho Sanches. A obra e a trajetória do arquiteto Gian-carlo Palanti: Itália e Brasil. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo)  Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2004.

3
COSTA, Ana Elísia. O Gosto pelo Sutil. Confluência entre as Casas-Pátio de Daniele Calabi e Rino Levi. Tese (Doutorado em Arquitetura). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011. 

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Sobre os autores

Ana Elísia da Costa possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Católica de Goiás (1993); mestrado (2001) e doutorado (2011) em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo realizado pesquisas no Instituto Universitário de Arquitetura da Veneza, em 2005. Atuou como professora e pesquisadora na Universidade de Caxias do Sul e na Universidade do Vale do Rio dos Sinos e hoje é professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em projetos de edificações, atuando principalmente em arquitetura residencial. Academicamente, dedica-se ao ensino de Projeto de Arquitetura e desenvolve pesquisas na área de Projeto e de Patrimônio Arquitetônico.

Marcio Cotrim é arquiteto, professor adjunto II da graduação e da pós-graduação em AU da UFPB, membro pesquisador do Laboratório de pesquisa Projeto e Memória (www.lppm.com.br) e um dos editores da sessão espanhola do portal Vitruvius.

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Análise energético-ambiental de fachadas com foco na reciclagem

Estudo de caso com painéis de alumínio composto “ACM” em Brasília

Graziela Moreno Monteiro Martins Gouveia e Rosa Maria Sposto

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