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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
A partir da análise das causas de catástrofes naturais e das tipologias de habitações temporárias primitivas, este artigo levanta diretrizes para o projeto de abrigos emergenciais em situações de desastre ambiental.

english
From the analysis of the causes of natural disasters and the types of primitive temporary housing, this article raises guidelines for the design of emergency shelters in situations of environmental disaster.

español
A partir del análisis de las causas de los desastres naturales y los tipos de viviendas temporales primitivas, este artículo plantea pautas para el diseño de refugios de emergencia en situaciones de desastre ambiental.


how to quote

LEMES, Giovanna Loíse da Cruz; REZENDE, Alex Nogueira. Habitações emergenciais em situações de desastres ambientais. Arquitextos, São Paulo, ano 20, n. 232.02, Vitruvius, set. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.232/7520>.

Os fenômenos naturais agravados ou não pelo homem podem levar a muitas perdas, principalmente quando atingem uma sociedade vulnerável. Deste modo, este texto busca auxiliar na resposta a esses acontecimentos por meio de diretrizes arquitetônicas para abrigos emergenciais.

As consequências dos desastres podem variar conforme a sociedade está preparada para eles. O Brasil por vezes não tem se mostrado apto para lidar com estas situações pois o número desses acontecimentos com perdas humanas e materiais tem crescido, principalmente por existir várias áreas de risco ocupadas sem o devido cuidado (1).

Assim, busca-se entender os desastres e como um abrigo pode contribuir com a recuperação dos traumas físicos e psicológicos das vítimas, criando um lar temporário, mas atentando para não superar o padrão de vida anterior dos desabrigados e assim transformar em permanente aquilo que foi projetado para ser efêmero (2).

Os desastres ambientais sempre existiram em variadas escalas, em todo o mundo e por diversos fatores, entretanto, atualmente as mudanças climáticas têm sido mais drásticas, principalmente por causa da intervenção humana que tem gerado a degradação ambiental e o aquecimento global (3). Assim, as chuvas intensas, as estiagens, os desabamentos e outros eventos estão tornando-se mais comuns, crescendo a possibilidade de ocorrer os desastres ambientais.

O chamado êxodo rural (trânsito das pessoas do campo para as cidades em busca de melhores condições de vida) tem aumentado o processo de urbanização principalmente nos países subdesenvolvidos. O Brasil, por exemplo, tinha um grau de urbanização de 84% no ano de 2010 (4), entretanto há um déficit habitacional em que parte da população é levada a ocupar locais irregulares com riscos reais de catástrofes ambientais.

O cuidado com estes locais de risco é, muitas vezes, negligenciado pelas políticas públicas. Segundo Lídia Tominaga (5), os organismos oficiais preferem mais as políticas de resposta aos atingidos do que as de prevenção, pois estas não possuem a mesma visibilidade nem arrecadam tantos investimentos como aquelas. Assim, geralmente, pouco é feito para melhorar a condição de vulnerabilidade desses espaços ou para retirar as pessoas dessas áreas de risco.

É interessante citar que os países desenvolvidos normalmente possuem um número menor de mortes por desastre, assim como os gastos com a recuperação das áreas atingidas são muito maiores. Isso é consequência de uma preocupação tanto com o pré-desastre ao adotar medidas que diminuem o número de afetados, como também com o pós-desastre investindo na recuperação dos atingidos (6) (7).

Entende-se, portanto, que projetar uma habitação emergencial adequada é importante pois, além de proporcionar teto aos desabrigados, ela pode auxiliar na recuperação das vítimas, oferecendo dignidade e melhores condições de vida para pessoas em situações extremas que podem ter perdido suas casas, pertences ou entes queridos.

Portanto, o intuito deste texto é levantar diretrizes projetuais para habitações emergenciais propostas em situações de desastres ambientais, ao sugerir soluções mais efetivas para a população vítima deste cenário, seja no Brasil ou em outros países com características semelhantes, buscando atender suas necessidades básicas, proporcionar conforto e sensação de lar ainda que temporário.

Para isto, é necessário conceituar o desastre e identificar as principais causas dele no Brasil. Também é importante levantar as necessidades eminentes dos desabrigados analisando abrigos temporários seja eles emergenciais ou de povos primitivos. Dessa maneira é possível assimilar os princípios fundamentais para um abrigo emergencial colaborar com a proteção, a recuperação e com o retorno à normalidade da população atingida.

O desastre e seus principais conceitos

Grandes catástrofes são registradas desde a Antiguidade provocando destruição, mortes e desalojamentos em todas as partes do mundo (8). Porém, esses números estão aumentando, tanto pela ampliação e melhoria dos registros, como por um real crescente de casos no mundo (9).

O desastre significa uma fatalidade que pode estar relacionado a várias áreas envolvendo o campo econômico, político, social, ambiental ou outros, como explica Gustavo Anders: 

“No Brasil, assim como em outros países em desenvolvimento, existe uma série de problemas e desastres cotidianos: o desastre social, econômico, político, tecnológico, ambiental, entre diversos outros. Como consequência desse cenário de pobreza, podemos apontar algumas situações de desastre, como por exemplo, os moradores de rua; a criminalidade; a corrupção; a elevada taxa de analfabetismo; o sistema público de saúde precário; as favelas e os loteamentos irregulares e clandestinos, onde milhões de pessoas moram sem acesso à água potável e esgotamento sanitário; entre muitas outras situações” (10).

Aqui analisa-se mais profundamente os desastres ambientais, ou seja, decorrentes de fenômenos da natureza. Segundo o Glossário da Defesa Civil para Desastres (11), eles podem ser “naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema (vulnerável), causando danos humanos, materiais e/ou ambientais e consequentes prejuízos econômicos e sociais”. Muitas vezes o desastre tem um choque tão grande que a comunidade afetada não é capaz de reparar seus prejuízos sozinha (12).

Para entender quais lugares são mais suscetíveis a esses eventos é preciso compreender que alguns locais são mais frágeis do que outros. O risco de um desastre ocorrer é marcado pela soma de um fator ameaçador com uma circunstância vulnerável (13). Ao estudar as ameaças e os locais vulneráveis torna-se mais fácil prever a ocorrência de desastres e assim adotar medidas preventivas, e também preparar respostas a estas situações, como envio de profissionais da saúde, bombeiros e, quando necessário, implantação dos abrigos emergenciais.

A compreensão das causas de uma catástrofe ambiental facilita o entendimento de quais lugares são mais vulneráveis e, consequentemente, auxiliam na escolha das estratégias tanto de prevenção como de auxílio posterior. Muitos desastres iniciam-se com predisposições naturais do ambiente, como formas do relevo, natureza hidrográfica, características geomorfológicas, intensidade e frequência das chuvas, dentre outros (14). Todavia, é fato que vários desastres com danos drásticos não ocorreriam se houvesse um melhor conhecimento dos fenômenos da natureza e uma urbanização de acordo com eles (15).

Vale ressaltar que a frequência e intensidade desses eventos naturais podem estar relacionadas com a intervenção humana, pois várias atividades do homem têm gerado um amplo aquecimento global, uma maior degradação ambiental e consequentemente uma crescente alteração climática; com isso, aumenta-se a ocorrência desses fenômenos que alteram o meio ambiente (16). Isto também é comentado por Anders: “Cada vez mais são reportados casos onde eventos físicos, que aparentemente parecem naturais, afetam as cidades; porém uma análise mais aprofundada mostra que esses eventos têm sua origem a partir da intervenção humana” (17).

As ações humanas também podem interferir no processo de urbanização irregular que tem sido um dos grandes agravantes das catástrofes no Brasil e em outros países em desenvolvimento. A partir de 1950, a população rural brasileira dirigiu-se para as áreas urbanas, o que desencadeou um grau de urbanização que hoje ultrapassa os 84% (18). Além das cidades não terem sido planejadas para receber essa quantidade de pessoas, a especulação imobiliária intensificou o déficit habitacional forçando a população mais carente a morar em áreas inapropriadas, tanto em favelas e loteamentos clandestinos da periferia, como em espécies de cortiços na região central (19).

Muitas vezes, os locais onde as pessoas instalam-se são situados em áreas de vulnerabilidade, seja nas Áreas de Preservação Permanente – APP, encostas instáveis ou locais susceptíveis às inundações (20). Assim, as deficiências no planejamento urbano têm se mostrado como importante agravador dos desastres naturais.

Outro fator intensificador tem sido algumas ações públicas. Apesar de existirem conhecimentos técnicos para prevenir os riscos, ainda há preferência nas ações emergenciais à gestão do risco (21). Isto ocorre pois: 

“As ações de redução de riscos não oferecem a mesma visibilidade às políticas de organismos oficiais nacionais e internacionais, arrecadadores de fundos, em relação aos programas de atendimentos emergenciais, os quais normalmente têm grande exposição na mídia” (22).

Entende-se, portanto, que apesar dos fenômenos naturais poderem atingir qualquer lugar, os desastres têm afetado de maneira mais drástica os locais menos desenvolvidos, que tem um planejamento urbano e de risco deficiente.

Períodos do desastre

As catástrofes ambientais podem ser divididas em três períodos para facilitar a compreensão: pré-desastre, desastre e pós-desastre. O primeiro compreende o momento anterior aos eventos adversos, é nesta ocasião que podem ser implantadas medidas que diminuem os danos dos desastres, como o planejamento urbano que evita urbanização vulnerável e também políticas específicas para gerenciar o risco com identificação e mapeamento das ameaças, monitoramento das situações críticas, educação ambiental, dentre outros (23).

O segundo período compreende o desastre em si, quando um fenômeno da natureza atinge um local, o momento do impacto das ameaças onde o risco torna-se realidade.

Logo em seguida há o pós-desastre em que é preciso auxiliar às vítimas e reparar o local. Compreender este estágio é essencial para fornecer ajuda correta às pessoas afetadas e propor maneiras de recuperar as áreas atingidas. O órgão responsável pela resposta às emergências no Brasil é a Defesa Civil, ela deve estar organizada tanto em nível federal como estadual e municipal (24). Já em contexto mundial, a International Federation of The Red Cross`s – IFRC é o grupo responsável pela ajuda em situações de desastre (25).

Este último período pode ser dividido em três fases: 1) auxílio imediato, do dia do impacto até aproximadamente cinco dias; 2) reabitação, geralmente sendo do quinto dia até três meses após o desastre, porém por vezes esta situação persiste por anos; 3) reconstrução, comumente abrangendo do terceiro mês em diante (26).

A primeira fase deve ser oferecida no menor tempo possível, fornecendo socorro e atendimento às vítimas em questões logísticas e de saúde (27). As habitações neste período são as emergenciais propriamente ditas e dividem-se em fixas, como edificações públicas e ginásios, e em móveis, constituídas por barracas, muitas vezes improvisadas pela própria comunidade atingida ou disponibilizadas em kits de assistência (28) (29). 

Fases do pós-desastre
Elaboração Giovanna Loíse da Cruz Lemes

Já a segunda fase consiste em diagnosticar e reparar aos poucos o cenário do desastre com avaliação dos danos, remoção de escombros e auxílio às vítimas (30). Nesta fase são disponibilizados os chamados abrigos temporários, eles possuem um significado de recuperação, pois mesmo enquanto as pessoas aguardam por suas casas permanentes, elas já podem retornar às suas atividades e ter algum conforto desde que não comprometa recursos destinados às reconstruções (31).

Por fim, há a reconstrução onde são previstas ações objetivando o retorno à normalidade, o restabelecimento dos serviços públicos, da economia da área e do bem-estar da população através da construção de habitações permanentes (32) (33).

Sobre estas fases Ian Davis afirma que: 

“Entre a provisão de abrigo de emergência e reconstrução permanente existe uma gama de opções intermediárias. No entanto, quanto antes o processo de reconstrução começar, menor serão os custos sociais, econômicos e de capitais finais do desastre” (34).

Assim, compreende-se que as fases de auxílio imediato e de reabilitação devem ocorrer com rapidez e qualidade, contudo é preciso atentar-se para isto não prejudicar a etapa de reconstrução das casas permanentes para as vítimas.

Estratégias de abrigo

O abrigo para as vítimas dessas situações é importante e torna-se ainda mais eficaz por estabelecer áreas privadas, proteger os habitantes contra as intempéries, estocar os pertences pessoais, dar suporte às atividades sociais e assegurar a manifestação da identidade (35). Entretanto, há várias maneiras de responder aos desabrigamentos. Para optar pela melhor forma deve-se observar o local, o tipo e a intensidade do dano, e, além disso, é importante identificar a opinião da comunidade atingida para propor medidas que realmente as ajudem (36).

Foram encontrados quatro tipos de abrigos mais comuns: as tendas, projetos padrões incorporando materiais indígenas, as casas temporárias e os edifícios existentes que podem ser adaptados. A fim de facilitar a escolha pela melhor estratégia, explana-se a seguir sobre essas, segundo Ian Davis, Gustavo Anders e Giovana Savietto Feres (37) (38) (39):

a) Tendas

São as formas mais comuns de abrigos emergenciais. Elas são populares por serem leves, de fácil transporte, construídas de maneira acessível e rápida, e com um armazenamento facilitado. Além disso, elas têm características que com o tempo as tornam antiquadas e assim, dificilmente tornam-se permanentes.

Assim, entende-se que esta opção atende bem à primeira fase do pós-desastre por ter transporte e montagem rápidos e simples. Além disso, o deslocamento pode ser facilitado se houver locais para o armazenamento destas estruturas nas cidades com planos de gestão ao risco de desastre.

b) Projetos padrões incorporando materiais indígenas

Nos últimos anos tem sido estudado o uso de materiais indígenas na arquitetura emergencial, principalmente visando melhorar seu uso estrutural, todavia há poucos profissionais especializados nesses materiais participando destes tipos de projetos. Outro fator a observar é que eles ainda não são muito aceitos por algumas populações, um dos motivos para isto é que as formas dos abrigos são menos funcionais do que os tradicionais, logo os usuários têm dificuldade na adaptação.

Apesar disso, estes materiais, com melhores experimentações e estudos, têm uma durabilidade que permite que eles sejam usados para a reconstrução das habitações permanentes, servindo às populações desalojadas, principalmente em resposta a última fase do pós-desastre.

c) Casa temporária

Consiste na disponibilização de casas temporárias que devem durar até sua substituição por permanentes. O princípio consiste em oferecer unidades com pouco custo às vítimas sem prejudicar os recursos destinados à reedificação das casas permanentes. Esta alternativa é interessante quando os danos do desastre cobrem áreas muito amplas e a reconstrução desses locais levará muito tempo para ser feita.

Entretanto, um grande problema que pode ser gerado é a transformação dessas casas temporárias em permanentes, criando favelas e uma urbanização irregular, tornando o local susceptível a novas catástrofes. Esta medida pode responder à segunda fase do pós-desastre onde a população precisa de habitação por um período de tempo maior na espera da reedificação das casas definitivas.

d) Adaptação de edifícios existentes

Os edifícios existentes devem estar em uma distância segura do local da catástrofe, mas ao mesmo tempo terem acessibilidade e instalações que garantam a qualidade de vida mínima às vítimas. Alguns locais possíveis para este uso são galpões, ginásios, igrejas e outros, todavia deve-se evitar as escolas para não atrapalhar o ano letivo.

Esta estratégia é capaz de responder à primeira fase do pós-desastre, sendo um abrigo emergencial fixo, porém em grande parte dos casos, as instalações nesses lugares são insalubres, comprometendo a qualidade de vida e a privacidade das famílias, logo, a arquitetura poderia influenciar nessa estratégia propondo melhores mobiliários e espaços com privacidade e segurança.

É relevante destacar que a escolha por uma estratégia dentre as citadas não impede a atuação de outras, se necessárias, desde que haja a devida participação da comunidade e adequação à cultura e às características locais.

Arquitetura e o abrigo

Após compreender o conceito de desastre, entende-se a importância do refúgio para as vítimas, independente da forma de abrigo utilizada. Assim, busca-se compreender como a arquitetura se faz presente nestas habitações e como ela pode não só proteger as vítimas, mas também transformar espaços em lugares, fazendo com que as pessoas se identifiquem e se apropriem do local temporariamente.

O abrigo emergencial pode trazer aos atingidos a percepção de bem-estar, segurança, dignidade, proteção e conforto (40). Este último termo traz um conceito por vezes subjetivo, pois pode envolver questões ligadas ao contexto cultural de uma sociedade, entretanto há maneiras objetivas de proporcionar o conforto, como por exemplo a adaptação à escala humana, disposição funcional do espaço e adequação às questões climáticas (41).

Para melhor entender as contribuições da arquitetura na concepção dos abrigos emergenciais são analisados a seguir algumas habitações temporárias primitivas e posteriormente outras emergenciais mais contemporâneas.

Habitações temporárias primitivas

O conhecimento sobre estas habitações permite compreender alguns princípios que podem ser utilizados nos projetos de habitação emergencial relacionados aos materiais, modos de execução e transporte, à disposição funcional e ao conforto. Afinal, muitas questões se repetem apesar de tratarem de outras épocas e contextos:

“Destas culturas regionalmente díspares, muitos dos desafios gerados da necessidade de prover abrigos são comuns: estes precisam ser duráveis, leves, flexíveis e por fim, serem transportados de maneira simples; sendo que isso não significa que os abrigos e suas posses não tenham conforto ou beleza” (42).

O homem sempre teve necessidade de se proteger seja das condições climáticas adversas ou dos perigos eminentes, por isso, refugiava-se nas cavernas e, com o decorrer do tempo, ao precisar fixar-se por um período, ele passa a desenvolver abrigos temporários preocupando-se com a mobilidade e flexibilidade desses; ao tornar-se totalmente sedentário, o homem desenvolve as habitações permanentes (43) (44).

A mobilidade é essencial para os nômades, pois dependiam da caça de animais, da pesca e da coleta de plantas para se alimentar, por isso se locomoviam para aproveitarem os melhores períodos de cada atividade (45). Durante esses deslocamentos era necessário levar tudo consigo, e, portanto, constata-se que: 

“O verdadeiro nômade, ao se mudar, carrega o seu lar e seus familiares. Não constrói um novo, nem adapta outro suporte para o uso residencial. Por isso, a materialidade deste lar incorpora instrumentos que facilitam o transporte, como a leveza” (46). 

Dentro deste contexto é possível citar o Tipi, abrigo utilizado pelos nativos norte-americanos, uma tenda cônica cujos elementos normalmente são: base enterrada no solo; estrutura feita por uma série de varas principais e complementada por secundárias, todas amarradas na parte superior; e revestimento feito de peles, formando um todo tensionado (47). 

Abrigo primitivo Tipi
Foto Frank Palmer [Wikimedia Commons]

O sistema construtivo e a planta livre da tenda permitiam uma versatilidade de usos; da mesma forma, também tinha uma rápida montagem e desmontagem, permitindo assim que as tribos mudassem de local facilmente (48). A abertura superior nessas tendas liberava a fumaça da fogueira, mas também trazia vantagens térmicas pois permitia a entrada de iluminação e a circulação de vento; também havia a possibilidade de fechá-las em caso de condições climáticas adversas ou ataques de inimigos (49).

Outra habitação temporária primitiva que pode ser analisada é o Yurt, tenda circular utilizada por tribos mongóis (50). A sua estrutura interna é feita de um treliçado de tiras de madeira com juntas articuladas que permitem a contração e expansão do painel para facilitar o seu transporte; a sua cobertura é composta por varas de madeiras, as quais são presas a uma coroa circular no topo; seu revestimento utiliza lã ou materiais vegetais que isolam o interior (51).

Abrigo temporário Yurt
Foto Tkn20 [Wikimedia Commons]

Quando a temperatura está elevada, o ar mais fresco entra pela parte de baixo da cabana, vai subindo à medida que aquece e sai pela abertura superior; já quando está frio, as aberturas são fechadas e mais camadas de revestimento são adicionadas para ampliar o isolamento térmico (52), isto reflete a preocupação com o conforto térmico da habitação. Apesar da tenda ser extremamente sólida quando erguida, ela possui uma liberdade interna, é facilmente transportada e o seu sistema construtivo permite uma prática montagem e desmontagem (53).

A partir desses exemplos de abrigos temporários serem primitivos, alguns conceitos podem ser absorvidos para projetar um abrigo emergencial, como por exemplo: montagem rápida e fácil, adequação ao clima com estratégias de ventilação e iluminação natural, adaptação quanto ao contexto local na escolha dos materiais e na funcionalidade do abrigo, efemeridade na estética e no sistema construtivo, preocupação com a segurança e flexibilidade de usos através da planta livre.

Shigeru Ban

A fim de estabelecer diretrizes para abrigos emergenciais mais eficientes analisa-se as obras do arquiteto Shigeru Ban. Ele é um arquiteto japonês que há muito tempo tem pesquisado e trabalhado a arquitetura com estruturas alternativas. Em 1995, a cidade de Kobe, Japão, sofreu um terremoto e visando atender os desabrigados, o arquiteto construiu um abrigo chamado Paper Log House, sua base era elevada e composta de engradados, a parede de tubos de papel e a cobertura de lonas plásticas, que poderiam permitir a circulação de ar (54).

Paper Log House, Filipinas. Arquiteto Shigeru Ban
Foto Lois Ascher [Wikimedia Commons]

Uma das vantagens desta construção é a facilidade de sua montagem e desmontagem com possibilidade de reaproveitamento dos materiais. Também há a possibilidade de adequação de acordo com contexto cultural e climático do local atingido. A exemplo disso, há os abrigos na Turquia e Índia, nos anos de 2000 e 2001 respectivamente, o primeiro teve alterações quanto às dimensões e maior preocupação com o isolamento térmico; já o segundo os engradados da base foram substituídos por escombros dos edifícios destruídos, a estrutura de tubos de papel se manteve, mas utilizou-se trançado de bambu para as vedações e foi criado uma varanda para proteção climática e convívio entre as vítimas (55) (56).

Em síntese, as habitações emergenciais deste arquiteto trazem algumas diretrizes para realizar outros projetos nesta temática, como: a utilização de matéria-prima local e acessível, adaptação ao local ora trocando os materiais, ora alterando as dimensões, conforto ambiental na elevação da cobertura e base, varanda como local de convívio, privacidade e qualidade de vida ao favorecer a individualidade.

Protótipo Puertas

Projeto realizado pelo escritório Cubo Arquitectos em parceria com a Universidade Central do Chile, a unidade não foi implantada em nenhuma região de desastre, mas foi testada por eles (57). Procurou-se utilizar materiais de fácil transporte, execução e que já fossem usados no local, como pallets de madeira no piso, placas de OSB nas paredes, plástico bolha nas esquadrias e lona com perfil de aço na cobertura (58).

Funcionalmente, o protótipo é composto por duas áreas: dormitório e estar/serviço separadas por uma varanda central que funciona como espaço de convivência. Além disso, é possível prever sua ampliação ao anexar banheiro, área de serviço ou outro quarto (59). A cobertura é dupla, pois possui a estrutura com lona mais a própria vedação da unidade, o que permite melhor conforto térmico (60).

Portanto, a partir desta análise são levantadas algumas diretrizes que devem ser consideradas para tornar um abrigo mais adequado, como por exemplo: a flexibilidade com a possibilidade de expansão da unidade; a rapidez e a facilidade na execução pela escolha por materiais leves e comuns ao local; a interação social na varanda central; e o conforto ambiental.

Resultado

Ao estudar o desastre, entende-se a importância do abrigo e como a arquitetura pode contribuir com estas vítimas, principalmente se utilizar diretrizes projetuais, programáticas e construtivas adequadas. Assim, como resultado desta pesquisa, apresenta-se algumas dessas, sendo:

Mobilidade: esta característica permite que a habitação emergencial seja executada e transportada fácil e rapidamente. Nas referências analisadas, isto foi atingido através do uso de materiais leves e de sistemas construtivos comuns às comunidades afetadas.

Flexibilidade: está inserida no contexto da mobilidade e adaptabilidade, porém por ser um tema complexo, merece a devida atenção. Seu conceito faz referência a quando um espaço pode ser utilizado com diferentes funções ou servindo a diferentes grupos. Isto pode ser conquistado nos abrigos com estratégias como a planta livre, previsões de anexos na unidade ou elementos móveis que permitem que o usuário faça suas próprias alterações.

Conforto ambiental: esta diretriz pode ser atingida de diferentes maneiras, pois varia conforme o clima em que o abrigo está inserido. As melhores alternativas são estratégias variáveis que podem se adaptar de acordo com o local. Por exemplo, tanto os Tipis e Yurts como também o Paper Log House possuíam aberturas superiores que facilitavam a iluminação e ventilação natural, e além disto, poderiam ser fechadas em situações de clima adverso. Já a estratégia do Protótipo Puertas era prever uma cobertura dupla e um espaço de varanda.

Adequação cultural: é muito importante que consultem a comunidade desabrigada ao implantar as habitações emergenciais, pois ao ouvi-la há uma maior garantia que a população ocupará efetivamente o refúgio disponibilizado. Além disso, deve-se levantar propostas com esta preocupação, como a escolha programática do abrigo, o uso de materiais e técnicas locais, utilização de dimensões equivalentes com a cultura do lugar.

Adaptabilidade: relaciona-se principalmente com a capacidade da habitação adaptar-se a diferentes locais. Nos exemplos emergenciais ao longo deste artigo, uma estratégia muito comum foi elevar a base para permitir um ajuste a qualquer tipo de terreno.

Segurança: este termo pode ter um aspecto físico ou subjetivo. O primeiro diz respeito a proteção contra intempéries ou ataques inimigos, para isto deve-se atentar para a escolha das vedações corretas e propor que as aberturas sejam controladas pelo próprio usuário. Já o aspecto subjetivo relaciona-se com a privacidade, individualidade e sensação de lar efêmero, várias medidas foram estabelecidas nos abrigos analisados, como o estabelecimento de áreas privadas e de locais livres para armazenamento de pertences pessoais.

Interação social: a vivência em comunidade contribui na recuperação das vítimas. Para isto, o abrigo deve dar suporte às atividades sociais, seja através da implantação de equipamentos públicos, como refeitório e salão comunitário, ou também da inserção de locais de convívio dentro da própria unidade habitacional, como as varandas ou pátios internos.

Para encerrar este artigo é importante ressaltar que um abrigo emergencial não é o local mais desejado pelas pessoas, o homem atual prefere ter seu próprio espaço, sua habitação fixa, entretanto, este direito lhe é tirado por diversos fatores, como os desastres ambientais. Assim, a arquitetura tem um papel importante pois pode propor abrigos ou intervenções que atendam as principais diretrizes e necessidades das vítimas criando nestes espaços a sensação de lar, mesmo que temporário.

notas

1
ANDERS, Gustavo. Abrigos Temporários de Caráter Emergencial. Dissertação de mestrado. São Paulo, PPGAU FAU USP, 2007.

2
BARBOSA, Lara Leite. Design sem Fronteiras: a relação entre o nomadismo e a sustentabilidade. São Paulo, Edusp / Fapesp, 2012.

3
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela. Desastres Naturais: conhecer para prevenir. São Paulo, Instituto Geológico, Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, 2009.

4
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Sinopse do Censo Demográfico de 2010. Rio de Janeiro, Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 2011.

5
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela. Op. cit.

6
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

7
Centre for Research on the Epidemiology of Disasters. EM-DAT, The International Disaster Database. Bruxelas, Universidade Católica de Louvain, 1988 <http://www.emdat.be>.

8
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Arquitetura de Emergência: o papel da arquitetura na resolução dos problemas pós-catástrofe. Tese de doutorado. Vila Nova de Cerveira, Escola Superior Gallaecia, 2015.

9
Centro Universitário de Estudos e Pesquisas Sobre Desastres. Atlas Brasileiro de Desastres Naturais 1991 a 2012. 2a edição. Florianópolis, UFSC, 2013.

10
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

11
CASTRO, Antônio Luiz Coimbra. Glossário de Defesa Civil: estudos de riscos e medicina de desastres. 5a edição. Brasília, Ministério da Integração Nacional / Secretaria Nacional de Defesa Civil, 2007.

12
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Op. cit.

13
Idem, ibidem.

14
Understanding Risk Brasil. Relatórios do Fórum URBR 2012. Belo Horizonte, International Bank for Reconstruction and Development / The World Bank, 2013.

15
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

16
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela. Op. cit.

17
ANDERS, Gustavo. Op. cit., p. 33.

18
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Op. cit.

19
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

20
Idem, ibidem.

21
Understanding Risk Brasil. Op. cit.

22
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela. Op. cit. p. 17.

23
Understanding Risk Brasil. Op. cit.

24
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela. Op. cit.

25
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Op. cit.

26
DAVIS, Ian. Shelter After Disaster. 2a edição. Geneva, International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies, 2015.

27
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Op. cit.

28
FERES, Giovana Savietto. Habitação Emergencial e Temporária: estudo de determinantes para o projeto de abrigos. Dissertação de Mestrado. Campinas, FEC Unicamp, 2014.

29
International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies / The Um Refugee Agency / United Nations Settlements Programme. Shelter Projects 2010 <www.sheltercasestudies.org>.

30
TOMINAGA, Lídia Keiko; SANTORO, Jair; AMARAL, Rosangela. Op. cit.

31
FERES, Giovana Savietto. Op. cit.

32
Idem, ibidem.

33
International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies / The Um Refugee Agency / United Nations Settlements Programme. Op. cit.

34
DAVIS, Ian. Op. cit., p. 36. Tradução dos autores.

35
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Op. cit.

36
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

37
DAVIS, Ian. Op. cit.

38
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

39
FERES, Giovana Savietto. Op. cit.

40
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Op. cit.

41
SILVA, Helga Santos. Espaço Mínimo para a Máxima Existência: o conforto no Conjunto Pedregulho. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro, Proarq UFRJ, 2011.

42
ANDERS, Gustavo. Op. cit., p. 43.

43
Idem, ibidem.

44
GONÇALVES, Bruno Manuel de Brito Pereira. Op. cit.

45
BARBOSA, Lara Leite. Op. cit.

46
Idem, ibidem, p. 19.

47
Idem, ibidem.

48
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

49
Nomadics Tipi Makers. Need it soon? We have tipis in stock! The Nomadics Crew <http://www.tipi.com/>.

50
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

51
BARBOSA, Lara Leite. Op. cit.

52
Yurts e Gers: arquitetura vernacular na Ásia Central. Bioclimática A&S <https://bit.ly/2N1yYrO>.

53
BARBOSA, Lara Leite. Op. cit.

54
ANDERS, Gustavo. Op. cit.

55
Paper Log House – Turkey, 2000 / Bhuj, India, 2001. Shigeru Ban Architects <https://bit.ly/36hulkY>.

56
Ted Talks. Shigeru Ban. Emergency shelters made from paper. Youtube, 13 ago. 2013 <https://www.youtube.com/watch?v=q43uXdOKPD8>.

57
FERES, Giovana Savietto. Op. cit.

58
HEVIA GARCÍA, Guillermo. Prototipo Puertas – Vivienda de Emergencia / Cubo Arquitectos. Plataforma Arquitectura, 05 mar. 2010 < https://bit.ly/2JxqXIP>.

59
FERES, Giovana Savietto. Op. cit.

60
HEVIA GARCÍA, Guillermo. Op. cit.

sobre os autores

Giovanna Loíse da Cruz Lemes é arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (2017). Possui MBA em Gestão de Projetos em andamento pela Universidade de São Paulo (USP), Núcleo Esalq (2018-19).

Alex Nogueira Rezende é arquiteto e urbanista (UFMS, 2005), com especialização em Metodologia do Ensino Superior pelo Centro Universitário da Grande Dourados (2008), mestre pelo Programa de Pós-Graduação Mestrado em Estudos de Linguagens da UFMS (2012). Atualmente professor no Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS.

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232.02 arquitetura efêmera
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