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architexts ISSN 1809-6298

abstracts

português
Este artigo propõe uma reflexão sobre o caminhar e o estranhar ao longo dos muros do ramal ferroviário Santa Cruz, no Rio de Janeiro como prática estética e como método para apreensão e compreensão de condições “entre” na cidade.

english
This article propose a reflection about Walking and Stranging through the walls of Santa Cruz railway branch in Rio de Janeiro as an aesthetical practice and as an aprehension and understanding method of “in between” conditions in the city.

español
Este artículo propone una reflexión sobre el caminar y el extrañar y a lo largo de los muros del ramal ferroviario Santa Cruz, en Rio de Janeiro, como práctica estética y como métodos de aprehensión y comprensión de condiciones "entre" en la ciudad.


how to quote

FAVERO, Marcos; NASCIMENTO, Daniel Milagres. Muros do estranho. Outra leitura para os limiares do ramal ferroviário Santa Cruz no Rio de Janeiro. Arquitextos, São Paulo, ano 20, n. 233.01, Vitruvius, out. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.233/7548>.

Fragmentos na base de um dos muros ferroviários no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro RJ Brasil
Foto Daniel Nascimento, 2017

“O entusiasmo por esses espaços vazios, expectantes, imprecisos, flutuantes é, em código urbano, a resposta a nossa estranheza ante o mundo, ante a nossa cidade, ante nós mesmos” (1).

As caminhadas para alcançar a estação do Engenho de Dentro, seja para iniciar ou terminar os deslocamentos pela ferrovia, parecem sofridas. A escassez de cruzamentos, de encruzilhadas ao longo destas margens ferroviárias – fato cotidiano – se reflete internamente como uma escassez de escolhas e de possibilidades que beiram à ausência.

Na busca de um maior entendimento sobre esta sensação tão presente nestas margens urbanas, nestes limiares (2), surgem, pela primeira vez, os muros que conformam os seus limites. Eles materializam-se quase como confessionários de todo o incômodo que nos é gerado ao passarmos pelos ambientes que se desenvolvem ao longo destas margens ferroviárias – tão características – do subúrbio carioca, porém sendo, ao mesmo tempo, completamente invisíveis. A sensação é de total estranhamento interno. Familiares e, ao mesmo tempo, estranhos, os muros apareceram. A certeza de que eles têm este poder de influência direta em nossa experiência com estas margens e mesmo assim se abstiveram de sua visualidade é, repetimos, a de total estranhamento. Parece-nos desafiador realizar aqui o movimento contrário, isto é, lê-los e ouvi-los partindo do que nos perturba, do que está fora de nossa zona de conforto perceptiva, do que ainda não conhecemos integralmente.

É partindo deste estranhamento frente à cidade e seus elementos que guardam um alto grau de “expectância”, como se estivessem à espera de outros desvelamentos, que pretendemos traçar discussão sobre a sensação provocada ao caminhar pelos muros ao longo das margens do ramal ferroviário Santa Cruz no Rio de Janeiro (3). Discussão a ser traçada por meio da experiência direta e do diálogo com algumas ideias que se desdobraram a partir do ensaio Das Unheimlich de Sigmund Freud sobre o aparecimento do estranho, sobretudo aquelas trazidas por Ignasi Solà-Morales em Terrain Vague, Anthony Vidler em The Architectural Uncanny e Georges Didi-Huberman em Quando as imagens tomam posição, transpondo suas reverberações para certa reflexão sobre a cidade contemporânea.

Abertura para o inconsciente

O pensamento artístico foi profundamente transformado a partir do início do século 20 com a divulgação das pesquisas de Freud. A ideia de que existiria uma divisão da instância psíquica em três partes, o Ego, o Superego e o ID – esta última relacionada à dimensão inconsciente, às pulsões, ao princípio do prazer, a qual não teríamos acesso através da consciência e da qual muitas ações cotidianas, supostamente conscientes, derivam –, funcionou como uma abertura sem precedentes de um novo universo para pensadores e artistas e, sobretudo, uma fonte rica para o pensamento crítico sobre o ambiente em que viviam.

Nas vanguardas artísticas do início do século 20, é possível identificar de forma direta no movimento surrealista a influência da concepção de inconsciente (4) desenvolvida por Freud. Os surrealistas encararam de forma contundente o problema da complexificação do espaço real através de uma imersão nesta dimensão desconhecida, onde os sonhos, a fantasia e o aparentemente ilógico tornaram-se protagonistas. As deambulações surrealistas foram a primeira transposição deste conceito de inconsciente para caminhadas nas periferias urbanas que, ao assumir o caminhar como um meio de expressão artística – ação já feita pelos dadás –, construíram atravessamentos, na teoria e na prática, entre inconsciente, corpo e cidade fundamentais para certos desdobramentos posteriores no campo da arte.

Na arquitetura e no urbanismo neste período, no entanto, as ideias freudianas não tiveram a aderência observada na arte, pois, os ideais racionalistas e humanistas, capitaneados, naquele momento, sobretudo por Le Corbusier e Walter Gropius ganhavam força, e, embora de maneira distinta, estruturaram o que seria o movimento moderno nestas disciplinas.

Após a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente no final dos anos de 1950, houve uma retomada da discussão, iniciada com as descobertas de Freud, pelos situacionistas, momento no qual estes se aproximaram da ideia de psicogeografia (5). Esta aproximação nos faz pensar que, possivelmente, houve uma absorção, pelos situacionistas, da discussão sobre os movimentos do inconsciente iniciada pelos surrealistas, entretanto atualizando-a em pontos importantes: práticas corporais como a deriva, os deslocamentos, desvios e apropriações, à serviço do estudo da psicogeografia, parecem ter incorporado o afeto e o desejo aos movimentos do inconsciente, sendo assim capazes de produzir – a partir do lúdico, do jogo e da profanação – situações como uma espécie de reinvindicação por uma ocupação não-funcionalista no contexto urbano existente.

Já nos anos 1990, Francesco Careri cria o Stalkers, que assume como modo operativo para apreensão e compreensão da cidade as transurbâncias (6): caminhadas em zonas de subúrbio, zonas localizadas na periferia das cidades, onde não somente o caminhar, o derivar, mas também as diversas ações que dele se desdobram (como o invadir, o desviar e o próprio estranhar), funcionam como formas de investigação de conteúdos urbanos desconhecidos, não explorados, e, sobretudo, como reposicionamento político e crítico frente a complexidade que se coloca nas cidades contemporâneas.

Estas práticas corporais, realizadas ao longo do século 20, abrem possibilidades de operar e refletir criticamente sobre as relações construídas com os muros do ramal ferroviário Santa Cruz, pois indicam a possibilidade do caminhar como método de apreensão e compreensão da cidade de seus limites invisíveis, seus lugares entre coisas, suas urbanidades liminares, seus limiares. É a partir do caminhar, porém de um caminhar associado à condição de estranheza, que nos parece possível desvelar, apreender e compreender movimentos do inconsciente não somente como matéria escondida em lugares inacessíveis da psique, mas, acima de tudo, como material de produção de realidade, de construção de situações de incertezas território-corporais, de alteridade constante, que podem ampliar caminhos de experiência urbana. Caminhar e estranhar como mobilizadores do inconsciente urbano. Nestas duas ações, arrastadas entre si, que entraremos.

O caminhar como prática do estranhar

Furo abre passagem no muro em Magalhães Bastos, Rio de Janeiro RJ Brasil
Foto Daniel Nascimento, 2017

 

“Antes do neolítico, e, assim, antes dos menires, a única arquitetura simbólica capaz de modificar o ambiente era o caminhar, uma ação que, simultaneamente, é ato perceptivo e ato criativo, que ao mesmo tempo é leitura e escrita do território” (7).

Careri caracteriza o caminhar como nossa primeira ferramenta de leitura e escrita do território. Considera esta ação corporal como uma prática estética, na medida em que, além de ser uma via metodológica de apreensão e conhecimento da cidade, tornou-se uma ação artística, principalmente em espaços urbanos de periferia, espaços suburbanos (8). Tendo os diversos modos de caminhar como foco de sua aproximação teórica podemos perceber que foram geradas, a partir destas ações, mudanças no entendimento, e, sobretudo, na construção de narrativas sobre as cidades, que tensionaram profundamente noções de território, de paisagem e de história das próprias cidades.

Por sua vez, percebemos na historiografia hegemônica sobre as cidades (9) discursos estruturados em uma chave de leitura macro, isto é, partindo de análises conjunturais e dados acumulados para construir visões generalizantes sobre a experiência urbana. Sendo assim, por exemplo, no que diz respeito aos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, o ponto de partida é o intenso processo de urbanização que a cidade sofreu a partir de 1858 (10), data de implantação do ramal ferroviário Santa Cruz, onde podemos perceber que os processos urbanos são colocados em uma abordagem evolutiva.

Paola Jacques, assim como Careri, ao inserir o corpo e suas experiências urbanas, nos coloca a possibilidade de ruptura com esta visão historiográfica hegemônica. Todavia, a autora mobiliza o conceito de montagem, muito utilizado por diversos pensadores ao longo do século 20, como Georges Bataille, Walter Benjamin, Aby Warburg, Bertold Brecht e mais recentemente Didi-Huberman. Este conceito possibilita o entendimento de que a experiência corporal urbana é fragmentária em si. Sendo assim, há a possibilidade de montarmos estes fragmentos de sentido de múltiplas formas, ampliando nosso espectro de apreensão e compreensão da cidade.

O processo de montagem urbana entendido, especificamente, como procedimento formal e como forma de conhecimento urbano trabalha a partir dos processos de montagem-desmontagem-remontagem (11), nos termos de Jacques, ou de montagem e remontagem (12), como trata Didi-Huberman, de fragmentos desta experiência, em que não somente são abertas possibilidades de remontar narrativas, de sobrepor temporalidades distintas, mas, sobretudo, de expor as condições políticas em que tais narrativas urbanas foram e são construídas.

Associando esta visão à construída por Careri, é possível considerar que aquele tipo de construção da história – que segue sendo hegemônica em relação às cidades contemporâneas – tende a uma construção temporal linearizada, e não somente isto, tende a generalizar e comprimir a multiplicidade e complexidade destas zonas da cidade ao percebê-las como um conjunto de “espaços de estar” que se alteram ao longo do tempo, quando, de fato, “a cidade revela-se um espaço do estar inteiramente atravessado pelos territórios do ir” (13). Trata-se aqui de entender a cidade como um deslocar-se constante. Construí-la e conhecê-la através da experiência corporal, que não generaliza, pelo contrário, assume sempre caráter singular. Trata-se do corpo sendo afetado, tomando posição e sempre em relação.

Neste sentido, a potência de leitura dos muros e destas margens do ramal ferroviário Santa Cruz como limiares parece residir nas relações entre o corpo que caminha, os fragmentos e os resíduos destes muros; nos intervalos que são criados entre eles, entrando, portanto, em uma chave de leitura “micro” ou “micrológica, microbiana” (14), isto é, própria destes resíduos, no entanto parte de uma experiência fragmentária maior que é o caminhar nestes locais montando, a todo tempo, nexos de compreensão destes limiares urbanos.

A partir desta consideração, é possível perceber que a profanação destes limiares, dada no caminhar de forma errática por estes locais, possibilita não somente uma apreensão que em muitos casos subverte a construída na vida cotidiana dos sujeitos que habitam estas zonas suburbanas, mas, sobretudo, um caminho empírico em uma outra condição corporal: em uma condição de estranhamento, de estrangeirismo, onde outros muros, outras energias e fluxos podem ser sentidos. Como coloca Didi-Huberman: 

“O estrangeiro, assim como a estranheza, tem como efeito lançar uma dúvida sobre toda realidade familiar. Trata-se, a partir deste questionamento, de recompor a imaginação de outras relações possíveis na própria imanência dessa realidade. É ainda isto, distanciar: fazer aparecer toda coisa como estranha, como estrangeira, depois tirar disto um campo de possibilidades inauditas” (15). 

A familiaridade retirada ao caminhar ao longo destes limiares, ao longo destes muros, configura-se como um alinhamento importante com a noção de estrangeiro colocada por Didi-Huberman. As leituras destes lugares abandonam sensações de certeza, de ordem – dentro/fora, horizontal/vertical etc. – e incorporam outras como imprevisibilidade, abandono e fluidez. Neste caso, podemos aproximar esta noção das deambulações surrealistas, que tanto contribuíram para esta visão crítica, ou seja, para uma outra apreensão e compreensão da cidade, abrindo, a partir do mergulho no inconsciente, a possibilidade de geração de uma superrealidade ou surrealidade. Sobre esta prática, Jacques escreve:

“Os errantes que fizeram deambulações não estavam mais, como nas flanâncias, embriagados pela experiência e pelo choque da multidão nas ruas. Eles provocam a multidão, a devoram, entram nas passagens, se tornam passagens; como o trapeiro, recolhem os trapos, sobras, restos da cidade, e se embriagam com a própria fugacidade moderna, com a fugaz-cidade moderna. As passagens explicitam esse estado intermediário, a passagem entre antiguidade e modernidade, que tanto fascinava os surrealistas. Não se trata de forma alguma de nostalgia do antigo, pois a potência de estranhamento do cotidiano [...] reside exatamente em seu estado de eminente desaparecimento” (16).

Podemos aqui perceber que as deambulações tinham como fundamento não somente o conceito de inconsciente freudiano, mas, também, esta noção de “estranhamento do cotidiano” ou de “estrangeirismo urbano”, como uma espécie de condição na qual seria possível ampliar, construir ou “devorar” outras formas de apreensão e conhecimento do espaço urbano. Assim como podemos perceber um atravessamento importante da noção de estrangeiro, conforme colocada por Didi-Huberman, com as deambulações, é possível, de forma distinta, aproximá-la do entendimento das derivas – parte das transurbâncias de Careri –, na medida em que:

“A deriva é um dispositivo que não se opõe ao devir, mas o deixa acontecer e desdobrar-se, acompanhando-o para seus próprios fins: atravessar o mar, um território fluído em perpétuo movimento [...] obtendo potência e secundando a energia do vento, daquela pura força imaterial que, quando para, deixa de existir” (17) .

Podemos pensar, assim, que a potência da deriva carrega em si a condição de estrangeirismo, pois parte do deslocar-se através da imprevisibilidade de forças imateriais, do deixar-se mover tirando proveito de movimentos do devir, ou seja, utilizando encontros e relações que aí se estabelecem para ler e escrever lugares de outras formas. Nesta aproximação há que se considerar, portanto, processos de montagem-desmontagem-remontagem de sentidos, uma espécie de distanciamento imerso na experiência. Neste sentido, Didi-Huberman afirma: 

“Distanciar é demonstrar desmontando as relações de coisas mostradas juntas e agrupadas segundo suas diferenças. Não há distanciamento sem trabalho de montagem, que é a dialética da desmontagem e da remontagem, da decomposição e da recomposição de toda a coisa. Mas, ao mesmo tempo, esse conhecimento pela montagem será também conhecimento por estranheza” (18).

Considerando esta noção de distanciamento como um parâmetro importante para esta discussão, é possível conceber o estrangeiro como um montador de um campo de possibilidades interpretativas e, sobretudo, empíricas, sendo, portanto, o estranhar uma ação ou, mais especificamente, parte da profanação construída pelo caminhar, que atua, neste caso, nos limiares do ramal ferroviário Santa Cruz como um tipo de prática estética singular e complexa de apreensão e conhecimento da cidade.

Inevitavelmente, surge a questão: o estranhamento, dado através do caminhar do estrangeiro, pode produzir lugares na cidade? Como?

O estranhar como forma de apreensão e conhecimento urbano

Furos em pedaço de Muro em Realengo, Rio de Janeiro RJ Brasil
Foto Daniel Nascimento, 2017

O estranho, no senso comum, é entendido como algo da ordem do não-familiar, algo que foge ao que é de costume ou é deslocado por ter características que diferem do que é esperado. Freud, em O estranho (19), investiga as condições de aparecimento do estranho na percepção humana. Ao sair da simples dicotomia estranho/ familiar, discute que, de maneira geral, este sentimento guarda sua raiz no retorno de um conteúdo reprimido no inconsciente, independentemente de sua origem afetiva. A estranheza é dada no retorno em si e caracteriza-se por sua secreta familiaridade – desconstruindo, portanto, tal dicotomia. Ou seja, trata-se de algo que não é novo internamente – como pode muitas vezes parecer –, mas que foi afastado pela repressão. Algo que é, no limite, estranhamente familiar.

À luz desta abordagem, inicialmente, podemos pensar que, ao longo da história, a percepção dos muros foi de repressão ao direito de experimentar certos espaços da cidade de maneira espontânea, uma vez que determinados fluxos de desenvolvimento urbano nas zonas do subúrbio parecem ter sido reprimidos através da construção destes elementos (20). A repressão acontece de tal forma que a percepção de sua fisicalidade começa a operar no campo do invisível, sendo seu poder energético e sonoro (efetuados pelo movimento dos trens) protagonizados na construção da experiência do caminhar ao longo de seus limiares. A ação de estranhar em si mesma, promove um deslizamento entre o real/irreal, entre visível/invisível, desvelando camadas, inerentes a este ambiente urbano, mesmo que por breves momentos e revelando, no limite, a percepção de algo estranhamente familiar.

Ao considerar este fato, podemos começar a observar que o estranhamento – agora incorporado no caminhar – nos leva a uma espécie de condição entre, onde não se coloca, de fato, em jogo o ser estranho, visível, familiar ou invisível, mas sobretudo, o estar emaranhado em percepções que deslizam entre o real e o irreal, e, assim, complexificam determinadas condições urbanas e abrem outros caminhos de leitura. Pois, quando colocamos a noção de estrangeiro associada à prática da deriva conforme trazido à discussão por Didi-Huberman e Jacques, respectivamente (21) – onde o caminhar e o estranhar colocam-se juntos como o gatilho da percepção – parece haver um deslocamento importante para esta discussão, em relação ao entendimento freudiano de inconsciente.

Gilles Deleuze e Félix Guattari, no final dos anos de 1960 e início dos anos 1970, constroem uma crítica filosófica frontal em O Anti-Édipo à forma com que a escola psicanalítica freudiana vinha operando com a dimensão do inconsciente. De acordo com estes autores, Freud havia feito uma grande descoberta: o inconsciente desejante; porém, de uma forma geral, a psicanálise em si seria uma tentativa de analisar e reterritorializar estes movimentos desejantes do inconsciente, que, segundo Deleuze e Guattari são grandes potências de geração de vida e não devem ser trabalhados por um viés reorganizador, no limite, um viés negativo. Neste sentido, elaboraram modos de pensar o corpo, principalmente através do conceito de Corpo Sem Órgãos (CsOs) (22), que contribuem para entendermos melhor este deslocamento ao qual nos referimos. Na medida em que desfuncionalizam o corpo entendendo-o como puro afeto, construído em seu devir e nas relações que o transformam incessantemente, Deleuze e Guattari nos ajudam a pensar que o estranhamento para o estrangeiro que caminha, que deambula, que deriva pela cidade parece extrapolar certa leitura sobre o inconsciente fundada na ideia de repressão – e, por desdobramento, de repressão do ambiente urbano –, e aproximá-lo de uma ideia de produção de corpo, produção de realidade, de produção de lugares, como uma matéria fluente, uma matéria-movimento que a todo tempo nos atravessa. É possível, portanto, ampliarmos a discussão sobre o caráter repressivo e, sobretudo, produtivo que esses muros e seus limiares têm.

Anthony Vidler, em The Architectural Uncanny, constrói uma importante contribuição para o pensamento sobre a arquitetura e a condição urbana contemporânea tendo o estranhamento como chave de leitura. O autor afirma que o estranhamento mostra, “sua estrutura profunda de um modo mais que analógico, demonstrando um deslizamento inquietante entre o que parece familiar e o que definitivamente é ao mesmo tempo estranho e familiar” (23). Por outro lado, coloca a dificuldade de se pensar um “estranho arquitetural”, pois, diz que o estranhamento não se configura como uma propriedade do espaço em si, ou algo que é provocado por conformações espaciais específicas, mas é, em sua dimensão estética, uma representação de um estado mental de projeção que, precisamente, apaga as fronteiras entre o real e o irreal de forma a provocar uma ambiguidade perturbadora, um deslizamento entre acordar e sonhar.

Considerando este ponto vista, surge uma questão que particularmente interessa a esta discussão: como podemos pensar as maquinações da memória diante desta complexidade aberta pelo estranhamento na cidade contemporânea? Para Vidler, as estruturas basilares da disciplina do urbanismo estariam posicionadas em uma ideia de construção das cidades como símbolos da memória dos que ali viveram, fizeram e construíram, tendo a cidade renascentista como seu grande exemplo. No entanto, o urbanismo modernista, ao trabalhar com o que se convencionou chamar de tábula rasa, introduz uma ideia fundamental para esta reflexão: o de esquecimento.

Os processos atrelados a esta ideia não se tratam de um simples não lembrar, mas de algo mais complexo, que incorpora outros processos. Pois, quando Vidler se refere ao narrador da novela Across de Peter Handke que, ao descrever sua entrada em um café, fala de sua vontade de passar sem ser visto, mas ser notado: “este narrador, arqueólogo que foi sua vida toda, estava sempre à procura de soleiras, de escavações, menos pelo que esteve lá, mais pelo que estava faltando”. Consequentemente, nesta busca, tal narrador adquiriu um olhar para as transições, para encontrar índices, como relíquias de coisas que por ali estiveram, assim como sua passagem pelo café, que pode não ter sido vista, mas foi sentida. Utilizando-se desta busca do narrador por aquilo que escapa aos olhos, mas se faz presente, ele transpõe esta sensibilidade para o pensamento sobre a cidade contemporânea, mais especificamente, sobre a disciplina urbanismo, nomeando-a de uma espécie de Pós-Urbanismo. Trata-se de um posicionamento crítico frente à lógica de “visões projetivas previsivas” (24) propagada pelo urbanismo tradicional no qual a cidade, seus monumentos e seus limites são colocados como certezas, como símbolos, como figuras literárias de narrativas históricas, no limite, como grandes memoriais.

Neste sentido, Vidler entende que a cidade contemporânea, percebida através de uma condição de estranhamento, de estrangeirismo, pode ser vivida e pensada por um outro viés – um viés pós-urbano, isto é, como um grande entrelaçamento de espaços de transição, onde não é mais possível estar em algum dentro ou fora, mas em um deslizamento constante; um viés em que as maquinações do esquecimento – promovido pelo mover-se montando-desmontando-remontando nexos de apreensão e compreensão – gere outras noções de memória no espaço urbano.

Por sua vez, Ignasi de Solà-Morales, em Terrain Vague, também a partir da sensação de estranhamento nos traz uma outra questão: Como podemos pensar sobre as condições de habitação, ou melhor, de desabitação do sujeito, diante da estranheza evocada em certos espaços na cidade contemporânea? O autor nos fala de espaços – terrain vagues – que perderam o sentido que um dia abrigaram e encontram-se, hoje, em uma temporalidade outra. Existentes e não-pertencentes à dinâmica urbana, vazios de atividade, e sem limites claros, estes espaços tornam-se: expectantes, flutuantes, na medida em que não se inserem em certa lógica produtiva própria da cidade contemporânea. O fato destes locais desafiarem a cultura imagética que nos domina, os coloca diante de uma condição de estranhamento intrínseca. Diante deste fato, Solà-Morales escreve: 

“Estrangeiros em nossa própria pátria, estranhos em nossa cidade, o habitante da metrópole sente os espaços não dominados pela arquitetura como reflexo de sua mesma insegurança, de seu vago deambular por espaços sem limites, que em sua posição externa ao sistema urbano, de poder, de atividade, constituem de uma só vez uma expressão física de seu temor e insegurança, mas também uma expectativa do outro, do alternativo, do utópico, do porvir” (25).

Esta constatação abre a possibilidade de pensarmos sobre um novo sujeito da grande cidade, um sujeito pós-histórico, um sujeito que, segundo o autor, constrói sua experiência urbana partindo do princípio da negação, isto é, ao poder convoca o escapismo, à segurança convoca uma vida de risco, ao conforto sedentário, um nomadismo desprotegido e à ordem urbana, a indefinição do terrain vague (26).

Neste sentido, Solà-Morales, alinhado com o pensamento de Deleuze, convoca o indivíduo a atentar-se para as continuidades, a buscar as forças, as incorporações e os fluxos de forma que possa fazer frente à lógica perceptiva hegemônica (27) e, a partir disto, possa construir outros processos mneumônicos.

Parece-nos que estas reflexões sobre a construção de memória e de sujeitos na cidade contemporânea podem ser diretamente transpostas para a experiência corporal nos limiares ferroviários do ramal Santa Cruz, especificamente com os muros que os conformam. São muros para longos territórios (28), e a experiência de afeto e de atenção às continuidades nestes limiares, mostra como estes muros são capazes de produzir, a partir da estranheza, lugares e corpos flutuantes, imprecisos. Pois, estando o caminhar nestes limiares ferroviários imerso na condição de estrangeirismo, torna-se possível alterar as dinâmicas de percepção dos muros, estabelecendo uma relação de alteridade constante, uma espécie de devir-muros do corpo e um devir-corpo dos muros, onde estes não se conformam mais como limites entre si. Nesta condição de produção, seus rastros e fluxos sobrepõem-se a percepção de suas formas e assumem uma presença, sobretudo, no corpo que caminha, incontestável. São “lugares estranhos ao sistema urbano, exteriores mentais no interior físico” (29). Nestes locais, os muros, conforme dito, parecem ter construído uma relação simbólica de invisibilidade, onde o estranhamento parece ser a nossa condição interna que os torna visíveis, que nos faz perceber o quanto estão investidos de qualidades estranhas que os colocam, e, assim a nós mesmos, neste entre (30).

Deleuze e Guattari, a nosso ver, abrem caminho para Vidler e Solà-Morales desenvolverem suas reflexões acerca do estranhamento como forma de conhecimento urbano, na medida em que consideram o inconsciente e, assim, o corpo como fonte incessante de desejo e, por isso, de possibilidades de vida através de forças, de fluxos, de energias, que podem ser inscritas, mas podem, sobretudo, esvair-se, serem esquecidas. Neste sentido, nos parece potente usar e pensar este “caminhar do estranhamento” ou esta condição de estrangeirismo como um método não somente de resgate de conteúdos e relações inconscientes à consciência da nossa percepção, mas sobretudo, de produção de outras leituras e cidades entre esta que vivemos.

Muros do estranho: considerações finais

Muros no Engenho Novo, Rio de Janeiro RJ Brasil
Foto Daniel Nascimento, 2017

Ao partir do estranhamento como tema presente na discussão contemporânea sobre a cidade, percebemos, em relação ao caminhar como método de apreensão e compreensão urbana uma questão fundamental: a instauração de uma condição entre, onde a lógica operativa é construída através dos movimentos de montagem-desmontagem-remontagem perceptiva nos quais a maioria dos indivíduos está imersa. Condição esta que nos coloca como estrangeiros, e, insistentemente, produz lugares e corpos complexos e temporários, ativando outros processos mneumônicos na cidade.

Ao longo dos muros ferroviários do ramal Santa Cruz podemos apreender e compreender cidades a partir de seus limiares, isto é, como lugares entre coisas, espaços de transição (31), espaços do ir (32) que convocam mecanismos de percepção como o estranhamento e operam dentro desta lógica ambígua, nesta condição entre. Sendo assim, acreditamos que as dicotomias entre invisível/ visível e inconsciente/ consciente, real/ irreal podem ser complexificadas abrindo, consequentemente, possibilidades de produção de outras camadas e leituras urbanas, mais abertas às incompletudes, aos não-encerramentos, aos paradoxos.

Desta maneira, entendemos os muros da ferrovia do ramal Santa Cruz como muros do estranho, uma vez que, mesmo tendo um caráter simbólico-histórico de repressão, quando são vivenciados a partir do caminhar, carregam e fomentam em sua lógica interna uma operação por não-pertencimento que reflete, por sua vez, não somente a nossa própria estranheza diante do mundo, como flagra a frequente absorção destes lugares de qualidades estranhas, localizando-os nesta condição entre, neste estado corporal de deslocamento constante. Fato que, inevitavelmente, nos desafia a desemaranhar suas complexidades.

Trata-se de um início de discussão, portanto, à espera de novos desdobramentos sobre o caminhar como prática do estranhar, consequentemente sobre o estranhamento como forma de apreensão e conhecimento urbano. Ações estéticas, éticas e, assim, políticas que possivelmente abrem perspectivas metodológicas para leitura e escrita sobre o devir dos mais diversos territórios contidos nas cidades contemporâneas, podendo engendrar, portanto, desdobramentos produtivos para o debate crítico sobre a paisagem urbana.

notas

1
SOLÀ-MORALES, Ignasi de. Terrain Vague. Territorios. Barcelona, Gustavo Gili, 2002, p. 191.

2
“O limiar (Schwelle) deve ser rigorosamente diferenciado de fronteira (Grenze). O limiar é uma zona. Mudança, transição, fluxo estão contidos na palavra schwellen (inchar, entumescer), e a etimologia não deve negligenciar esses significados”. Cf. BENJAMIM, Walter. Passagens. Belo Horizonte, Editora UFMG, p. 535.

3
As caminhadas percorreram os muros que cruzam os seguintes bairros: Engenho Novo, Todos os Santos, Engenho de Dentro, Quintino, Madureira, Osvaldo Cruz, Marechal Hermes, Deodoro, Magalhães Bastos, Realengo, Senador Camará, Santíssimo, Rocha, Mangueira, Santa Cruz.

4
FREUD, Sigmund. O inconsciente. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. 17. Rio de Janeiro, Imago, 2006, p. 171.

5
JACQUES, Paola Berenstein. Introdução. In JACQUES, Paola Berenstein (Org.). Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2003, p. 65.

6
CARERI, Francesco. Walkscapes. O caminhar como prática estética. São Paulo, Gustavo Gili, 2015, p. 155.

7
Idem, Ibidem, p. 51.

8
Idem, ibidem.

9
JACQUES, Paola Berenstein. Montagem urbana: uma forma de conhecimento das cidades e do urbanismo. In BRITTO, Fabiana Dultra; JACQUES, Paola Berenstein; DRUMMOND, Washington (Orgs.). Coleção Experiências metodológicas para compreensão e apreensão da cidade contemporânea, vol. 4. Salvador, EDUFBA, 2015, p. 83.

10
ABREU, Mauricio. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Instituto Pereira Passos, 2010, p. 50.

11
JACQUES, Paola Berenstein. Montagem urbana: uma forma de conhecimento das cidades e do urbanismo. In BRITTO, Fabiana Dultra; JACQUES, Paola Berenstein; DRUMMONG, Washington (Orgs.). Op. cit., p. 49.

12
DIDI-HUBERMAN, Georges. Estranheza. In Quando as imagens tomam posição. O olho da história, vol. 1. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2017, p. 65.

13
CARERI, Francesco. Walkscapes. O caminhar como prática estética (op. cit.), p. 162.

14
JACQUES, Paola Berenstein. Montagem urbana: uma forma de conhecimento das cidades e do urbanismo. In BRITTO, Fabiana Dultra; JACQUES, Paola Berenstein; DRUMMONG, Washington (Orgs.). Op. cit., p. 53.

15
DIDI-HUBERMAN, Georges. Estranheza (op. cit.), p. 67.

16
JACQUES, Paola Berenstein. Deambulações: estranhamento e fugacidade. In Elogio aos errantes. Salvador, EDUFBA, 2014, p. 139.

17
CARERI, Francesco. Do navegar e do parar. In CARERI, Francesco. Caminhar e Parar. São Paulo, Gustavo Gili, 2017, p. 32.

18
DIDI-HUBERMAN, Georges. Estranheza (op. cit.), p. 65.

19
FREUD, Sigmund. O Inquietante. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. 17. Rio de Janeiro, Imago, 1970, p. 137-162.

20
LINS, Antônio José Pedral Sampaio. Ferrovia e segregação espacial no subúrbio: Quintino Bocaiúva, Rio de Janeiro. In: OLIVEIRA, Márcio Piñon de Oliveira; FERNANDES, Nelson da Nobrega (Orgs.). 150 anos de subúrbio carioca. Rio de Janeiro, EDUFF/Lamparina, 2010, p. 151.

21
DIDI-HUBERMAN, Georges. Estranheza (op. cit.), p. 65.

22
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. As máquinas desejantes. O Anti-Édipo. Rio de Janeiro, Editora Imago, 1976, p. 22-23.

23
VIDLER, Anthony. Uma teoria sobre o estranhamento familiar. In NESBIT, Kate (Org.) Uma nova agenda para a arquitetura. Antologia teórica 1965-1995. São Paulo, Cosac Naify, 2015, p. 620.

24
Idem, Ibidem, p. 184-185.

25
SOLÀ-MORALES. Ignasi de. Op. cit., p. 188.

26
Idem, Ibidem, p. 189.

27
Idem, Ibidem, p. 193.

28
No ramal ferroviário Santa Cruz, os muros junto a este têm aproximadamente uma extensão de 50 km.

29
SOLÀ-MORALES. Ignasi de. Op. cit., p. 188.

30
VIDLER, Anthony. Introdução. The Architectural Uncanny: Essays in the Modern Unhomely. London, MIT Press, 1992, p. 11-12.

31
Idem, Ibidem, p. 184.

32
CARERI, Francesco. Walkscapes: O caminhar como prática estética (op. cit.), p. 162.

sobre os autores

Marcos Favero possui graduação em Arquitetura e Urbanismo (FAU UFRJ, 1987), Mestrado e Doutorado em Arquitetura pela mesma instituição (Proarq FAU UFRJ, 2000 e 2009). Professor da PUC-Rio, atuando no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura desde 2013, e no Curso de Arquitetura e Urbanismo desde 2002. Autor de Linhas Expandidas. Urbanismos de Fronteira: Brasil, Argentina e Uruguai (Editora PUC Rio, 2016).

Daniel Milagres Nascimento possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2012) com mestrado em Arquitetura pela mesma instituição (PPGArq PUC Rio, 2018).

 

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