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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O artigo discute as feiras populares a partir de sua compreensão como territórios de persistência, expressando as tensões que marcam seus processos de territorialização, ao tempo em que busca evidenciar a importância das suas táticas de persistência.

english
This paper discusses popular fairs based on their understanding as territories of persistence, expressing the tensions that mark their processes of territorialization, while at the same time seeking to highlight the importance of tactics of persistence.

español
El artículo discute las ferias populares a partir de su comprensión como territorios de persistencia, expresando las tensiones que marcan sus procesos de territorialización, al tiempo en que busca evidenciar la importancia de sus tácticas de persistencia.


how to quote

DIAS, Juliana Michaello Macêdo. As feiras populares como territórios de persistência. Arquitextos, São Paulo, ano 20, n. 240.05, Vitruvius, maio 2020 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.240/7747>.

Persistências populares

Cantadas, filmadas, escritas, fotografadas, as feiras populares persistem hoje através de diferentes formas de articulação e enfrentamento que perpassam as dimensões simbólicas e afetivas, mas também a capacidade de organização e as necessidades econômicas. Ainda que seja perceptível a presença cada vez maior do discurso que associa as feiras livres com a retomada dos espaços públicos nas grandes cidades, quando tratamos das feiras tradicionais presentes nas numerosas cidades do interior nordestino nem sempre as ações de gestão pública orientam-se por uma perspectiva que abarca as feiras como parte da dinâmica urbana. Ao contrário, elas são constantemente afrontadas pelos poderes urbanos hegemônicos, que tratam as feiras como espaços residuais. Ameaçadas, deslocadas e fragmentadas, as feiras, entretanto, persistem. Mas, em que consiste esse persistir?

Partimos de uma noção de persistência que se estabelece como uma espécie de teimosia tática. Diferente da noção de resistência, que nos encaminha ao enfrentamento e à luta direta, no persistir há tanto a expressão de uma condição passiva – um deixar-se permanecer – quanto ativa – a determinação de permanecer. Quando tratamos o persistir como uma tática o fazemos por entender que se trata não apenas de enfrentamentos diretos e estratégicos. Fazendo uso da noção de tática, evidenciada por Michel de Certeau (1), a persistência inclui também jogar com as perdas, alinhavar as tensões no tempo presente e responder a elas às vezes com o permanecer, às vezes com o se recompor. “A tática tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário. Vai caçar, cria, ali, surpresas, consegue estar onde ninguém espera; é astúcia” (2).

As persistências urbanas seriam lugares que restam, mas não resíduos. Definitivamente não são vazios urbanos e nem tampouco espaços a serem resgatados, revitalizados, renovados, ressignificados. Não são resquícios do que se foi nem tampouco nada a ser trazido à contemporaneidade.

“Não se trata de uma não cidade a ser transformada em cidade, uma área desprovida de sentido à qual atribuí-lo graças a um qualquer tipo de colonização, mas de uma cidade paralela com dinâmicas e estruturas próprias, com uma identidade formal própria, inquieta e palpitante de pluralidades” (3).

Quando operamos com o sentido da teimosia tática do persistir abrimos mão de um olhar apaziguante, como aquele que lê a cidade a partir da resiliência. O teimar não é sempre positivo. Muitas vezes teimar implica em permanecer ainda que em condição precária, e lidar com o que não é ideal. É essa a condição de grande parte das feiras populares que destacaremos aqui. Criam espaço, permanecem, persistem como brechas.

Naquilo que vamos apresentar adiante, outro constructo teórico precisa ser explicitado. Não tratamos aqui de feiras livres (ainda que boa parte delas o sejam), mas de feiras populares. O uso do conceito popular para caracterizar as feiras que nos interessam diz respeito a um recorte que passa pela explicitação de quem faz a feira, no lugar de uma caracterização pela ideia de um território de comércio livre. Esse fazer-se das feiras inclui feirantes, compradores, pedintes, passeadores, produtores, cantadores. Grupos sociais diversos, que traçam dinâmicas específicas, frequentemente complementares mas em muitas nuances contraditórias.

Ainda que o conceito de popular seja controverso, revisitado por diversos contextos históricos com intenções que passam pela generalização e homogeneização de uma massa compreendida como povo, o traremos para a discussão como conceito que engendra a presença da diferença e da contra hegemonia nos espaços da cidade.

As feiras livres, embora produzindo e sofrendo constantes mudanças, são referências culturais nas cidades brasileiras, sendo de fundamental importância não só em termos econômicos, mas também culturais, históricos e identitários. Muitas cidades começam seu processo de desenvolvimento econômico e urbano com a expansão do comércio através de uma pequena feira, que posteriormente vai tomar proporções maiores e aglomerar pessoas dos povoados e arredores.

Artes do persistir

Destacamos aqui como chave de leitura dessas persistências urbanas populares, quatro eixos em que entendemos que as feiras persistem e podem auxiliar na reflexão sobre os territórios urbanos contemporâneos: 1. memórias, 2. insurgências, 3. corpos, 4. gambiarras.

[1] memórias

O primeiro eixo analítico é o que discute as feiras enquanto “lugares de memória”, fazendo uso da compreensão proposta por Pierre Nora na obra Les Lieux de Mémóire, de 1984. Para o autor, o embate entre uma memória perdida e uma história cada vez mais hegemônica levaria à emergência dos lugares de memória. “O tempo dos lugares, é esse momento preciso onde desaparece um imenso capital que nós vivíamos na intimidade de uma memória, para só viver sob o olhar de uma história reconstituída” (4). A perda, portanto, de uma experiência íntima com os espaços levaria a sua necessidade de fixação, do que funcionaria como âncora da memória. Neste sentido, “os lugares de memória são, antes de tudo, restos [...] sinais de reconhecimento e de pertencimento de grupo numa sociedade que só tende a reconhecer indivíduos iguais e idênticos” (5).

Pensar as feiras populares como restos que persistem na cidade contemporânea enlaçando a memória coletiva, mas ao mesmo tempo compreendê-las como espaços não mais vividos com a mesma experiência íntima são duas formas complementares de refletir sobre as feiras populares a partir de um olhar contemporâneo.

Por um lado, as feiras foram relacionadas pela historiografia urbana como importantes elementos estruturadores das cidades, desde autores clássicos europeus como Lewis Mumford até pesquisadores dos primórdios das cidades brasileiras, como Nestor Goulart Reis Filho. Os fios que entrelaçam as feiras à memória urbana são muitos e no caso específico da construção de uma identidade regional nordestina as feiras, especialmente aquelas das pequenas cidades do interior, foram elencadas como símbolo primordial.

Inúmeros monumentos serão erguidos em memória das feiras, desde canções, filmes, livretos de cordel, até a própria introdução das mesmas no discurso patrimonial. A inscrição, em 2006, da Feira de Caruaru como referência cultural brasileira no livro de registro de Lugares do Iphan indica a percepção da relevância desses espaços como patrimônio cultural institucionalizado. Sua compreensão, dentro do escopo do Inventário Nacional de Referências Culturais como lugar relaciona a feira como espaço de significação especial para a comunidade local, onde se espacializam práticas e sentidos simbólicos.

Nora evidencia como característica dos lugares de memória a importância dada aos aspectos material, simbólico e funcional. Essas três dimensões são abarcadas pelo discurso institucional, tomando por referência a própria delimitação traçada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan:

“Toda atividade humana produz sentidos de lugar. Neste inventário serão incluídos especificamente aqueles que possuem sentido cultural diferenciado para a população local. São espaços apropriados por práticas e atividades de naturezas variadas (exemplo: trabalho, comércio, lazer, religião, política, etc.), tanto cotidianas quanto excepcionais, tanto vernáculas quanto oficiais. Essa densidade diferenciada quanto a atividades e sentidos abrigados por esses lugares constitui a sua centralidade ou excepcionalidade para a cultura local, atributos que são reconhecidos e tematizados em representações simbólicas e narrativas. Do ponto de vista físico, arquitetônico e urbanístico, esses lugares podem ser identificados e delimitados pelos marcos e trajetos desenvolvidos pela população nas atividades que lhes são próprias. Eles podem ser conceituados como lugares focais da vida social de uma localidade” (6).

No entanto, o que dizer da segunda condição dos lugares de memória – aquela que institui como marco de referência o distanciamento desses mesmos lugares com a experiência? Aí talvez resida uma chave de ruptura com a construção conceitual de Nora: no caso das feiras populares, ainda que sua constituição como lugares de memória institucionalizados passe por um distanciamento do olhar do historiador/pesquisador, não estamos convencidos que isso se dê também – ou da mesma maneira – com os praticantes cotidianos de seus espaços – aqueles que Certeau chama de “praticantes ordinários da cidade”.

As feiras populares persistem como espaços de memória enraizada, mas também como espaços praticados no hoje, nos quais são evidenciados não tanto os traços físicos, materiais. Um dos pontos centrais que ancoram as memórias dos feirantes são as relações que constroem entre si. Sempre que, em atividade de pesquisa de campo, pedimos uma história, uma memória ou uma relação afetiva, as pessoas são evidenciadas. As mudanças lembradas com saudade também costumam se referir aos vizinhos de banca, aos feirantes que faleceram e aos espaços que vão sendo conformados com novas feições. De certa maneira, a memória da feira é volátil e não remete a uma fixidez, mas a redes relacionais.

A persistência da memória das feiras se estruturam, assim, em dois movimentos: a feira persiste enquanto lugar de memória nas marcações identitárias regionais e nas narrativas coletivas urbanas e persistem nos praticantes atuais das feiras as memórias das redes relacionais, com ênfase na persistência dos feirantes em suas práticas.

[2] corpos ordinários

A possibilidade de pensar as feiras enquanto lugares de memória não permite trata-las, no recorte a que nos referimos aqui, como espaços distanciados da experiência cotidiana. Em sua relação com os corpos (o seu próprio e o de seus praticantes), a feira se colocaria como território de persistência ao convidar a viver o denso, em oposição ao vazio dos shoppings centers e à plastificação dos produtos nos supermercados. Nessa perspectiva, compreendemos que a feira implica em uma persistência também da experiência corporal urbana frente à espetacularização das cidades. Como destaca Jaques, “os espaços menos espetaculares da cidade resistem, assim, nesses corpos moldados pela sua experiência, ou seja, resistem nas corpografias resultantes de sua experimentação” (7).

O corpo da feira teima e teimam os corpos de seus praticantes. Ao resistir aos deslocamentos, rearranjos, remoções, gourmetizações, turistificação, a feira em seu aparente labirinto territorializa cheiros (o cheiro das ervas e temperos, mas também o cheiro da carne em apodrecimento), sons (os animais vendidos vivos cacarejam, o vendedor anuncia o fim da feira com os preços despencando), sabores (a fruta é provada antes de ser comprada, diferentemente da embalagem em plástico filme dos supermercados das grandes cadeias). Há, portanto, estímulos sensórios que são engendrados ao percorrer os espaços da feira que exigem um corpo ativo e aberto à experimentação.

Feira de frutas na região da Levada, Maceió AL
Foto Juliana Michaello [Acervo Grupo de Pesquisa Nordestanças]

Por outro lado, o “labirinto” da feira só pode assim ser pensado quando se pensa um corpo não habituado a percorrê-lo – aquele mesmo corpo que se distancia da experiência e olha a feira enquanto lugar de memória institucionalizado. Feirantes e compradores cotidianos esquadrinham rapidamente o corpo da feira. Nele, sabem onde estão as melhores verduras, o nome de quem produz a garrafada que cura doenças crônicas, a barraca onde comprou a fruta doce na última semana. Há um mapa experiencial, marcado pelo uso, pelas “artes do fazer” apresentadas por Certeau e pela gestualidade, que se impõe ao desejo de ordenação exterior e distanciado.

Em sua pluralidade, as feiras obedecem uma organização própria, na qual há um seccionamento de acordo com os tipos de produtos que são comercializados, mesmo que os departamentos sejam formados pelo aglutinamento de apenas três ou quatro bancas. Certamente não se trata de um mapa estanque. As lógicas ordenadoras passam pela afinidade dos produtos (verduras próximas aos peixes, por exemplo, podem parecer deslocadas, mas não o são ao compreender que quem faz uma peixada precisa de pimentões, coentro ou tomate); pela proximidade com os espaços de abastecimento e armazenamento (como é o caso das carnes, que necessitam de refrigeração); e principalmente pela relação com a passagem de compradores. É esse mapa que por vezes falta às gestões municipais em suas tentativas de racionalizar as feiras.

Percorre-se os espaços das feiras com verbos que se repetem e rearranjam o espaço. Arrastar, puxar, empurrar, carregar aparecem no cotidiano dos vendedores ambulantes, marcando o peso daquilo que levam consigo: carrinhos, sacolas, mochilas, expositores. Montar, arrumar, guardar, remontar são atos que fazem parte do vocabulário gestual dos feirantes fixos, cujas barracas são refeitas a cada nova montagem.

As feiras estabelecem hábitos e usos baseados nas trocas e entram no cotidiano da cidade como lugar de encontro, aglomeração. “Às vezes nem vou comprar nem vou vender, mas é um hábito, né? Aqui a gente encontra os amigos, aqui a gente conversa, vê os preços se a feira tá boa, enfim é o meio que a gente vive né?”, diz um frequentador da feira de Dois Riachos AL (8).

Vendedor ambulante na feira popular do bairro da Levada, Maceió AL
Foto Juliana Michaello [Acervo Grupo de Pesquisa Nordestanças]

As marcas das feiras nos corpos vão além dessas. Há marcas que ferem, produzem dores, mutilações, cicatrizes. “Minha mão é toda é escavacada, mas do trabalho mesmo”, diz um feirante de Arapiraca. O corpo da feira é inundado na chuva, o corpo do feirante adoece ao carregar peso. Há corpos infantes trabalhando pesadamente para ajudar as famílias. Há corpos idosos com problemas articulares. Há, portanto, também a persistência de relações de trabalho exaustivas e precárias nos corpos de quem faz a feira.

Na relação com os corpos podemos pensar nas persistências em três níveis: a persistência da sensorialidade enquanto mediadora da experiência – uma experiência que conclama o corpo sensível; a persistência de uma cartografia experiencial que se rearranja “espontaneamente” e que resiste às mudanças físicas oriundas de forças externas, como as reordenações territoriais; a persistência dos gestos que fazem a feira, numa escala vivida cotidianamente por feirantes e usuários, que leva a um aprendizado do/no corpo, mas também a marcas nesses mesmos corpos – dores, ferimentos, impregnações dos aromas.

[3] gambiarras

As feiras persistem também naquilo que nelas se inventa. Pensar as feiras como território de inventividade diz respeito a evidenciar os arranjos espaciais próprios, as ordenações e soluções de estruturas improvisadas, que aparecem como expressão da escassez de recursos, mas também como evidência da potência inventiva daqueles que fazem esses territórios. A invenção aparece aqui em relação ao que Certeau chama das “artes do fazer”, ligadas às táticas cotidianas e às operações de uso. “Sendo assim, é necessário voltar-se para a ‘proliferação disseminada’ de criações anônimas e ‘perecíveis’ que irrompem com vivacidade e não se capitalizam” (9).

Num sentido diferente do artífice e do planejador, o praticante ordinário inventa brechas, tratando de um conjunto de táticas contingenciais que os brasileiros conhecem como gambiarra (10), jeitinho ou, incorporando a noção explorada por Paola Berenstein Jacques, ginga (11). “Essas práticas colocam em jogo uma ratio ‘popular’, uma maneira de pensar investida numa maneira de agir, uma arte de combinar indissociável de uma arte de utilizar” (12). Ao pensar a gambiarra como uma política do persistir entrelaçamos a inventividade presente no fazer cotidiano da feira com as condições materiais desse improviso. Aqui será necessário destacar uma questão fundamental para pensar a gambiarra: ela lida não apenas com a improvisação inventiva, mas também com a precariedade econômica e a escassez de recursos.

Exposição de sandálias a venda na feira de Arapiraca AL
Foto Juliana Michaello [Acervo Grupo de Pesquisa Nordestanças]

No lugar de romantizar esses atos inventivos, cabe a nós aqui percebê-los também como criações precárias. Estar atento às condições da falta e da escassez não significa, no entanto, esvaziar as criações populares presentes nas feiras de seu caráter estético, intencional e inventivo.

As gambiarras vão desde pequenos ajustes utilitários de adequação dos espaços, como pregos para pendurar roupas e sacolas a montagens de barracas e carrinhos ambulantes com técnicas inventivas próprias. Essas pequenas invenções, que se assemelham ao que Jacques destaca como “fazer fragmentado” nas favelas, são arranjadas a partir da escassez ou abundância de determinados materiais, como os caixotes, que armazenam, expões, viram escadas e algumas vezes o próprio corpo da barraca. Se há nos espaços da feira uma quantidade significativa de materiais de descarte, há também um saber desenvolvido a partir da reutilização, dos reparos e da bricolagem.

Por outro lado, essas tecnologias anônimas e não capitalizáveis são também disseminadas. A solução encontrada por um feirante para proteger-se do sol rapidamente se espalha, é adaptada e desenvolvida pelos seus vizinhos. Tratamos então da persistência de modos de fazer sem autoria, furtivos e inventivos, que muitas vezes se adaptam às necessidades dos feirantes de maneira mais eficiente que as barracas, setorizações e infraestrutura formal pensada nos escritórios das prefeituras.

[4] insurgências

Uma expressão do comércio informal e espaço de “viração”, as feiras estão em constante limiar entre a formalidade – resultado de esforços de auto-organização, mas também de cadastramento e fiscalização oficiais – e a informalidade e vulnerabilidade frente aos humores das diferentes gestões da cidade. Ocorrem institucionalmente diversas dinâmicas de fragmentação, deslocamento e elitização das feiras. Em raros casos se assiste à incorporação das mesmas como valor urbano.

Pensadas a partir de suas práticas de persistência, as feiras se apresentam como lugares de práticas insurgentes, como a gambiarra, mas é ela mesma um território insurgente, desobediente, teimoso. Como reação aos constantes deslocamentos e remoções as feiras costumam se recompor espacialmente tão logo o olhar do poder público se distancia.

A necessidade de estar próximo aos espaços de circulação de possíveis fregueses é um dos argumentos centrais para o abandono de barracas em galpões e mercados designados para os feirantes. Replicando a relação dos gestores com a habitação de interesse social, constantemente confrontada com as dificuldades de acesso aos centros das cidades, no caso das feiras a dificuldade de adquirir as mercadorias, transportá-las para os locais de venda e ao mesmo tempo garantir o acesso por parte dos fregueses são questões por vezes negligenciadas.

Qualquer mudança no local da banca tem impacto significativo nas vendas, tanto pelos vínculos criados com os clientes quanto pela movimentação de pessoas, que facilita a venda. Quando um feirante da Feira do Passarinho, em Maceió, é perguntado sobre possíveis mudanças de localização (constantemente alardeadas pelas diferentes gestões municipais), responde: “Mudaria porque não ia ter o movimento que tem aqui, porque quem tem mercadoria tem que expor, então lá pra dentro fica um pouco mais complicado entendeu? Então aqui mermo, aqui é o foco, o local ideal pra que nós possa expor nosso produto”.

Em termos de uma articulação política associativa as feiras apresentam situações bastante variadas. Há feiras que possuem associações – algumas reconhecidas pela maior parte dos feirantes, outras não -, há feiras que não conseguem articular cooperações formais, mas há sempre uma persistência comum de enfrentamento e afronta às ameaças institucionais.

Se as gambiarras apresentam a persistência através da adaptação e do rearranjo, as pequenas insurgências táticas são atravessadas por uma forma coletiva de articulação provisória. Nelas, as relações de cooperação não são formalizadas, mas operam através das reações às demandas coletivas. Um exemplo de ação tática que ocorre com certa frequência é o retorno de ambulantes das áreas das quais foram removidos. Os mesmos relatam etapas de planejamento da ação, como aguardar cerca de uma semana para que a fiscalização passe a ser mais espaçada, aproveitar os horários da madrugada para remontar as estruturas de apoio, além dos inúmeros mecanismos de aviso da chegada da fiscalização – que se fazem presentes não apenas nos ambientes da feira.

Não há, entretanto, consensos. Sob a alcunha de feirante conforma-se uma miríade de práticas, desejos e necessidades, muitas vezes contraditórios e excludentes. Nas feiras que estudamos, por exemplo, para além das distinções relativas aos produtos vendidos há diferenças entre os feirantes que estão instalados nos espaços formais dos mercados públicos, os que montam e desmontam suas barracas diariamente na informalidade e os vendedores ambulantes. As táticas entre eles são, portanto, diferentes e muitas vezes um grupo tem que se insurgir com o outro.

Percebemos que inversamente à estruturação física, há mais cooperação e solidariedade entre ambulantes e vendedores informais que entre aqueles que possuem bancas fixas e formalizadas. Neste segundo grupo é mais comum a compreensão de que é responsabilidade do poder público atuar para mitigar as precariedades do espaço e ao mesmo tempo um menor interesse em articular as pautas coletivamente.

Num momento teórico em que discutimos a noção de um urbanismo tático ou insurgente, o aprendizado dessas tecnologias da ação popular nos parece essencial para repensarmos o próprio urbanismo formal e sua relação com os espaços da cidade.

Xepa

As feiras populares, que referenciamos aqui como espaços persistentes nas cidades, constituem uma micro resistência à noção de espetacularização e higienização urbanas que produzem, como um de seus efeitos, cidades assépticas. Não tratamos de uma peculiaridade exótica, presente nas grandes cidades enquanto simulacros igualmente espetacularizados. A feira apresenta-se como espaço de persistência das memórias e introdução de uma nova perspectiva analítica de nossas referências culturais, mas também de insistência em modos de experimentação. Introduzida nos debates sobre as gestão pública e o ordenamento urbano, a feira resiste como território de economia informal atuante e relevante culturalmente.

Alinhavadas a partir de reflexões oriundas de pesquisa realizada em feiras localizadas na capital e interior do estado de Alagoas, as questões aqui apresentadas expressam traços constantes das feiras populares em suas contingências econômicas, sociais e culturais. A articulação dos eixos analíticos com a noção de persistência ou de teimosia tática, que elencamos no início da discussão, ainda que apresentadas como reflexões especificas se entretecem e borram suas fronteiras ao expressarem dinâmicas das feiras.

Quando, ao escutar os feirantes em longas conversas durante o exercício dos seus ofícios, percebemos a importância das relações afetivas nas memórias articuladas nas feiras, não podemos deixar de pensar em como essas redes articulam também as pequenas insurgências. Ao observar o fazer cotidiano de diferentes feirantes percebemos como as gambiarras são utilizadas para arrefecer o peso e o cansaço que marca os corpos no fazer repetitivo. Quando se fala da precariedade da infraestrutura se relembra as brincadeiras que essa mesma precariedade permitia na infância.

As reconfigurações são constantes e os espaços parecem se adaptar às novas conformações possíveis, ainda que de forma impertinente ao olhar dos planejadores urbanos. Podemos pensar, então, que antes de se estruturarem enquanto lugares fixos, passíveis de serem “planejados de uma vez por todas”, as feiras populares nos ensinam a persistência do movimento, a permanência do fluido, a adaptação. As feiras populares, desse modo movente, persistem. Vendem chips de celular, brinquedos de madeira e pilha, ervas, animais e os últimos jogos eletrônicos, em versão pirata. Estão inseridas nas cidades contemporâneas, precisam ser articuladas a elas mas implicam na necessidade de refletir novos modos de lidar com os espaços da cidade. Espaços que, como dito por Careri, compõem uma cidade paralela – viva, dinâmica e persistente.

notas

NA – A discussão apresentada neste artigo é fruto de pesquisa em andamento financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas – Fapeal, intitulada “Feiras Populares: territórios do persistir”, desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Nordestanças.

1
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 1. artes de fazer. Petrópolis, Vozes, 1994.

2
Idem, ibidem, p. 101.

3
CARERI, Francesco. Caminhar e parar. Barcelona, Gustavo Gili, 2017, p. 23.

4
NORA, Pierre. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista Projeto História. São Paulo, v. 10, 1993, p. 12.

5
Idem, ibidem, p. 12-13.

6
IPHAN. Manual do INRC. Brasília, Iphan, 2000, p.32.

7
JACQUES, Paola Berenstein. Corpografias urbanas. Arquitextos, São Paulo, ano 08, n. 093.07, Vitruvius, fev. 2008 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.093/165>.

8
Optamos por não identificar os feirantes devido a questões de cunho ético. As entrevistas, realizadas em trabalho de campo do grupo no período de 2015 a 2019, podem ser consultadas em relatório de pesquisa.

9
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 1. artes de fazer. Petrópolis, Vozes, 1994, p. 13.

10
Sobre a dimensão da gambiarra na produção de artefatos populares no Brasil, ver BOUFLEUR, Rodrigo Naumann. Fundamentos da gambiarra: a improvisação utilitária contemporânea e seu contexto socioeconômico. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2013.

11
JACQUES, Paola Berenstein. Estética da Ginga. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2001.

12
Idem, ibidem, p. 41.

sobre a autora

Juliana Michaello Macêdo Dias é professora (FAU/ PPGAU FAU UFAL) e líder do Grupo de Pesquisa Nordestanças. Coordenou os projetos de pesquisa: “Culturas Agrestes: Mapeamento das referências Culturais do Agreste alagoano” e “Feiras populares: territórios do persistir”, financiados pelo CNPq, e “Projeto de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial de Alagoas”, financiado pelo Iphan.

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