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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
O texto visa ampliar a historiografia da arquitetura brasileira, relacionando trabalhos de Armando de Holanda e Aldo van Eyck – estruturalista holandês citado pelo primeiro em sua obra escrita.

english
The text aims to broaden Brazilian’s Architecture historiography, by relating works of Armando de Holanda and Aldo van Eyck – dutch structuralist quoted by the latter in his written work.

español
El texto objetiva ampliar la historiografía de la arquitectura brasileña, relacionando obras de Armando de Holanda y Aldo van Eyck, estructuralista holandés citado por el primero en su obra escrita.


how to quote

RAMOS, Juliana Silva; NASLAVSKY, Guilah. Construindo com pouco no Nordeste brasileiro. Conexões Armando Holanda–Aldo van Eyck. Arquitextos, São Paulo, ano 21, n. 245.02, Vitruvius, out. 2020 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/21.245/7919>.

A historiografia da arquitetura moderna em Pernambuco tem sido alvo constante de revisões. Nessa conjuntura, comparece a obra do arquiteto pernambucano Armando de Holanda Cavalcanti (Canhotinho PE, 1940; Recife PE, 1979) que, apesar de ter sido objeto de estudos iniciais (1), ainda carece de novas revisões. Prova disso é o novo olhar lançado sobre sua produção, suscitado pela abertura dos arquivos do escritório do arquiteto (2), os quais evidenciaram importantes achados: notadamente, os desdobramentos da experiência de Holanda no Bouwcentrum-Rotterdam, em 1967; tal episódio se trata de uma omissão na historiografia que aponta para a urgência de uma revisão integral da obra do arquiteto, visando o suprimento de uma lacuna crucial para o estabelecimento das conexões internacionais da arquitetura moderna no Nordeste brasileiro – neste caso, com a obra do arquiteto holandês Aldo van Eyck (Driebergen, 1918 – Loenen aan de Vecht, 1999).

O presente trabalho explora as conexões entre as produções teóricas e obras construídas de Armando de Holanda e Aldo van Eyck, então propiciadas pelo contato do primeiro com o ambiente cultural holandês em seu intercâmbio para o Bouwcentrum; para tanto, é realizada uma análise de afinidades entre escritos de ambos, evidenciando a existência de relações conceituais e são utilizadas três categorias analíticas – propostas pelo crítico Francis Strauven (3), – que, resguardadas as devidas proporções, indicam conexões entre as arquiteturas dos sujeitos aqui tratados.

Holanda em Brasília

Nos anos 1960 a atração central exercida pelo Rio de Janeiro é substituída pela conexão estabelecida com a nova capital, que passa a representar a nova vanguarda nacional (4).

Nascido e criado nos trópicos e com breve e efervescente trajetória profissional iniciada como estudante (1959-1962) na Faculdade de Arquitetura do Recife – Faur (5), em 1963, Armando de Holanda, bem como Glauco Campello (Mamanguape PB, 1934) e Geraldo José de Santana (Vertentes PE, 1938), são convidados a participar do programa de mestrado em Arquitetura da recém-implantada Universidade de Brasília – UnB, que propunha uma metodologia de trabalho excepcional, ao incorporar pesquisa teórica – elaboração de uma dissertação – ao exercício profissional – a partir de estágios, tanto na prática da docência (como instrutores auxiliares em aulas da graduação) (6), quanto na atividade projetual no Centro de Planejamento da UnB – Ceplan UnB.

Tal experiência proporcionará a esse trio um contato íntimo com as intenções plástico-projetuais e tecnologias pioneiramente aplicadas na construção de Brasília, estabelecendo um novo panorama conceitual-técnico responsável por introduzir na mentalidade desses arquitetos uma perspectiva ideal de conversão do caráter empírico, típico do setor construtivo nacional, em uma prática inteiramente racional: “esses jovens são os que melhor expressaram as preocupações técnicas e construtivas difundidas em Brasília e, portanto as ideias de vanguarda no contexto local” (7).

O promissor episódio se encerra, contudo, com o Golpe Militar de 1964: a UnB é fechada, docentes demitidos e estudantes têm seus projetos interrompidos. Após o desfecho frustrado, Holanda retorna para Pernambuco, onde, de 1965 a 1967 se dedica primariamente à prática arquitetônica, intervalo no qual, entre atividades voltadas ao setor público (8), integra a equipe do anteprojeto vencedor do concurso para a sede da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – Sudene, 1967, no Recife (9). No final desse período, o arquiteto busca por mais respostas – dessa vez, no Bouwcentrum de Rotterdam.

Holanda na Holanda

À procura por respostas, Holanda parte para o velho continente: em janeiro de 1967, parte para estudar por seis meses no International Course on Building – ICB do Bouwcentrum-Rotterdam, onde se diploma em Especialização em Protótipos com o trabalho Criação de protótipos para a produção em série de habitações.

O Bouwcentrum (Centro da Construção) foi criado em 1946, como cooperativa do Cencobouw (Colégio Central de Organizações Industriais) e BNA (Associação de Arquitetos Holandeses) (10) para a reconstrução holandesa no segundo pós-guerra. Concebido como órgão de exposição, investigação, documentação e difusão de tecnologias na indústria da construção, visava o desenvolvimento de soluções – racionalização dos escassos recursos – para o déficit construtivo instalado. Nesse cenário, a instituição se torna referência e integra uma sistemática iniciativa internacional de cooperação e assistência técnica holandesa, através do estabelecimento (1958) do primeiro International Course on Building – ICB e mais adiante, de Centros de Informação (11) em países em desenvolvimento – como o Centro Brasileiro da Construção – Bouwcentrum – CBC(1968) (12).

A instituição ambicionava expandir seus trabalhos para o chamado Terceiro Mundo, tornando o perfil de profissional recém-formado da América Latina particularmente visado – no qual Armando de Holanda se enquadrava, sendo agraciado pela bolsa do The Netherlands Fellowship Programme – NFP, que o permitiu diplomar-se no programa de Educação Internacional. Esse interesse específico constitui um ponto de inflexão na trajetória profissional do arquiteto – que evidenciava um interesse prévio nos trabalhos do centro:

“No Nordeste faz-se necessária a atuação de empresários, construtores e arquitetos para a ativação da indústria de construção, com a [...] criação de uma organização dedicada à coordenação modular, à pesquisa de materiais e técnicas industrializadas a exemplo da Holanda, onde no pós-guerra [...] fundaram o Bouwcentrum, para coordenar e documentar a produção nacional” (13).

Apesar de estabelecer a habitação social como objeto primeiro de estudo, os conhecimentos obtidos assumirão um caráter mais abrangente na atuação de Holanda, tornando-se subsidiários de um know-how (14) que norteará seu fazer projetual de forma imperiosa: o ideal de arquitetura industrializada, com o qual tem contatos mais sólidos em Brasília, ganha ali, maturidade de consciência e ação teórico-projetual. A essa forma específica de construir Holanda evocará conceitualmente o que denominou de “Arquitetura de Sistemas”, um ideal de arquitetura que parece epitomar sua formação até então: elementar, industrial e estruturada enquanto sistema sintático rico em significados formais e socioculturais.

No artigo intitulado “Sobre uma arquitetura de sistemas” (15), Holanda lança um olhar sistêmico face à arquitetura que, longe de alicerçada sobre bases unicamente técnicas ou alheias ao homem, se constituiria como sistema total repleto de significados culturalmente relevantes, construídos pela interação de seus sistemas menores – como em uma sintaxe responsável por estabelecer as bases para a comunicação:

“Uma forma dinâmica e de ricas relações espaciais a partir de uma grande economia de meios: [...] um conjunto que expressa a multiplicidade [...], um sistema [...] em que o todo é mais que a soma de suas partes (16).

Conceber a arquitetura enquanto modalidade de linguagem humana – ótica que indica relações com o Estruturalismo Social – pressupõe que sua apreensão ocorra através das relações de sentido estabelecidas pelo rearranjo de seus componentes (e amparada por um conjunto de códigos convencionado, através do qual tal semiose é construída). Holanda se refere a uma gramática construtiva, que seria capaz de, com um limitado número de componentes, transpor uma monotonia engendrada da repetição e alcançar a autossuficiência criativa e semântica – de teor quantitativo e qualitativo:

“Na combinação de uma família de elementos pré-fabricados estará a expressão de uma arquitetura industrializada [...] de sistemas, de múltiplas relações de seus componentes. [...] não é outra a ideia de Le Corbusier ao afirmar que bastariam ‘vinte e seis letras para escrever as dezenas de milhares de palavras de cinquenta línguas’. Com igual número de elementos construímos todos os sistemas de que necessitamos, sem privá-los de invenção e poesia” (17).

Tal gramática seria precisamente a da linguagem da arquitetura industrializada – onde os componentes pré-fabricados são os códigos de uma oração construtiva (edifício), a qual, só se faz coesa (ordenada) e coerente (com sentido), quando articulada pelo olhar sintético de um compositor (o artista, arquiteto):

“A arquitetura industrializada estará baseada em [...] elementos padronizados [...] (da) produção em série e que permitam uma ordenação flexível do espaço [...] dentro de ordenações modulares. [...] pilares, vigas, placas de piso e cobertura, painéis divisórios, esquadrias, equipamentos [...] como um vocabulário básico; (e) as exigências a que o edifício deve atender, [...] como as regras sintáticas” (18).

O ideal de produção sistemática industrial imbuí Holanda do princípio da racionalidade tão caro à arquitetura: construir com pouco – elementarizar e otimizar os meios ao máximo. Será sobre construir com pouco no Nordeste que Holanda se debruçará em seu Roteiro para Construir no Nordeste (1976).

Roteiro para construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados, primeira edição de 1976
Imagem divulgação [Liau/DAU/UFPE, 2013]

Pondo em teoria lições apreendidas como docente de Projeto Arquitetônico na graduação da Faur (1970-1979) e na prática profissional, em 1976 Armando de Holanda publica Roteiro para Construir no Nordeste: arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (19), onde congrega, ao longo de nove pontos, recomendações simples, ilustradas com croquis esquemáticos e sem grandes pretensões, de como o arquiteto enxergou a atividade construtiva que exerceu na região mais tropical do Brasil.

Para Glauco Campello (20), a cartilha reúne preceitos compartilhados por integrantes em aulas da Faur – tendo Holanda o mérito de tê-los sintetizado em escrito compilativo. Para Sônia Maria da Cunha Marques (21), o Roteiro encerra um período de especulações e pesquisa em torno de ricas soluções projetuais para o desempenho térmico e controle do ambiente – mais delimitando o fim de um momento do que estabelecendo, portanto, futuras recomendações.

Dentre os nove pontos redigidos em tom poético, os cinco últimos parecem denotar uma maior tendência especulativa do autor: enquanto em “Criar uma sombra”, “Recuar paredes”, “Vazar muros” e “Proteger as janelas” se evidencia um enfoque maior (e trato sugestivo) a questões de ordem mais prática dentro da atividade construtiva, nota-se que em “Abrir as portas”, “Continuar os espaços”, “Construir com pouco”, “Conviver com a natureza” e “Construir frondoso” Holanda se expressa dentro de uma dimensão mais teórico-reflexiva – evidente quando lança mão de referências de Lévi-Strauss, van Eyck (Team 10), Le Corbusier e Burle Marx para embasar suas proposições – mesmo que aqui as recomendações práticas ainda se apresentem, em menor grau.

Armando de Holanda, ilustrações dos nove pontos do RPCNN
Edição e elaboração das autoras [Liau/DAU/UFPE, 2013]

As recomendações de Holanda quanto à racionalização construtiva são preocupações decorrentes das carências do meio local – tantas vezes referenciadas por pensadores do lugar (22) e aqueles que nele construíam – condicionantes de sua cultura construtiva – inclusive a do século 20: uma “arquitetura moderna para pobres” (23).

A tradição construtiva colonial (24), enquanto sabedoria culturalmente estabelecida, é reiterada por Holanda como repositório histórico da racionalidade construtiva identitária do homem nordestino – um indicativo do olhar antropologicamente direcionado do arquiteto, que em diversas ocasiões demonstrou profundo interesse nos caracteres essenciais da cultura nordestina, a exemplo da exposição permanente (com Aloísio de Magalhães) “O Açúcar e o Homem” (Museu do Açúcar, atual Museu do Homem do Nordeste, 1963) e de sua participação como conferencista do Seminário de Tropicologia da Fundação Joaquim Nabuco – Fundaj, que reitera sua imprescindibilidade em detrimento da adoção integral (sem a devida filtragem ao contexto) de soluções impostas por óticas estrangeiras e seus diagnósticos superficiais:

“Após a ruptura da tradição luso-brasileira [...] no século passado e que trouxe prejuízos ao edifício enquanto instrumento de amenização dos trópicos [...], não foi desenvolvido [...] um conjunto de técnicas que permitam projetar e construir tendo em vista tal desempenho [...]. A regra vem sendo [...] a incorporação do pensamento arquitetônico estrangeiro, sobretudo francês [...] sem a indispensável filtragem à vista do ambiente tropical. No nordeste esta tendência fica mais evidenciada pela forte presença da natureza, de sua luz e do seu clima, a que as construções espontâneas são sensíveis” (25).

O arquiteto ainda alerta, em “Continuar os Espaços” (sétimo ponto), para o emprego excessivo de cores e revestimentos escuros, grossos e tecidos atapetados (em pisos, cortinas, móveis e estofados) e de uma desnecessária variedade material – mais onerosos e subtraentes da unidade (e identidade) arquitetônica, do que, de fato, eficientes para um contexto que não europeu ou norte-americano – não concordantes com o clima tropical e caráter do homem do Nordeste:

“Mantenhamos os interiores despojados, na bela tradição da casa do Nordeste, criando ambientes cordiais [...] de acordo com o nosso temperamento e [...] modo de viver. [...] A ambiência do Nordeste ainda não foi assumida pelos arquitetos” (26).

Tais estabelecimentos remetem diretamente ao oitavo ponto, “Construir com pouco”, o de maior simbolismo conceitual no Roteiro de Holanda, por integrar as proposições da racionalidade industrial às condições ambientais e de evidente carência de meios do Nordeste brasileiro, numa pregação em prol de uma racionalidade arquitetônica dos trópicos nordestinos, conclamando a uma “redução do edifício”:

“Sejamos sensatos e façamos uma redução no edifício [...] no sentido de evitarmos a demasiada variedade de materiais [...] corrente nas construções atuais, (que) apenas compromete a unidade dos projetos e transforma a construção num processo complicado e oneroso [...] (e) levando a dificuldades de execução”.

A redução consistiria na condução da síntese industrial (27) no âmbito construtivo – estágio de “compressão dos meios” (28) e elementarização de componentes que antecede a produção serial –, responsável pela instauração de um vocabulário – conjunto de signos integrantes do código da linguagem da arquitetura –, que, aliado à combinação e coordenação de componentes e à mecanização do processo construtivo, seriam capazes de conferir variedade, novas possibilidades e dinâmicas espaciais à arquitetura:

“Desenvolvamos componentes padronizados que possuam amplas possibilidades combinatórias; [...] para que, a partir de simples relações construtivas, venhamos a obter ricas relações espaciais. Promovamos a racionalização e a padronização da construção, contribuindo para a repetição dos processos [...] e para a redução dos custos [...]. A redução do edifício a seus componentes básicos e sua posterior padronização levarão a um vocabulário consistente para criação de novos conjuntos de viver [...]. Com uma abordagem combinatória ou permutacional [...], o temor pela padronização [...] indispensável à utilização dos processos industriais perde sentido, uma vez que não se corre o risco de encontrar um ambiente urbano monótono”.

Ao propor uma “abordagem combinatória” para a resolução de uma eventual monotonia arquitetônica acarretada pela padronização e repetição industrial, Holanda extrai uma solução da própria origem do problema, oferecendo um novo paradigma de estética reflexiva, amparado na própria prerrogativa da quantidade (número) que determina a produção em larga escala industrial; – se aproximando do “processo de design”, correspondente da chamada “disciplina configurativa” (29), de Aldo van Eyck.

A natureza autóctone do Nordeste determina o nono ponto, “Conviver com a natureza”, onde o autor evoca a força dessa paisagem espontânea e de amplitude monumental, que, por intervenções estrangeiras, tendeu a ser fisicamente reprimida e preterida por uma vegetação não consoante com os trópicos (30):

Flora nacional em ilustrações de Holanda no Roteiro
Liau/DAU/UFPE, 2013

“Não permitamos que a paisagem natural – [...] contínua e grandiosa – continue a ser amesquinhada e destruída [...] Está merecendo um estudo a atual falta de gosto do homem urbano do Nordeste pela arborização [...] Será pelo medo ancestral da mata tropical, com seus bichos e fantasmas, ou pela pressa em assumir sua condição urbana [...]? Lembremo-nos dos antigos quintais recifenses, de sua luz, [...] sombras, [...] copas fechadas, [...] folhas graúdas, [...] verdes escuros… Rejeitemos os jardins de vegetação delicada e miúda, arrumada sobre bem comportados gramados, e acolhamos o caráter selvático e agigantado” (31).

O autor conclui poeticamente suas reflexões com o nono ponto, “Construir frondoso”, onde realiza, em tom de manifesto, quase que uma síntese de sua pregação por uma arquitetura de racionalidade genuinamente tropical e nordestina:

“Livremo-nos dessa dependência cultural em relação aos países mais desenvolvidos, que já retardou em demasia a afirmação de uma arquitetura decididamente à vontade nos trópicos brasileiros [...] Desenvolvamos uma tecnologia da construção tropical [...] Trabalhemos no sentido de uma arquitetura livre e espontânea, que seja uma clara expressão de nossa cultura” (32).

A porta de conciliação (de Holanda) e o Doorstep (de van Eyck) (33)

Desenhos de esquadrias por Holanda em “Abrir as portas” no Roteiro para construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados e fotografia de portas por Nigel Henderson em Doorstep
Imagem divulgação

No epílogo do Roteiro, Holanda introduz “Fábula de um arquiteto”, de João Cabral de Melo Neto, realizando um gesto de sensibilidade poética e cultural, se também não indicasse, salvo aos olhos desavisados, uma franca aproximação em torno de um conceito repleto de simbologia:

“A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tectos [sic]
O arquiteto: o que abre para o homem
tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa” (34).

O simbolismo latente dessa passagem é melhor desvendado no quinto ponto do Roteiro, “Abrir as Portas”, quando Holanda lança mão de um trecho de “Doorstep” (35), de Aldo van Eyck no “Team 10 Primer” (36) – menção que evidencia que Holanda não apenas possuía acesso à principal cartilha do contestador grupo do Team 10, como ainda se identificava especificamente com a teorização de van Eyck, a quem diretamente referencia:

“Qual então [...] é a grande realidade de uma porta? Bem, talvez [...] o posicionamento de um maravilhoso gesto humano: a consciente chegada e partida. Isto é o que uma porta, algo que emoldura seu ir e vir, porque é uma experiência vital não só para aqueles que o fazem, mas também para aqueles encontrados ou despedidos. A porta é um lugar feito para uma ocasião” (37).

Mais do que denominar um aspecto construtivo, o Doorstep – degrau ou espaço que antecede ou delimita a porta de entrada – se constituía para Aldo van Eyck enquanto termo de excepcional carga semântica espaço-social, capaz de traduzir um ritual humano de trânsito entre âmbitos contrários, como um limiar entre realidades opostas: é o estar entre o dentro e o fora, o privado e o público, o individual e o coletivo, a casa e a cidade – opostos que existem aos pares, denominados de “fenômenos gêmeos” (38). O Doorstep constitui uma dimensão conciliatória dessas duplas, um exemplo do que denominou de “in-between”:

“Estabilizar o in-between significa reconciliar polaridades conflitantes [...] o fenômeno gêmeo [...]. Denominei isso da ‘grande realidade do limiar” (39).

“Tome um exemplo: o mundo de uma casa comigo dentro e você lá fora ou [...] o mundo da rua – a cidade – com você dentro e eu lá fora [...]. Dois mundos colidindo, nenhuma transição. O individual de um lado, o coletivo de outro. [...] Entre ambos a sociedade [...] lança muitas barreiras, enquanto os arquitetos [...] tão pobres de espírito, estabelecem portas [...] de 2 polegadas de espessura e 6 pés de altura [...] atravessando um fenômeno tão fantástico – horripilante, brutal – como uma guilhotina. Toda vez que passamos por portas como essas nós somos divididos em dois – mas nós não notamos e simplesmente continuamos a andar, pela metade” (40).

Referências a “pares binários e distintos” de polaridades, a uma “semiologia” – como na “arquitetura de sistemas” de Holanda – baseados nos “sistemas sociais” e a crença em “invariáveis, universais e coletivas estruturas no pensamento humano” (41), evidenciam, novamente, relações de discurso dos arquitetos com o pensamento Estruturalista (42). Expoente da corrente, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (Bruxelas, 1908 – Paris, 2009), analisa o conjunto cultural dos povos primitivos a fim de encontrar as estruturas humanas universais (padrões humanos comuns e subjacentes) em Tristes Trópicos (1955) – obra citada por Holanda no mesmo ponto do Roteiro (43).

No âmbito Arquitetura, o Estruturalismo Holandês se consolidou como alternativa crítica à rigidez do racionalismo funcionalista dos Ciam: complexos sistemas estruturados sob arranjos de plantas de base matricial, em que o todo é compreendido pelas relações ordenadas e de escala estabelecidas entre suas partes reconhecíveis e menores – reproduzindo relações metonímicas por familiaridade formal, ou “claridade labiríntica” (44), segundo van Eyck (45)–,pautadas numa linguagem de formas elementares que, repetidas com apenas pequenas variações, pretendiam exprimir a essencialidade e identidade humana na arquitetura, e, em simultâneo, garantir a variedade e multiplicidade ideal de um “edifício aberto”, com possibilidades de crescimento, flexível apropriação, experimentação e interação socioespacial dos usuários (46).

Ao crer que polaridades baseavam o pensamento, modus operandi e relações humanas, van Eyck evidenciava concordâncias com a matriz antropológica da corrente, apresentando, contudo, uma conduta revisionista quando, em detrimento de seu caráter determinista, admite a possibilidade de conciliação através da arquitetura – não permitindo que o dualismo positivista (47) de discrepâncias supostamente irremediáveis justificasse a produção de espaços de conflito humano. As duplas antagônicas seriam, portanto, componentes complementares, metades de uma mesma entidade; distintos, embora não excludentes (48) – não devendo ser espacialmente ocultados e jamais ferramentas de segregação numa arquitetura de conciliação: como bem diria Melo Neto, “o arquiteto: o que abre para o homem [...] portas por-onde, jamais portas-contra”.

Holanda estava ciente de tais referências às duplas polaridades, pelo menos há cerca de dez anos, quando em “Sobre uma Arquitetura de Sistemas”, referencia outro texto de estrutura semelhante, igualmente de Melo Neto – “A Mulher e a Casa” (1960):

“Seduz pelo que é dentro;
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas”.

O mesmo tipo de analogia pode ser feita em “Abrir as portas”, em alusão às duplas de “fenômenos-gêmeos” citadas em “Doorstep”:

“Tentemos apreender a fluência entre a paisagem e a habitação, [...] exterior e o interior, para desenharmos portas que sejam um convite ao contato entre os mundos coletivo e individual;[...] protegidas e sombreadas que possam permanecer abertas” (49).

Relacionando diretamente com a cultura construtiva tropical, Holanda estabelece a porta como a moldura que marca as boas-vindas no Nordeste; não somente a chegada e saída, mas também, a estada: que pode ser exemplificado no hábito cotidiano ainda corrente entre populações do interior nordestino brasileiro, de sentar-se nas calçadas, à frente de portas e janelas e interagir com a vizinhança, aferindo-lhe uma conotação de permanência e convívio social, ou como se referia van Eyck, o “lugar para uma ocasião” (50) humana.

Enquanto conceito concretizado em elemento construtivo, a importância arquitetônica desse estabelecimento também figura fortemente na cultura construtiva local: no Nordeste, a tradição das portas rasgadas – divididas por bandeiras, vazadas por venezianas ou guarnecidas com demais aberturas – permite a ventilação e iluminação devida, barra a entrada de animais indesejados, dá sentido de forma flexível e fluida aos espaços privativos e domésticos e por fim, garante a privacidade, quando necessário, mas também gera a comunicação tão necessária para uma vivência social em comunidade.

“Desenhemos portas externas vazadas, capazes de garantir a necessária privacidade e de admitir ar e luz, bem como portas internas versáteis, que protejam os ambientes e permitam a tiragem de ar” (51).

A proximidade dos discursos e a visão da arquitetura como claro reflexo sociocultural apenas atestam as conexões existentes entre os gênios ideológicos e a prática projetual de van Eyck e Holanda – é exatamente sobre as tradições e universalidades essenciais que compõem arquiteturas de identidade social convicta e a alta qualidade humana que tratam os trabalhos desses dois arquitetos.

As Três Tradições de van Eyck traduzidas na obra de Holanda (52)

Em um movimento de saída do velho mundo gerado por um descontentamento com os rumos tomados pelo Movimento Moderno no segundo pós-guerra, artistas de vanguarda europeus (53) partiram em busca dos princípios universais que estruturariam quaisquer sociedades através do estudo de “povos primitivos ainda não corrompidos pela civilização ocidental”.

Desde os anos 1940, van Eyck (54) nutriu um profundo fascínio pelas culturas arcaicas, sua ótica de mundo, arte e construção – que o fez engendrar numa procura por assentamentos humanos para a extração da essência (Ursprache) (55) de sua organização espacial. No início da década de 1950, o arquiteto deu início a suas expedições antropológicas ao Saara argelino, a comunidades em Dogon (Mali), aos Pueblos (Novo México) e, nos anos 1960, viagens a culturas arcaicas em todo o mundo.

Tal atitude experiencialista o acompanha por toda sua trajetória e expande seus horizontes em direção a uma conduta sintética e conciliatória: no 11º Ciam (1959) van Eyck propõe uma filosofia para o “domínio da arquitetura” – esquematizada nos “Círculos de Otterlo” – apoiada no paradigma das “três grandes tradições” – clássica, a moderna e a arcaica, as quais deveriam ser conciliadas dentro de uma arquitetura de potencial formal consoante com a complexidade da vida contemporânea (56) e as constantes mudanças no espaço-tempo discorridas no “domínio humano”:

“Ao conceber as três grandes tradições unidas em um amplo círculo que representa a realidade da arquitetura, Aldo van Eyck elege o clássico – como imutabilidade e descanso; o moderno como mudança e movimento e o arcaico como o vernáculo do coração do Pueblo Village. [...] a realidade das relações humanas são sintetizadas [...] pela dança dos índios Kayapos: [...] ao redor de um círculo aberto que [...] relaxa e tensiona no ritmo da dança. A Arquitetura deve lidar com a constante e contínua alteração da realidade humana (57).

Círculos de Otterlo, Aldo van Eyck
Imagem divulgação [Team 10 Online]

Sua obra mais célebre – Burgerweeshuis (1958-1960) – sintetiza em forma construída toda sua pregação teórica. O Orfanato de Amsterdam – obra pública construída no contexto de reconstrução holandesa no segundo pós-guerra – é um complexo acessado por uma grande chegada (doorstep), que dá para um pátio central circundado por um labirinto interno de ruas condutoras aos subnúcleos dos dormitórios, compostos, por sua vez, por pátios ao redor das quais se dispõem as unidades construídas (58).

A partir de uma planta de base matricial (59) alicerçada sob uma única ordem arquitetural (um restrito, porém flexível sistema baseado na unidade modular de 3,36m x 3,36m), Aldo van Eyck não somente dá margem para geração de complexidade e variação arquitetônica (60), como lança a possibilidade de mudança e crescimento futuros do Orfanato, através de uma metodologia de projeto sistemática e operacional – a chamada “disciplina configurativa” (61), que buscava a “harmonia em movimento” (62) (equilíbrio dinâmico) através da “estética do número” – que resultou no Orfanato, apontado como o primeiro edifício matemático (“mat building”) (63).

Foto aérea do Orfanato de Amsterdam (1958-60)
Foto KLM Aerocarto Schiphol-Oost, 24 fev. 1960 [Aviodrome Lelystad – Luchtfoto archief / Trefwoorden: Amsterdam weeshuis [Wikimedia Common]

Aldo van Eyck, planta do Orfanato de Amsterdam
Imagem divulgação [Aldo + Hannie van Eyck Foundation]

É precisamente essa composição integral do complexo que dita todo o seu desenvolvimento e comportamento (das partes componentes à totalidade do conjunto), orientando a organização no sítio, desdobrada através de um ordenamento geométrico – francamente embasado sobre um grid de ortogonais entremeado por e axiais que estabelece a trama de ruas internas (como claustros romanescos) e conformam os espaços centrais (como pátios renascentistas) (64) – indicando a presença da Tradição Clássica na obra.

A Tradição Arcaica se funde organicamente com a clássica (65) e se apresenta na aparência formal do edifício. Van Eyck evoca o simbolismo universal da cabana primitiva sob a unidade biomórfica das cobertas de cúpulas abobadadas – o módulo inscrito numa circunferência, forma geométrica mais perfeita, gera a cúpula regular, elemento estável e imutável, que parece indicar uma forte condução do desenho pela racionalidade clássica.

No processo configurativo, é a cúpula a forma a repetir-se, sob um regime dimensional que expressa, através da coberta, a hierarquia dos setores do orfanato: enquanto cúpulas maiores e individuais são dedicadas às áreas administrativas, serviços e vivência coletiva, as menores abrigam unidades de dormitórios – denotando o ideal de urbanidade de van Eyck. O orfanato, como uma “pequena cidade” pode ser encarado como uma “grande casa”, em que as escalas das unidades se adequam às situações humanas – não literal ou figurativamente, mas na abstração das proporções humanas presente nas formas geométricas puras (como nas colunas cilíndricas de 28cm de seção e arquitraves de concreto de 2.5m de altura) – relacionando-se com o caráter antropomórfico das ordens clássicas.

Conjunto de cúpulas (as menores para as cobertas dos dormitórios e as maiores para os núcleos administrativos, de serviços e vivência coletiva) do Orfanato de Amsterdam
Foto Gerard Dukker [Rijksdienst voor het Cultureel Erfgoed, 1999 [Wikimedia Commons]]

Arquitraves e pilares do Orfanato de Amsterdam
Foto Gerard Dukker [Rijksdienst voor het Cultureel Erfgoed, 1999 [Wikimedia Commons]]

Por último, van Eyck manifesta a Tradição Moderna através do movimento gerado pelo espaço centrífugo que atravessa a estabilidade dos traçados da Tradição Clássica (66). Os centros geométricos da grelha modular seriam responsáveis por aferir ao conjunto um caráter de imutabilidade e estaticidade, caso não tivessem sua prevalência intencionalmente reduzida em função de um partido concordante com a nada inerte “nova realidade” moderna: tal imperatividade é rompida através da ordem axial – principal estratégia projetual adotada, desdobrada a partir de axiais que guiam o deslocamento desses centros visando a geração de uma descentralização centrífuga; dessa forma os pontos deixam de compor centros da grelha e são convertidos em origens de um movimento de giro da planta, como em uma revolução em leque – estabelecendo as duas ruas internas ramificadas em zig-zags opostos que acessam os núcleos de dormitórios e pátios (67). Esse deslocamento não interfere internamente na circulação, já que consiste apenas no impulso inicial de geração das ruas principais (68) e da dinamicidade característica da Tradição Moderna – estabelecendo uma arquitetura de ruptura e modernidade, sem se desfazer dos preceitos clássicos e arcaicos.

Considerando as aproximações teórico-projetuais entre van Eyck e Holanda é que se torna possível estabelecer articulações das “três grandes tradições” especuladas pelo primeiro sobre a obra mais paradigmática do último – o Parque Histórico Nacional dos Guararapes – PHNG, 1973, obra pública empreendida em pleno milagre econômico no Nordeste brasileiro. Dispostos sobre o histórico sítio acidentado dos Montes dos Guararapes, o multifinalitário programa para um complexo cultural, religioso e turístico de caráter histórico e cívico em Pernambuco é solucionado em um espacialmente exíguo e disperso conjunto edilício (69), concebido segundo o mesmo princípio estruturalista: uma lógica configurativa desdobrada a partir de uma unidade matricial de repetição para as cobertas, que buscava estabelecer a unidade do conjunto via repetição – sem se incorrer uma monotonia paisagística.

Armando de Holanda, masterplan e assentamento paisagístico do PHNG [Liau/DAU/UFPE, 2013]

É tal lógica a responsável por determinar o aparecimento da coordenação modular no conjunto – o ordenamento representante da Tradição Clássica. Embora um grid não guie a implantação no sítio, como no Orfanato, no Parque a modulação se faz presente de forma individualizada em cada edificação, estabelecendo o suporte estrutural dos módulos repetidos de coberta originado das combinações matriciais – gerando variedades de cobertas de 1, 2 ou 4 apoios, então novamente combinadas e empregadas em associação a um programa específico (cuja expressão formal (70) e estruturação melhor se adequassem ao caráter e necessidades funcionais), tal como as diferentes personalidades aferidas às ordens clássicas (71), cada qual adotada em consonância com o pressuposto caráter do edifício. A limitação da coordenação modular no PHNG pode justificar-se por uma demanda programática (para uma melhor distribuição das atividades no sítio), ou mesmo por restrições paisagísticas de implantação impostas pelo patrimônio natural e construído (conservação da vegetação nativa, topografia e conjunto histórico), indicando uma preocupação de Holanda em estabelecer uma respeitosa e funcional integração do conjunto à configuração pré-existente (72).

Armando de Holanda, partido das edificações e processo configurativo das famílias de cascas do PHNG [Liau/DAU/UFPE, 2013]

Armando de Holanda, processo configurativo e os diferentes tipos de apoio das famílias de cascas do PHNG
Imagem divulgação [Liau/DAU/UFPE, 2013]

 

Armando de Holanda, ordenações modulares resultantes dos diferentes tipos de apoios estruturais compondo as famílias de cascas do PHNG – no sentido anti-horário: Museu da Restauração, Pavilhão de Acesso e Lanchonete
Imagem divulgação [Liau/DAU/UFPE, 2013]

Se o ordenamento modular impresso aos edifícios remete ao clássico, no PHNG, contudo, a Tradição Arcaica se faz mais presente, denotando uma maior liberdade conceptiva do arquiteto na reinterpretação da arquitetura luso-brasileira do período colonial no Nordeste, reiterada várias vezes como repositório da racionalidade identitária do homem no Nordeste – para tanto, estabelece paralelos entre tal produção e a industrial, reafirmando a racionalidade do princípio da elementarização que as articula e por fim legitima sua “Arquitetura de Sistemas”.

O “arcaico”, portanto, reside nos paradigmas da construção oitocentista pernambucana: a “cobertura decidida” e as paredes recuadas, que criam áreas sombreadas e de convivência semelhantes aos terraços das casas rurais de engenho; “paredes internas à meia altura de altos pés direitos” e “aberturas dosadas”; “claras fachadas de azulejos” “nas cores de seu próprio lugar” – desenhados por Athos Bulcão em branco e azul, como os azulejos portugueses do altar da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Guararapes; o emprego de poucos materiais e o despojamento típicos “da bela tradição da casa do Nordeste”, são elementos representativos dessa tradição, descritos no Roteiro e presentes no PHNG.

Armando de Holanda, elevações do Museu da Restauração e do Restaurante Panorâmico e as distintas famílias (e caráteres) de cascas nas cobertas do PHNG
Imagem divulgação [LIAU/DAU/UFPE, 2013]

Configurações de famílias de cascas para cada programa do PHNG. Armando de Holanda
Imagem divulgação [Liau/DAU/UFPE, 2013]

Panos de azulejos de Athos Bulcão e cascas do já deteriorado conjunto construído da lanchonete do PHNG
Foto Fred Jordão [Liau/DAU/UFPE, 2013]

A Tradição Moderna se expressa na metodologia projetual operacional, que gera uma variedade baseada na repetição e rearranjo de duas unidades prototipadas na composição das cobertas do Parque, promovendo o crescimento contínuo via combinação matricial:

“Uma abordagem combinatória: a partir de dois triângulos de dupla curvatura, obtidos pelo corte ao longo das diagonais de um parabolóide-hiperbólico, foram organizadas três famílias de cascas de concreto, com um, dois e quatro apoios; prosseguindo com o processo combinatório, as cascas foram acopladas entre si, formando unidades duplas e triplas. [...] foi possível repetir o mesmo processo [...] para oito edificações, sem prejuízos de individualização de cada programa” (73).

A sinuosa unidade plural do projeto é estabelecida pelas “famílias de cascas de formas distintas, mas claramente aparentadas” (74), descendente das duas matrizes de identidade a partir das quais os componentes derivam, são reconhecidos e agrupados. Portanto, ao invés de empregar objetos individuais, cujo valor/identidade (reflexivo) reside em sua condição por-si-só, de elemento original, propõem-se objetos plurais, cujo valor/identidade (relativo) se enriquece e se amplia em significado no coletivo, em um contexto lato e através das relações instauradas com os demais componentes do sistema maior que integra.

Armando de Holanda, Processo configurativo das famílias de cascas do PHNG
Imagem divulgação [Liau/DAU/UFPE, 2013]

A estratégia de combinação em escala crescente e continuada adotada, não apenas torna irrefutável a rica variedade gerada pela operação configurativa, como ainda demonstra um alcance mais efetivo do paradigma da “mudança e movimento” (Tradição Moderna), na medida em que o desenho resultante alcança a dinamicidade de modo mais evidente e espontâneo através da dupla curvatura das duas variações das matrizes mínimas – que aferem um enérgico caráter biomórfico (caracterizante da Tradição Arcaica) à forma essencial do triângulo: ao interpretar geometricamente as formas irregulares das folhagens dos trópicos nordestinos, Holanda se liberta dos arquétipos clássicos e responde sintética e espontaneamente ao desafio de desenvolver uma arquitetura capaz de refletir a organicidade e complexidade da natureza dos trópicos.

Considerações finais

A análise das trajetórias e produções dos arquitetos evidencia que ambos enxergavam a arquitetura como instrumento social transformador, capaz de transfigurar padrões conflituosos de relações humanas – perpetuados pelos próprios espaços que lhes abrigam, repletos de contrastes e polaridades não conciliadas.

As propostas do Burgerweeshuis e do Parque dos Guararapes evidenciam que, tanto van Eyck, quanto Holanda buscavam por soluções de módulo que possibilitassem, com pouco, a transposição de uma monotonia engendrada da repetição, visando o alcance da diversidade arquitetônico-paisagística; entretanto, enquanto no Orfanato a unidade essencial combinada de coberta é unitária (cúpula abobadada com variação apenas dimensional, a depender da função) e mais complexa (forma fechada e constituída de sentido apenas se empregada sem frações de sua integridade), no Parque são estabelecidas múltiplas unidades de combinação (famílias de cascas), a partir do arranjo de duas matrizes de repetição (triângulos de dupla curvatura, frações da coberta) constituídas de um elementarismo ainda maior (o triângulo, forma geométrica mais simples e de maior aptidão combinatória que o círculo)- permitindo o estabelecimento, a partir de um vocabulário formal ainda mais econômico, de um sistema de cobertas mais aberto, com mais possibilidades de variação e portanto, maior liberdade compositiva.

As afinidades constatadas entre as metodologias projetuais – onde se sucede o mais importante cruzamento entre “arquitetura de sistemas” e “disciplina configurativa” – reforçam o ideal do “construir com pouco”, evidente na impressão de uma racionalidade ao ato de edificar – a “redução do edifício”: adoção de uma coordenação baseada em sistemas reticulares, repetição de componentes-matriz, emprego de metodologia e linguagem da arquitetônica industrializada, economia de materiais, entre outros – que não incorre no puro trato de caráter funcionalista, monótono e estéril dos projetos – revelando respostas humanas da arquitetura para um mundo contemporâneo múltiplo, amparadas nas possibilidades do “significado humano” do número para a construção de variedade com aquilo de mais essencial da sociedade.

Aqui os arquitetos demonstram que construir com pouco não constitui apenas numa necessidade imposta pelos contextos (supostamente determinísticos) de construção das obras, mas sim um preceito basilar da boa arquitetura: criatividade para construir com economia e reiterando a racionalidade local, arquiteturas que comprovam o potencial da disciplina enquanto instrumento capaz de fortalecer e celebrar aspectos identitários socioculturais coletivos – a construção de muito, a partir de tão pouco.

notas

NE – Este artigo foi originalmente apresentado no 12º Seminário Docomomo Brasil. RAMOS, Juliana Silva; NASLAVSKY, Guilah. Construindo com pouco no Nordeste brasileiro: conexões Brasil-Holanda. Anais do12º Seminário Docomomo Brasil: Arquitetura e urbanismo do movimento moderno. Patrimônio cultural brasileiro: difusão, preservação e sociedade. Uberlândia: PPGAU/FAUED/UFU, 2017.

1
SILVA, Geraldo Gomes da. Armando Holanda: Arquiteto dos Alegres Trópicos. AU – Arquitetura e Urbanismo, n. 69, dez. 96 /jan. 97. p. 65-71; LIMA, Daniele Abreu e. Armando Holanda: por uma arquitetura tropical. Trabalho de Graduação. Recife, DAU UFPE, 1997, p. 7.

2
O conjunto iconográfico pesquisado possui cerca de 1600 documentos (desenhos e memoriais) então catalogados, higienizados, restaurados, acondicionados e digitalizados. FREIRE, Adriana, NASLAVSKY, Guilah. Inventário do acervo de projetos do arquiteto Armando de Holanda Cavalcanti. Projeto Cultural 808, Edital Funcultura 2013, área: pesquisa-patrimônio. Recife, Governo de Pernambuco, SIC PE, 2013.

3
STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Shaping the New Reality From the In-between to the Aesthetics of Number. California, Study Centre Mellon Lectures/ College of the Arts, mai. 2007, p. 2-3.

4
MARQUES, Sônia Maria da Cunha. Depoimento da profa. Sônia Marques, aluna da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (1969) em 04 jul. 2003. In: NASLAVSKY, Guilah. Arquitetura moderna em Pernambuco, 1951-1972: as contribuições de Acácio Gil Borsoi e Delfim Fernandes Amorim. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2004.

5
Curso oficializado em 1948 que conjugava uma célebre equipe de professores – a destacar, os arquitetos Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim.

6
Teoria e História da Arquitetura com Edgard Graeff e Ítalo Campofiorito, História da Arte com Lygia Martins Costa#, Projeto com Glauco Campello e Técnicas Construtivas com Lelé. NASLAVSKY, Guilah; FREIRE, Adriana; MORAIS, Mariana, O. B. Ir, vir e voltar. Novas Conexões, Outros brutalismos. Anais do X Seminário Docomomo Brasil: Conexões brutalistas 1955-1975. Porto Alegre, Propar UFRGS, 2013, v. 1., p. 1-18.

7
MARQUES, Sônia Maria da Cunha. Op. cit., p. 231.

8
A partir da atuação da Sudene e da criação das novas instituições estaduais (Condepe-Fidem, Cohab, Fundarpe...), arquitetos são “atraídos por programas governamentais voltados para o desenvolvimento urbano, industrialização, habitação popular, patrimônio, conservação”, e passam a atuar como funcionários públicos, profissionais autônomos ou consultores e em escritórios de projetos. FREIRE, Adriana, NASLAVSKY, Guilah. Op. cit.

9
Também compuseram a equipe coordenada por Glauco Campello: Marcos Domingues, Luiz Lacerda, César Augusto, Christina Jucá, Newton Viana e Jorge Martins Jr. CAMPELLO, Glauco. Painel: Edifício sede da Sudene Anteprojeto. Arquitetura. Revista do Instituto de Arquitetos do Brasil, n. 68, Rio de Janeiro, mar. 1968, p. 34-36.

10
Tradução livre de, respectivamente, College van Bedrijfsorganisaties voor het Bouwwelen erkende Bedrijfsorganisatie e Bond van Nederlandse Architecten. COLLETE, P. De bouwnijverheid is ten zeerste gediend met een objectieve voorlichting. Bouw, n. 20, Rotterdam, set. 1985, p. 74-77.

11
RAMOS, Juliana Silva. (Velha) Holanda, Holanda, (Nova) Holanda: Bouwcentrum e Arquitetura de Sistemas. Trabalho de Graduação. Recife, DAU UFPE, 2019, p. 72-88.

12
BALDAUF, Alexandra Staudt Follmann. Contribuição à implementação da coordenação modular da construção no Brasil. Dissertação de mestrado. Porto Alegre, PPGEC UFRGS, 2004, p. 65; KOURY, Ana Paula. Arquitetura construtiva: proposições para a produção material da arquitetura contemporânea no Brasil. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2005, p. 124.

13
HOLANDA, Armando de. Edifícios fabricados. Diário de Pernambuco, Recife, 6 mar. 1966a, 3º caderno, p. 1-2. Destaque das autores.

14
Tal expertise munirá Holanda de condições para sua larga e diversificada atuação (16 projetos dentro e fora de Pernambuco) como projetista no campo industrial, setor que passa por um boom no Nordeste, devido aos incentivos da Sudene.

15
HOLANDA, Armando de. Sôbre uma arquitetura de sistemas. Arquitetura: Revista do Instituto de Arquitetos do Brasil, n. 54, Rio de Janeiro, dez. 1966b, p. 28-29.

16
Holanda sobre seu premiado “Monumento Rodoviário na BR-122” (Petrolina PE). Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento de Pernambuco (IAB PE). Catálogo da premiação anual do IAB – PE – 1969. Recife, IAB PE, 1969, p. 58. Destaque das autoras.

17
HOLANDA, Armando de. Sôbre uma arquitetura de sistemas (op. cit.), p. 29.

18
Idem, ibidem. Destaques das autoras.

19
HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados. Recife, MDU UFPE, 1976.

20
CAMPELLO, Glauco. Depoimento do arquiteto e colega de Armando de Holanda na Sessão de Depoimentos no evento do Inventário Armando Holanda, 25 mar. 2015. Inventário Armando Holanda. Recife, Liau/UFPE/Fundarpe, 2015.

21
MARQUES, Sônia Maria da Cunha. Op. cit., p. 231.

22
Como nos Seminários de Tropicologia de Gilberto Freyre (dos quais Holanda foi conferencista em 1978), fundamentados na discussão interdisciplinar socioeconômica e ambiental dos trópicos. MOTTA, Roberto (Org.). Trópico & o moderno mundo Tropical: Anais do Seminário de Tropicologia de 1978. Recife, Fundaj/Massangana, 1988, Tomo XII, p. 5; 40-68; 90-106.

23
“Assim para superar o atraso tecnológico e devido a questões de ordem econômica muitos problemas técnicos foram solucionados com materiais regionais e elementos construtivos elaborados, muitas vezes, no próprio canteiro de obras”. BALTAR, Antônio Bezerra. Depoimento à Guilah Naslavsky em 13 set. 1997. In NASLAVSKY, Guilah. Modernidade Arquitetônica no Recife: Arte, técnica e arquitetura, de 1920 a 1950. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU USP, 1998, p. 234.

24
Tal como Costa demonstrava crer na racionalidade embutida nas soluções da arquitetura colonial. COSTA, Lucio. Documentação Necessária, 1937. In Registo de uma vivência. São Paulo, Empresa das Artes, 1995, p. 457-462.

25
HOLANDA, Armando de. Roteiro para construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 15.

26
HOLANDA, Armando de. Sôbre uma arquitetura de sistemas (op. cit.), p. 28-29. Holanda continua com a discussão no ponto seguinte, “Construir com pouco”, quando aponta para a inadequação climática e os excessos de sua época – exemplificando soluções coloniais como exemplos de respeito ao caráter, clima e economia nordestinos: “Empreguemos materiais refrescantes [...] Sob esse aspecto, é interessante comparar a casa de Alcântara, de São Luís, de Olinda ou de Salvador, com a que hoje construímos. Na primeira, claras fachadas de azulejos ou massa, paredes internas à meia-altura de altos pés direitos, cobertas e forros ventilados, longos beirais, aberturas dosadas… Na segunda, escuros materiais [...], paredes e esquadrias desprotegidas, cobertas baixas e seladas, interiores carregados de revestimentos, pisos atapetados, cortinas, móveis estofados… Enquanto numa tudo concorre para a amenização dos extremos [...] tropicais, a outra parece excelente para quem prefere sentir-se exilado nos trópicos”. HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 35.

27
O arquiteto aprofunda a temática da industrialização da construção ao tratar detalhadamente de conceitos do conteúdo – “mecanização da montagem dos edifícios”, “coordenação modular”, entre outros – nos escritos “Edifícios fabricados”, “Sobre uma arquitetura de sistemas” e “Industrialização da construção”. HOLANDA, 1966a, p.01-02; HOLANDA, 1966b, p.28-29; HOLANDA, Armando de. Industrialização da Construção. [S.l.: s.n.], [197-?], n.p.

28
Idem, ibidem.

29
EYCK, Aldo van. In: STRAUVEN, Francis; LIGTELIJN, Vincent (Org.). Aldo van Eyck Writings. Amsterdam, Sun, 2006, p. 162.

30
Apesar da crítica ao colonialismo cultural, o próprio discurso do autor resguarda resquícios de uma ótica exógena: ao empregar “selvático” em referência à vegetação tropical, Holanda reafirma a identidade local a partir de expressões derivadas de um olhar estrangeiro – segundo Fernández o conceito geocultural de “selva”, recorrentemente associado a uma suposta paisagem latinoamericana “tropical densa na qual a arquitetura [...] se fundiu, virtualmente, a uma totalidade natural muito mais significativa, que é a paisagem como uma natureza antropizada” sendo, portanto, “uma das maneiras (neobarrocas) de entender a estética americana, e que não pode ser entendida ou compartilhada exceto nos Estados Unidos”. FERNÁNDEZ, Roberto. El Laboratório Americano. Arquitetura, Geocultura y Regionalismo. Madrid, Biblioteca Nueva, 1998, p. 241.

31
HOLANDA, Armando de. Roteiro para construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 45-47

32
Idem, ibidem, p. 49.

33
Aldo van Eyck – instruído por uma “sólida, porém não ortodoxa educação clássica”, inicia estudos na Inglaterra, finaliza a formação pré-universitária na Royal Academy of Visual Arts de Haia e se gradua em Arquitetura na ETH Zurique (escola politécnica de forte tradição neoclássica estabelecida por Semper). De caráter contestador, rejeitava uma disciplina arquitetônica de cunho positivista, de determinismos alheios às relações humanas. Seu interesse pelas ciências humanas direcionaram sua conduta experimentalista: itinerante convicto, imbuído de um olhar antropológico e à procura do conhecimento das estruturas profundas da sociedade, buscou pela essência da arquitetura e por respostas conciliatórias dos rigores de suas oposições em excursões aos trópicos, quando descobriu o valor universal do elementarismo das “sociedades arcaicas”. STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Shaping the New Reality From the In-between to the Aesthetics of Number (op. cit.), p. 2-5.

34
MELO NETO, João Cabral de. Apud HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.). Destaque das autoras.

35
Compõe trecho de “A Home for Twin Phenomena”. EYCK, Aldo van. In STRAUVEN, Francis; LIGTELIJN, Vincent (Org.). Reviewed Work: Aldo van Eyck. Journal of the Society of Architectural Historians, 2006, p. 58-63.

36
Cartilha do Team 10 – núcleo de jovens arquitetos dissidentes dos Ciam dos quais sete foram mais ativos e permanentes – “Inner circle of Team 10”: Alison e Peter Smithson, Aldo van Eyck, Jacob Bakema, Georges Candilis, Shadrach Woods e Giancarlo De Carlo. SMITHSON, Alison M (Org.). Team 10 primer. Londres, Studio Vista, 1968, p. 96-97.

37
EYCK, Aldo van. Apud HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 27. Destaque das autoras.

38
Do inglês “Twinphenomena”. Tradução das autoras.

39
Do original “la plus grande réalité du seuil”. Tradução das autoras.

40
EYCK, Aldo van. In SMITHSON, Alison M. (Org.). Op. cit., p. 96.

41
SÖDERQVIST, Lisbeth. Structuralism in architecture: a definition. Journal of Aesthetics & Culture, v. 3, Routledge, 2011, p. 2.

42
Fundamentada na obra do linguista Ferdinand de Saussure (Genebra, 1857 – Morges, 1913), “Curso de Linguística Geral” (1916), a corrente alcançou grande proeminência nos anos 60, dialogando com múltiplas áreas das ciências humanas, nas quais, a vida, comportamento e pensamento humanos e seus elementos culturais são concebidos exclusivamente pelas relações estabelecidas entre seus componentes – regidas por leis fixas, inconscientes, comuns e universais, inalteradas individualmente – e sua situação dentro de uma estrutura maior que lhes articula – a sociedade.

43
“A passagem é menos marcada que na Europa entre as casas e a calçada; as lojas, apesar do luxo das suas vitrinas, prolongam a exposição até a rua; quase não se percebe se se está dentro ou fora. Na verdade, a rua não é somente um lugar onde se passa; é um lugar onde se permanece”. LÉVI-STRAUSS, Claude [1955]. Tristes trópicos, p. 84. Apud HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 27.

44
“A árvore é uma folha e uma folha é uma árvore. A cidade é uma casa e a casa é uma cidade”. A relação metonímica – ideia que “a parte está para o todo assim como o todo na parte”, que comumente figurou em investigações das ciências humanas no período – da forma “dentro da forma” foi denominada de “claridade labiríntica” por van Eyck, conceito com o qual distingue o tipo de apreensão das cidades tradicionais, condicionada a um reconhecimento progressivo no tempo e vinculado à distância percorrida de suas estruturas – que lhe auferem (por analogia de formas e escalas) sentido e significado – da “claridade instantânea” da cidade funcional moderna. Implica, portanto, “na impressão consecutiva sentida simultaneamente através de experiências repetidas”, configurando-se, destarte, uma apreensão complexa de várias estruturas componentes de uma estrutura maior, experimentadas várias vezes. EYCK, Aldo van. In STRAUVEN, Francis; LIGTELIJN, Vincent (Org.). Op. cit., p. 98-102; BARONE, Ana Cláudia Castilho. Team 10: arquitetura como crítica. São Paulo, Annablume/Fapesp, 2002, p. 114.

45
“O homem é sempre e em toda a parte essencialmente o mesmo. Tem o mesmo aparato mental, embora o use de modo diferente segundo seus antecedentes culturais ou sociais, ou segundo o modo de vida específico no qual está inserido. Os arquitetos modernos vêm insistindo [...] no que é diferente [...] a ponto de perderem contato com [...] aquilo que é, essencialmente, sempre o mesmo”. Aldo van. In STRAUVEN, Francis; LIGTELIJN, Vincent (Org.). Op. cit., p.130.

46
Além de van Eyck, os arquitetos holandeses Herman Hertzberger (Amsterdam, 1932) e Piet Blom (Amsterdam, 1932 – Denmark, 1999), discípulos do primeiro, são expoentes da corrente arquitetônica.

47
BARONE, Ana Cláudia Castilho. Op. cit., p. 113.

48
STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Shaping the New Reality From the In-between to the Aesthetics of Number (op. cit.), p. 16.

49
HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 27. Destaque das autoras.

50
Aldo van. In STRAUVEN, Francis; LIGTELIJN, Vincent (Org.). Op. cit., p. 50.

51
HOLANDA, Armando de. Roteiro para Construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 29.

52
As seguintes categorias de análise não têm a pretensão de limitar nem tampouco encerrar as discussões em torno das relações encontradas entre as obras e os arquitetos aqui tratados.

53
Movimento semelhante fez Bernard Rudofsky que, ao trazer imagens de cidades nas encostas de montanhas mediterrânicas, evidencia a rica diversidade da arquitetura vernacular de assentamentos do Norte da África em catálogo de célebre exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York. OMA. RUDOFSKY, Bernard. Architecture without architects. New York, MoMa – The Museum of Modern Art, 1964.

54
STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Modern Architecture and Archaic Culture. [S.l.: s.n.], 2002, n.p.

55
“Protolíngua”, uma língua ancestral comum a uma família linguística. STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Shaping the New Reality From the In-between to the Aesthetics of Number. (op. cit.), p. 5.

56
Idem, ibidem, p. 2.

57
Idem, ibidem.

58
MUMFORD, Eric. The emergence of mat or field buildings. In SARKIS, Hashim; ALLARD, Pablo (Org.). Case: Le Corbusier’s Venice Hospital and the Mat Building Revival. Munique, Nova York, Prestel, 2001, p. 48-65.

59
ORLEANS-BORBÓN, Elena Farini. Procesos configurativos: de la trama a la noción de campo en los "mat buildings". Tese de doutorado. Madrid, E.T.S. Arquitectura UPM, 2013, p. 67-116.

60
Idem, ibidem.

61
Em “Steps Towards a Configurative Discipline” (Forum, 1962) van Eyck lança as bases de sua abordagem para a operação da variedade na arquitetura. Constituía-se na operação multiplicativa na qual um “estruturado padrão” de “agrupamento de um número grande, porém limitado de habitações”, passaria por simultâneos e repetitivos estágios de replicação, cada qual gerando um cluster dotado de identidade – então ausente no caráter monótono, amorfo e de aglomeração aditiva das cidades modernas – própria (individual) e relativa (alusiva a um conjunto maior em que esse se insere e amplia o seu sentido) e constituindo uma nova textura urbana em que diferentes escalas estariam estruturadas. EYCK, Aldo van. In STRAUVEN, Francis; LIGTELIJN, Vincent (Org.). Op. cit., p. 162-166; STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Shaping the New Reality From the In-between to the Aesthetics of Number (op. cit.), p. 10.

62
A “harmonia em movimento” ou “equilíbrio dinâmico” se refere ao estabelecimento formal da “arquitetura do número”, então determinada pela larga escala dos meios seriais industriais e pela natureza dinâmica herdada da tradição moderna; a “estética do número” constituiria o conjunto de leis compositivas responsáveis por estabelecer uma ordem – “plural e geral” – capaz de superar a monotonia da repetição nessa arquitetura. Idem, ibidem, p. 168-170.

63
Associado também com a ideia de clusters, o termo é empregado por Alisson Smithson em “How to Recognise and Read Mat-Building” (Architectural Review, 1974).

64
STRAUVEN, Francis. Aldo van Eyck – Shaping the New Reality From the In-between to the Aesthetics of Number (op. cit.), p. 7.

65
Idem, ibidem, p. 8.

66
Idem, ibidem, p. 7.

67
Idem, ibidem.

68
Idem, ibidem.

69
HOLANDA, Armando de et al. Parque Histórico Nacional dos Guararapes: Projeto Físico. Recife, MEC/UFPE/Iphan, 1975, p. 43-45.

70
Para a coberta de programas institucionais, como o Museu da Restauração, são adotadas cascas de aparência mais estável (relacionadas com a tradição clássica, no caso, o arco pleno), ao passo que para equipamentos de lazer e uso público direto, como o inovador Restaurante Panorâmico e a Lanchonete, empregam-se famílias de cascas de aspecto mais dinâmico e espontâneo (concordância de curvas côncavas e convexas e paraboloides hiperbólicos), relacionando determinados formatos de cascas a programas de caráter, ao seu ver, concordantes – uma interpretação subjetiva e não figurativa de um caractere clássico na obra.

71
SUMMERSON, John. A Linguagem Clássica da Arquitetura. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2009, p. 11.

72
Preocupação evidente, por exemplo, na aparência das cascas, cujas faces superiores receberiam “pintura de ‘Hypalon’ cor verde escuro”, visando uma maior integração com a vegetação – a partir da visada (dos montes para baixo) preponderante de apreensão do sítio.

73
HOLANDA, Armando de. Roteiro para construir no Nordeste: Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados (op. cit.), p. 43.

74
HOLANDA, Armando de et al. Op. cit., p. 43.

sobre as autoras

Juliana Silva Ramos é arquiteta e urbanista (DAU UFPE) e participou da edição 2014-2015 do Programa de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic UFPE CNPq) no projeto cultural Inventário do Acervo de Projetos do Arquiteto Armando de Holanda Cavalcanti, quando realizou pesquisas sobre a produção do arquiteto e suas conexões com a arquitetura holandesa.

Guilah Naslavsky é arquiteta e urbanista (UFPE, 1992); mestre (1998) e doutora (2004) em Estruturas Ambientais e Urbanas na área de História da Arquitetura pela FAU USP e pesquisa sobre arquitetura moderna no Recife. É professora de História e Teoria da Arquitetura desde 1995 na Faupe/Unicap/UFPB, na graduação e no Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE.

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