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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Em um divertido texto, que cita Borges, o autor comenta como determinados mapas, podem ser instrumento ideológico e uma expressão da realidade histórico-social

english
In an amusing text, citing Borges and his amazing stories encrypted, the author shows how certain maps, more than simple representation of a particular fact may be an ideological tool and an expression of social and historical reality

español
En un divertido texto, que cita Borges, el autor comenta como determinados mapas, más que simples representaciones de una determinada realidad pueden ser instrumento ideológico y una expresión de la realidad histórico-social

how to quote

COSTA, Xico. Síntese gráfica. Funes, el memorioso, e o Colégio de Cartógrafos do Império. Drops, São Paulo, ano 05, n. 010.06, Vitruvius, mar. 2005 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/05.010/1643>.


Quando em 1992 me integrei a equipe do Projeto Atlas Histórico de Ciudades Europeas, pelo Centre de Cultura Contemporània de Barcelona (CCCB), meus conhecimentos de cartografia temática e cartografia em geral vinham de uma antiga simpatia, na adolescência, pelos mapas. Recordo que cheguei a colecionar mapas de cidades do mundo inteiro graças a contatos através de ondas curtas e representações culturais. Esta mania me havia custado mais de uma visita a um departamento dos Correios e Telégrafos, cuja função nunca me chegou a ser clara até que recebi uma visita que se identificou como relações públicas do Exército Brasileiro. Sem mais delongas, a visita se foi levando minha correspondência. Desde então era comum que os pacotes e envelopes entregues pelos Correios chegassem sempre violados ainda que sem parecer faltar qualquer conteúdo, exceto uma vez, quando desapareceu um mapa. Na carta, um cubano me explicava a importância do mapa temático que me estava enviando para entender a presença do comunismo no mundo e, para completar, também enviava a transcrição – longuíssima – de um discurso de Fidel Castro. Por um bom tempo cheguei a imaginar como seria o mapa que havia motivado, a esta espécie de sensor, a sua retenção ou a sua destruição...

Este caso curioso, no entanto, serviu para que me desse conta de que determinados mapas, mais do que simples representação de uma determinada realidade, são um instrumento ideológico mas também um instrumento da realidade histórico-social. Por mais equivocados que pareçam ser apresentam uma simplificação da realidade objetiva e particular. Não somente dirá algo sobre aquilo que representa mas também daquele que representa. O fundamental é a uma característica de síntese, somente possível através de um meio visual. Possibilita descrever elementos conceituais integrados a elementos estruturais. Na sociedade da informação, na qual vivemos hoje, esta capacidade tem se mostrado cada vez mais crucial: simplificação, generalização e síntese são as únicas formas de navegar por um universo desmesurado de dados. Esta quantidade infinita de informação e a possibilidade de utilizar recursos cartográficos cada vez mais automatizados para a construção de modelos, nos remetem a Jorge Luis Borges.

Num primeiro conto encontramos um indivíduo que perde a capacidade de síntese a medida que adquire capacidade de memória. Para este, a recuperação dos acontecimentos passados é feita de forma serial e descritiva tão fragmentada que sua capacidade de generalização desaparece. Funes – o personagem de Borges – é o exemplo extremo de uma quantidade desorbitada de informações unida a uma ausência de capacidade de síntese.

“Duas ou três vezes havia reconstruído um dia inteiro, não havia jamais duvidado, mas cada reconstrução havia requerido um dia inteiro. […] De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. […] Não apenas lhe custava compreender que o símbolo genérico cão abarcava tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; perturbava-lhe que o cão das três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão das três e quatro (visto de frente). […] Havia aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos” (1)

No Brasil os estudos de história da cidade e história da arquitetura levaram, nos últimos anos, à produção de uma grande quantidade e variedade de monografias que se destacam, especialmente, por uma valorização da informação documental sem, no entanto, apresentar uma aproximação mais crítica, avaliativa ou comparativa. Ou seja, temos realizado esforços para a recuperação de relatórios, material iconográfico, planos, séries documentais, etc., sem que todo este esforço seja acompanhado de um cuidado metodológico e conceitual que priorize a síntese ou a generalização indispensáveis para o entendimento histórico da cidade e da arquitetura. De fato, nossos eventos – de história da cidade e do urbanismo – recebem centenas de contribuições que, em sua maioria, caracteriza-se por um enfoque localizado e desvinculado de uma discussão mais ampla seja ao nível temático seja ao nível territorial. Se agregamos a isto o fato de que a utilização dos recursos informáticos, disseminados nos estudos sociais durante a década de 1990, facilitou enormemente a catalogação e reprodução de informação, é possível que estejamos – em relação aos conteúdos – a caminho do virtuosismo de Funes.

Esta busca e organização de informação não é por si nefasta. Mas a produção teórica, nela baseada, não tem sido capaz de marcar a necessária distância respeito aos dados; aquela distância que permite uma visualização de conjunto, uma generalização, uma organização do pensamento. A representação gráfica, que em geral resulta destes trabalhos, refletem igualmente esta incapacidade. Não sugerem um juízo, uma tese, uma generalização, uma síntese ou enfim, um modelo. As infinitas séries de mapas temáticos apresentados como resultados de um longo e laborioso trabalho de investigação – vejamos também algumas apresentações públicas de planos diretores de cidades – logram, ao contrário, distanciar nossa percepção da realidade histórico-social da cidade. São tantas as informações apresentadas que para a compreensão destes mapas necessitaríamos – como Funes – de todo o tempo que foi gasto para a sua elaboração.

Esta parte do problema, que inclui a elaboração de sínteses como apoio não somente da representação mas principalmente da análise, ganha desta forma uma versão gráfica do problema de Funes. De fato, se para Funes a dificuldade estava em generalizar o pensamento, aqui o que vemos é um descontrole generalizado respeito à obtenção de imagens em forma de esquema, modelo, simplificação, ou seja, de síntese gráfica.

“... Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal perfeição que o mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo o País não resta outra relíquia das disciplinas geográficas”. (2)

Isto me recorda uma instalação de arte promovida em 1991 pelo Centro Cultural de la Caixa de Pensions en Barcelona. Nela se reproduzia um típico interior de apartamento de classe média baixa barcelonesa e todo conjunto estava recoberto por uma fotocópia dele mesmo. Ou seja, cada parte daquela sala estava fotocopiada e a fotocópia havia sido fixada sobre a superfície que a havia originado. Alguns anos depois já era possível ver em Barcelona "fotocópias" de fachadas de edifícios cobrindo os próprios edifícios... e não era uma instalação de arte.

Não estaríamos, também, vivendo uma situação como esta? Afinal, não alcançamos uma “perfeição” ainda maior do que a dos cartógrafos daquele Império ao substituir, e não apenas representar graficamente, as edificações por representações delas mesmas? Não estamos transformando nossos centros históricos em representações cenográficas deles mesmos, com o agravante de que utilizamos o próprio centro histórico como suporte para esta representação?

Licenças da arte a parte, para fugir destes tipos de procedimentos nas ciências sociais aplicadas, que poderíamos inserir na categoria do arquivo pelo arquivo e a representação pela representação, deveríamos não perder de vista as aproximações de tipo verificadoras e comparativas. A primeira no sentido de vincular o dado documental com o objeto mesmo da disciplina – a cidade e o seu tempo – e a segunda como forma de compreender os processos urbanos locais como parte de um processo mais amplo da realidade urbana (regional, territorial e global). Os procedimentos gráficos, como instrumentos para o estudo da história da arquitetura e da história da cidade, deve servir principalmente o desenvolvimento da capacidade verificadora, crítica e comparativa. Não é a toa que o sensor do Exército Brasileiro tenha retido, daquela carta vinda de Cuba e descrita no início deste artigo, um Mapa Temático sobre o Comunismo e não a recopilação de um dos intermináveis discursos do Comandante Fidel Castro.

notas

1
[Jorge Luis Borges: Funes o memorioso. Tradução de Marco Antonio Frangiotti]

2
[Suárez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, cap. XIV, Lérida, 1658. Fragmento selecionado por Jorge Luis Borges, "Do Rigor na Ciência", in "História Universal da Infâmia", tradução Flávio José Cardozo, Porto Alegre, Globo, 1978]

Xico Costa, Salvador BA Brasil

 

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