Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Renato Anelli explora aspectos da obra de Peter Zumthor, após sua premiação pelo Pritzker, e levanta a hipótese de que os valores presentes em sua obra sejam retomados pela arquitetura contemporânea

english
Renato Anelli explores aspects of the work of Peter Zumthor, after he was awarded with a Pritzker, and hypothesizes that the values in his works are taken up by contemporary architecture

español
Renato Anelli explora aspectos de la obra de Peter Zumthor, luego de su premiación por el Pritzker, y levanta la hipótesis de que los valores presentes en su obra sean retomados por la arquitectura contemporánea

how to quote

ANELLI, Renato. Peter Zumthor. A materialidade como essência da arquitetura. Drops, São Paulo, ano 09, n. 027.04, Vitruvius, maio 2009 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/09.027/1794>.


No começo da década de 1990 foram divulgadas no Brasil obras de alguns novos arquitetos suíços. Entre eles se destacavam Peter Zumthor e a dupla Herzog & De Meroun. Rapidamente foram rotulados como minimalistas – classificação que dispensava a mídia de arquitetura de maiores reflexões.

As fotos da Capela de São Benedito (Sumvitg, Suíça, 1989) impressionavam pelo modo como a materialidade da construção em madeira afirmava um volume íntegro em meio à paisagem dos Alpes. Não se tratava de uma forma clássica. O volume não era geométrico, não era regido por proporções reconhecíveis. Também não era fruto de uma composição de elementos arquitetônicos – a entrada não constituía uma “porta” e a abertura de iluminação não era uma “janela”. Em meio ao historicismo e ao deconstrutivismo, que imperavam internacionalmente na mídia de arquitetura, a obra de Zumthor nos oferecia um novo caminho.

Mais tarde, em uma de suas poucas publicações (Thinking Architecture, Birkhäuser, Basel/Boston/Berlim 1998), Zumthor explicitaria verbalmente seus princípios, confirmando nossa intuição ao ver sua obra anos antes. A procura pela essência da experiência e das coisas o levou à matéria. Os detalhes construtivos – as juntas entre materiais – não deveriam “distrair ou entreter”, mas sim “levar a um entendimento do todo do qual eles são parte inerente”. Uma unidade que havia encontrado na arte contemporânea dos anos 1960 e 1970. Destaca Beuys e Merz, que apesar de reunirem conjuntos de coisas dispares, nunca favorecem uma “interrupção da impressão geral por pequenas partes que não tenham relação com os princípios do objeto”.

Ainda que recorra a John Cage para explicar que primeiro define um conceito e uma estrutura para depois descobrir a sua sonoridade, sua obra apresenta algumas estratégias freqüentes de formalização. Para evitar a composição de elementos arquitetônicos (janelas, portas, etc.), sua forma é constituída pela repetição intensa de pequenos componentes. As lascas de madeira na Capela de São Benedito, as placas de pedra nas Termas de Valls, os caibros de madeira no Pavilhão da Suíça na Exposição de Hamburgo, matérias e materiais que parecem simplesmente empilhados. Sua repetição não constitui ritmos, mas sim vibrações em diferentes intensidades que conferem maior ou menor opacidade à forma, permitindo assim a iluminação e a transparência do volume. Atenção que em geral não se trata de meras texturas de superfícies de vedação, mas da materialidade da própria estrutura portante do edifício.

A produção de sua obra silenciosa e densa, em meio a uma condição de trabalho reclusa na pequena e isolada Haldenstein, alimenta a idéia de uma posição de resistência ao mundo contemporâneo. Prefiro pensar que ele busca outros modos de inserção nesse mundo, que não sejam a submissão irrestrita aos ditames do mercado de imagens. Zumthor compartilha com os principais artistas contemporâneos a estratégia de fazer o mercado de arte se deslocar em sua direção. Uma posição que o aproxima da arte brasileira que emergiu na década de 1970 e que definiu estratégias para construir suas instituições e até mesmo um mercado para viabilizar sua própria produção artística. Seus projetos poderiam estar ao lado de Carl Andre e Allan Kaprow no artigo “Ausência de escultura” de José Resende nas páginas da revista Malasartes em 1976 – as inesquecíveis fotos de conjuntos de objetos (artísticos ou comuns) que forçavam os limites daquilo que se entendia como artes plásticas no Brasil de então.

Sua origem como filho e aprendiz de marceneiro na Basiléia sugere uma intimidade com o trabalho direto com a matéria, característica do artesão. No entanto, sem sua passagem pelo Pratt Institute de Nova York na década de 1960, estaria limitado às vicissitudes do artesão na sociedade industrial. Se o compararmos com outros momentos paradigmáticos dessa relação entre artes aplicadas, artes plásticas e indústria, ele estaria distante da Werkbund e da Bauhaus, uma vez que não está preocupado com a produção em escala industrial, e se aproximaria do problema de William Morris, com seu Arts & Crafts, cuja sofisticada produção de artes decorativas era veiculada entre poucos e seletos clientes. Exigindo tempo para a concepção e desenvolvimento de poucos projetos, suas obras se valorizam como objetos de artes plásticas e não como produção artesanal de artes aplicadas. Sua veiculação na sociedade ocorre de modo análogo ao do objeto artístico, ainda que apresente uma possibilidade de fruição através do uso que é inerente à arquitetura.

O prêmio Pritzker 2009 para Peter Zumthor pode significar que os valores presentes em sua obra – essencialidade da experiência, apego à realidade da matéria, pertencimento ao lugar – sejam retomados pela arquitetura contemporânea. Ou não.

sobre o autor

Renato Anelli é professor livre-docente e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo.

Renato Anelli, São Paulo SP Brasil

Capela São Benedito, 1988. Sumvitg, Graubünden, Suíça
Foto Helene Binet [Pritzker Architecture Prize - Hyatt Foudation]

Capela São Benedito, 1988. Sumvitg, Graubünden, Suíça
Foto Helene Binet [Pritzker Architecture Prize - Hyatt Foudation]

Croquis de Peter Zumthor para as Termas de Vals, 1996. Graubünden, Suíça [Pritzker Architecture Prize - Hyatt Foudation]

Termas de Vals, 1996. Graubünden, Suíça
Foto Helene Binet [Pritzker Architecture Prize - Hyatt Foudation]

Termas de Vals, 1996. Graubünden, Suíça
Foto Helene Binet [Pritzker Architecture Prize - Hyatt Foudation]

 

comments

newspaper


© 2000–2024 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided