Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Texto conceitual de Helio Piñón para o curso avançado de projeto "Projetar sem metáforas: do edifício à cidade", que acontece na Escola da Cidade em 2014.

how to quote

PIÑÓN, Helio. Projetar sem metáforas: do edifício à cidade. Proposta de um curso avançado de projeto. Drops, São Paulo, ano 14, n. 076.06, Vitruvius, jan. 2014 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.076/5021>.



Arquitetura é, certamente, a única atividade humana que não apresenta um saber acumulativo nos últimos cinquenta anos. A crença ingênua de que a arquitetura começa a cada dia, como se o passado não existisse, instaura a arbitrariedade como prática generalizada entre arquitetos.

O desconhecimento do horizonte estético da prática do projeto de arquitetura confirma o relativismo como ideologia indispensável para legitimar a ação e instaurar a desorientação.

Nas últimas décadas o fenômeno se acentua de maneira alarmante, a tal ponto, que é habitual exibir a aberração como genialidade.

A confusão absoluta é considerada como sintoma de imaginação e a mistura de incompetência e audácia é vista como criatividade.

A evolução da profissão favorece a irrelevância desses fenômenos, já que a cidade é construída à margem da arquitetura: só se recorre a ela como legitimadora “estética” da banalidade e do desperdício.

Não se sabe o que o futuro espera do projeto, mas para a hipótese que se volte a projetar segundo o sentido de ordem, que a ordem interesse na construção da cidade, é possível antever o desaparecimento de arquitetos capazes de estabelecer relações de forma que garantam um entorno de qualidade.

Por isso, parece oportuno propor um curso avançado de projetos arquitetônicos, amparado na prefiguração de episódios espaciais dotados de consistência formal e de valores plásticos, diferente do que costuma ser a mera gestão comercial de tópicos afetados e grosseiros com que se costuma legitimar e promover revistas de arquitetura.

O problema essencial da arquitetura atual é a consequência de um suicídio triplo ocorrido cinquenta anos atrás: de um lado, a renúncia à tradição moderna; do outro, o abandono da tecnologia como fundamento da construção e, finalmente, o menosprezo da visualidade como via essencial pela qual se recebe os estímulos sensitivos que estão na base do juízo estético.

Essa tripla renúncia deixa a arquitetura órfã de critérios com que decidir. Mas os arquitetos atuam como se nada tivesse acontecido: continuam a fingir serenidade, já que, a lógica do consumo aceita, sem problemas, as excentricidades e bobagens dos arquitetos mais famosos.

A recuperação do projeto de arquitetura com critérios de qualidade obriga a dispor de um sistema estético em cujo marco as ações de projeto tenham sentido. A inquestionável vigência dos critérios de forma moderna fornece o sistema estético com que trabalhar, mas é preciso dispor dos critérios de reconhecimento dos valores da arquitetura moderna.

É por esse motivo que o curso começa com o reconhecimento dos arquétipos essenciais implícitos na arquitetura moderna brasileira. Arquétipos identificados pela sua capacidade de reverberação histórica. Em outras palavras, arquétipos em que se reconhecem edifícios estruturados com critérios formais que aspiram à universalidade, condição que lhes assegura a capacidade de acolher outros programas, além do original.

A identificação de edifícios de referência é a condição inicial para acessar ao conhecimento visual destes. O que se consegue com a modelagem tridimensional através do computador.

O objetivo destas operações iniciais é dispor das referências arquitetônicas com as quais vão ser elaborados, depois, os materiais da cidade: a cidade não se faz com palavras, mas com edifícios, da mesma maneira que a poesia não se faz com conceitos, mas com palavras.

O processo que antecede corresponde à recuperação da tradição perdida, ao âmbito estético da prática de projeto que se tenta desenvolver.

São esses arquétipos – caixas, lâminas e torres –, emprestados da recente história da arquitetura, o material com o que vai se abordar o projeto no setor urbano escolhido como objeto do projeto.

A operação anterior que diz respeito aos edifícios é repetida com os esquemas de relação urbana, a relação entre edifícios: quer dizer, uma pesquisa visual vai permitir reconhecer aqueles padrões urbanos que tenham vigência ainda hoje e constituir o marco de referência do projeto de ordenação urbana objeto do curso.

A cidade brasileira, como podem ser outras cidades do mundo, será o âmbito de uma pesquisa com caráter visual, não discursivo, nem especulativo: sem esquecer que se procura reconstruir uma tradição perdida — no sentido de dispor de uma série de referências exemplares — e não de elaborar alguma teoria ou propor uma interpretação histórica.

Finalmente, ordenado o setor urbano com os arquétipos elaborados a partir da pesquisa arquitetônica e urbana, o momento final de curso deve concentrar-se no desenvolvimento do projeto dos edifícios utilizados no projeto global. Neste ponto, recorre-se aos materiais da história recente e da experiência pessoal para alcançar o maior nível de concreção construtiva e precisão visual na descrição do edifício abordado.

Com o subtítulo do curso – do edifício à cidade – se quer comunicar a convicção de que o projeto de arquitetura se apóia em critérios formais que superam o âmbito da simples arquitetura e mesmo da cidade: na verdade, a forma não tem escala, de maneira que as relações que determinam a formalidade das coisas não perdem seu sentido quando essas coisas mudam de tamanho.

A formulação do propósito é muito velha, porém poucas vezes apresentada com clareza; é um dos objetivos do curso colocar em evidência como a consideração formal da arquitetura é a abordagem relevante em comparação com outras considerações de caráter estilístico ou simplesmente figurativo como as que obtêm mais fama nas últimas décadas.

Para acompanhar o curso com aproveitamento é indispensável operar com facilidade um programa de modelagem virtual, do tipo SketchUp. Seja para conhecer a arquitetura de referência, seja para projetar o fragmento de cidade e o edifício de cada escolha. Considera-se fundamental trabalhar em três dimensões, de tal modo que a representação que caracteriza o desenho dê lugar à construção, à operação típica dos modeladores propostos.

Não é o caso propor intenções, como acontece com o desenho convencional, mas de verificar realidades, como permite fazer a construção tridimensional da forma arquitetônica. O modelo virtual não é somente um instrumento de comunicação da arquitetura, mas um meio de verificação dos atributos da mesma.

O curso prevê também algumas sessões dedicadas ao olhar fotográfico: o abandono da visualidade por parte dos arquitetos a partir dos anos sessenta do século 20 deixa num nível muito baixo a capacidade de intelecção visual dos arquitetos. Isso é evidenciado na dificuldade para tirar fotografias que, além da descrição genérica do edifício digna da foto de um turista, seja capaz de reconhecer e registrar os atributos e valores estéticos da obra.

nota

NE
Texto teórico elaborado para conceituar o curso “Projetar sem metáforas: do edifício à cidade”, curso avançado de projeto, professor responsável Helio Piñón, coordenadores Luis Espallargas e Ruben Otero, Escola da Cidade, São Paulo, 11 de março a 21 de novembro de 2014.

sobre o autor

Helio Piñón é arquiteto (1966) e doutor em arquitetura (1976) pela Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona – ETSAB. Catedrático de Projetos de Arquitetura pela ETSAB desde 1979, e fundador da revista Arquiteturas Bis. Vice-reitor de Programas Culturais da Universidade Politécnica da Catalunha – UPC (1998-2002) e membro da Real Academia de Doutores de Barcelona. É autor de mais de vinte livros, dentre eles Paulo Mendes da Rocha (Romano Guerra, 2002).

Edifício Louveira, São Paulo, 1946. Arquiteto Vilanova Artigas
Foto Luis Espallargas

Edifícios Barão de Laguna e Barão de Ladário, São Paulo, 1959-60. Arquitetos Aflalo, Candia e Croce
Foto Luis Espallargas

Edifício Albatroz, São Paulo, 1960. Arquiteto João Kon
Foto Luis Espallargas

Edifício Lausanne, São Paulo, 1953. Arquiteto Franz Heep
Foto Luis Espallargas

Edifícios Sta Cândida e Sta Francisca, São Paulo, 1961-63. Arquiteto Salvador Candia
Foto Luis Espallargas

 

comments

076.06 curso
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

076

076.01 urbanização

Gentrification ou gentrificação?

Um problema em qualquer língua

Luiz Fernando Janot

076.02 exposição

Caminhar para lembrar

Bel Falleiros e a retomada da prática das derivas

Jacopo Crivelli Visconti

076.03 memória

Casas na Praia de Copacabana

Jorge Astorga Garros

076.04 paisagem

As pessoas tomam conta da natureza em suas cidades com suas próprias mãos

Cecilia P. Herzog

076.05 crítica

Habemos unos cuantos cientos de loquitos

Humberto González Ortiz

076.07 homenagem

Honor a la memoria del doctor arquitecto Roberto Segre Prando

Lohania Aruca Alonso

076.08 geotecnia

Obras de terraplenagem

O patinho feio da geotecnia

Álvaro Rodrigues dos Santos

076.09 patrimônio

Cine Belas Artes, um avanço fundamental

Nabil Bonduki

newspaper


© 2000–2019 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided